quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A DIGNIDADE HUMANA (DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA)



A discriminação e o preconceito racial é fruto de um entendimento inadequado sobre o conceito do que é raça. A discussão acadêmica atual está evoluindo sua ideia para considerar a inexistência de diferenças raciais. Entretanto, no imaginário social e/ou popular a existência de diversas raças permanece como uma realidade.

Sempre houve tendências etnocentristas e discriminações baseadas em diferenças físicas, porém, enquanto a tese da teoria monogenista era majoritária não havia ainda a ideia de inferioridade racial, como presenciamos hoje em dia. A tese monogenista afirma a existência de uma única raça humana descendente do primeiro casal criado por Deus.

O apóstolo Paulo há milhares de anos já dizia que Deus “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra” (Atos dos Apóstolos 17:26). O verdadeiro cristianismo atenta para o fato de que no princípio Deus criou o homem segundo a imagem Dele. É assim que informa Genesis 1:27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. O ser humano independente da etnia que pertence, possui a imagem e a semelhança de Deus. Sua dignidade humana deve ser respeitada.

Segundo os estudiosos o entendimento da humanidade a partir de raças diferentes aconteceu por volta do século XVI, mais especificamente com os proponentes do Iluminismo. O estudo das diferentes raças é conhecido como “doutrinas racialistas”. O derivado dessa tese originou o conceito da poligenia, ou seja, a existência de diversas raças humanas. O desenvolvimento desse conceito de raça influenciou fortemente as ciências naturais.

Nos séculos XIX e XX a criminalidade era analisada com base na determinação das diferenças biológicas e hereditárias entre as raças. Mas quando o conceito de raça deixou o campo das ciências naturais e alcançou as ciências humanas e sociais a ideia da superioridade de uma raça sobre outra foi aventada. O Dicionário de Conceitos Históricos registra algo importante sobre um movimento nascente na época conhecido como “darwinismo social”:

Em meados do século XIX, o conceito de raça migrou das ciências naturais e alcançou as ciências sociais e humanas. Com a publicação da obra de Charles Darwin, em 1859, e o desenvolvimento da teoria evolucionista a partir daí, o racialismo ganhou novas perspectivas, com o chamado darwinismo social, que lastreada na teoria da evolução e na seleção natural afirmava não só a diferença de raças humanas, mas a superioridade de umas sobre as outras e, ainda, que a tendência das raças superiores era submeter e substituir as outras. A partir da Frenologia e do darwinismo social (muitas vezes chamado de spencerismo, pois a transposição dos argumentos darwinistas para o campo do social não se deveu ao próprio Darwin, mas a Spencer), desenvolveu-se a eugenia, que enaltecia a pureza das raças, a existência de raças superiores e desacreditava a miscigenação. Tais teorias foram a base científica do racismo.

O mesmo Dicionário afirma ainda que nesta época os pensadores entendiam que “cada raça tinha um lugar determinado no mundo, definido pelo grau de importância na escala evolutiva. E a raça superior, eleita pela seleção natural para ordenar o mundo, era a caucasoide, ou seja, a raça branca”. Os que queriam a pureza das raças (“a eugenia”) pensavam que compreender o conceito de raças desta forma seria melhor para a evolução da espécie humana.

Obviamente esse pensamento desembocou em perseguições e atividades sociais e políticas espúrias e asquerosas, tais como as do partido nazista na Alemanha, à limitação dos direitos dos negros no sul dos Estados Unidos, o apartheid na República Sul-Africana e a escravidão dos negros em escala mundial.

Uma das soluções humanas e simples para a solução do racismo, segundo os estudiosos, é a sociedade não admitir a existência de diversas e diferentes raças, pois há apenas uma raça: a raça humana. Mas segundo o entendimento cristão este reconhecimento não é o suficiente para deter o preconceito racial. Entendemos que a humanidade é corrupta e corruptora porque decaiu do padrão de santidade legal exigida por Deus ainda no início da criação de Adão e Eva. O coração da maioria dos seres humanos é mau desde a transgressão de Adão – este era o gérmen seminal da humanidade.  O narrador do Genesis já dizia o seguinte sobre os dias em que Noé vivia: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Genesis 6:5).

