quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

UM FELIZ ANO NOVO!


O ano está terminando e é tempo de fazermos um balanço de tudo o que aconteceu conosco e em nosso redor. Nos dará condições para revermos o certo e o errado e efetuarmos correções para o ano que se inicia. Isso equivale a dizer que nossas omissões, comissões e intromissões são extremamente relevantes no contexto da nossa existência.

Há coisas que deveríamos ter feito e não fizemos – por negligência, omissão ou incompetência. Outras não deveríamos ter feito – por intromissão, arrogância ou orgulho. Este é o aspecto negativo dos nossos atos. Por outro lado acertamos em muitas coisas ao fazermos ou deixarmos de fazer algo. Nossas decisões devem estar alinhadas com o caráter de Deus. 

Na contagem geral o que importa mesmo é a importância que damos a presença do Senhor em nossos atos. Quando pecamos sabemos que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (I João 1:9). Nosso alvo é amar, honrar e glorificar ao Senhor por meios das nossas ações e atitudes. O apóstolo Paulo exortou os irmãos filipenses a agirem de forma agradável ao Senhor: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Filipenses 4:8).

Meu desejo a você, querido leitor, é que tenha sua vida dirigida pelo Eterno Deus. Lembre-se que o apóstolo Tiago (4:15) recomendou aos irmãos que se submetessem a vontade do Senhor: “Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo”.

Creia na soberania de Deus para a condução tanto da história da nossa vida quanto do nosso planeta. Um rei ímpio e pagão reconheceu esse atributo divino quando afirmou: “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Daniel 4: 35). Mas esse fato não nos exime de lutarmos por melhorias nas questões políticas e sociais, por exemplo. Portanto, neste próximo ano se preocupe com estas questões e faça algo a respeito.

Nobres amigos leitores deste blog, a aspiração do meu coração é que tenham um ótimo ano novo e que as bênçãos do Senhor estejam com vocês. Lembrem-se de que pode haver dificuldades, porém ainda que Ele não nos livre das dificuldades, nos livra nas dificuldades. Do ponto de vista humano incentivo-os a buscar as realizações dos seus propósitos e sonhos – sempre buscando a orientação do Senhor através da leitura da Bíblia e orações diárias.

Feliz Ano Novo e muito obrigado por fazerem parte da minha vida.

No amor de Cristo,
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domingo, 21 de dezembro de 2014

NÃO CONFUNDA INTERPRETAÇÃO COM APLICAÇÃO BÍBLICA



Muitas pessoas opinam que a Bíblia pode ser interpretada de inúmeras maneiras e que cada leitor interpreta os textos bíblicos e suas narrativas como lhe convém. É o leitor quem possui a primazia sobre a interpretação e não o que o autor bíblico intencionou. As mesmas pessoas entendem que o texto bíblico deve de alguma maneira, ser interpretado no mundo contemporâneo. Portanto, inserem seus entendimentos pessoais já formatados pelos seus próprios pressupostos. É comum pessoas fazerem o texto bíblico dizer o que ele não quis dizer. Na hermenêutica sagrada isso é chamado de “eisegese”. Mas será que devemos ter essa atitude para com a intepretação bíblica? Podemos interpretar as narrativas bíblicas de qualquer forma segundo nossa compreensão do texto?

A primeira questão importante a ser refletida pelos leitores da Bíblia é que há no texto bíblico somente um sentido, somente um significado. Não faz sentido o Senhor Deus fazer uso da sua revelação especial (a Bíblia Sagrada) para mais confundir do que esclarecer seu povo, sua igreja. Pelo menos não deveria ser essa a intenção de Deus. O plano de Deus para a salvação da humanidade e para a condução de sua Igreja não é uma charada espiritual.

Os teólogos têm ensinado a perspicuidade das Escrituras. Ou seja, a mensagem das Escrituras é clara o suficiente de modo que até o menos instruído dos leitores é capaz de entender a mensagem da salvação que a Bíblia apresenta. Porém não devemos confundir essa declaração, e a partir daí interpretarmos a Bíblia relativamente ou subjetivamente. Há nas Escrituras partes que não estão totalmente claras ou livres de qualquer dificuldade. Há coisas que aprouve ao Senhor não nos informar claramente a respeito (leia Deuteronômio 29:29).

