sábado, 27 de julho de 2013

DISCIPULANDO OS FILHOS

Por Gilson Barbosa

A igreja é (ou pelo menos deveria ser) o local onde o pecador tem a oportunidade de ao ouvir a proclamação do evangelho ser confrontado em seu pecado pela Palavra de Deus e render-se aos pés de Cristo. Jamais imaginamos que o mesmo caso também se aplica aos nossos filhos. Tendemos a admitir a salvação dos nossos filhos por procriação ou caso hereditário. Porém, o evangelista João (1:12,13) afirmou:

“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, ou seja, aos que creem no seu Nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” [meu grifo].

A nota da Bíblia King James explica que “A expressão grega plural ex haimatõn ‘dos sangues’ indica que o nascimento espiritual é um dom de Deus, concedido a cada crente, em especial, e não pode vir por descendência humana nem pelo cumprimento de qualquer ritual de iniciação à religião”’.

CRIANÇAS SÃO POR NATUREZA PECADORES

Mesmo as crianças não escaparam do efeito da queda. Esse é o principal motivo que lançam aos pais a responsabilidade de educar e discipular seus filhos com o objetivo de que eles amem e sirvam ao Senhor. O Dr John Murray disse o seguinte a esse respeito:

“[...] até as recém nascidas, necessitam de ser limpas do pecado, tanto de sua corrupção quanto de sua culpa. Crianças não ficam pecadoras depois de crescidas ou durante o processo de crescimento. Elas são concebidas em pecado e são conduzidas em iniquidade. Isso remonta ao ventre materno. Ninguém que esteja consciente da realidade do seu pecado se lembra de quando veio se tornar um pecador. Sabe-se que não foi por qualquer decisão ou ato deliberado de sua parte que se tornou pecador. Sabe-se que fora sempre pecador. Certamente que reconhece que essa pecaminosidade inata e intrínseca foi se agravando, e repetidamente se expressando em atos voluntários de pecado. Portanto, é a pecaminosidade inerente e agravada que se expressa em seus atos voluntários de pecado. Além disso, nenhum arguto observador do crescimento e desenvolvimento humano, desde a infância até à fase adulta, vai se lembrar do determinado ponto em que o pecado começou a apossar-se do seu coração, interesses e propósitos”.

AGENTES DE DISCIPULADO

Está claro que tanto a igreja local quanto os pais devem ser os agentes principais de discipulado na vida de seus filhos. O apóstolo Paulo aconselhou os efésios (6:4): “E vós, pais, não provoqueis a ira dos vossos filhos, mas educai-os de acordo com a disciplina e o conselho do Senhor [meu grifo].” O exegeta William Hendriksen comenta que “a disciplina, da qual Paulo trata, pode ser descrita como uma educação mediante regras e normas, recompensas, e se for necessário até mesmo uma repreensão severa. A expressão “conselho” (ou admoestação) é a ação formativa por meio da palavra falada, podendo ser ela de ensino, advertência ou alento. E por fim tanto a disciplina quanto a admoestação deve ser “do Senhor”. Essas ações são de natureza espiritual e não está relacionada à questão de educarmos socialmente ou moralmente nossos filhos. A educação cristã deve ser de tal forma que o próprio Senhor a aprova. 

No entanto, a tarefa de discipular os filhos para que glorifiquem e sirvam ao Senhor não pode ser exclusivo das igrejas locais, pois muitas já não pregam um evangelho autentico e substituíram a simplicidade da proclamação do evangelho por entretenimento e diversas outras atrações que no final das contas não produzirá o efeito correto. Há muitos jovens decepcionados com a igreja e consequentemente deixaram totalmente de praticar a sua fé. Urge, então, que tanto os pais quanto a igreja atentem ao fato de que nossas crianças devem ser discipuladas e educadas nos caminhos do Senhor. E quem tem a melhor oportunidade para influenciá-los para o reino de Deus são seus pais. 

AS DIFICULDADES

No processo de discipular os filhos nós encontraremos muitas dificuldades. Sentiremos que somos imperfeitos, e, portanto, que somos incapazes de exigir deles alguma coisa. É necessário reconhecermos que somos pecadores e que estamos num processo de aprendizagem e amadurecimento. O apóstolo Paulo nos remete ao fato de que em certo momento da nossa vida vamos abandonar o nosso jeito infantil de pensar e agir (I Coríntios 13:11-13). Mas mesmo assim temos de admitir que somos falhos e carecemos da bendita graça do Senhor para discipularmos nossos filhos com amor. Nossa intenção não deve ser a de educar nossos filhos para nós mesmos, mas para que eles sirvam ao Senhor de todo o coração.      
   
