terça-feira, 24 de junho de 2014

O DOM DE LÍNGUAS É PARA OS NOSSOS DIAS?

por Gilson Barbosa

Nossas preferencias teológicas não devem servir de norma para a condução da nossa vida espiritual, mas infelizmente isso sempre acontece na discussão de pontos doutrinários polêmicos. O ensino bíblico é deixado de lado, interpretações dúbias são invocadas, experiências espirituais são testemunhadas, e aquilo que deveria ser uma simples conversa entre irmãos descamba em grave discussão pessoal. Presenciamos essa realidade quando o assunto em reflexão é, por exemplo, a experiência pentecostal das línguas estranhas.

Há dois grandes grupos de evangélicos que discordam entre si a respeito da contemporaneidade do batismo em línguas. De um lado estão os irmãos pentecostais; do outro os irmãos denominados de tradicionais - historicamente são chamados de Reformados (devido à ocorrência histórica da Reforma Protestante). Entre os irmãos Reformados há um grupo que não admite em hipótese alguma a ocorrência do dom de línguas nos dias atuais. Outros até aceitam que ele ocorra ainda hoje se a natureza das línguas for a de idiomas estrangeiros. 

O primeiro ponto de discórdia entre os grupos é a natureza das línguas no dia de Pentecostes. Não se discute a realidade do acontecimento, mas que tipo de línguas eram aquelas e qual o verdadeiro objetivo delas. Para os irmãos pentecostais as línguas eram celestiais, sobrenaturais, estranhas sob a perspectiva humana. Para o pentecostalismo moderno as línguas são evidencias da plenitude do Espírito na vida do crente. O batismo em línguas serve para proporcionar poder para o crente vencer uma vida inclinada aos desejos da carne. O crente também adora ou serve melhor e com mais alegria ao Senhor quando é batizado em línguas. Depois da salvação, o batismo em línguas é uma exigência ao crente pentecostal. Não somente isso, mas, trata-se de uma segunda obra e bênção da salvação.

Para os irmãos Reformados as línguas no dia do Pentecostes eram idiomas humanos. Lucas registra em Atos 2:4 que os irmãos “passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem”. A expressão grega para “outras línguas” é heterais glossais, ou, línguas diversas. Nos versículos 6 e 8 o sinônimo de “línguas” é idiomas, ou no grego dialektos.  A tradução Almeida Atualizada redige o seguinte no versículo 8: “E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?”. Foi um acontecimento poderoso, impactante, sobrenatural, mas a natureza das línguas como idiomas humanos é entendida a partir dos seus objetivos.

O primeiro objetivo do dom de línguas é evidenciar a universalidade do evangelho da graça. Estavam presentes nesta festa judaica vários grupos linguísticos para os quais o evangelho foi pregado por meio de línguas que foram dadas milagrosamente. Os “homens piedosos” do versículo 5 provavelmente eram gentios interessados no judaísmo sem serem verdadeiros prosélitos batizados e circuncidados (Russel Shedd). Havia uma mistura de gente - gentios e judeus visitando Jerusalém por ocasião da Festa de Pentecostes. Após listar os diversos grupos Lucas registra: “Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (2:11).

As línguas em Atos 2: 1-13; 10:44-46; 11:16,17 e 19:1-7 funcionaram como evidencia externa da descida do Espírito sobre diferentes grupos, refletindo o progresso do evangelho a partir dos judeus até alcançar os gentios, conforme Jesus determinou em Atos 1:8 (Vagner Barbosa). A primeira finalidade dos irmãos falarem em línguas era a de que a mensagem do evangelho (“as grandezas de Deus”) fosse antecipada a toda a tribo, nação, povo e língua.

O segundo objetivo do dom de línguas foi servir como sinal do juízo de Deus para os descrentes. Paulo escreveu em I Coríntios 14:21,22: “Na lei está escrito: ‘falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor’. De sorte que as línguas constituem sinal não para os crentes, mas para os descrentes”. O apóstolo Paulo faz citação de Isaías 28:11,12. Nos dias de Isaías a situação moral e espiritual de Israel estava caótica. Já que não ouviam mais as ordens do Senhor por meio dos profetas, Deus falaria ao seu povo por “lábios gaguejantes e língua estranha”. Em outras palavras o que Paulo dizia aos irmãos de Corinto era o seguinte: “Assim como no passado o juízo de Deus se evidenciou pela destruição causada por um povo cuja língua era desconhecida aos judeus, assim também o juízo de Deus sobre os judeus incrédulos da época do Novo Testamento se evidencia pela retirada do reino de Deus aos judeus e sua entrega a todos os povos” (Vagner Barbosa).

O terceiro objetivo do dom de línguas é a edificação da igreja. Talvez seja esse o ponto polêmico sobre a contemporaneidade das línguas como dom. Os dois primeiros objetivos são históricos e pontuais, portanto cessaram e não continuam mais depois do período apostólico. Contudo, se quisermos ser honestos com as escrituras, quanto às línguas como edificação da igreja, não temos como provar biblicamente sua cessação após o período apostólico.