Deus não faz acepção de classes sociais, cor, povos, tribos e nações. Em Romanos 2:11 o apóstolo Paulo afirma: “Porque para com Deus não há acepção de pessoas”. Uma vez iluminados e atraídos pelo Espírito Santo de Deus o cristão passa a ter a mente de Cristo: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (I Coríntios 2:16). Desta forma não deve haver espaço na vida do cristão para qualquer forma e tipo de preconceito. Portanto, devemos agir considerando a dignidade de todos os seres humanos por todos os dias das nossas vidas.


No amor de Cristo,      
        
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O CRENTE CALVINISTA NÃO ORA?

hands folded in prayerful bible studyAmigo leitor: antes de ler a postagem preste atenção na letra do hino (Hinário Novo Cântico, hino 128) abaixo:

Preciosas são as horas, na presença de Jesus!
Comunhão deliciosa da minha alma com a luz
Os cuidados deste mundo não me podem abalar,
Pois é ele o meu abrigo quando o tentador chegar. (bis)

Ao sentir-me rodeado de cuidados terreais,
Irritado e abatido, ou em dúvidas fatais,
A Jesus eu me dirijo nesses tempos de aflição;
As palavras que ele fala trazem paz consolação. (bis)

Se confesso meus temores, toda a minha imperfeição,
Ele escuta com paciência essa triste confissão.
Com ternura repreende meu pecado e todo o mal;
É Jesus o meu Amigo, o melhor e o mais leal. (bis)

Se quereis saber quão doce é a divina comunhão,
Podereis mui bem prová-la e tereis compensação.
Procurai estar sozinhos em conversa com Jesus,
Provareis na vossa vida o poder que vem da cruz. (bis)

Algumas pessoas mal informadas atribuem ao pensamento doutrinário dos calvinistas inúmeras caricaturas. Entre elas está a oração. Na opinião de muitos irmãos, os calvinistas não oram. Outros imaginam que suas orações são ineficazes, já que enfatizam a soberania de Deus e Seus decretos eternos.  

O primeiro ponto é que a oração não é uma preferencia teológica e nem propriedade desta ou de outra denominação. A oração é uma doutrina bíblica. O que muitos confundem é que calvinistas são discretos no uso da oração no culto público, mas são incentivados a orar em todo o tempo – seguindo a recomendação paulina (I Tessalonicenses 5:17).  Num culto presbiteriano, por exemplo, você observará que há várias orações intercaladas. São feitas orações de gratidão, de confissão de pecados, de intercessão, de súplica, etc. Mas a oração não é enfeite litúrgico nem para servir de uso exclusivo para o culto público. Devemos orar sempre.

O Reverendo Hernandes Dias Lopes comentando I Tessalonicenses 5:17 afirma que os “crentes devem viver em tal comunhão com Deus que a oração, quer falada, quer silenciosa, sempre seja fácil e natural para ele. O cristão não está confinado a alguns horários fixos de oração, mas pode orar em qualquer tempo e em todos os lugares”. Não importa se você ora muito bem no culto se sua vida devocional íntima com o Senhor é inexistente.

O segundo ponto é que o fato de Deus ser Soberano e ter decretado todas as coisas não inutiliza a eficácia e o poder da oração. O teólogo Franklin Ferreira aponta em sua Teologia Sistemática que na aplicação da vontade de Deus a Bíblia faz três distinções: a vontade decretativa, a vontade permissiva e a vontade preceptativa. Mas podemos orar com eficácia com base nesta liberdade da vontade de Deus. Devemos orar para que aquilo que Deus decretou na eternidade se cumpra. Por exemplo: não oramos pela vinda de Cristo? Devemos orar intercedendo por pessoas ímpias – não oramos pelo governo mesmo ele estabelecendo leis ímpias e estando naufragado em tantas corrupções? Devemos orar, pois é o desejo de Deus que sejamos justos e tenhamos comunhão com Ele.

O fato é que o mesmo Deus que decretou o fim decretou também que um dos meios utilizados para alcançar Seu objetivo seja a oração. A oração não muda a vontade de Deus. Até mesmo irmãos arminianos piedosos e tementes a Deus, tal como o pastor Elinaldo Renovato, entende implicitamente assim. Ao comentar sobre a terceira petição da Oração do Pai Nosso ele disse: “Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu”. Temos aqui a oração típica de quem é servo, que não tem vontade própria, e submete-se incondicionalmente a seu Senhor”’ (Lições Bíblicas – lição 5: Jesus e a oração).