Foi o então professor de grego da Universidade de Oxford (Benjamim Jowet) quem propôs a tese de que as Escrituras possuem um único significado – ou seja, o significado que tinha na mente do autor que escreveu para os ouvintes ou leitores que o receberam pela primeira vez (Introdução à Hermenêutica Bíblia, Ed: Cultura Cristã). Sou a favor dessa tese. Mas observamos que vários elementos nos impedem desse entendimento: a cultura, novas descobertas cientificas, o contexto pessoal do ouvinte e do leitor da Bíblia, a contemporaneidade do mundo, o progresso da revelação divina, o desenvolvimento de teorias na compreensão da Bíblia. É por isso   que os diversos movimentos, tais como o feminismo e a teologia gay, fazem uso descarado das Escrituras para defenderem suas teses extravagantes.  

Como teste para verificar e determinar se a teoria do sentido único é aplicável olhemos para a parábola dos trabalhadores da vinha (leia Mateus 20:1-16). O dono de uma vinha contrata trabalhadores para trabalharem durante o dia todo pelo salário de um denário. Foram contratados as nove, ao meio-dia, as três e às cinco horas da tarde.

Ao findar do dia o dono da vinha instrui o administrador a pagar os trabalhadores a começar pelos que começaram a trabalhar às cinco horas da tarde. Em vez de dar a eles um doze avos de um denário, pagou o salário de um dia inteiro trabalhado. Os que começaram a trabalhar no começo do dia pensaram que receberiam a mais do que os outros, mas ao saberem que os que haviam sido contratados ao final do dia receberam a mesma quantia que eles, começaram a reclamar. O proprietário da vinha responde que não havia sido injusto com eles, pois havia combinado com os mesmos o valor de um denário ao dia. Se ele queria ser generoso e bondoso com os trabalhadores da última hora essa era uma prerrogativa sua. Resumindo: a única interpretação e o único sentido do texto bíblico é que a parábola é uma declaração da generosidade e da graça de Deus para com os trabalhadores indignos.

A segunda questão importante a ser refletida pelos leitores da Bíblia é que ao contrário do princípio único ou verdade ensinada pelo escritor humano nas Escrituras podemos ter no texto diferentes aplicações. Portanto, atente para esta regra: não confunda interpretação com aplicação bíblica.

Voltando à parábola dos trabalhadores da vinha temos abaixo as seguintes aplicações:

Há leitores que entendem que ela trata sobre as várias idades em que uma pessoa pode converter-se á Cristo. Sendo assim há aqueles que podem ter um encontro com Cristo “na última hora” ou nos instantes finais da sua vida. É o caso do ladrão na cruz.

Alguns vêem a parábola como uma referencia a história da salvação. Afirmam que os primeiros trabalhadores referem-se aos judeus, e os trabalhadores contratados na última hora é uma referencia aos gentios.

Outros aplicam à parábola a morte do ser humano bem como sua salvação. Alguns morrem na infância, outros morrem velhinhos. Mas tanto um como outro pode receber a graça de Deus e ser salvo.

Há também ainda outro entendimento de que a parábola refere-se à doutrina das recompensas proporcionais no céu pelos serviços prestados a Jesus Cristo. Neste caso há trabalhadores que mesmo chegando à salvação na ultima hora recebem recompensa igual ou maior porque em certo sentido todos os trabalhadores eram indignos, por diversas razões. Podemos ilustrar isso nos lembrando de crentes que estão na igreja desde a infância, mas que baseiam sua salvação e méritos apenas nas obras humanas e no cumprimento da lei.

Essas aplicações não são erradas, porém permanece a interpretação da parábola no princípio da bondade e generosidade de Deus. Consegue perceber essas diferenças ao ler as Escrituras? Contudo, nem toda a aplicação é legítima e há algumas que até mesmo são espúrias. É o caso de pregações que tratam sobre o sonho de José ou de Davi derrotando Golias. No primeiro caso dizem que Deus vai realizar seus sonhos, e no segundo que você derrubará os “gigantes da sua vida” – que seriam dificuldades impossíveis de serem vencidas. O que há de errado com esse tipo de aplicação? A pergunta é: é isso que Deus intencionou a José e a Davi? Realizar os sonhos do primeiro e livrar o segundo da morte? Não. Deus não estava preocupado com José ou Davi, mas sim com o povo de Israel. Os sonhos não eram de José, mas planos de Deus. O gigante não estava afrontado pessoalmente Davi, mas o Deus dos exércitos de Israel.

