domingo, 21 de junho de 2015

O PASTOR E O JORNALISTA


Nessa semana que passou os ânimos de duas pessoas importantes e públicas em nosso país explodiram em palavras chulas, rasteiras, ofensivas e até de baixo calão. Que pena! Um pastor e um jornalista que exteriormente são contra a intolerância se tornaram intolerantes um ao outro. Quero adiantar que em minha opinião ambos erraram objetivamente em seus atos. O jornalista por baixar o nível do “diálogo” e proferir palavrões numa rede nacional de rádio para milhões de pessoas. O pastor por também usar palavras ofensivas, tripudiar seu oponente, desafiá-lo e suscitar sua ira.

Conforme publicado pela imprensa em geral “o motivo da confusão foram os comentários de Boechat [o jornalista] sobre os recentes casos de intolerância religiosa no Rio de Janeiro”. Quase que imediatamente o referido pastor usou o Twitter para criticar a generalização e desafiar o jornalista para um debate.

Penso que a mídia em seu papel de informar não subjuga a tentação de aderir a um tipo de sensacionalismo e passa a emitir opiniões particulares, exclusivistas, preconceituosas e descabidas. Deveriam estender o debate democraticamente, convidar teólogos ou pastores para discutir em conjunto com outros grupos religiosos a questão da intolerância religiosa. Por vezes são unilaterais. É nesse sentido que se enquadra também o jornalista. Emitiu publicamente um parecer sem se importar em saber o que os pastores neopentecostais entendem e pensam sobre o assunto em questão. Logicamente a fúria religiosa e “piedosa” das pessoas que jogaram pedra no grupo religioso atingindo uma menina não representa a atitude nem atos dos evangélicos em geral. O jornalista em questão possui ideias e opiniões que não se coadunam com o senso geral de outras pessoas.  

No caso do pastor em questão ele não errou em fazer uso da liberdade humana para contrapor ao entendimento em que o assunto se direcionava naquele momento entre os jornalistas do programa de rádio. Todos têm esse mesmo direito e muitas vezes calamos diante de opiniões arbitrárias e contrárias ao procedimento que nós evangélicos temos de determinados assuntos. Ou seja, alguns grupos evangélicos são mudos diante de tantas polêmicas.    

Penso que os erros do referido pastor esteja em algumas de suas atitudes tais como: 1º) o volume com que se pronuncia; 2º) a maneira de escrachar seus adversários; 3º) emite suas opiniões como se fossem vereditos; 4º) a relatividade e volatilidade na escolha de seus adversários; 5º) a crença de que sua opinião particular é a mesma do rebanho evangélico no Brasil; 6º) a superexposição midiática; 7º) a despreocupação irresponsável em causar antipatia tanto com relação a sua pessoa quanto aos evangélicos em geral, e muitas outras coisas.

O referido pastor excede muito no volume de seus pronunciamentos. Em outras palavras “fala muito”. Essa necessidade de se pronunciar acaba por gerar certa antipatia. Deve se pronunciar sim, mas de maneira comedida. Dias atrás sugeriu uma campanha para boicotar uma rede de perfumes porque a empresa fez um comercial com inclinação homossexual. É sabido de todos que os evangélicos são contra a prática homossexual, mas há irmãos que não deixarão de comprar os perfumes desta empresa por causa do comercial. Por tanto falar acaba falando coisas fúteis.

Ao tratar com nossos opositores não devemos usar de linguagem mundana, tais como imbecil, idiota, pilantra, "mané", e por aí afora, ainda mais aos que ocupam uma posição tão abençoada como é o caso dos pastores. Não devemos também ser grosseiros e assim incitar à ira do opositor. Devemos “lutar” com as armas da verdade, mas em amor, e não causando uma “guerra” civil. Temos de ceder se estamos sendo ignorantes e ríspidos. Nossas opiniões pessoais não podem servir para atacar ou tentar desmoronar o moral das outras pessoas que não possuem a mesma opinião que a nossa. Elas são as nossas opiniões e não deveriam configurar como vereditos (a não ser que tenha correto fundamento bíblico e goze da simpatia de todos). Têm-se que ter prudência ao mencionarmos atos de pessoas numa pregação feita num púlpito de igreja, quanto mais usarmos redes sociais para comentar sobre elas.