Segundo o pastor Augustus Nicodemus Lopes em O Culto Espiritual (Ed: Cultura Cristã) o dom de línguas é dado para edificação dos outros, requer interpretação e, no Novo Testamento, sempre ocorre no contexto de culto comunitário. O que tenho presenciado em cultos pentecostais, quanto a experiências no falar em línguas, está totalmente contra os ensinos paulinos. As igrejas pentecostais modernas incorrem no mesmo erro da igreja de Corinto e parecem não terem aprendido absolutamente nada sobre o ensino de Paulo. Ainda que não entendamos como exatamente o dom de línguas pode vir a ocorrer num culto nos dias de hoje, o uso das línguas no culto pelos pentecostais fere frontalmente o ensino bíblico.

Primazia da Bíblia no culto público

Penso que a Bíblia contém tudo o que a igreja precisa para sua edificação. Por isso a pregação evangélica deve ser fiel ao texto bíblico e a leitura das escrituras deve ter primazia num culto público. Penso também que as línguas com sua exata interpretação eram mais necessárias na igreja do primeiro século do que nos dias de hoje porque as escrituras canônicas estavam em formação e havia relativa necessidade de uma palavra profética da parte de Deus que edificasse a igreja nascente.

Encerro com as palavras do irmão Vagner Barbosa de que se o Senhor tiver algum plano específico Ele pode conceder o dom de línguas à igreja quando quiser, em qualquer período da história e que uma manifestação genuína do dom de línguas sempre deve seguir o padrão revelado pelo próprio Espírito na Escritura Sagrada. E se isso não acontecer não devemos ficar desesperados ou preocupados, pois temos a mais sublime revelação de Deus ao seu povo e aos pecadores: a Bíblia Sagrada. 

Se quiser aprofundamento neste tema sugiro a leitura dos livros: O Culto Espiritual (Ed: Cultura Cristã); Na Dinâmica do Espírito (Ed: Vida Nova) e Teologia do Espírito Santo (Ed: Cultura Cristã).


No amor de Cristo, nosso Senhor. 

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

O DIABO NO SEU DEVIDO LUGAR (BATALHA ESPIRITUAL)



por Gilson Barbosa

“O dia era decisivo na vida do irmão Pedro. Após muitas tentativas, finalmente foi chamado para uma entrevista de emprego. Porém, aconteceram algumas coisas que o deixou muito preocupado. Ele acordou um pouco atrasado e com uma terrível dor de cabeça. Justo naquele dia o ônibus também atrasou. Tinha o endereço da empresa onde faria entrevista, mas se confundiu e após andar por muito tempo foi parar em outro lugar. Pelo caminho tropeçou numa pedra e feriu seu pé. Por fim, Pedro perdeu a entrevista de emprego e a chance de se recolocar no mercado de trabalho. Com todos esses horríveis acontecimentos ele não teve nenhuma dúvida: o diabo foi o causador de todos esses males. Ele estava furioso com o irmão Pedro e resolveu atrapalhar o seu dia, e conseguiu”.

Bem, a história acima é fictícia. Eu a criei para mostrar que milhares de crentes, todo o dia e no mundo todo, agem e pensam como o “irmão Pedro”. Contudo, há nessa “história” alguns detalhes que precisam ser ponderados. Vamos a eles. 

Em primeiro lugar, há muitos evangélicos que entendem a realidade da vida segundo dois princípios fundamentais: o bem e o mal (ou a luz e a treva, o puro e o impuro). Para eles a dualidade do bem e do mal está encarnada e figurada em duas divindades antagônicas que não cessam de combater-se. Ou ainda, que a divindade é o bem, e o mal provêm de entidades demoníacas, inferiores à divindade e em eterna luta contra ela.

Michael Horton em O Cristão e a Cultura (Ed: Cultura Cristã) nota dois problemas com esse tipo de pensamento. O primeiro é a semelhança com o movimento gnóstico que vê este mundo como um campo de batalha cósmica entre forças espirituais cujo destino será decidido pela habilidade de seres humanos com conhecimento e destreza espiritual. Essas pessoas são irmãos que acreditam que um cristão regenerado pode ter demônios, que Satanás e seus demônios dificultam a pregação do evangelho em uma cidade ou nação (“espíritos territoriais”), e que é necessário fazer uma espécie de mapeamento espiritual para “amarrar” os maus espíritos da região. Definitivamente: isso não faz parte do ensino cristão, mas trata-se de puro paganismo.

Concordo com Michael Horton quando disse que Satanás tenta confundir o crente ou diminuir nele a confiança em Cristo; há uma batalha, mas esta é uma batalha pelos corações e pelas mentes e tem a ver com verdade versus erro, fé versus incredulidade, crença em Cristo versus crença em qualquer outra coisa ou pessoa.