Não se engane: há uma só interpretação, mas várias aplicações. Mesmo assim as aplicações devem seguir um panorama geral coerente das Escrituras com o Ser de Deus e os seus planos. Não podemos aplicar as Escrituras como queremos, mas temos que obedecer as regras da hermenêutica sagrada. Não confunda interpretação com aplicação bíblica. Não devemos aplicar as Escrituras de forma incoerente. A Teologia da prosperidade erra quando afirma que Deus só tem o interesse de nos dar saúde, bênçãos materiais, dinheiro, fama e sucesso. Os crentes piedosos e tementes a Deus erram quando colocam Deus na parede exigindo milagres ou curas. Tanto um como outro não estão fazendo aplicações da Bíblia, mas sim, interpretando as Escrituras de maneira totalmente equivocadas.

Que o Senhor nos ajude a interpretamos e aplicarmos corretamente sua Palavra. Que sejamos honestos em não afirmar o que a Bíblia não afirma o que estamos afirmando.

No amor do Mestre.



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sábado, 29 de novembro de 2014

CRENTES SEM A CONVICÇÃO DE SALVAÇÃO



Tenho vários amigos e irmãos arminianos e em contato com eles percebo que eles possuem pelo menos quatro medos: a não certeza da salvação, o de perder a salvação, de fazer Deus o algoz do pecador e de blasfemar contra o Espírito Santo. É óbvio que nem todos os irmãos arminianos são assim, mas é minoria. Por mais que as literaturas ensinem timidamente algum tipo de segurança nesses assuntos, contudo, o medo esta alojado no subconsciente da maioria. Nesta postagem vamos refletir sobre a não certeza ou convicção da salvação.

É dito pelos irmãos arminianos que não temos como saber se somos salvos ou não. Estar convicto da salvação soa como se fosse arrogância ou autoconfiança. Devemos fazer alguma coisa para ser salvo (por exemplo: se decidir por Cristo). A obra da redenção é meramente potencial, pois apenas possibilita que o homem se salve.  

No entanto, a convicção da salvação é produzida no coração do crente por causa da chamada especial do Espírito Santo. É ele quem persuade o coração e a mente do pecador e muda-os radicalmente (II Coríntios 5:17). No diálogo com o famoso fariseu chamado Nicodemos, o Senhor Jesus afirmou que a regeneração (ou o “nascer de novo”) é uma obra vertical produzida somente pelo poder do Espírito. O Mestre disse que “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. Nenhum ser humano tem o poder de dizer ao vento para que sopre “aqui” ou “ali”, ou que “faça isso” ou “aquilo”. O vento vem e faz o que tem para fazer a nossa revelia. Ou seja, o Espírito é soberano na salvação.

Em primeiro lugar penso que o medo de não estar salvo (ou a não convicção da salvação) é justamente porque a salvação é colocada sobre o ombro dos pecadores. É dele a responsabilidade de ser salvo ou não. É desta forma que sintetizo o apelo feito nos cultos para os pecadores. Mas basta os dias se passarem e percebemos que muitos dos que foram à frente, motivados pelo apelo de aceitarem a Cristo, não permanecem na igreja e muito menos em Cristo. O fato é que o pecador não pode salvar a si próprio, pois sendo assim quem é produzirá a convicção no seu coração? Ele mesmo?

Em segundo lugar penso que a não convicção da salvação é resultado de uma compreensão muito superficial ou equivocada da “Queda Adâmica”, ou seja, dos graves efeitos do pecado original. Para muitos crentes o pecado de Adão afetou o corpo e alma, mas não o espírito. O que eles querem afirmar é que o pecado de Adão não atingiu plenamente o ser humano, mas resta nele algo que o capacita para aceitar a Cristo por si só. Porém, independente da linha teológica sobre a natureza do ser humano (se dicotômica ou tricotômica) Deus não nos vê repartidos, mas como uma pessoal total. 

O pecado nos atingiu como um todo: sentimento, emoção, razão e moral. Atingiu nossa parte imaterial e material. A Bíblia afirma nossa condição diante de Deus e diz que estávamos mortos: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Efésios 2:1). Pense em Lázaro morto há quatro dias (João cap. 11). O que ele próprio poderia fazer para voltar a viver? Obviamente nada. Foi somente após ouvir o chamado de Jesus: “Lázaro, vem para fora!” é que ele voltou a viver. Se o pecador não for chamado eficazmente pelo Espírito nem mesmo que ele queira conseguirá ser salvo. Conheço muitas pessoas que tentam “mudar de vida” aceitando Cristo, mas como a salvação não processou na sua mente e no seu coração continuam exatamente iguais.