Sabemos que os que não foram iluminados pelo poder do Espírito para o arrependimento e fé no evangelho de Cristo são cegos espiritualmente, carentes do novo nascimento. Portanto, pode ser frustrante um debate com gente obstinada e que não tem a mente de Cristo. Podemos pensar que não somos religiosamente intolerantes, mas talvez sejamos socialmente intolerantes. Se continuar assim é bem provável que a massa evangélica tome pra si as dores do referido pastor e promova uma “cruzada” evangélica contra os “inimigos do evangelho”. Seria o caos.

Nesse sentido, precisamos de um avivamento que promova em nós não orgulho pessoal, espiritual ou denominacional, mas um desejo profundo de dependermos mais de Deus, arrependimento de nossos pecados, buscarmos viver na prática o caráter cristão, utilizar mais os meios da graça – oração e leitura da Bíblia. Devemos ser zelosos com inteligência e não com esbravejamento e gritaria.


No amor de Cristo,

Compartilhar:

sábado, 13 de junho de 2015

A SÍNDROME DE PERSEGUIÇÃO NAS SEITAS


Numa conversa com dois jovens missionários mórmons analisei que para autenticar sua Igreja como detentora do verdadeiro cristianismo, mencionam sempre dois elementos principais: a perseguição e restauração do cristianismo. Disseram que nenhum movimento religioso foi, e é tão perseguido quanto o seu e que todas as denominações se apostataram da fé cristã, portanto, se julgam os que irão promover a restauração do cristianismo verdadeiro. Para eles estes dois elementos validam a fé mórmon.

Mas na verdade os elementos mencionados não servem como instrumento aferidor da verdade cristã no mormonismo. Primeiro, porque na história da igreja cristã sempre houve e haverá perseguição; segundo que outros grupos sectários, tais como Adventistas do Sétimo Dia e Testemunhas de Jeová, também reivindicam os mesmos elementos como validação. Simplesmente esse teste não é obrigatoriamente necessário e quase sempre é usado com intenção espúria. Muitos grupos religiosos contrários ao cristianismo de alguma forma usam o elemento da perseguição também. Na verdade algumas pessoas, por si só, possuem a “mania de perseguição”. Mas geralmente as mesmas possuem dilemas psicossociais. Nestes casos, quase sempre “os perseguidos” são as vítimas e não os causadores de algum transtorno social.

Os adventistas afirmaram no passado que o papado e os Estados Unidos (representantes da Besta - Apocalipse 13) se uniriam para impor às nações a estrita observância do domingo. Declararam o seguinte: “Sendo a primeira besta o Papado e a segunda, os Estados Unidos, este verso quer dizer que os Estados Unidos vão obrigar o povo a adorar o Papado. Unicamente obrigando o povo a guardar o domingo podem os Estados Unidos fazê-lo adorar o Papado, pois o domingo existe como dia santo por autoridade deste” (O Sinal da Besta e as Sete Pragas do Apocalipse. Denilson Fonseca de Carvalho, CPB). Estavam dizendo que no futuro distante os adventistas seriam perseguidos por guardarem o sábado.

Os mórmons se dizem perseguidos desde o início da fundação de sua Igreja. O que não dizem, abertamente, é que um dos motivos da “perseguição” foi a prática da poligamia. Segundo afirmação de um artigo sobre o assunto “Joseph Smith disse que essa seria a doutrina que testaria a fé dos Mórmons acima de qualquer outra doutrina” (Leia aqui).

Sabemos que entre o povo de Deus esta prática de fato existiu no passado, mas apenas retrata a decisão humana arbitrária e é fato que sempre trouxe transtornos às famílias. Contudo, no período da igreja cristã primitiva ela não existia, pois fora abolida centenas de anos antes. Deus não prescreveu tal prática como mandamento e a tolerou como ações de homens pecadores. Como uma igreja pode reclamar ser verdadeira tendo como base uma perseguição motivada por uma “doutrina” repudiada pelas escrituras sagradas?

Mas, a perseguição como instrumento autenticador da fé verdadeira não é uma característica apenas das seitas. Grupos evangélicos também possuem a mesma ideia – mormente seus líderes. Concordo que a verdadeira fé pode atrair perseguição, mas a perseguição não necessariamente serve para validar todo e qualquer tipo de fé.

Quem não se lembra o episódio ocorrido em 9 de janeiro de 2007 onde o “apóstolo” Estevam Hernandez e sua esposa (Sônia Hernandez) foram detidos em um aeroporto de Miami por “estarem carregando U$ 56 mil escondidos em meio a bíblias e terem declarado a alfândega que não carregavam mais de U$10 mil”? (Leia aqui). Foram declarados culpados pela justiça americana e sentenciados a uma pena de 140 dias de reclusão em regime fechado “em fases intercaladas pelo motivo de um dos dois ter que cuidar dos filhos durante a ausência do outro”.