Alguém citando II Coríntios 4:4 pode dizer: “mas Satanás é o deus deste século”! Porém, como João Calvino afirmou: “O diabo é chamado o deus deste mundo exatamente do mesmo modo que Baal é chamado o deus daqueles que o adoram ou o cão é chamado o deus do Egito”. Ou seja, o diabo é deus somente nas imaginações dos povos pagãos (I Coríntios 8:5, 6). 

Em segundo lugar, podemos atribuir a Satanás algo que pode ser uma ação da parte do Senhor. O impedimento vindo do Senhor visa benefícios aos seus servos. Lembre-se que o apóstolo Paulo queria pregar o evangelho na Ásia, mas o plano de Deus para ele estava na Europa, portanto, o Senhor não permitiu que os planos de Paulo prevalecessem. Notamos que Paulo em nenhum momento atribuiu este impedimento ao diabo (leia Atos 16:6-10). Na história fictícia do irmão Pedro, quem pode negar que o Senhor poderia ter uma porta de emprego, em certo sentido, melhor para ele? Quem pode negar que o Senhor poderia estar preservando seu servo de algum acontecimento que poderia trazer desgosto no futuro naquela empresa? Só o Senhor sabe. Lembre-se de Isaías 55:8 “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos”.

Em terceiro lugar, não devemos nem superestimar nem subestimar as ações do diabo. Uma dor de cabeça pode ser combatida com uma aspirina. Um erro de endereço pode ser falta de atenção ou planejamento. O tropeção numa pedra pode ser um descuido. Acordar mais cedo pode evitar certas inconveniências no trânsito. Mas muitos preferem atribuir todas as contingências ao diabo. Há igrejas que nos cultos falam mais no diabo do que na obra redentora de Cristo Jesus. Preferem provocar Satanás a adorar a Deus.

Por outro lado há aqueles que não acreditam nem na existência nem no “poder” de Satanás. Quero deixar claro que há sim uma luta espiritual onde Satanás busca atingir os servos do Senhor. Satanás exerce duas atividades principais contra os verdadeiros crentes: a tentação e a acusação. Ele tentou até mesmo o Senhor Jesus e acusou tanto Jó quanto Deus. Ele disse que a justiça de Jó não era sincera, pois advinha do interesse pelos benefícios divinos. Com isso acusou Deus de comprar a fidelidade de Jó com bênçãos terrenas. O diabo é sagaz, atrevido e astuto.

Em quarto lugar, há crentes que imaginam que o mundo é inerentemente mal. Para eles o diabo controla todas as ações do planeta e do universo. Porém, é preciso entender que quando a Bíblia diz que “o mundo inteiro jaz no Maligno” (I João 5:19) refere-se a homens e mulheres em estado de rebeldia contra o Senhor. São pessoas escravizadas voluntariamente ao diabo, pois fazem seus desejos (João 8:44).

É necessário também compreender que somente Deus é soberano. Seus propósitos e objetivos não podem ser frustrados (leia Daniel 4:34-37). É o Senhor Deus e não Satanás quem controla e governa o mundo. O profeta Isaias (46:10) afirma que o conselho do Senhor permanece de pé e toda a Sua vontade é executada. Nada acontece sem a permissão do Senhor. Até mesmo as ações de Satanás só acontecem por permissão divina. Lutero dizia: “O diabo é o diabo de Deus”.

Em sexto e ultimo lugar, não podemos atribuir nossos próprios pecados a ação diabólica. Muitos pecam e depois dizem: “O diabo me fez pecar”. O irmão Vagner Barbosa diz o seguinte sobre isso:

Toda a ênfase em Satanás e nos demônios tende a nos distrair de outra ameaça muito real: nosso próprio pecado. Sim, o diabo existe. Os demônios também. Mas há também a realidade do pecado. Satanás pode ser nosso cumplice no pecado contínuo, mas não podemos passar a culpa e a responsabilidade por nosso pecado a um demônio controlador.

Ainda nessa linha de pensamento outros atribuem aos demônios uma lista intensa de pecados: prostituição, imoralidade, ciúme, inveja, alcoolismo, seitas, ira, assassinatos, corrupções e vários outros. Em algumas reuniões evangélicas é normal expulsar o espírito da mentira, da prostituição, de morte, etc. A Bíblia tem outro nome para os tais “espíritos”: obras da carne (leia Gálatas 5:16-21). São atitudes carnais, provenientes de pessoas não regeneradas ainda.

Que o Senhor nos ajude a termos discernimento espiritual para detectamos a fonte das nossas dificuldades. Não dê ibope ao diabo, mas não ignore suas artimanhas (Tiago 4:7; Efésios 6:10-17). Concentre-se no poder de Cristo Jesus para o fortalecimento da fé cristã. Você precisa saber que a derrota de Satanás foi proclamada pelo Senhor desde o início do mundo (Genesis 3:15; Romanos 16:20). Amém?