Com a responsabilidade de discipular seus filhos os pais precisam primeiro aprender para depois ensinar. Ensinarão o quê aos filhos se não sabem nem mesmo para si? É necessário que os pais saibam conversar com seus filhos sobre:

- o evangelho verdadeiro e bíblico. Informe que infelizmente há muitos evangelhos falsos. Porém, cuidado para não enfatizar demais o aspecto negativo. Não poupe dizer ao seu filho que 1) Deus é Soberano sobre todas as coisas, que o evangelho pertence a Deus e que a salvação é proveniente Dele (Apocalipse 7:10; Efésios 1:3,4); 2) o ser humano rejeitou o governo soberano e santo de Deus (Romanos 3:10-12); 3) Jesus, o eterno Filho de Deus, veio salvar os pecadores (I Timóteo 1:15; Apocalipse 5:9,10); 4) para seguir a Cristo é necessário abandonar os pecados, aceitar a lei de Cristo e confiar Nele completamente para o perdão de pecados.

- a história bíblica aponta para Deus e não meramente seus personagens. Ler a Bíblia para extrair suas “lições de vida” põe muito em foco o leitor. Todavia a verdadeira história da Bíblia tem a ver com seu Autor.

- as grandes verdades sistemáticas da Bíblia. Os teólogos dividiram o ensino da Bíblia em classes gerais de verdade que são: a Palavra de Deus; o caráter de Deus; a natureza humana e o pecado; a pessoa de Jesus;  a obra e o ministério de Jesus; a pessoa e a obra do Espírito Santo; a salvação; a igreja; as ultimas coisas.

- A grande comissão. É importante que nossos filhos vejam o coração missionário de Deus para com o mundo, e entendam que Deus é glorificado por meio de nosso testemunho fiel. Deus quer nos usar para alcançar os eleitos.

- As disciplinas espirituais. Deus não salvou para “ficarmos deitados em berços esplêndidos”. Paulo escreveu à Timóteo: “Exercita-te, porém, na piedade” (I Timóteo 4.7b). É primordial que ensinemos aos nossos filhos as disciplinas básicas da vida cristã e suas raízes bíblicas. As disciplinas básicas para a vida cristã reúne cinco disciplinas básicas: estudo da Bíblia, oração, adoração, serviço e mordomia cristã.

- a vida cristã. A vida cristã diz respeito à nossa caminhada diária na fé. Alguns temas são: perdão, pureza sexual, criação de filhos, casamento, família e decisões certas.

- a cosmovisão. É a lente por meio da qual interpretamos tudo o que aprendemos e vivenciamos. Ela é importante para ajudar nossos filhos a analisar a informação cultural que absorvem diariamente.

Como se preparar para isso?

- Deve ter conhecimento bíblico. Portanto, comprometa-se a ler a Bíblia inteira no mínimo uma vez.

- Leia bons livros que tragam edificação e conhecimento.

- Comprometendo-se com uma igreja fiel na pregação expositiva e sólido ensino teológico.

- Recicle sua aprendizagem sempre. 

ÁREAS NO DISCIPULADO DA FAMÍLIA

A tarefa de discipular os filhos consistem em repetição e rotina. Moisés exortou o povo de Israel: “Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em  quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões”. O discipulado é mais eficaz quando a prática é integrada ao ritmo da vida diária. Por isso temos de aplicar a Palavra de Deus a todos os aspectos da vida de nossos filhos, aproveitando cada oportunidade para transmitir à eles a sabedoria e a cosmovisão da Bíblia. Isso pode ser aplicado nas três áreas principais:

- Primeira área: o lar. O lar certamente é o lugar mais importante para a maioria das famílias e onde passamos o maior tempo juntos, por isso, pode e deve ser um lugar seguro para discutirmos verdades espirituais profundas. Algumas situações domésticas que oferecem oportunidades de discipulado são:

            - as refeições; o momento de disciplinar os filhos; na hora de dormir; no culto doméstico.