Qual foi a justificativa aos fiéis da denominação? Perseguição religiosa – neste caso da Rede Globo. Outro apóstolo - Valdomiro Santiago - afirmou que estava sendo perseguido pela Receita Federal. Silas Malafaia ‘”de vez em sempre” acusa governos e partidos políticos de perseguição religiosa. Os evangélicos, de maneira geral, espalham teorias conspiratórias excêntricas. O pastor Ricardo Gondim escreveu um artigo muito interessante sobre este assunto (Leia aqui).

Não estou negando que houve ou que não haverá perseguição contra os servos de Cristo. O apóstolo Paulo informou que “De fato, todas as pessoas que almejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidas” (II Timóteo 3:12). Jesus disse aos seus discípulos: “Recordai-vos das palavras que Eu vos disse: ‘nenhum escravo é maior do que o seu senhor’. Se me perseguiram, também vos perseguirão. Se obedeceram à minha Palavra, igualmente obedecerão à vossa orientação” (João 15:20). No Sermão do Monte Jesus ensinou que é bem-aventurado “os que sofrem perseguição por causa da justiça” (Mateus 5:10-12). Disse também que seríamos odiados de todos por causa do seu nome (Mateus 10:22-25). A história cristã primitiva testemunha a perseguição dos judeus, gentios, governantes, religiosos, etc, a igreja nascente. Mas, não devemos comparar com os motivos elencados pelos líderes de seitas e igrejas evangélicas da atualidade. O sentido não é o mesmo.   

Não adianta invocar certos elementos de autenticação quando os fundamentos do cristianismo primitivo estão ou são falsificados. O que valida o cristianismo verdadeiro é a conformidade de sua pregação com os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos, conforme Efésios 2:20: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular desse alicerce”.

No amor de Cristo,
  




Compartilhar:

terça-feira, 2 de junho de 2015

A DOUTRINA DA GRAÇA PREVENIENTE É BÍBLICA?

Resultado de imagem para doctrine of grace foreseeing - John Wesley
John Wesley
Você lembra o dia em que recebeu Cristo como Salvador e Senhor? Lembra-se de como isso aconteceu? Consegue descrever cada etapa de seu novo nascimento em Cristo? Talvez alguma coisa consiga lembrar, mas como seu coração foi “invadido” pela presença salvadora do Espírito, amolecendo seu coração e produzindo instantaneamente uma nova vida, arrependimento e fé, mudando as disposições de sua alma; o momento exato do acontecimento dessas coisas é impossível de sabermos.

Qual sua participação no processo da salvação? Sua vontade estava neutra? Se quisesse poderia mudar naquele momento sua decisão voltando atrás e não querendo mais Cristo como seu Salvador? Foi você quem deu o primeiro passo e decidiu por Cristo? Você se sentia o “dono da situação” no momento da sua conversão? Se a maioria das suas respostas foram SIM então você pode se orgulhar do seu arrependimento e da fé na aceitação de Cristo. Você produziu sua própria salvação.

Sabendo disso há uma teologia que desenvolveu o conceito da doutrina de uma graça “que vem antes” da conversão – a Graça Preveniente. Esta propicia ao pecador condições de escolher ou não a Cristo. Ou seja, no momento da conversão o pecador está numa situação de neutralidade. Esta graça foi dada a toda a humanidade (é universal); todo o ser humano a possui, mas ela não é eficaz na salvação, pois o poder da decisão está com o pecador. Essa doutrina nada mais do é que uma tentativa de relacionar a salvação da parte de Deus com a responsabilidade de cada pessoa. A pergunta: esta doutrina é bíblica?

Não “há textos bíblicos específicos para tratar da graça Preveniente” (Heber Carlos de Campos).  Por isso seus adeptos se apegam aos versículos que tratam sobre a expiação universal de Cristo, como João 1:9; João 12:32; Tito 2:11. A doutrina da Graça Preveniente é também a tentativa de preservar a autonomia libertária do ser humano.

É importante informar que cada ser humano é responsável por seus pecados e está sob condenação desde a queda de Adão (Romanos 6:23; 3: 11) e não neste EXATO momento. Afirmar que o livre arbítrio ou livre vontade é necessário para a aceitação de Cristo como Salvador por causa de sua responsabilidade não se coaduna com a verdade dos fatos bíblicos. A Bíblia afirma tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade humana. Em seu discurso aos judeus o apóstolo Pedro afirmou que a morte de Cristo estava dentro do desígnio de Deus desde a eternidade, mas mesmo assim tanto os judeus quanto Pilatos e seus funcionários eram responsáveis por sua morte: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (Atos 2:23).