No amor de Cristo, 

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domingo, 8 de junho de 2014

NEM TODOS SÃO FILHOS DE DEUS



por Gilson Barbosa

Antes de alguma partida de futebol é muito comum os jogadores, ainda nos vestiários, repetirem a oração do “Pai Nosso”. Trata-se de uma oração certamente conhecida tanto por cristãos quanto por não cristãos no mundo inteiro. Mas, sem nenhum medo de errar afirmo que essas pessoas não conhecem ou entendem o real sentido desta oração. Elas fazem a oração pensando que trará algum tipo de benefício material ou físico, como se fosse uma espécie de mágica ou amuleto. Ela se tornou um mantra.

No contexto histórico-bíblico esta oração é extremamente importante, pois foi a única ensinada pelo Senhor Jesus (Mateus 6:9-13). É uma oração modelo que todos os cristãos devem usar. E, em si mesma não é errado fazermos esta oração recitando-a num culto ou num outro evento religioso. O mais importante é compreendermos que há na oração do “Pai Nosso” certos elementos, princípios, implicações e significados para nossas vidas.

A oração pode ser dividida em três partes: invocação, petições, e conclusão. Neste momento gostaria de falar sobre a primeira parte que é “Pai Nosso, que está no céu”.
   
O primeiro ensinamento é que nem todos possuem o direito de chamar Deus de Pai. Em outras palavras, nem todos são filhos de Deus. Há um ditado popular que diz “não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”. Respeito toda a carga de emoção por trás dessas palavras, mas biblicamente não tem nenhum valor. Num certo sentido Deus até pode ser considerado Pai de Todos quanto a ser o Criador e Sustentador do universo. No entanto, o sentido da expressão Pai, na oração, invoca o conceito de redenção e esta só é possível àqueles que creem em Jesus como seu único e suficiente Salvador. O apóstolo João escreveu: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (1:12). E de que modo acontece a filiação divina?

O mesmo apóstolo afirma que a obra da salvação é realizada pela soberana e graciosa vontade de Deus e não por meio de descendências humanas, pelo esforço humano ou pela vontade própria das pessoas (1:13). Dizer-se filho de Deus é expressar algo que não compete ao ser humano, no aspecto redentivo. Se não for por meio da obra mediadora e redentora de Cristo Jesus ninguém pode ser considerado filho de Deus. Para isto acontecer, temos que ser adotados por ele. Não é a criança, na iminência de ser adotada, que escolhe seus futuros pais, mas o contrário.

Já o apóstolo Paulo diz que a adoção é recebida, e por meio dela Deus nos aceita e nos recebe como Pai amoroso. Não somos nós que aceitamos a Cristo, é ele quem nos aceita e por esse instrumento (a adoção) passamos de escravos a filhos: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos [...] de sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus” (Gálatas 4:4,5,7).

Como disse acima, ainda que as pessoas se dirijam a Deus como seus filhos, a legitimidade desse fato só acontece por meio da obra redentora de Cristo, efetuada na cruz do Calvário. Daí segue-se que nem todos são “filhos de Deus”, visto que, muitas dessas pessoas não creem em Cristo como Salvador e Senhor. Certa feita Jesus disse aos judeus que, na verdade, eles eram filhos do Diabo: “Vós sois do Diabo, que é vosso pai, e querei satisfazer-lhes os desejos”. No cotidiano as pessoas cometem todo o tipo de pecado, buscam satisfazer os desejos da carne, e depois ainda dizem serem filhos de Deus!

O segundo ensinamento é que Deus não ouve a oração de todos, mas somente dos seus filhos. Estes são pessoas adotadas por Cristo: “E, porque sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gálatas 4:6). A expressão Aba significa “papai” ou “paizinho”. Os judeus não oravam chamando Deus de “papai” ou “paizinho”. Mas nesta oração o Senhor Jesus ensina seus discípulos a chamar Deus de Pai. O salmista afirmou: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem”. Note que o salmista diz que os que temem ao Senhor é fruto da sua compaixão e cuidado, portanto, é necessário que essa pessoa seja regenerada por Cristo e assim faça parte da família de Deus (Efésios 3:15). Isso demonstra o cuidado amoroso de Deus com os seus filhos.

Do lado contrário, Jesus em sua oração sacerdotal não orou por todos, mas apenas aos que o Pai lhe confiou (João 17:6). Ele disse: “É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aquele que me deste, porque são teus” (João 17:9). O sacrifício supremo de Cristo não foi em favor de todas as pessoas, mas para aqueles que creram em Cristo para sua salvação (João 17:19). Mais a frente ele diz que nem todos creram na sua palavra e não o reconheceram como o Messias prometido (João 17: 25). A obra de redenção realizada por Jesus refere-se particularmente aos eleitos – aqueles que o Pai lhe deu (Bíblia de Estudo de Genebra). Isso está ilustrado na oração sacerdotal de Jesus. Somente aqueles que estão num relacionamento com Deus, como filhos adotivos (Romanos 8:14-17), são ouvidos por Ele.