- Segunda área: a sociedade. Muitos cristãos professos não tem relacionamentos verdadeiros com não crentes. Se queremos discipular nossos filhos, não podemos afastá-lo da realidade de um mundo perdido. Muitos de nós achamos que isolar nossos filhos do mundo secular é essencial para a pureza moral e espiritual deles. No entanto, a Bíblia não nos orienta a criarmos os filhos trancados em comunidades cristãs

- Terceira área: a igreja. A Igreja local e os pais no lar devem ser parceiros no discipulado dos filhos. Os pais podem fazer isso...

            - assumindo compromisso com sua igreja local; participando junto com os filhos no culto; ame sua igreja e evite certos comentários em casa.

É NECESSÁRIO DISCIPULAR

No Antigo Testamento os filhos dos fiéis eram inclusos na aliança de Deus com seu povo. Deus fez um pacto com Abraão, envolveu seus filhos na aliança e ordenou que fossem circuncidados (Gênesis 17:9-14). A circuncisão era o sinal da fé que Abraão tinha e uma prática que deveria ser obedecida (Romanos 4:3-11; Gênesis 15:6; Gênesis 17:23-27). A persuasão que a igreja de hoje é a continuação da Igreja do Antigo Testamento faz com que algumas delas substituam a prática da circuncisão pelo batismo infantil. Trata-se de um compromisso dos pais com a aliança e do desejo de verem seus filhos crescerem nos caminhos do Senhor. Conforme afirmou o pastor Augustus Nicodemus Lopes:

Símbolos e rituais mudaram, mas é a mesma Igreja, o mesmo povo. O Sábado tomou-se em Domingo, a Páscoa, em Ceia, e a circuncisão, em batismo. Os crentes são chamados de “filhos de Abraão” (Gl 3.7,29) e a Igreja de “o Israel de Deus” (Gl 6.16). Não é de se admirar que Paulo chame o batismo de “a circuncisão de Cristo” (Cl 2.11-11).

É necessário consagrar nossos lares para a obra do Senhor, dar prioridade ao Senhor, dedicar-se a árdua tarefa de discipular os filhos e assim colhermos alegremente os frutos como resultado: “Agora temam o Senhor e sirvam-no com integridade e fidelidade. Joguem fora os deuses que os seus antepassados adoraram além do Eufrates e no Egito, e sirvam ao Senhor. Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor”.

Que o Senhor dê graça aos pais na educação dos filhos. Precisamos ajuda-los no desenvolvimento das disciplinas espirituais (II Timóteo 1:5). O mundo não precisa de pessoas de bom comportamento, mas de gente que ame ao Senhor, que o glorifique e entenda que não há tesouro mais precioso que Ele (Mateus 13:44). Não há alternativas aos pais, o discipulado possui implicações eternas. 


terça-feira, 23 de julho de 2013

CALVINO, ARMINIO OU A BÍBLIA?

Por Gilson Barbosa

O título acima, desta postagem, consta como subtítulo em um dos livros da CPAD (Evangelhos que Paulo jamais pregaria, p. 102). Não acredito que o autor do livro tenha em mente que tanto a teologia calvinista quanto a arminiana não são bíblicas, porém é isso que soa. Entretanto, ainda que não tenha sido Calvino ou Armínio que tenham estabelecido suas estruturas teológicas, contudo, as mesmas se fundamentam em passagens bíblicas.

A respeito de se inclinar a uma ou a outra estrutura teológica algumas coisas devem ser ditas. Em primeiro lugar é necessário que a pessoa decida livremente de que lado teológico vai ficar. A princípio isso não é nem negativo nem positivo. Em segundo lugar dependerá muito do livre exame e total dedicação no estudo das escrituras sagradas e literaturas. Menciono o livre exame, pois muitos crentes são constrangidos por seus líderes a não lerem literatura de teologia reformada, por exemplo. É necessário que se estude particularmente os sistemas calvinistas ou arminianas com profundidade para que não os julguemos precipitadamente. Em terceiro lugar não é a quantidade de defensores dos dois sistemas que estabelecem suas verdades. O número de defensores ou dos que professam as doutrinas arminianas supera ao calvinismo, mas nem por isso deve ser tida como verdadeira, ou vice-versa. Em quarto lugar dificilmente os dois estão certos no mesmo sentido, um ou outro não se sustenta biblicamente.