É o Espírito Santo quem inclina o coração do pecador para aceitar a oferta do evangelho e obedecer aos seus mandamentos. O profeta Jeremias tinha convicção disso ao afirmar o seguinte: “Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23). Por isso é uma grande bobagem que certos pregadores se orgulhem de que após sua pregação dezenas ou centenas de pessoas aceitaram a Cristo. Se estivesse no homem o poder de aceitar a Cristo creio que ele não faria isso. O evangelista João (3:19,20) afirma nas palavras de Jesus: “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras”. É necessário que o Espírito convença o homem do pecado, da justiça e do juízo.

Há duas chamadas diferentes do evangelho: a externa ou geral e a interna ou particular. Todos são convidados a vir a Cristo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:25) ou ainda Apocalipse 22:17 “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”. Esta é a chamada geral ou externa do evangelho. Mas nem todos de fato vêm a Cristo ou crêem em Cristo para a salvação. Esta é a chamada interna ou particular. E por que é assim? Biblicamente é por causa do que Cristo disse em João 6:37,44: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”; “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”.  

Enfim, o homem não consegue nem pode produzir sua própria salvação. Se fosse assim, ele teria méritos em sua salvação. Mas nem mesmo a fé que o ser humano produz para crer em Cristo é originada dele próprio. O apóstolo disse aos efésios: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9).

A evidência principal da salvação é a união e o amor a Cristo, a vontade e o desejo de lhe obedecer e fazer a Sua vontade e ainda a produção do fruto do Espírito. Se possuir esses elementos você é um salvo em Cristo. Tenha convicção da sua salvação e não tenha medo. Não há condenação para os que estão em Cristo: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).       



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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A DIGNIDADE HUMANA (DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA)



A discriminação e o preconceito racial é fruto de um entendimento inadequado sobre o conceito do que é raça. A discussão acadêmica atual está evoluindo sua ideia para considerar a inexistência de diferenças raciais. Entretanto, no imaginário social e/ou popular a existência de diversas raças permanece como uma realidade.

Sempre houve tendências etnocentristas e discriminações baseadas em diferenças físicas, porém, enquanto a tese da teoria monogenista era majoritária não havia ainda a ideia de inferioridade racial, como presenciamos hoje em dia. A tese monogenista afirma a existência de uma única raça humana descendente do primeiro casal criado por Deus.

O apóstolo Paulo há milhares de anos já dizia que Deus “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (Atos dos Apóstolos 17:26). O verdadeiro cristianismo atenta para o fato de que no princípio Deus criou o homem segundo a imagem Dele. É assim que informa Genesis 1:27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. O ser humano independente da etnia que pertence, possui a imagem e a semelhança de Deus. Sua dignidade humana deve ser respeitada.

Segundo os estudiosos o entendimento da humanidade a partir de raças diferentes aconteceu por volta do século XVI, mais especificamente com os proponentes do Iluminismo. O estudo das diferentes raças é conhecido como “doutrinas racialistas”. O derivado dessa tese originou o conceito da poligenia, ou seja, a existência de diversas raças humanas. O desenvolvimento desse conceito de raça influenciou fortemente as ciências naturais.

Nos séculos XIX e XX a criminalidade era analisada com base na determinação das diferenças biológicas e hereditárias entre as raças. Mas quando o conceito de raça deixou o campo das ciências naturais e alcançou as ciências humanas e sociais a ideia da superioridade de uma raça sobre outra foi aventada. O Dicionário de Conceitos Históricos registra algo importante sobre um movimento nascente na época conhecido como “darwinismo social”:

Em meados do século XIX, o conceito de raça migrou das ciências naturais e alcançou as ciências sociais e humanas. Com a publicação da obra de Charles Darwin, em 1859, e o desenvolvimento da teoria evolucionista a partir daí, o racialismo ganhou novas perspectivas, com o chamado darwinismo social, que lastreada na teoria da evolução e na seleção natural afirmava não só a diferença de raças humanas, mas a superioridade de umas sobre as outras e, ainda, que a tendência das raças superiores era submeter e substituir as outras. A partir da Frenologia e do darwinismo social (muitas vezes chamado de spencerismo, pois a transposição dos argumentos darwinistas para o campo do social não se deveu ao próprio Darwin, mas a Spencer), desenvolveu-se a eugenia, que enaltecia a pureza das raças, a existência de raças superiores e desacreditava a miscigenação. Tais teorias foram a base científica do racismo.