O terceiro ensinamento é um alerta quanto à maneira displicente que podemos nos dirigir a Deus na oração. As palavras “Pai Nosso que está nos céus” destacam a imanência e a transcendência de Deus. Ele está tanto perto (o que indica intimidade) quanto distante (indica que devemos nos reportar á Ele com humildade e reverencia) de nós. Muitas pessoas se aproximam de Deus com palavras que caracterizam banalidade e falta de reverencia. Já ouvi muitos chamarem Deus de “fofinho”; musicas tratam Deus como “o cara lá de cima”. Penso que os usos de tais expressões são inapropriados e não são autorizadas conforme o ensino de Jesus. É necessário ter humildade e reverencia na oração.  

Por fim, apesar de ser soberano e excelso Deus ouve a oração dos seus filhos e atende as petições que estão conforme sua vontade. Não considere essa reflexão grave ou severa demais, como se faltasse compaixão humana a todos os pecadores. Atente para o fato de que a continuação da oração até sua conclusão exige uma postura que pecadores rebeldes não possuem nem possuirão. Resumindo: no sentido da Criação Deus pode até ser Pai de todos, mas no conceito da Redenção, nem todos são filhos de Deus.


Com amor, 
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sábado, 31 de maio de 2014

NÃO USE A FÉ COMO AUTOAJUDA

por Gilson Barbosa

Influenciados pelo movimento da “confissão positiva” (popularmente conhecida como “teologia da prosperidade”), inúmeros evangélicos tem se afastado do verdadeiro sentido de fé, nas escrituras.  A fé deles bem pode ser chamada de autoajuda, otimismo, motivação. Preciso dizer que não sou uma pessoa pessimista e afirmo que em certo sentido devemos manter uma atitude positiva em relação a muitas coisas na vida. Porém quando misturamos fé evangélica com questões humanas e seculares, sempre distorcemos o real sentido que a Bíblia atribui à fé.

As empresas, por exemplo, precisam injetar em seus funcionários uma boa dose de otimismo e motivação. Até aí tudo bem. O negócio começa a criar ares de gravidade quando o ser humano é instado a refletir sobre sua condição de quase um semideus. O amor a si próprio, que é legítimo (leia Marcos 12:31), é transformado numa idolatria humana. Tudo isso para que a pessoa se sinta capaz de conquistar metas cada vez maiores e obter sucesso. A pessoa passa da sadia avaliação de sua autoimagem a uma adoração do seu próprio eu. Creio que um crente envolvido nesse contexto deve ter muito discernimento para não aceitar essa metodologia como advinda da parte de Deus. O grande equívoco do ser humano tem sido a de buscar sua própria autonomia. Infelizmente muitas igrejas utilizam os mesmos métodos empresariais de motivação e autoajuda para dinamizar seus membros.

Os líderes da “teologia da prosperidade” dizem até mesmo que não devemos orar tendo como perspectiva a vontade de Deus, pois isso caracteriza falta de fé ou dúvida. Na oração não devemos usar a expressão “se for da tua vontade”. Kenneth Hagin disse o seguinte:

Quando oro uma “oração para receber algo da parte de Deus”, não posso colocar um “se” no meio e ainda esperar que algum dia receberei uma resposta. Nesse tipo de oração, o “se” indica a descrença – “se” é o distintivo da dúvida.

Parece que Hagin não leu sobre a afirmação dos três jovens hebreus (Sadraque, Mesaque e Abede-Nego) diante da ameaça do rei Nabucodonosor de que se não adorassem a imagem construída para sua própria honra seriam lançados na fornalha ardente.  Diante da terrível ameaça de morte eles responderam ao rei usando a condicional “se”:

Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste. (Daniel 3:17,18)

O próprio Jesus orou ao Pai suplicando que a sua vontade fosse feita: “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10). É claro que devemos orar com fé, mas a fé tem que ter como fundamento a vontade de Deus. Com essa petição, “faça-se a tua vontade”, o Senhor Jesus está ensinando aos seus discípulos a dependerem inteiramente da graça de Deus. Muitos irmãos exercem a fé na oração apenas no sentido de se beneficiarem das bênçãos materiais que podem advir da parte de Deus. Entretanto, isso pode não estar dentro da vontade de Deus para nós. Ademais, Deus não está preocupado nem interessado em dar carrões de luxo, roupas de grife, mansões com piscinas, ou coisas do gênero, para seus servos. Afirmar isso é uma grande besteira. É só analisar a vida dos apóstolos e profetas e veremos que nunca essas coisas passaram pela mente de Deus.