Mas, é necessário ter a consciência de que há pessoas tementes ao Senhor e piedosas nos dois sistemas teológicos. Até certo ponto o fato de não entendermos exatamente as doutrinas bíblicas ou de termos dificuldades para interpretar uma passagem bíblica não anula nenhum dos dois sistemas. Porém temos de admitir que um dos dois lados teológicos interpreta com mais coerência a Bíblia Sagrada, com respeito às suas estruturas teológicas.

Os teólogos formularam seus entendimentos das doutrinas em cinco pontos principais. Ficaram conhecidos como Os Cinco Pontos do Calvinismo ou Os Cinco Pontos do Arminianismo. Uma forma pedagógica para apresentar as “doutrinas calvinistas” é o acróstico TULIP (Total Depravity, Unconditional Election, Limited Atonement, Irrestitible Grace, Perseverance of Saints). Na mesma ordem e em português assim se traduz: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível, Perseverança dos Santos.

Para que o leitor entenda o que significa esses pontos transcrevo abaixo alguns contrastes entre as duas estruturas teológicas (do livro TULIP Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras, Edições Parakletos).

CONTRASTE ENTRE ARMINIANISMO E CALVINISMO

Quando contrastamos estes Cinco Pontos do Arminianismo com o acróstico TULIP, que forma os Cinco Pontos do Calvinismo, torna-se claro que os cinco pontos deste são diametralmente opostos aos daquele. Para que possamos ver claramente as “linhas de batalha” traçadas pelas afiadas mentes de ambos os lados, comecemos por fazer um breve contraste entre as duas posições à base de ponto por ponto.

PONTO 1 - Depravação Total

O arminianismo diz que a vontade do homem é “livre” para escolher, ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, depende da obra de sua fé.

O calvinismo responde que o homem não regenerado é absolutamente escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente (para salvar-se), dependendo, portanto, da obra de Deus, que deve vivificar o homem, antes que este possa crer em Cristo.

PONTO 2 - Eleição Incondicional

Arminius sustentava que a “eleição” é condicional, enquanto os reformadores sustentavam que ela é incondicional. Os arminianos acreditam que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

Os calvinistas sustentam que o pré-conhecimento de Deus está baseado no propósito ou no plano de Deus, de modo que a eleição não está baseada em alguma condição imaginária inventada pelo homem, mas resulta da livre vontade do Criador à parte de qualquer obra de fé do homem espiritualmente morto.

Dever-se-á notar ainda que a segunda posição de cada um destes partidos (arminianos e calvinistas) é expressão natural de suas respectivas doutrinas a respeito do homem. Se o homem tem “vontade livre”, e não é escravo nem de Satanás nem do pecado, então ele é capaz de criar a condição pela qual Deus pode elegê-lo e salvá-lo. Contudo, se o homem não tem vontade livre, mas, em sua atual situação, é escravo de Satanás e do pecado, então sua única esperança é que Deus o tenha escolhido por sua livre vontade e o tenha elegido para a salvação.

PONTO 3 - Expiação Limitada

Os arminianos insistem em que a expiação (e, por esta palavra, eles significam “redenção”) é universal. Os calvinistas, por sua vez, insistem em que a Redenção é parcial, isto é, a Expiação Limitada é feita por Cristo na cruz.

Segundo o arminianismo, Cristo morreu para salvar não um em particular, porém somente àqueles que exercem sua vontade livre e aceitam o oferecimento de vida eterna. Daí, a morte de Cristo foi um fracasso parcial, uma vez que os que têm volição negativa, isto é, os que não a querem aceitar, irão para o inferno.
Para o calvinismo, Cristo morreu para salvar pessoas determinadas, que lhe foram dadas pelo Pai desde toda a eternidade. Sua morte, portanto, foi cem por cento bem sucedida, porque todos aqueles pelos quais ele não morreu receberão a “justiça” de Deus, quando forem lançados no inferno.

PONTO 4 - Graça Irresistível

Os arminianos afirmam que, ainda que o Espírito Santo procure levar todos os homens a Cristo (uma vez que Deus ama a toda a humanidade e deseja salvar a todos os homens), ainda assim, como a vontade de Deus está amarrada à vontade do homem, o Espírito [de Deus] pode ser resistido pelo homem, se o homem assim o quiser. Desde que só o homem pode determinar se quer ou não ser salvo, é evidente que Deus, pelo menos, “permite” ao homem obstruir sua santa vontade. Assim, Deus se mostra impotente em face da vontade do homem, de modo que a criatura pode ser como Deus, exatamente como Satanás prometeu a Eva, no jardim [do Éden].