O pastor Augustus Nicodemus no seu artigo sobre oração  disse uma frase que não deve ser interpretada fora do seu contexto: “Orações não geram realidades espirituais e nem engravidam a história”. Ele não quer dizer que não devemos orar, nem que a oração é inútil, nem que não devemos buscar o poder do alto. Sua fala refere-se aos adeptos da teologia da prosperidade que pensam que há uma dimensão espiritual que Deus legalmente reservou aos crentes. Para conquistar as bênçãos terrenas basta trazer esta realidade espiritual para a esfera material. Isso acontece por meio de palavras tais como “decreto isso, declaro aquilo, etc”.

Precisamos orar. Mas temos de fazê-lo com sabedoria teológica estabelecendo como fundamento o Senhor da história. Nem no plano familiar nós sempre atendemos as vontades dos nossos filhos ou cônjuges. Quanto mais o Eterno Deus. Isso nos impede de intercedemos pelos enfermos, pelos desempregados, pelos que estão aflitos, pelos enlutados, pelos acometidos de tragédia? Não. Na oração encontramos alívio, paz, segurança e comunhão com o Rei do Universo.  

Em Cristo,

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

PEDRO NÃO AMAVA INTENSAMENTE A JESUS?

feed my sheep













Um leitor deste blog me enviou a seguinte pergunta:

O texto bíblico de João 21 a partir do verso 15, nos informa que Jesus pergunta à Pedro por três vezes se ele o ama. Há quem diga que o fato de Jesus ter perguntado 3x é porque Pedro o havia negado também 3x, e que Pedro nas 3x respondeu que o amava no verbo Phileo, enquanto Jesus perguntava no verbo Agape, ou seja, a ideia é que Pedro foi sincero e não teve coragem de dizer que amava Jesus incondicionalmente (Agape) justamente por tê-lo negado dias antes.

Então eu queria saber se é essa mesma a interpretação correta, e se sim, por que Jesus responde as três vezes “Apascenta as minhas ovelhas” sendo que Pedro acabara de dizer que não o amava “pra valer”?

Minha resposta:

A narrativa de João 21:15-19 tem como objetivo mostrar a reabilitação de Pedro e sua reconvocação para uma missão pastoral. Temos de nos atentar para alguns detalhes do texto:

- Jesus fez uma pergunta a Pedro pensando nos seus companheiros discípulos: “amas-me mais do que estes outros?”. É natural entender essa pergunta assim: “Você me ama mais do que estes outros me amam?”. Porém, como Pedro poderia saber o quanto os outros amavam a Jesus?

- Essa pergunta tem um significado, pois no cenáculo ele havia dito que por Jesus daria a própria vida (João 13:37), mas depois em três ocasiões negara ter qualquer conhecimento dele. Diante do aviso de que todos os discípulos se dispersariam por ocasião da prisão, julgamento e crucificação de Jesus, novamente o confiante Pedro diz: “Ainda que todos [refere-se aos demais discípulos] se escandalizem, eu, jamais!” (Marcos 14:29). Aqui fica no ar a dúvida da quantificação do amor de Pedro por Jesus, ou seja, o quanto Pedro O ama!!!

- A maioria dos comentaristas afirma que o fato de Jesus lhe perguntar três vezes se O amava foi provavelmente para lembrá-lo de que por três vezes Pedro disse aos inquiridores que nem mesmo conhecia Jesus. O Senhor tem por objetivo levar Pedro a uma introspecção verdadeira e honesta.

- Dois verbos gregos para a palavra “amor” são usados distintamente: agapao e phileo. Alguns estudiosos dizem que agapao trata-se do amor mais elevado que deve ser a fonte da vida cristã; phileo é o amor natural de afeição pessoal. O Senhor Jesus usa agapao em suas primeiras perguntas e phileo na terceira. Pedro usa phileo nas três respostas. A maioria dos comentaristas afirma que Jesus está levando Pedro a considerar o seu verdadeiro amor por Ele – o que Pedro não admite. A ideia é que Pedro não conseguiu expressar seu amor, de forma mais elevada por Jesus, justamente por tê-lo negado. Ou seja, a distinção de verbo fortalece este argumento.

- O problema é que os mesmos verbos são usados sem distinção. Por exemplo: o amor condenável de Demas por “este presente século” (II Timóteo 4:10) é expresso por agapao. Em João 5:20 o amor do Pai pelo Filho é descrito pela expressão phileo. Neste caso, os verbos usados no diálogo de Jesus com Pedro não ofereceria evidencias de que Pedro não amasse profundamente a Jesus. Neste caso, Pedro, agora arrependido, vibra de amor pelo Senhor.