O Dr. Wendel Lessa declara que “fé no contexto religioso contemporâneo, é apenas um sentimento subjetivo que deve ser confirmado com realizações factuais e concretas no dia a dia”. Ou seja, é algo compreendido no íntimo de cada indivíduo. Ele continua dizendo que “a validade da fé depende do quanto ela é demonstrada objetivamente por meio de ‘bênçãos’ materiais, concretas e numeráveis”. Essa atitude lança culpa nos irmãos que estão passando por diversas dificuldades. O problema está em não possuírem fé suficiente.

Aliás, os proponentes da “teologia da prosperidade” asseveram que devemos ter a fé do tipo de Deus. A “base” para esse entendimento advém da história em que Cristo amaldiçoa a figueira por causa da falta de fruto. Leiamos Marcos 11: 20-23:

E, passando eles pela manhã, viram que a figueira secara desde a raiz. Então, Pedro, lembrando-se, falou: Mestre, eis que a figueira que amaldiçoaste secou. Ao que Jesus lhes disse: Tende fé em Deus; porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele.

O conceito de fé de Kenneth Hagin é: “uma força que cria a realidade”. Segundo ele Deus criou o homem e o mundo, por um ato de sua própria fé. Deus trouxe à existência aquilo que desejava em sua mente por meio da fé. Isso é um absurdo. Em primeiro lugar porque o texto bíblico diz “tende fé em Deus”, e os gramáticos afirmar não ser possível traduzir por “tende a fé do tipo de Deus”. Em segundo lugar causa estranheza dizer que Deus tem fé naquilo que vai fazer. Deus é soberano, todo sábio, onipotente e não faz sentido ter que usar a fé para criar qualquer coisa que desejasse.

Segundo a Escritura Sagrada a fé bíblica “é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hebreus 11:1). A fé não é uma substância. Ele não crê em coisas absurdas que não existem. As expressões são bem claras: “coisas que se esperam”, “convicção de fatos”. O mais importante da fé está no seu objeto. Quem é o objeto da fé? Cristo? Deus? Muitos têm feito da própria fé objeto da fé. É o que os teólogos afirmam ser a “fé na fé”. Esse tipo de exercício não é a fé nas promessas de Deus ou nos seus planos, mas a fé no que eu posso ter, conquistar, realizar. Esse pensamento é tanto extrabíblico quanto antibíblico.

Não sou contra os irmãos que gostam de usar frases positivas, otimistas, que expressam confiança. Sou desfavorável a usarem isso como se fossem doutrinas bíblicas ou que se esqueçam de que Deus nem sempre nos livra de sofrimentos ou dificuldades. Ele nem mesmo tem a obrigação de nos isentar de tais sofrimentos. A obrigatoriedade da fé para a conquista de bênçãos terrenas tem levado muitos irmãos a um sentimento de fracasso espiritual e de culpa. Por outro lado outros se consideram mais espirituais por terem conseguido algo que atribuem a resposta de Deus para suas orações. Nem uma coisa nem outra. O que prevalece é a vontade de Deus. Muitos personagens bíblicos não tiveram suas orações ouvidas ou desejos atendidos pelo Senhor. Pense nisso e não ficará frustrado.

Não apoie sua fé nas circunstancias temporais. Nem por isso desanime ou desista dos seus objetivos. Continue aprimorando suas habilidades para obter sucesso no seu trabalho, na escola e até mesmo na igreja. Continue orando para que o Senhor abra as portas que aparentemente estão fechadas para você. Mas, sobretudo dependa totalmente do Senhor em todas as coisas e atribua louvor a Ele quando tudo concorrer para o seu bem. Não confie em você mesmo. Não use a fé como instrumento de conquistas terrenas.


Com amor, 
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quinta-feira, 22 de maio de 2014

A VONTADE DO SENHOR NA ORAÇÃO

por Gilson Barbosa

Muitos irmãos não entendem a relação entre a oração e a vontade de Deus, o que acaba gerando confusão. Pensam que a vontade do Senhor pode ser alterada pela oração. Porém, no final das contas, esse entendimento acaba transferindo automaticamente o mérito da resposta à pessoa que ora e desconsidera os planos imutáveis do Senhor para nossa vida. Muitos dizem: “a oração tem poder!”. E é verdade. Mas será que não estamos afirmando isso somente porque o Senhor diz SIM às nossas orações? E quando as orações não são respondidas como queremos? Submetemo-nos a vontade do Senhor, ou ficamos incomodados?