O mesmo Dicionário afirma ainda que nesta época os pensadores entendiam que “cada raça tinha um lugar determinado no mundo, definido pelo grau de importância na escala evolutiva. E a raça superior, eleita pela seleção natural para ordenar o mundo, era a caucasoide, ou seja, a raça branca”. Os que queriam a pureza das raças (“a eugenia”) pensavam que compreender o conceito de raças desta forma seria melhor para a evolução da espécie humana.

Obviamente esse pensamento desembocou em perseguições e atividades sociais e políticas espúrias e asquerosas, tais como as do partido nazista na Alemanha, à limitação dos direitos dos negros no sul dos Estados Unidos, o apartheid na República Sul-Africana e a escravidão dos negros em escala mundial.

Uma das soluções humanas e simples para a solução do racismo, segundo os estudiosos, é a sociedade não admitir a existência de diversas e diferentes raças, pois há apenas uma raça: a raça humana. Mas segundo o entendimento cristão este reconhecimento não é o suficiente para deter o preconceito racial. Entendemos que a humanidade é corrupta e corruptora porque decaiu do padrão de santidade legal exigida por Deus ainda no início da criação de Adão e Eva. O coração da maioria dos seres humanos é mau desde a transgressão de Adão – este era o gérmen seminal da humanidade.  O narrador do Genesis já dizia o seguinte sobre os dias em que Noé vivia: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Genesis 6:5).

Deus não faz acepção de classes sociais, cor, povos, tribos e nações. Em Romanos 2:11 o apóstolo Paulo afirma: “Porque para com Deus não há acepção de pessoas”. Uma vez iluminados e atraídos pelo Espírito Santo de Deus o cristão passa a ter a mente de Cristo: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (I Coríntios 2:16). Desta forma não deve haver espaço na vida do cristão para qualquer forma e tipo de preconceito. Portanto, devemos agir considerando a dignidade de todos os seres humanos por todos os dias das nossas vidas.


No amor de Cristo,      
        
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O CRENTE CALVINISTA NÃO ORA?

hands folded in prayerful bible studyAmigo leitor: antes de ler a postagem preste atenção na letra do hino (Hinário Novo Cântico, hino 128) abaixo:

Preciosas são as horas, na presença de Jesus!
Comunhão deliciosa da minha alma com a luz
Os cuidados deste mundo não me podem abalar,
Pois é ele o meu abrigo quando o tentador chegar. (bis)

Ao sentir-me rodeado de cuidados terreais,
Irritado e abatido, ou em dúvidas fatais,
A Jesus eu me dirijo nesses tempos de aflição;
As palavras que ele fala trazem paz consolação. (bis)

Se confesso meus temores, toda a minha imperfeição,
Ele escuta com paciência essa triste confissão.
Com ternura repreende meu pecado e todo o mal;
É Jesus o meu Amigo, o melhor e o mais leal. (bis)

Se quereis saber quão doce é a divina comunhão,
Podereis mui bem prová-la e tereis compensação.
Procurai estar sozinhos em conversa com Jesus,
Provareis na vossa vida o poder que vem da cruz. (bis)

Algumas pessoas mal informadas atribuem ao pensamento doutrinário dos calvinistas inúmeras caricaturas. Entre elas está a oração. Na opinião de muitos irmãos, os calvinistas não oram. Outros imaginam que suas orações são ineficazes, já que enfatizam a soberania de Deus e Seus decretos eternos.  

O primeiro ponto é que a oração não é uma preferencia teológica e nem propriedade desta ou de outra denominação. A oração é uma doutrina bíblica. O que muitos confundem é que calvinistas são discretos no uso da oração no culto público, mas são incentivados a orar em todo o tempo – seguindo a recomendação paulina (I Tessalonicenses 5:17).  Num culto presbiteriano, por exemplo, você observará que há várias orações intercaladas. São feitas orações de gratidão, de confissão de pecados, de intercessão, de súplica, etc. Mas a oração não é enfeite litúrgico nem para servir de uso exclusivo para o culto público. Devemos orar sempre.