Aceitar que Deus age soberanamente na salvação do pecador não o faz maligno, pecador ou maléfico. Quando Adão pecou arrastou consigo toda a humanidade a condenação eterna. Não fosse a iniciativa de Deus Adão teria recebido a justa condenação. Você pode indagar: mas qual a parte do pecador no processo da conversão? Essa pergunta pode ser capciosa. A salvação é uma obra monergística e poderosa de Deus capacitando instantaneamente o pecador a reconhecer seus pecados (arrependimento) e voltando-se a Cristo. Dizemos que quando o pecador age em arrependimento e fé, ele o faz pela ação poderosa de Deus. Deus é injusto ao conceder no coração de alguns o arrependimento para a fé em Cristo? Certamente que não. Quando apóstolo Paulo comenta sobre a rejeição de Israel afirmou: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Romanos 9:14,15).

Não existe a tal Graça Preveniente que capacita o pecador para decidir ou não sobre sua salvação. Se a salvação estivesse em nosso poder estaríamos irremediavelmente perdido, pois “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9).

Mas se é Deus quem efetua a salvação, o pecador ainda assim é livre? Sim. Não vimos a Cristo arrastado ou coagido, pois Deus muda as disposições da nossa alma nos dando vida espiritual e efetuando nossa conversão. O profeta Ezequiel (36:26,27) anunciou a restauração de Israel nos seguintes termos: “Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis”. O Senhor Deus não disse que enviaria uma graça preparatória e assim eles poderiam escolher. O ser humano em seu estado natural não busca o novo nascimento, até porque conforme Jesus disse a Nicodemos que a regeneração procede do alto e não de baixo (João 3:3); do céu e não da terra; de Deus e não do homem: “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13).

Cremos que somos exclusivamente salvos pela graça de Deus independente de nossas obras. Isso significa que qualquer poder de decisão da parte do ser humano é uma obra. Não creio na neutralidade do pecador no momento da sua decisão por Cristo, assim como não creio que entre um copo de água e um de aguardente já sabemos qual será a escolha do viciado em bebida alcoólica. O ser humano é viciado e seu vicio chama-se pecado. Somente uma obra eficaz e poderosa da parte de Deus pode mudar as inclinações da alma do pecador. A Bíblia diz que estávamos mortos em nossos pecados e delitos (Colossenses 2:13) e não percebo nada que um morto possa receber antecipadamente para tornar a viver. Quando Cristo chamou Lázaro à vida sua ressurreição foi instantânea.

O convite permanece: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” ou “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação”.

No amor de Cristo,


 


Compartilhar:

segunda-feira, 11 de maio de 2015

VOCÊ NÃO É DEUS (UMA ANÁLISE DO SALMO 82:6)

Na Bíblia há dois grupos de termos hebraicos para os nomes de Deus. O primeiro é o grupo dos nomes específicos e exclusivos de Deus (El-Shadday, Adhonay, Yahweh e Yahweh Tsebhaoth). O segundo é o grupo dos nomes genéricos de Deus (El, El Elyon e Eloah – cujo plural é Elohim). Segundo os estudiosos são genéricos os nomes de Deus que podem ser aplicados, também, a divindades falsas, anjos, homens (como por exemplo, os governantes e juízes).

Tanto é assim que as Testemunhas de Jeová na tentativa de depreciar ou negar a divindade de Jesus Cristo diz que ele é um deus, da mesma forma que Satanás (II Coríntios 4:4), anjos e juízes são chamados de deus [es]. As autoridades religiosas das Testemunhas de Jeová (chamada de Corpo Governante) editaram uma brochura com o título Deve-se Crer na Trindade? onde dizem o seguinte: “Visto que a Bíblia chama humanos, anjos e até mesmo Satanás de ‘deus [es]’, ou poderoso [s], o superior Jesus no céu pode corretamente se chamado de ‘deus’”. Justificam esse absurdo justamente com o termo hebraico Elohim.