Pelo contexto, prefiro a interpretação (usada com cautela) dos quatro primeiros pontos. O fato é que Pedro reafirma seu amor por Jesus. Já não com autoconfiança, mas dependente totalmente da graça do Senhor. Jesus já havia dito que ele pescaria pessoas; agora ele recebe uma segunda missão muito mais nobre: “pastorear o rebanho de Deus”. Não é que Pedro não o amava pra valer, mas diante do diálogo com Cristo ele poderia reafirmar seu amor pelo Senhor. Jesus poderia confiar em Pedro nesta missão? Creio que sim. Somos instrumentos rudes, mas mesmo assim o Senhor pode nos usar para realizar seus propósitos. Aqui vale aquela expressão de que Deus prepara as pessoas para usá-las em suas mãos. 

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terça-feira, 14 de outubro de 2014

A REFORMA E OS REFORMADORES (31 DE OUTUBRO - DIA DA REFORMA PROTESTANTE)

Protestant ReformersA intenção inicial dos reformadores não era romper os laços com a Igreja Católica, mas purificar a Igreja da corrupção teológica, doutrinária, administrativa e espiritual. Eles se indignaram com o abuso papal na teologia e na prática. Os papas se tornaram imorais e baratearam a graça de Deus ao comercializá-la através de um complexo sistema de penitencias. O papa reivindicava autoridade apostólica como cabeça da igreja de Cristo. A Escritura tornou-se escrava dos concílios, dos bispos e dos eruditos; sua leitura foi retida aos leigos. Os vocacionados para o caminho da espiritualidade (monges e freiras) eram considerados superiores espiritualmente aos que possuíam vocação secular. A mediação com Deus podia ser feita por meio de Maria e pela intercessão dos santos. As obras possuíam valor salvífico.

Foi contra essa corrupção moral, prática, teológica, doutrinária e eclesiástica que os reformadores se indignaram. No entanto, o sentimento de indignação não começa com Lutero. Movimentos religiosos populares como os lollardos na Inglaterra, os hussitas na Boêmia, os valdenses e os franciscanos espirituais na Itália e França, e homens interessados pela pureza da igreja como John Wycliffe, John Huss, Pedro Valdo, e outros, ansiavam por uma reforma na Igreja Católica - o que não aconteceu e jamais aconteceria. Apenas nesse sentido é que podemos dizer que a Reforma Protestante não aconteceu historicamente. Obviamente, todos os opositores da Igreja Católica de Roma foram "convidados" a se retirar do meio da mesma. A Igreja de Roma definitivamente se afundou na lama da corrupção. Em outras palavras a Igreja de Roma, por meio de sua liderança, não queria se reformar em nada. 

Penso eu que o Senhor Deus, no tempo certo e com a pessoa ideal (Martinho Lutero) estabeleceu o momento em que de fato a cisão ocorreria na Igreja de Roma e a oportunidade de retorno aos padrões da igreja primitiva seria algo concreto. Porém, os reformadores, apesar de todo o labor literário, cometeram equívocos exegéticos e teológicos/doutrinários. Mas isso demonstra a busca por uma interpretação fiel da Escritura. A reforma religiosa não está terminada, concluída, completa. Não devemos esquecer do lema: “Ecclesia reformata, semper reformanda” (igreja reformada, sempre se reformando). Isso não justifica todo o tipo de interpretação bíblica ou movimentos de despertamento espiritual. Mas entende que toda a prática da vida cristã deve ser colocada à luz da Escritura. 

Os reformadores também não eram homens perfeitos. Como todos nós, eles possuíam a natureza humana maculada pela transgressão adâmica. Por isso eles também disseram e fizeram coisas que certamente desagrada a Deus. Lutero nutria aversão muito forte contra os judeus. Calvino pediu a pena de morte para Serveto - ele foi queimado numa estaca, por heresia. Muitos deles se envolveram em guerras, revoltas, e consequentemente em mortes e assassinatos. Há quem prefere não tê-los como expoente legítimo de tratados doutrinários por causa de suas atitudes comprometedoras a fé cristã.   