O Reverendo Hernandes Dias Lopes comentando I Tessalonicenses 5:17 afirma que os “crentes devem viver em tal comunhão com Deus que a oração, quer falada, quer silenciosa, sempre seja fácil e natural para ele. O cristão não está confinado a alguns horários fixos de oração, mas pode orar em qualquer tempo e em todos os lugares”. Não importa se você ora muito bem no culto se sua vida devocional íntima com o Senhor é inexistente.

O segundo ponto é que o fato de Deus ser Soberano e ter decretado todas as coisas não inutiliza a eficácia e o poder da oração. O teólogo Franklin Ferreira aponta em sua Teologia Sistemática que na aplicação da vontade de Deus a Bíblia faz três distinções: a vontade decretativa, a vontade permissiva e a vontade preceptativa. Mas podemos orar com eficácia com base nesta liberdade da vontade de Deus. Devemos orar para que aquilo que Deus decretou na eternidade se cumpra. Por exemplo: não oramos pela vinda de Cristo? Devemos orar intercedendo por pessoas ímpias – não oramos pelo governo mesmo ele estabelecendo leis ímpias e estando naufragado em tantas corrupções? Devemos orar, pois é o desejo de Deus que sejamos justos e tenhamos comunhão com Ele.

O fato é que o mesmo Deus que decretou o fim decretou também que um dos meios utilizados para alcançar Seu objetivo seja a oração. A oração não muda a vontade de Deus. Até mesmo irmãos arminianos piedosos e tementes a Deus, tal como o pastor Elinaldo Renovato, entende implicitamente assim. Ao comentar sobre a terceira petição da Oração do Pai Nosso ele disse: “Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu”. Temos aqui a oração típica de quem é servo, que não tem vontade própria, e submete-se incondicionalmente a seu Senhor”’ (Lições Bíblicas – lição 5: Jesus e a oração).

O pastor Augustus Nicodemus no seu artigo sobre oração  disse uma frase que não deve ser interpretada fora do seu contexto: “Orações não geram realidades espirituais e nem engravidam a história”. Ele não quer dizer que não devemos orar, nem que a oração é inútil, nem que não devemos buscar o poder do alto. Sua fala refere-se aos adeptos da teologia da prosperidade que pensam que há uma dimensão espiritual que Deus legalmente reservou aos crentes. Para conquistar as bênçãos terrenas basta trazer esta realidade espiritual para a esfera material. Isso acontece por meio de palavras tais como “decreto isso, declaro aquilo, etc”.

Precisamos orar. Mas temos de fazê-lo com sabedoria teológica estabelecendo como fundamento o Senhor da história. Nem no plano familiar nós sempre atendemos as vontades dos nossos filhos ou cônjuges. Quanto mais o Eterno Deus. Isso nos impede de intercedemos pelos enfermos, pelos desempregados, pelos que estão aflitos, pelos enlutados, pelos acometidos de tragédia? Não. Na oração encontramos alívio, paz, segurança e comunhão com o Rei do Universo.  

Em Cristo,

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

PEDRO NÃO AMAVA INTENSAMENTE A JESUS?

feed my sheep













Um leitor deste blog me enviou a seguinte pergunta:

O texto bíblico de João 21 a partir do verso 15, nos informa que Jesus pergunta à Pedro por três vezes se ele o ama. Há quem diga que o fato de Jesus ter perguntado 3x é porque Pedro o havia negado também 3x, e que Pedro nas 3x respondeu que o amava no verbo Phileo, enquanto Jesus perguntava no verbo Agape, ou seja, a ideia é que Pedro foi sincero e não teve coragem de dizer que amava Jesus incondicionalmente (Agape) justamente por tê-lo negado dias antes.

Então eu queria saber se é essa mesma a interpretação correta, e se sim, por que Jesus responde as três vezes “Apascenta as minhas ovelhas” sendo que Pedro acabara de dizer que não o amava “pra valer”?

Minha resposta:

A narrativa de João 21:15-19 tem como objetivo mostrar a reabilitação de Pedro e sua reconvocação para uma missão pastoral. Temos de nos atentar para alguns detalhes do texto:

- Jesus fez uma pergunta a Pedro pensando nos seus companheiros discípulos: “amas-me mais do que estes outros?”. É natural entender essa pergunta assim: “Você me ama mais do que estes outros me amam?”. Porém, como Pedro poderia saber o quanto os outros amavam a Jesus?