Pois bem: eu disse numa postagem anterior que, tanto o Salmo 82:1-8 quanto João 10:34,35 não apoia a heresia de que os crentes são deuses, por serem filhos de Deus. Isso por vários motivos; entre eles:

1 – O contexto. Nunca se esqueça de que em alguns casos consultar somente as línguas originais pode ser insuficiente para uma boa exegese. O contexto não pode ser preterido JAMAIS. Por exemplo, é verdade que o salmista afirma: “Vos sois deuses” (v.6). Mas isso não deve ser interpretado com base apenas no nome Elohim. Isso porque temos inúmeros textos bíblicos que afirma que o homem não é Deus nem Deus um ser humano (Leia, por favor, Ezequiel 34:31; Números 23:19; Oseias 11:9).

Não bastasse o contexto geral das escrituras temos o contexto específico do Salmo 82 (leia o Salmo inteiro). Se você prestar bem atenção nas palavras dos versos, verá que o sentido da expressão “vós sois deuses” é negativo e não positivo. O salmista está utilizando uma figura de linguagem conhecida como ironia.

2 – Figura de linguagem. Louis Berkhof afirma que figura de linguagem é quando “uma palavra ou expressão é usada em sentido diferente daquele que lhe é próprio”. Por exemplo: metáfora, metonímia, sinédoque, ironia, eufemismo, antítese, aliteração, etc, são chamadas de figuras de linguagem.  
No Salmo 82 é usada à ironia como figura de linguagem. Em certo sentido os juízes eram os representantes de Deus na terra e por isso são chamados de deuses. Eles deveriam fazer ou agir com justiça (leia Êxodo 22:8, 9; Deuteronômio 19:17) assim como Deus é justo. Acontece que os juízes julgavam injustamente (v.2) prejudicando o pobre e o necessitado (v.3) agindo em favor dos ímpios. Consideravam-se “poderosos” (v.1) eram “deuses”, mas não representavam os verdadeiros interesses de Deus. Por isso eles andavam em trevas, sem conhecimento nem entendimento do que é essencialmente julgar segundo os padrões de Deus (v.5).
Contudo, não obstante o egoísmo, arrogância, vaidade e presunção (v.6), para o Deus Soberano e Onipotente eles não passavam de meros mortais. Alguém que pretenda ser Deus deve ser imortal, mas eles morreriam como os demais homens, e cairiam como qualquer dos príncipes (v.7). Ademais, os judeus são monoteístas, portanto não interpretavam que os juízes fossem deuses ou Deus. É necessário descobrir em que sentido se aplica a expressão Filho de Deus para o cristão regenerado por Cristo.
3 – Filhos de Deus. Novamente a máxima da Confissão Positiva de que filho de alguém é algo ou alguém em miniaturinha, não procede. A Bíblia afirma que somos feitos filhos de Deus a partir do instante em que recebemos Cristo como nosso Salvador crendo no seu nome (João 1:12). Somos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus (Gálatas 3:26). Os anjos também são chamados de filhos de Deus (Jó 38:7). Na verdade precisamos saber em quê sentido tanto os seres humanos quanto os anjos são chamado de filhos de Deus.
O fato é que em certo sentido somos similares a Deus, pois fomos criados a sua imagem e semelhança. Dispomos das qualidades comunicáveis de Deus tais como justiça, bondade, ira, amor, retidão, etc. Contudo, foi Ele quem compartilhou essas qualidades conosco. Similaridade não é identidade.  Não somos exatas cópias de Deus nem possuímos sua identidade ou natureza.
Os anjos são filhos de Deus por criação (Colossenses 1:16) e os seres humanos por adoção (Gálatas 4:5-7). Nós não possuímos a natureza de Deus.
4 – Jesus como Filho de Deus. No texto de João 10:34,35 Jesus está reivindicando sua unidade e divindade com o Yahweh do Antigo Testamento sob risco de ser lapidado. Jesus se apropria da aceitação escriturística da lei (v.34) por parte dos judeus fanáticos para legitimar sua reivindicação de autoproclamar-se Filho de Deus. Donald Carson no seu livro sobre o Comentário de João interpreta essa passagem assim: “Se há outros a quem Deus (o autor das Escrituras) pode se dirigir como ‘deus’ e ‘filhos do Altíssimo’ (isto é, filhos de Deus), em que base bíblica alguém poderia censurar quando Jesus diz: Sou Filho de Deus?”.
Não somos Deus
Quem diria que pregadores famosos e que outrora foram corretos teologicamente seriam seduzidos pela teologia da Confissão Positiva e Teologia da Prosperidade? Pois é, estão bem diante dos nossos olhos. Devemos nos recordar das sábias e inspiradas palavras do apóstolo Paulo: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” (I Coríntios 10:12). Seguimos em frente, na defesa do verdadeiro evangelho.
Abraço a todos!
Compartilhar:

quinta-feira, 7 de maio de 2015

FILHO DE DEUS É DEUSINHO?