Porém, busco ver a mão de Deus agindo na história humana por meio de instrumentos fracos, rudes, grosseiros. Se olharmos brevemente nas escrituras sagradas veremos que:

- Noé bebeu do vinho que produzia, embriagou-se e ficou nu dentro da sua tenda; mas o Senhor o tinha como homem justo, íntegro entre o povo da sua época.

- Ló, também embriagado, teve relações com suas duas filhas, e elas engravidaram dele; mas o apóstolo Pedro o chama de justo.

- Moisés matou um egípcio e o escondeu na areia; mas é tido como um dos maiores nomes da história do povo de Deus.

- Davi adulterou, traiu, matou, etc; mas é chamado na Bíblia de “o homem segundo o coração de Deus”.

- Salomão também cometeu assassinato, caiu na idolatria, foi seduzido pelas riquezas e luxuria, explorou pessoas na construção do Templo; mas sua sabedoria ficou registrada nas páginas das escrituras sagradas e fazemos uso dos seus provérbios para a prática de vida.

- Neemias diante da mistura nos casamentos (entre os judeus e mulheres de Moabe, Asdode e Amom) irritou-se chegando ao ponto de bater e arrancar os cabelos de alguns judeus; mas foi instrumento de Deus na reconstrução do Templo.

- Balaão era um falso profeta, um adivinho, mas sua boca foi usada por Deus para proferir palavras proféticas verdadeiras – até mesmo a respeito da vinda do Messias.

- Pedro, o discípulo sanguíneo, quase degolou um dos soldados que fora prender Jesus; por dissimulação foi repreendido por Paulo; mas Jesus o escolheu para apascentar as Suas ovelhas.


Não é que essas pessoas são justificadas de seus erros por serem instrumentos de Deus; mas apesar de seus pecados o Senhor Soberano as usou para seu propósito. Até mesmo Ciro, o rei persa e pagão, foi canal da ação de Deus para libertar os judeus do império babilônico.

As pessoas pendem ou para repudiar os reformadores ou para idolatrá-los. Já eu não sofro nem da luterofobia, nem da luterolatria; não sofro nem da calvinofobia, nem da calvinolatria. Como Calvino afirmou: “toda a verdade é verdade de Deus”. Mesmo um herege, “pode” dizer a verdade de Deus. Até mesmo Satanás falou a verdade quando afirmou que Paulo e Silas eram servos do Deus Altíssimo. Porém, isso não diviniza pessoas ou entidades. O fato dos reformadores serem supervalorizados pelos evangélicos em geral não nos deve cegar para a importância que tiveram como “instrumentos de Deus”.


Com amor, 

 
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terça-feira, 30 de setembro de 2014

PODEMOS JURAR POR DEUS?

Gilson Barbosa



O crente em Cristo sempre deve ter compromisso com a palavra falada. No Brasil estamos na iminência de uma eleição política, e as promessas pronunciadas pelos candidatos não passam pelo crivo da honestidade e sinceridade. São palavras lançadas ao vento sem nenhum compromisso com as mesmas. Somente os simples e ingênuos acreditam nelas, ou no que dizem tais políticos. São palavras ambíguas, imprecisas, falsas, cheias de retórica. Mas falar e não cumprir, não é propriedade exclusiva de políticos ímpios. Grande parte dos políticos evangélicos também age e fala como ímpios.

Aprofundando um pouco mais o assunto temos no âmbito de cultos públicos os profetas carismáticos usando o nome de Deus levianamente. Dizem com orgulho “Assim diz o Senhor”, quando na verdade não foi realmente o Senhor quem ordenou profetizar tal e tal palavra. Penso que isso é tomar o nome do Senhor em vão, pois se trata de usá-lo de maneira imprópria, insincera, frívola, ou com finalidades banais. Qualquer conduta que profane o nome do Senhor é proibida pelas escrituras sagradas. A oração do Pai Nosso ensina que o nome de Deus deve ser santificado pelos seus filhos (Mateus 6:9). Santificar o nome de Deus é positivo e não negativo. Tem haver com santo temor e santa reverencia na conduta cristã e não com a proibição de usar respeitosamente e corretamente o nome do Senhor.