- Essa pergunta tem um significado, pois no cenáculo ele havia dito que por Jesus daria a própria vida (João 13:37), mas depois em três ocasiões negara ter qualquer conhecimento dele. Diante do aviso de que todos os discípulos se dispersariam por ocasião da prisão, julgamento e crucificação de Jesus, novamente o confiante Pedro diz: “Ainda que todos [refere-se aos demais discípulos] se escandalizem, eu, jamais!” (Marcos 14:29). Aqui fica no ar a dúvida da quantificação do amor de Pedro por Jesus, ou seja, o quanto Pedro O ama!!!

- A maioria dos comentaristas afirma que o fato de Jesus lhe perguntar três vezes se O amava foi provavelmente para lembrá-lo de que por três vezes Pedro disse aos inquiridores que nem mesmo conhecia Jesus. O Senhor tem por objetivo levar Pedro a uma introspecção verdadeira e honesta.

- Dois verbos gregos para a palavra “amor” são usados distintamente: agapao e phileo. Alguns estudiosos dizem que agapao trata-se do amor mais elevado que deve ser a fonte da vida cristã; phileo é o amor natural de afeição pessoal. O Senhor Jesus usa agapao em suas primeiras perguntas e phileo na terceira. Pedro usa phileo nas três respostas. A maioria dos comentaristas afirma que Jesus está levando Pedro a considerar o seu verdadeiro amor por Ele – o que Pedro não admite. A ideia é que Pedro não conseguiu expressar seu amor, de forma mais elevada por Jesus, justamente por tê-lo negado. Ou seja, a distinção de verbo fortalece este argumento.

- O problema é que os mesmos verbos são usados sem distinção. Por exemplo: o amor condenável de Demas por “este presente século” (II Timóteo 4:10) é expresso por agapao. Em João 5:20 o amor do Pai pelo Filho é descrito pela expressão phileo. Neste caso, os verbos usados no diálogo de Jesus com Pedro não ofereceria evidencias de que Pedro não amasse profundamente a Jesus. Neste caso, Pedro, agora arrependido, vibra de amor pelo Senhor.


Pelo contexto, prefiro a interpretação (usada com cautela) dos quatro primeiros pontos. O fato é que Pedro reafirma seu amor por Jesus. Já não com autoconfiança, mas dependente totalmente da graça do Senhor. Jesus já havia dito que ele pescaria pessoas; agora ele recebe uma segunda missão muito mais nobre: “pastorear o rebanho de Deus”. Não é que Pedro não o amava pra valer, mas diante do diálogo com Cristo ele poderia reafirmar seu amor pelo Senhor. Jesus poderia confiar em Pedro nesta missão? Creio que sim. Somos instrumentos rudes, mas mesmo assim o Senhor pode nos usar para realizar seus propósitos. Aqui vale aquela expressão de que Deus prepara as pessoas para usá-las em suas mãos. 

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

A REFORMA E OS REFORMADORES (31 DE OUTUBRO - DIA DA REFORMA PROTESTANTE)

Protestant ReformersA intenção inicial dos reformadores não era romper os laços com a Igreja Católica, mas purificar a Igreja da corrupção teológica, doutrinária, administrativa e espiritual. Eles se indignaram com o abuso papal na teologia e na prática. Os papas se tornaram imorais e baratearam a graça de Deus ao comercializá-la através de um complexo sistema de penitencias. O papa reivindicava autoridade apostólica como cabeça da igreja de Cristo. A Escritura tornou-se escrava dos concílios, dos bispos e dos eruditos; sua leitura foi retida aos leigos. Os vocacionados para o caminho da espiritualidade (monges e freiras) eram considerados superiores espiritualmente aos que possuíam vocação secular. A mediação com Deus podia ser feita por meio de Maria e pela intercessão dos santos. As obras possuíam valor salvífico.

Foi contra essa corrupção moral, prática, teológica, doutrinária e eclesiástica que os reformadores se indignaram. No entanto, o sentimento de indignação não começa com Lutero. Movimentos religiosos populares como os lollardos na Inglaterra, os hussitas na Boêmia, os valdenses e os franciscanos espirituais na Itália e França, e homens interessados pela pureza da igreja como John Wycliffe, John Huss, Pedro Valdo, e outros, ansiavam por uma reforma na Igreja Católica - o que não aconteceu e jamais aconteceria. Apenas nesse sentido é que podemos dizer que a Reforma Protestante não aconteceu historicamente. Obviamente, todos os opositores da Igreja Católica de Roma foram "convidados" a se retirar do meio da mesma. A Igreja de Roma definitivamente se afundou na lama da corrupção. Em outras palavras a Igreja de Roma, por meio de sua liderança, não queria se reformar em nada. 

