Gilson Barbosa
Querido leitor, você já deve ter ouvido pregações ou lido artigos e livros
evangélicos afirmando que o encontro de Jesus com a mulher samaritana aconteceu
por volta do meio-dia, ou seja, a sexta hora judaica. Mas à luz de outras
menções de hora, principalmente nos evangelhos, isso não parece ser provável.
As horas eram computadas do nascer até o por do sol e o
tempo do dia era indicado em termos mais gerais. No Novo Testamento é muito
comum a menção das horas em primeira, terceira e nona hora; o que equivale as
seis, nove e doze horas (ou meio-dia).
Qualquer tempo restante para completar o dia era considerado
no computo total. Por exemplo, Jesus “entregou seu espírito ao pai” (sua morte
física) por volta da hora nona (Marcos 15:34; Lucas 23:44-46) e disse que
ressuscitaria no terceiro dia (Mateus
20:19). Na contagem moderna ele morreu por volta das quinze horas da
sexta-feira (15h00) e ressuscitou na segunda-feira. Mas, a Bíblia afirma que
ele ressuscitou no primeiro dia da semana, isto é no domingo (Lucas 24:1).
Então a explicação é a seguinte: nas três horas restantes da sexta-feira
conta-se um dia, sábado conta-se mais um dia, e no começo do domingo, o
terceiro dia.
Os antigos faziam a divisão do dia em três partes, conforme
notamos nos Salmos 55: “À tarde, pela
manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá
a minha voz” [grifo meu]. Para os judeus um novo
dia iniciava-se ao por do sol. A vigília noturna era dividida também em três
partes e era assim: primeira vigília (18-22h); segunda vigília (22-2h) e
terceira vigília (2-6h). O evangelista Marcos divide em quatro vigílias,
segundo a contagem dos romanos (Marcos 13:35).
Mas voltemos à mulher samaritana e a hora em que ela se
encontrou com Jesus. Se considerarmos a contagem judaica diremos que o encontro
foi por volta do meio-dia (sexta hora). Isso cria um problema sério entre os
escritores dos evangelhos quanto à crucificação de Jesus. Marcos (15:25) afirma
que Jesus foi crucificado na hora terceira (ou às nove da manhã). Mas João
(19:14) diz que Jesus foi interrogado por Pilatos cerca da
hora sexta (ou meio-dia). Fica a pergunta: “Jesus teria sido interrogado por
Pilatos depois que foi crucificado?”. Isso não seria uma contradição lógica, dos fatos e
dos evangelistas?
Mesmo que a maioria dos estudiosos não concorde é provável
que devemos computar as horas no evangelho de João conforme as horas modernas,
ou seja, de meia-noite ao meio-dia. Assim sendo, sexta hora são seis horas,
décima hora são dez horas e assim por diante. Isso harmoniza com o fato histórico
de que Jesus foi julgado por Pilatos às seis horas da manhã (a primeira hora
judaica).
Desta maneira o encontro de Jesus com a mulher samaritana
aconteceu às seis horas da tarde e não ao meio-dia. Robert Gundry (Panorama do
Novo Testamento) observa que “as mulheres costumavam tirar água do poço ao cair
da tarde, e não sob o calor do meio-dia”. A Bíblia de Estudo Vida afirma que
“geralmente as mulheres iam ao poço da cidade quando o calor estava menos
intenso, seja pela manhã, seja ao entardecer”. Essas considerações fortalecem o
entendimento que intenciono defender a respeito deste assunto. Alguém pode
dizer que a mulher estava sozinha no poço. Porém, culturalmente isso é
improvável. Por outro lado podemos afirmar que o registro joanino é de que Jesus
conversou apenas com a mulher samaritana.
Espero ter sido claro e me fazer entendido.
Em Cristo,
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