Na primeira tábua da Lei consta o terceiro mandamento: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” (Êxodo 20:7). Esse mandamento não proíbe o juramento pelo nome de Deus ou outros juramentos. A Bíblia está repleta de exemplos de servos de Deus que fizeram juramento em “nome de Deus”. Em Deuteronômio 6:13 está escrito: “O Senhor, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome jurarás”. O que Deus proíbe é um juramento falso em seu nome – isto é denominado de perjúrio. Segundo o irmão Hélio Clemente “O perjúrio é o juramento intencionalmente falso, quando a pessoa tem o conhecimento da verdade, mas jura mentirosa e deliberadamente em o nome de Deus, o perjúrio quando diz respeito a Deus é chamado de blasfêmia ou profanação”.

Alguém pode objetar que Jesus dispensou qualquer tipo de juramento quando recomendou que a palavra do crente deve ser apenas “sim” ou “não” (Mateus 5:37). Mas essa é uma leitura superficial do texto. Jesus não proíbe fazer juramentos ao Senhor Deus. O fato é que os judeus juravam pelo céu, pela terra, por Jerusalém, e por sua própria cabeça (Mateus 5:34-36). Diziam que se alguém não jurasse pelo nome do Senhor, estaria desobrigado de cumprir tal juramento, e ainda a pessoa não quebrava a lei. Ou seja, eram pronunciados já com a intenção de serem violados.  

Porém Jesus demonstra que qualquer juramento (pelo céu, pela terra, por Jerusalém ou por sua própria cabeça), mesmo não tomando o nome do Senhor, deve ser cumprido, pois em ultima instancia Deus está sendo invocado. Por isso ele diz que “o céu é o trono de Deus”, “a terra o escabelo dos seus pés”, “a cidade é do grande Rei”, “e que somente Deus pode tornar um cabelo branco ou preto”. O que Jesus está dizendo é que qualquer juramento que façamos no dia a dia deve ser cumprido. Ou seja, a palavra do crente deve estar comprometida com a verdade e ser pronunciada com honestidade (Mateus 5:37).  

Honramos o nome de Deus quando nossa conduta é de acordo com o Seu caráter. Mas isso não significa que os juramentos legais e os votos não são legítimos. A Confissão de fé de Westminster no capítulo 22.1 afirma:

O juramento legal é uma parte do culto religioso em que o crente, em ocasiões próprias e com toda a solenidade, chama a Deus por sua testemunha do que assevera ou promete; pelo juramento ele invoca a Deus a fim de ser julgado por ele, segundo a verdade ou falsidade do que jura.   

Para os crentes presbiterianos “os votos e juramentos exigidos na igreja são o matrimônio, a consagração, a confissão pública, a profissão de fé e a ordenação de ministros. Somente se jura em nome de Deus sobre o que se conhece e crê com sinceridade” (Breve Catecismo De Westminster Comentado).

Mas acima de tudo o cristão deve ser verdadeiro e honesto em suas palavras. A Bíblia autoriza os juramentos. O que ela desautoriza é a banalidade no trato com os juramentos. Quando falar algo ou fizer qualquer juramento trate com seriedade, pois daremos conta de nossas palavras ao Deus Todo Poderoso.


No amor de Cristo,

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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SAUL E A MÉDIUM DE ENDOR

Gilson Barbosa

feiticeira de En-Dor


De acordo com o Espiritismo é possível o contato com espírito de pessoas falecidas. Para o contato acontecer basta consultar uma pessoa que possua o “dom mediúnico”. Esta pessoa é denominada de médium. Este é um mediador entre o mundo dos vivos e dos mortos. Uma das razões porque as pessoas consultam um médium é a grande saudade de entes queridos mortos.

Entretanto, não há razão para um cristão evangélico crer na possibilidade do contato entre vivos e mortos ser algo natural. Antes mesmo dos israelitas entrarem em Canaã o Senhor proibiu, entre outras coisas, a consulta aos mortos: “Quando entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre ti [...] nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos” (Deuteronômio 18:9-11). Tal ato é incompatível com a vontade preceptiva de Deus. Segundo a ordem de Deus “é não, e ponto final”.

Mas, é normal pessoas distorcerem as escrituras sagradas no intento de que a Bíblia afirme o que elas desejam – isso também acontece entre os próprios evangélicos. No caso do Espiritismo trata-se do texto de I Samuel 28:1-25. Neste texto o rei Saul consulta a médium de En-Dor. O relato é usado para respaldar o contato entre vivos e mortos bem como para atestar que Deus permitiu o aparecimento do profeta Samuel por meio de uma médium.