Penso eu que o Senhor Deus, no tempo certo e com a pessoa ideal (Martinho Lutero) estabeleceu o momento em que de fato a cisão ocorreria na Igreja de Roma e a oportunidade de retorno aos padrões da igreja primitiva seria algo concreto. Porém, os reformadores, apesar de todo o labor literário, cometeram equívocos exegéticos e teológicos/doutrinários. Mas isso demonstra a busca por uma interpretação fiel da Escritura. A reforma religiosa não está terminada, concluída, completa. Não devemos esquecer do lema: “Ecclesia reformata, semper reformanda” (igreja reformada, sempre se reformando). Isso não justifica todo o tipo de interpretação bíblica ou movimentos de despertamento espiritual. Mas entende que toda a prática da vida cristã deve ser colocada à luz da Escritura. 

Os reformadores também não eram homens perfeitos. Como todos nós, eles possuíam a natureza humana maculada pela transgressão adâmica. Por isso eles também disseram e fizeram coisas que certamente desagrada a Deus. Lutero nutria aversão muito forte contra os judeus. Calvino pediu a pena de morte para Serveto - ele foi queimado numa estaca, por heresia. Muitos deles se envolveram em guerras, revoltas, e consequentemente em mortes e assassinatos. Há quem prefere não tê-los como expoente legítimo de tratados doutrinários por causa de suas atitudes comprometedoras a fé cristã.   

Porém, busco ver a mão de Deus agindo na história humana por meio de instrumentos fracos, rudes, grosseiros. Se olharmos brevemente nas escrituras sagradas veremos que:

- Noé bebeu do vinho que produzia, embriagou-se e ficou nu dentro da sua tenda; mas o Senhor o tinha como homem justo, íntegro entre o povo da sua época.

- Ló, também embriagado, teve relações com suas duas filhas, e elas engravidaram dele; mas o apóstolo Pedro o chama de justo.

- Moisés matou um egípcio e o escondeu na areia; mas é tido como um dos maiores nomes da história do povo de Deus.

- Davi adulterou, traiu, matou, etc; mas é chamado na Bíblia de “o homem segundo o coração de Deus”.

- Salomão também cometeu assassinato, caiu na idolatria, foi seduzido pelas riquezas e luxuria, explorou pessoas na construção do Templo; mas sua sabedoria ficou registrada nas páginas das escrituras sagradas e fazemos uso dos seus provérbios para a prática de vida.

- Neemias diante da mistura nos casamentos (entre os judeus e mulheres de Moabe, Asdode e Amom) irritou-se chegando ao ponto de bater e arrancar os cabelos de alguns judeus; mas foi instrumento de Deus na reconstrução do Templo.

- Balaão era um falso profeta, um adivinho, mas sua boca foi usada por Deus para proferir palavras proféticas verdadeiras – até mesmo a respeito da vinda do Messias.

- Pedro, o discípulo sanguíneo, quase degolou um dos soldados que fora prender Jesus; por dissimulação foi repreendido por Paulo; mas Jesus o escolheu para apascentar as Suas ovelhas.


Não é que essas pessoas são justificadas de seus erros por serem instrumentos de Deus; mas apesar de seus pecados o Senhor Soberano as usou para seu propósito. Até mesmo Ciro, o rei persa e pagão, foi canal da ação de Deus para libertar os judeus do império babilônico.

As pessoas pendem ou para repudiar os reformadores ou para idolatrá-los. Já eu não sofro nem da luterofobia, nem da luterolatria; não sofro nem da calvinofobia, nem da calvinolatria. Como Calvino afirmou: “toda a verdade é verdade de Deus”. Mesmo um herege, “pode” dizer a verdade de Deus. Até mesmo Satanás falou a verdade quando afirmou que Paulo e Silas eram servos do Deus Altíssimo. Porém, isso não diviniza pessoas ou entidades. O fato dos reformadores serem supervalorizados pelos evangélicos em geral não nos deve cegar para a importância que tiveram como “instrumentos de Deus”.


Com amor, 

 
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