Os calvinistas respondem que a graça de Deus não pode ser obstruída, visto que sua graça é irresistível. Os calvinistas não querem significar com isso que Deus esmaga a vontade obstinada do homem como um gigantesco rolo compressor! A graça irresistível não está baseada na onipotência de Deus, ainda que poderia ser assim, se Deus o quisesse, mas está baseada mais no dom da vida, conhecido como regeneração. Desde que todos os espíritos mortos (alienados de Deus) são levados a Satanás, o deus dos mortos, e todos os espíritos vivos (regenerados) são guiados irresistivelmente para Deus (o Deus dos vivos), nosso Senhor, simplesmente, dá a seus escolhidos o Espírito de Vida.

No momento em que Deus age nos eleitos, a polaridade espiritual deles é mudada: Antes estavam mortos em delitos e pecados, e orientados para Satanás; agora são vivificados em Cristo, e orientados para Deus.
É neste ponto que aparece outra grande diferença entre a teologia arminiana e a teologia calvinista. Para os calvinistas, a ordem é: primeiro o dom da vida, por parte de Deus; e, depois, a fé salvadora, por parte do homem.

PONTO 5 - Perseverança dos Santos

Os arminianos concluem, muito logicamente, que o homem, sendo salvo por um ato de sua própria vontade livremente exercida, aceitando a Cristo por sua própria decisão, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver mudar de atitude para com Cristo, rejeitando-o! (Alguns arminianos acrescentariam que o homem pode perder, subsequentemente, sua salvação, cometendo algum pecado, uma vez que a teologia arminiana é uma “teologia de obras” — pelo menos no sentido e na extensão em que o homem precisa exercer sua própria vontade para ser salvo.) Esta possibilidade de perder-se, depois de ter sido salvo, é chamada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius. Ainda, se depois de ter sido salva, a pessoa pode perder-se, ela pode tornar-se livremente a Cristo outra vez e, arrependendo-se de seus pecados, “pode ser salva de novo”. Tudo depende de sua contínua volição positiva até à morte!

Os calvinistas sustentam muito simplesmente que a salvação, desde que é obra realizada inteiramente pelo Senhor — e que o homem nada tem a fazer antes, absolutamente, “para ser salvo” —, é óbvio que o “permanecer salvo” é, também, obra de Deus, à parte de qualquer bem ou mal que o eleito possa praticar. Os eleitos “perseverarão” pela simples razão de que Deus prometeu completar, em nós, a obra que ele começou.

Análise dos Cinco Pontos 

Se um dos lados da disputa teológica deve, com certeza, ser mais coerente que o outro se faz necessário assumir uma posição. Apesar da formatação estrutural dos [cinco] pontos teológicos, convido o leitor a analisar cada ponto comparando-os com as escrituras sagradas. Os textos bíblicos obscuros e isolados devem ser trocados pelos mais claros e em conjunto com outros. 


No amor de Cristo,

terça-feira, 16 de julho de 2013

MUITOS PROFETAS, NENHUMA MENSAGEM

Por Gilson Barbosa


O pentecostalismo leva a pecha de ser um movimento de experiência em busca de uma teologia. Para os adversários isto significa que os argumentos para defender suas doutrinas são ad extra, ou seja, a teologia pentecostal se fundamentaria, então, numa eisegese bíblica. Esta, pode também partir de uma impressão equivocada na interpretação dos textos que “respaldam” o movimento.

Sei que há uma busca sincera e séria para corroborar os argumentos pentecostais invocando bases e textos bíblicos. Porém, parece que o tempo está demonstrando que o movimento pentecostal tem ainda muitos desafios a vencer. Um deles é estabelecer limites para a manifestação carismática no âmbito do culto público. Outro desafio é o cumprimento do que o apóstolo Paulo ensinou em sua primeira carta aos coríntios (capítulo 14) sobre o uso dos dons espirituais.