Antes de qualquer coisa devemos atentar para a lei da não contradição. Esta lei afirma que uma coisa é o que afirmamos que é. Por exemplo, A é A. Mas se dissermos que A é B ao mesmo tempo em que afirmamos que A é A isso é uma contradição e não é possível que seja assim. Em Deus não há contradição. Ele é todo sábio e perfeito. Pois bem, como poderia Deus proibir a consulta aos mortos e ao mesmo tempo permitir? O profeta Isaías (8:19) adverte algumas pessoas que procuravam os necromantes para consultar os mortos: “Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?”. Assim sendo não somente Deus, mas os escritores bíblicos também são coerentes em repudiar esta prática.  

Em segundo lugar, o relato dos versículos 7-25 foi escrito por uma testemunha ocular – no caso uma das pessoas que acompanhara o rei Saul e que no texto bíblico demonstra ser muito supersticioso. Note que quando Saul diz aos seus servos para que apontassem uma mulher que fosse médium para sua consulta, um dos servos com convicção: “Há uma mulher em Em-Dor que é médium” (v.7). É muito provável que esta pessoa cria na possibilidade do contato entre vivos e mortos. O que pode nos deixar um pouco intrigado é que esta narrativa entrou para o Cânon Sagrado. Mas isso não deveria ser estranho, pois o Senhor tem seus planos com este fato.

Russel Shedd apresenta seis argumentos para provar erros na suposta aparição de Samuel a Saul. Vamos a eles.

1 – Argumento Gramatical. O texto bíblico afirma, no versículo 6, que o rei Saul consultou ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu. Russel Shedd diz que o verbo hebraico é completo e categórico e na situação de Saul significa que Deus não lhe respondeu, não lhe responde e não lhe responderá nunca. Entendemos com isso que jamais o suposto Samuel falaria com Saul movido pelo espírito de Deus, pois o Senhor Deus estava resolvido a não falar mais com Saul.

2 – Argumento Exegético. Deus não falava mais com Saul nem por Urim (revelação sacerdotal), nem por profetas (revelação inspiracional da parte de Deus). Se nos dois casos é Deus quem fala, e não foi Deus quem falou com Saul na consulta, também não pode ser Samuel – lembre-se que Samuel era juiz, sacerdote e profeta.

3 – Argumento Ontológico. Em vida o profeta Samuel era sabedor que Deus é contra a consulta aos mortos, e que desobedecer a Deus neste ponto é ir contra a natureza do seu próprio ser e do ser de Deus (I Samuel 15:23). Não será depois de morto que ele vai desobedecer a Deus! Bom: isso não é nem possível.

4 – Argumento Escatológico. Para aparecer a Saul, Samuel teria de vir do “seio de Abraão” onde teria experimentado e recebido conhecimento mais profundo e revelações mais gloriosas de coisas encobertas a nós. Como então desconsiderar a ordem proibitiva de Deus, e trazer revelações de outro mundo a Saul? 

5 – Argumento Doutrinário. Se Deus, na Bíblia, condena consultar “espíritos familiares” é porque o suposto espírito não era o de Samuel. Se fosse possível consultar espíritos de pessoas falecidas Deus teria regulamentado esta doutrina. Mas não é isso que acontece.

6 – Argumento Profético. As profecias do suposto Samuel não passam pelo teste da precisão profética (I Coríntios 14:29). Neste caso Samuel profetizou falsamente: 1º) a morte de Saul. Ele não morreu pelas mãos dos filisteus – ele se suicidou; 2º) a morte de todos os filhos de Saul – pelo menos três filhos de Saul ficaram vivos; 3º) o tempo exato da morte de Saul – ele morreu cerca de dezoito dias após a previsão e não no dia seguinte; 4º) o local do destino eterno de Saul – entendendo que Saul não foi salvo é impossível que fosse para o mesmo lugar (“seio de Abraão”) onde estava o verdadeiro Samuel. Ou que Samuel estivesse no lugar de condenação eterna!

Espíritos falsos

Se os espíritos dos mortos aparecem numa sessão mediúnica, estes só podem ser falsos, pois o Senhor não regulamentou este fato como uma doutrina bíblica e proibiu a consulta aos médiuns. E se são falsos não possuem o consentimento nem aprovação de Deus, pois Nele não há falsidade nem dissimulação. Os que creem ser possível a consulta aos mortos não devem se considerar cristão nem fazer uso da Bíblia Sagrada. Não espaço para esta crença e prática no cristianismo.