Resultado de imagem para sois deuses


As pessoas que fazem uso de preleções devem tomar muito cuidado ao comparar, ilustrar ou associar algo a alguma coisa. Nem sempre os exemplos, comparações, ilustrações, etc, dão certo ou estão corretos. Tome por exemplo a doutrina da trindade. As Testemunhas de Jeová raciocinam o seguinte: se a soma de 1+1+1=3 a conclusão só pode ser que nessa lógica os cristãos em geral são politeístas, pois adoramos 3 deuses. Pergunto: a comparação desta adição à doutrina da Trindade apoia as Testemunhas de Jeová em seu raciocínio lógico? R: certamente que não, pois podemos dizer também que 1x1x1:1. Ou seja, adoramos um só Deus eternamente subsistente em três pessoas, entenderam?

Pois bem: fazendo uso de analogia e exemplos forçados e incorretos, o pessoal da Confissão Positiva ou Movimento de Fé dizem que, se filho de gato é gatinho, se filho de cachorro é cachorrinho e etc, filho de Deus é um deusinho. O raciocínio parece certo e coerente, não? É... mas não é bem assim. Sabendo disso buscam apoio bíblico para respaldar esta heresia. E supostamente pensam que Salmos 82:1-8 e João 10:31-39 apoiam suas ideias (peço que leia em sua Bíblia).   

Pra começar este pensamento não tem origem no cristianismo e sim na sugestão de Satanás a Eva de que “seriam como Deus” se comessem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 3:5). No mundo contemporâneo podemos afirmar que a origem desse pensamento está no Movimento Nova Era.

Lauro Trevisan no livro Aquarius, A Nova Era chegou, pp.22.23, afirma que a Era de Aquarius “é a descoberta de um Poder Infinito e de uma Sabedoria Infinita, no âmago da criatura humana, ou seja, o homem é um ser divinizado”. Ele afirma ainda: “A maior conquista do homem de Aquarius será a descoberta de Deus no âmago do seu ser. Quando acontecer a comunhão interna entre o eu e o Eu Sou, ou seja, entre o humano e o Divino imanente no humano, a Vida e a Verdade se manifestarão na mais bela plenitude”.

A guru do Movimento Nova Era - Shirley MacLaine – afirma: “Cada um de nós é parte de Deus, experimentando a aventura da vida (“Em Busca do Eu”, Shirley MacLaine, p. 96). E mais: “Somos todos parte de Deus, e Deus é parte de nós. Nada pode ficar entre Deus e nós. “Nós somos um (“Em Busca do Eu”, Shirley MacLaine, p. 73)”.

Os profetas da Confissão Positiva se inspiraram nas mesmas ideias da divinização do homem – presente no Movimento Nova Era – para infestar o cristianismo ortodoxo com a mesma praga herética. Segue abaixo algumas citações dos “profetas”.

Kenneth Hagin assevera: “O homem... foi criado em termos de igualdade com Deus, e poderia permanecer na presença de Deus sem qualquer consciência de inferioridade... Deus nos criou tão parecidos com Ele quanto possível... Ele nos fez seres do mesmo tipo dEle mesmo... O homem vivia no Reino de Deus. Vivia em pé de igualdade com Ele... O crente é chamado de Cristo... Eis quem somos; somos Cristo!”.

Kenneth Copeland declara que “a razão para Deus criar Adão foi seu desejo de reproduzir a si mesmo... Ele [Adão] não era um deus pequenino. Não era um semideus. Nem ao menos estava subordinado a Deus”.

O televangelista John Avanzini afirma que o Espírito de Deus “declarou na Terra, hoje em dia, qual seu propósito eterno por todos os séculos... que Ele está duplicando a si próprio na Terra”.

Morris Cerullo clama: “Vocês sabiam que desde o começo do tempo o propósito inteiro de Deus era reproduzir-se?... Quem são vocês? Vamos lá, quem são vocês? Vamos lá, digam: ‘Filhos de Deus!’ Vamos lá, digam! E aquilo que opera em nosso interior, irmão, é a expressa manifestação de tudo quanto Deus é e tem. E quando estamos aqui de pé, vocês não estão olhando para Morris Cerullo; vocês estão olhando para Deus, estão olhando para Jesus”.