Em primeiro lugar deve ser dito que a oração é um mandamento. O apóstolo Paulo disse aos irmãos tessalonicenses: “Orai sem cessar” (I Tessalonicenses 5:17). Ou seja, o crente deve orar sempre e não apenas nos momentos de dificuldades ou de decisões em sua vida. Jesus ensinou uma oração modelo (Mateus 6:9). A oração é um dos meios deixado pelo Senhor aos seus filhos, na concretização dos seus planos. Ela faz parte da providencia divina. O mesmo Deus que determina o final de um acontecimento determina o meio para se chegar ao resultado pretendido. Por isso é que muitas orações não são respondidas – não estão de acordo com a vontade do Senhor.

Em segundo lugar a oração não muda a vontade do Senhor para nossas vidas. Parece estranho dizer isso, mas é a realidade. Segundo Paulo a vontade do Senhor possui três características; ela é boa, agradável e perfeita: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).  A forma como o Senhor responde nossas orações é muitas vezes incompreensível a nós. Mas acontece que Ele tem total direito de responder sim ou não as nossas orações; e se ele é soberano, pode até mesmo se silenciar. Podemos ler sobre isso em Isaías 38:1-8. O rei Ezequias diante de uma enfermidade mortal orou ao Senhor pedindo sobrevida e teve sua oração respondida – o Senhor lhe acrescentou mais 15 anos. Mas precisamos entender que essa sobrevida dada pelo Senhor possui dois fundamentos: 1º) ela já constava nos planos de Deus para a vida de Ezequias, e 2º) foi motivada pela atitude de mudança de comportamento do rei. Não foi porque o Senhor teve pena de Ezequias. Não foi o Senhor que alterou seus planos, foi Esequias que mudou de postura ao arrepender-se de seus pecados e pedir misericórdia ao Senhor. Nossa oração não convence o Senhor a fazer algo que Ele não faria caso não orássemos.

Não podemos jamais desconsiderar a vontade do Senhor e os seus planos. Segundo afirmou nosso Senhor Jesus, a vontade de Deus deve prevalecer em nossas vidas, assim como prevalece no ambiente celestial (Mateus 6:10). O apóstolo Paulo orientou os irmãos efésios para que se esforçassem em compreender a vontade de Deus, e afirmou que não entender a vontade do Senhor é ser insensato: “Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Efésios 5:17). O irmão Vagner Barbosa asseverou que “a preocupação de quem ora deve ser a de procurar harmonizar sua própria vontade e sua oração com a vontade de Deus” – este é o desafio para cada um de nós.

Em terceiro lugar, não devemos orar apenas por coisas que não sabemos. Devemos orar por coisas que nos são óbvias. Devemos orar pela vinda de Cristo, por exemplo. É o que o apóstolo João registrou em Apocalipse 22:17,20: “O Espírito e a noiva dizem: Vem!”; “Amém! Vem, Senhor Jesus!”. A expressão “Maranata” trata-se de uma oração. Orar mencionando as promessas objetivas das escrituras e lembrando os atos poderosos de Deus é animador e encorajador. Na oração do Pai Nosso o Senhor Jesus nos ensina a orar pedindo a Deus que o seu reino seja implantado (Mateus 6:10). Orar pela realização do cumprimento das doutrinas bíblicas em nossa vida faz esquecer nós mesmos e pensarmos especificamente em Deus e sua grandeza. Todavia, não devemos nos apossar de promessas bíblicas que já tiveram seu cumprimento ou que são específicas a um acontecimento histórico.

Em quarto lugar, existem certos acontecimentos que o Senhor nem permite nem proíbe, e orar por cada um deles demanda grande atividade mental. Por exemplo, orar para trocar de casa, mudar de emprego, comprar um determinado carro, fazer uma prova de concurso, etc. São decisões que estão unidas a um conjunto de disciplinas coletadas e experimentadas ao longo da vida do indivíduo e que o Senhor pode muito bem não fornecer nenhum tipo de resposta ou algum sinal. Nem por isso não podemos orar por essas coisas. Só não podemos ficar atribuindo todos os mínimos detalhes das nossas decisões ao Senhor, pois pode ser que nossas decisões podem se mostrar equivocadas no futuro, e como atribuir esse mal resultado a um Deus sábio e perfeito.

Por ultimo, há propósito na oração. Ela é um meio deixado pelo Senhor para a concretização dos seus planos. Mas temos que ser sábios e sensatos. Quando o Senhor diz “sim” ou “não” as nossas orações é porque essa resposta já constava nos seus planos. Deus não muda o que ele decretou. Se você é daqueles que imagina o Senhor somente aprovando suas orações e respondendo todas como você quer, cuidado! Você pode ficar desapontado. Não temos soluções para alguns de nossos dilemas, sinto muito em lhe dizer isso. O Senhor há muito tempo atrás deixou bem claro por meio do profeta Isaías (55:8, 9) o seguinte: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos”.