Com amor,  



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sábado, 13 de setembro de 2014

A PRÁTICA DOS DEZ MANDAMENTOS NA ATUALIDADE

Gilson Barbosa

Ten Commandments Stone Tablets MagnetO sistema escatológico conhecido como Dispensacionalismo não considera seriamente a continuidade entre Antigo e Novo Testamento, e com isso oferece muita confusão na questão da hermenêutica bíblica. Para estes não há ligação entre Lei e Graça – Antigo e Novo Testamento. Do lado oposto está o Teonomismo – conhecido também como o movimento de reconstrução cristã. Entendem que a Igreja, ou o povo de Deus, é uma nação, não somente no sentido espiritual, mas também étnico. Segundo o teólogo Valdeci da Silva Santos apesar de aceitarem a prática da Lei de Deus hoje os teonomistas “insistem na atualidade das exigências morais e civis da lei, incluindo suas penalidades, bem como no dever do governo civil executá-las na sociedade”.

Ao insistir na descontinuidade do Antigo Testamento o Dispensacionalismo suscita algumas perguntas: “Estamos obrigados a guardar a lei de Deus hoje?”. “Há relação entre Lei e Graça?”. “Se somos salvos pela graça, por que temos de obedecer à lei de Deus?”. “O povo de Deus hoje tem alguma coisa haver com Israel?”.

Para começarmos a desenrolar o assunto devemos entender que a Lei no Antigo Testamento possui três aspectos: Lei Civil ou Judicial, Lei Religiosa ou Cerimonial e Lei Moral. Segundo o presbítero Solano Portela, no livro A Lei de Deus Hoje (indico a leitura), podemos entender as diferenças considerando os termos:

- A Lei Civil ou Judicial representa a legislação dada à sociedade ou ao estado de Israel;

- A Lei Religiosa ou Cerimonial representa a legislação levítica do Velho Testamento;

- A Lei Moral representa a vontade de Deus para com o homem, no que diz respeito ao seu 
comportamento e seus deveres principais.

Por não distinguirem os aspectos da Lei grupos religiosos fazem uma “salada” hermenêutica divergindo radicalmente do entendimento natural e geral das escrituras. O grupo Adventista do Sétimo Dia considera contemporânea a aplicação dos três aspectos da Lei de Deus, mas isso não é correto. Por esse motivo se apegam a guarda do sábado como mandamento de salvação (Lei Civil) ou à obediência bíblica as regras dietéticas de alimentação (Lei Religiosa).

Uma igreja evangélica cristã que se considera bíblica deve atentar apenas à Lei Moral de Deus. Ela está contemplada nos Dez Mandamentos e possui validade total. Solano Portela entende que os Dez Mandamentos tem validação histórica, didática, reveladora e normativa. Histórica porque está entrelaçada na história da revelação de Deus e da redenção do Seu povo. Didática porque ela nos ensina o respeito ao nosso Criador e aos nossos semelhantes. Reveladora porque nos revela o caráter e a santidade de Deus, bem como a pecaminosidade das pessoas. Normativa porque ela especifica com bastante clareza o procedimento requerido por Deus a cada uma das pessoas que habitam a sua criação, em todos os tempos.

O cristianismo não deveria se aliançar com filosofias mundanas tais como o pragmatismo, relativismo, liberalismo, etc, pois as verdades de Deus são absolutas, estão contempladas nos Dez mandamentos e são vigentes para os dias em que vivemos. Alguém deve estar se perguntando a respeito do sábado contido na primeira tábua do decálogo. Penso que a igreja evangélica cristã deve compreender que Sábado é muito mais que um dia específico da semana para não se fazer ação alguma. O quarto mandamento fala de um dia descanso e de adoração ao Senhor. A igreja cristã primitiva apenas adaptou o dia de sábado para o domingo, mas não alterou o sentido conceitual. Não é certo também criticar os adventistas por guardar o sábado e não atentarmos para a observância sincera de um dia ao Senhor.

Portanto, a Lei Moral de Deus (os Dez Mandamentos) deve ser observada hoje em dia pelos cristãos. Devemos entender, no entanto, que ela não serve como meio para a salvação, mas demonstra o nosso amor reverente e obediente ao Senhor e nos serve com um guia na prática cristã. Quanto a nossa imperfeição para cumprir toda a lei nos conforta saber que Cristo com sua obediência perfeita ao Pai adquiriu para nós sua justiça e obediência.

No amor de Cristo, 



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