(Todas as citações foram extraídas do livro “Cristianismo em Crise”, Hank Hanegraaff, CPAD)

Só para lembra-los: Morris Cerullo tem “baixado” em nosso país para pregar no programa de certo pastor brasileiro (pregar???). Quer dizer, esfolar o povo de Deus ao pedir ofertas de até R$ 10.000,00. Poderíamos usar, então, a mesma analogia... tiete de Cerullo é um Cerullinho? O que vocês acham?  

Na próxima postagem vamos analisar os dois textos usados pelos “profetas” da prosperidade (Salmos 82:1-8 e João 10:31-39). Aprenderemos que numa analise correta da hermenêutica sagrada, essa ideia simplesmente não existe. Podem tirar o cavalinho da chuva: NÃO SOMOS DEUSES COISA NENHUMA. Essa é mais uma tentativa de causar frenesi no povo de Deus, mas sempre a custa de heresias.

Grande abraço a todos!


  
Compartilhar:

terça-feira, 5 de maio de 2015

UNÇÃO DE MANASSÉS: MAIS UM BEISTEROL "APOSTÓLICO"


Um tal “apóstolo” chamado Agenor Duque afirma possuir a “unção de Manassés”. Esta teria o poder de apagar da memoria das pessoas seus sofrimentos. Segundo ele, foi o pastor Jerônimo Onofre da Silveira (Templo dos Anjos) quem o “ungiu” para “ministrar” as pessoas a tal unção. O modo de aplicar a unção é a seguinte: um pano é colocado na cabeça (ocultando o rosto), esborrifa-se agua no rosto e cabeça, e depois as “palavras mágicas” da “unção” são ditas as pessoas. Após esse ato a pessoa, supostamente, não lembra mais daquilo que a fazia sofrer. É como se ela sofresse um apagão na memória. Creio que há razão de sobra para afirmarmos que tal procedimento não é bíblico nem evangélico.


Em primeiro lugar, está à impetração da tal “unção” de uma pessoa à outra. Não há nenhuma legitimidade, nem a chancela ou aprovação divina nesse ato moderno. Na Bíblia temos, por exemplo, Moisés ungindo Arão e seus filhos para o sacerdócio (Êxodo 28:41), Samuel ungindo a Davi como rei (I Samuel 16:12), o profeta Elias ungindo Jeú como profeta em seu lugar (I Reis: 19:16). Mas em todos os casos a ordem para ungir e a autoridade concedidas aos seus servos partiu do próprio Deus. No caso dos “apóstolos” atuais tudo não passa de mero subjetivismo. Aliás, tais “apóstolos” são especialistas em inventar unções: de Manassés, de Efraim, de Bezaliel, de Anagkazo...

Em segundo lugar, o entendimento de “ungido” ou unção no Novo Testamento é diferente do Antigo Testamento. Não devemos esquecer que o ambiente do Antigo Testamento ou o desenvolvimento histórico e revelacional de Deus à humanidade estavam em progressão e expansão. Portanto, muitos procedimentos teve seu cumprimento em Cristo. Ele é o detentor primacial dos três ofícios – sacerdote, profeta e rei. É O Ungido de Deus (Atos 10:38). Em certo sentido, também, todos os crentes são ungidos, conforme I João 2:27: “E a unção que vós recebestes dele, fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis”. Mas esse texto tem haver com nossas responsabilidades práticas, e não com algum tipo de revestimento para operar sinais e prodígios.

Em terceiro lugar os nomes na Bíblia não devem ser entendidos como poderes místicos com propriedades para abençoar ou amaldiçoar àqueles a quem são dados. Tome o exemplo do nome Manassés. Após o Senhor engrandecer a José no Egito, o agraciou com dois filhos: Manassés e Efraim (Gênesis 46:20). Ao nascer o primogênito José disse: “Deus me fez esquecer de todo o meu trabalho, e de toda a casa de meu pai” (Gênesis 41:51), portanto colocou o nome de Manassés. O nome neste caso revela as circunstancias em que José foi submetido, às suas amargas experiências. Não significa que José esqueceu os seus sofrimentos no sentido de uma espécie de amnésia ou “apagão” de sua memória. Se fosse assim teríamos que entender no próprio versículo citado que ele havia esquecido o que outrora se passara com ele e não se lembrava mais de seus familiares. Isso é um enorme absurdo. No decorrer da história observaremos que José se recorda de todos os seus sofrimentos, sim. Mas agora, ao recordar, ele não sofre mais. Ele possui paz e tranquilidade na alma – até mesmo para perdoar seus irmãos. Não devemos dogmatizar sobre os significados dos nomes na Bíblia. O próprio José recebeu um nome pagão (Zafenate-Panéia), contudo isso não o tornou um descrente no Senhor Deus. Se tudo isso fosse verdade penso que os “apóstolos” deveriam receber a unção de José e não de Manassés!