O dom da profecia, por exemplo, está eivado de confusão e o problema parece não ter mais solução. Há “profetas” misturando profecia com palavra de conhecimento e revelação com adivinhação. Um dos fatos que mais depreciam o movimento pentecostal atualmente tem sido a “qualidade” com que os dons têm sido utilizados.

Mesmo que partíssemos do pressuposto de que há profetas hoje, exatamente igual aos profetas do Antigo Testamento ou dos apóstolos e profetas no período do Novo Testamento (o que é um absurdo), o que temos presenciado é um profetismo que nos entristece profundamente. A maneira como a revelação de Deus chegou aos profetas e apóstolos são inigualáveis e temporais. O apóstolo Pedro ao tratar da superioridade da palavra de Deus afirmou que “...a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (II Pedro 1:21). Dizer que os “profetas” modernos possuem a mesma inspiração no mesmo sentido que os autores bíblicos, é heresia pura. Tanto os profetas do Antigo Testamento quanto os apóstolos no Novo Testamento receberam revelação direta de Deus. A necessidade profética deles, bem como de suas profecias, coincidiu providencialmente com a formação do cânon bíblico. 

Como mencionei acima, a qualidade dos dons espirituais utilizados por alguns crentes pentecostais tem descido há um nível bem superficial de entendimento. Quando o apóstolo Paulo tratou da superioridade do dom de profecia sobre ao de línguas apresentou as funções da mensagem dos profetas: edificar, exortar e consolar a igreja local. Hoje em dia a profecia é individual e desconsidera a coerência e santidade Divina, pois, é sabido que muitos que recebem uma mensagem profética de consolação e conforto quando na verdade deveriam ser exortados ou admoestados.

Profetas nas Igrejas locais do Novo Testamento

SEGUI o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar. Porque o que fala em língua desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação. (I Coríntios 14:1-3)

O texto acima não estabelece a legitimidade das profecias carismáticas. Apenas informa (implicitamente) que havia na igreja primitiva um grupo de pessoas com potencial para exercer o ministério profético: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11). Ainda que se fale em dom de profecia, porem, sua natureza é diferente. Por exemplo, a ênfase desses profetas não era mais revelacional e sim de proclamação das verdades existentes do Antigo e Novo Testamento.

Não tenho plena certeza de como esses profetas se comportavam no culto público e não faço ideia de como exerceriam o dom profético. O certo é que não eram oficiais nas Igrejas locais e que sua função primordial não era predizer ou revelar algo oculto – ainda que isso tenha acontecido raramente com alguns deles. Heber Carlos de Campos informa que

“... havia somente dois ofícios nas igrejas locais do Novo Testamento: presbíteros e diáconos. Somente eles recebiam a ordenação pública, que os autorizava a exercer o seu ofício. Os demais exerciam seus dons conforme o Senhor lhes concedia. Assim era com os que possuíam o dom profético. Eles não eram vocacionados como os profetas do Antigo Testamento, nem recebiam o ofício para exercerem a função, como acontecia com os profetas do Antigo Testamento. Não havia nenhuma cerimonia especial que os autenticasse e os designasse profetas, como a unção com óleo, que os autorizasse publicamente para exercerem o ofício. Simplesmente, eles eram dotados pelo Espírito Santo para serem intérpretes da Palavra de Deus e podiam ser julgados no exercício do seu mistério quanto ao conteúdo de sua mensagem, mas não falavam inspiradamente.” (Fé Cristã e Misticismo, p. 89)

O pastor Antônio Gilberto (teólogo respeitado no meio pentecostal), embora admita a profecia como um dom do Espírito, também reconhece a existência do dom ministerial de profeta à Igreja local:

“O ministério profético é exercido através de um ministro dado por Deus à Igreja... O profeta é um pregador especial, com mensagem especial. Sua mensagem apela à consciência da pessoa em relação a Deus, a si própria, ao pecado e à santidade.” (Mensageiro da Paz, Agosto de 2008)

De opinião diferente do pastor Antonio Gilberto, o pastor Augustus Nicodemus Lopes afirma que não há mais profetas como os do Antigo Testamento e nem apóstolos como os Doze e Paulo:

“Eles foram veículos inspirados e infalíveis da revelação divina. Com o desaparecimento deles, cessou o processo revelatório, por meio do qual Deus, infalivelmente fez registrar a sua vontade nas Escrituras. Não entendo que os profetas do Novo Testamento (como os da igreja de Corinto) eram veículos desse tipo de revelação e nem que suas profecias eram revelatórias e infalíveis como as dos antigos profetas e apóstolos”. (O culto espiritual, Ed: Cultura Cristã, p. 130).