Com amor, 

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sexta-feira, 16 de maio de 2014

ELEIÇÃO E REPROVAÇÃO: DOUTRINA QUE ASSUSTA

Por Gilson Barbosa

As doutrinas da eleição e reprovação divinas são bíblicas. Estão contidas em um corpo maior da Teologia Sistemática: a doutrina da providencia de Deus. A grande maioria dos evangélicos na intenção de “livrar Deus da culpa de lançar pecadores no inferno” costumam afirmar que essas doutrinas estão fundamentadas na presciência de Deus. Ou seja, Deus elege ou reprova com base na futura escolha do pecador. Primeiro o pecador aceita ou escolhe a salvação, em seguida Deus o predestina. Obviamente esse entendimento não tem nenhuma base bíblica. Vejamos.

1 – Os planos de Deus, chamado também de Decretos, são fundamentados a) em sua sabedoria, bem como afirmou o salmista (104:24): “Que variedade, SENHOR, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas”; b) em sua soberania, pois ele não precisa da nossa opinião humana para a realização de sua vontade: “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?” (Romanos 11:34); c) são realizados no tempo histórico; d) são incondicionais, ainda que o Senhor não dispense os meios para a realização do seu plano.

2 – Desde o início a raça humana foi dividida em dois grupos. Os descendentes da semente piedosa e temente ao Senhor – proveniente de Sete: “Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou. A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Genesis 4:25,26). E os descendentes de Caim (leia Genesis 4:17-24).

3 – Deus escolheu a nação de Israel para ser sua propriedade exclusiva. Sabemos que havia outras nações naquele tempo, mas o Senhor em seu infinito poder e soberania elegeu Israel para ser seu povo: “Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra” (Deuteronômio 7:6). A escolha do Senhor por Israel não aconteceu por algum mérito desta nação: “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos” (Deuteronômio 7:7). Mas, o Senhor a escolheu com base em seu amor e sua aliança feita com os patriarcas: “mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais” (Deuteronômio 7:8).

4 – Indivíduos da linhagem piedosa foram escolhidos para realizar a obra do Senhor.  Fundamentado em quê, Deus escolheu Abrão ainda em Ur dos Caldeus? “Então, Josué disse a todo o povo: Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Antigamente, vossos pais, Tera, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a terra de Canaã” (Josué 24:2,3). Por que o Senhor não escolheu Ismael como filho da promessa? “Deus lhe respondeu: De fato, Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe chamarás Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência. Quanto a Ismael, eu te ouvi: abençoá-lo-ei, fá-lo-ei fecundo e o multiplicarei extraordinariamente; gerará doze príncipes, e dele farei uma grande nação. A minha aliança, porém, estabelecê-la-ei com Isaque, o qual Sara te dará à luz, neste mesmo tempo, daqui a um ano” (Genesis 17:19-21).

Por que, dos filhos de Isaque, Deus escolheu Jacó? “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (Romanos 9: 11-13).  

Notamos ainda que Deus escolheu a tribo de Judá, de onde viria o Messias (Genesis 49:10). José como governador do Egito para preservar o povo do Senhor (Genesis 45:7). Moises para ser o mediador da velha aliança (Êxodo 3:10). Levi para o sacerdócio (Deuteronômio 18:1,5). Saul e Davi para o trono em Israel (I Samuel 10:24; II Samuel 6:21). Paulo como apóstolo e missionário (Gálatas 1:15). Profetas, tais com Isaías (capítulo 6) e Jeremias (capítulo 1).

5 – O Senhor escolhe indivíduos para serem abençoados. Jesus comentou sobre o fato de que o Senhor, por meio do profeta Elias, providenciou alimento apenas para a viúva de Sarepta de Sidom (Lucas 4:25,26) e curou apenas Naamã de Lepra (Lucas 4:27). Dentre muitos outros que precisavam de cura no tanque de Betesda, o Senhor curou apenas um paralítico (João 5: 2-9). 

6 – O Senhor rejeita indivíduos. Na perdição de Judas: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura” (João 17:12). No abandono dos gentios: “Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração” (Romanos 1:24). Nos vasos de ira preparados para a perdição: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição” (Romanos 9:22). Na escolha de Cristo para servir como pedra de tropeço e rocha de escândalo: “Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (I Pedro 2:7,8).

Católicos romanos e arminianos juntos numa mesma antropologia

Em todos esses exemplos Deus é soberano e poderoso em seus decretos. Não temos o direito de questionar os planos do Senhor, por mais que pareça humanamente ilógicos ou absurdos: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Romanos 9:20,21).

Percebemos também nesses exemplos que não há nenhuma condição imposta externamente para que o Senhor eleja ou reprove indivíduos ou nações. Isso por si desconstrói a tese de que a eleição ou rejeição (também conhecida como preterição) sejam baseadas na presciência de Deus. Em Deus não há contradição nem confusão de seus atributos. Arminianos e católicos romanos enfatizam não uma teologia bíblica, na questão do tratamento de Deus com os homens, mas uma antropologia humanista. Que o Senhor nos ajude para darmos somente a Ele a devida glória.


Com amor, 
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