Por ultimo, ao observar detalhes da aplicação da “unção de Manassés” pelo tal “apóstolo” às pessoas, tudo soa estranho, esquisito, exótico. São práticas que se parecem mais com uma “macumbaria evangélica” do que com a manifestação do poder de Deus para libertar os oprimidos. Trata-se de libertação sem regeneração. Biblicamente deve ser o contrário ou simultâneo. Pra mim os procedimentos são usos de técnicas humanas. Uma espécie de lavagem cerebral ou quem sabe uma confissão positiva antecipada. Que o Senhor nos livre destes “apóstolos” modernos.

No amor de Cristo,  

Compartilhar:

sábado, 25 de abril de 2015

APÓSTOLOS MODERNOS

Resultado de imagem para modern apostles and the prophets benny hinn and othersPresenciamos na igreja evangélica brasileira uma “febre” de líderes se autointitulando “apóstolos e profetas”. Os apóstolos modernos se sentem os verdadeiros ocupantes da cadeira apostólica. Na mente deles este cargo deve ser preenchido, portanto sob nenhuma hipótese pode ficar vazio. Para eles isso é uma questão de origem: se Cristo tinha apóstolos, que por sua vez produziam sinais e milagres (e estes são para os dias atuais), não faz sentido não tê-los hoje. Também buscam recursos da hermenêutica para validar biblicamente suas justificativas. Citam, por exemplo, Efésios 4:11.

O pastor Hernandes Dias Lopes diz o seguinte sobre esse texto:

Jesus tinha muitos discípulos, mas apenas doze apóstolos. Um discípulo é um seguidor, um apóstolo é um comissionado. Os apóstolos tinham de ter três qualificações: 1) conhecer pessoalmente a Cristo (l Co 9.1,2); 2) ser testemunha titular da sua ressurreição (At 1.21-23); 3) ter o ministério autenticado com milagres especiais (2Co 12.12). Nesse sentido, não temos mais apóstolos hoje. Num sentido geral, todos nós fomos chamados para ser enviados (Jo 20.21). O verbo grego apostello quer dizer “enviar”, e todos os cristãos são enviados ao mundo como embaixadores e testemunhas de Cristo para participar da missão apostólica de toda a igreja. Expressamos nossa convicção de que, hoje, uma igreja apostólica é aquela que segue a doutrina dos apóstolos, e não aqueles que dão a seus líderes o título de apóstolos. Francis Foulkes é categórico quando afirma: “A partir da própria definição de apóstolo, é evidente que seu ministério devia cessar com a morte da primeira geração da igreja”.  

A meu ver os apóstolos modernos pensam possuir a terceira qualificação: a produção e realização de milagres. Creio que Deus na sua providencia pode produzir milagres em nossos dias, portanto, creio no milagre da providencia Divina. Mas o milagre ordinário não é mais condição para alguém reivindicar o título de apóstolo. Creio também que o meio usado por Deus na efetuação de milagres é a oração, e não a palavra “profética” proferida pelos lábios seletivos de determinadas pessoas. Desta forma a oração intercessora individual ou coletiva dos crentes pode ser atendida pelo Senhor. Entendo que devemos orar, sim, em favor dos necessitados e dos que estão sofrendo. Mas deve prevalecer a vontade do Senhor e não a decretação profética.

Os apóstolos modernos são extravagantes e apresentam perfis “estranhos” dos apóstolos quando comparados ao de nosso Senhor Jesus Cristo. A começar pelos seus ensinos, tão diferentes. Alguém pode dizer: “Mas eles realizam milagres, certo”? Bom, pra início de conversa os milagres necessariamente não comprovam a veracidade ou proporcionam legitimidade a determinada pessoa ou ministério denominacional. Em segundo lugar, há muita confusão quanto às operações e resultados destes supostos milagres. E por fim estes apóstolos também dizem serem profetas que recebem de Deus a suposta revelação dos problemas das pessoas. O pastor Heber Carlos de Campos afirma que a atitude alguns profetas modernos pode ser de adivinhação, de manipulação mental e, até de hipnose de um público afoito e carente de manifestações espetaculares para crerem.  


Não estou julgando a pessoa dos apóstolos modernos, mas sim os seus comportamentos estranhos quando confrontados com a vida dos verdadeiros apóstolos de Cristo. 

No amor de Cristo,

Compartilhar:
←  Anterior Proxima  → Inicio