É necessário enfatizar a realidade e a natureza dos profetas das Igrejas locais do Novo Testamento, pois o texto bíblico de Efésios afirma que o Senhor “mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores. Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo.” Entretanto nada indica que estes profetas traziam palavras inspiradas direta de Deus (idêntica aos profetas do Antigo Testamento ou os apóstolos do Novo Testamento) ou revelações por meio de sonhos e visões, ou ainda predições sobre a vida das pessoas.  

Os estudiosos pentecostais entendem haver diferença entre o dom de profecia e o ministério profético. Podemos até dizer que os profetas das Igrejas locais do Novo Testamento possuíam em certa medida o dom de profecia, mas não devemos afirmar categoricamente que qualquer crente por sua própria vontade se levantaria no culto e diria uma mensagem sobrenaturalmente inspirada ou revelada da parte de Deus. Quando Paulo diz que todos os irmãos coríntios poderiam profetizar (I Coríntios 14:31) o faz tendo como base de que é o Senhor que graciosamente concederia esse dom a algumas e não todas as pessoas (I Coríntios 12:29).

Alguns não pentecostais veem o dom profético (não a profecia preditiva) como uma necessidade para o tempo presente, apesar de aceitarem apenas os dois ofícios de presbíteros e diáconos. Caberia por parte destes uma explicação de como eles exerceriam seu ministério no culto público. Outros não veem como necessário o ministério profético atualmente, pois a tarefa de exortar, consolar e edificar pode ser realizada pelo pastor e mestre.  

Alguém pode perguntar: “E quanto aos ‘profetas’ que revelam fatos cotidianos ocultos, tais como nomes de pessoas, datas de nascimentos, números de documentos e telefones?”. Destes não digo nada, pois, como cumpriremos a ordem de avaliar a mensagem profética (I Coríntios 14:29) se o que é revelado não possui em si nenhuma mensagem?


No amor de Cristo,

segunda-feira, 8 de julho de 2013

IDOLATRIA EVANGÉLICA

Por Gilson Barbosa


A grande maioria dos evangélicos entende o termo idolatria apenas em sua definição etimológica, e não em seu conceito teológico. Sendo assim, definem e assimilam a ideia de que a idolatria está relacionada apenas com a adoração de ídolos confeccionados de madeira, gesso, pedra, ou outros materiais. Mas, para que haja coerência no entendimento a respeito deste tema, é necessário ampliar seu sentido e complementar com seu conceito teológico. Conforme os léxicos de teologia qualquer apego excessivo a pessoa, objeto, instituição, ambição, elemento, em detrimento da pessoa de Deus, se constitui idolatria. É preciso que esse conceito seja levado a sério.

Apesar da proibição divina no Antigo Testamento (“Não terás outros deuses diante de mim” – Êxodo 20:3) temos vários casos em que o povo de Deus (Israel) pecou contra o Senhor quando se envolveu em manifestações idólatras. Quem não se lembra do bezerro de ouro, “fabricado” por Arão? (Êxodo 32:1-20).  Substituindo o Deus vivo por uma imagem esculpida o povo cometeu o abominável pecado da idolatria adorando um ídolo na forma de um bezerro de ouro. Transgrediram o segundo mandamento que diz:

Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás a elas, nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. (Deuteronômio 5:8-9)

Como “um abismo chama outro abismo” os adoradores do bezerro de ouro se entregaram completamente aos ritos pagãos numa refeição sacramental e danças, que degenerou em libertinagem sexual: “E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantou-se a folgar.” (Êxodo 32:6).  O volume e o ritmo da música produziu no povo um frenesi louco e desenfreado. No versículo 18 Moisés comenta com Josué que ouvia “o alarido dos que cantam” e no versículo 25 há a menção de que “o povo estava despido, porque Arão o havia deixado despir-se.” Que derrota! Que vergonha para o povo de Deus! Cansados de andar pela fé o povo exigiu um sinal tangível da presença de Deus.

No Novo Testamento os mandamentos vetero-testamentários permanecem vigentes. O apóstolo João em sua primeira carta (5:21) escreveu que os irmãos devem se guardar da idolatria: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Amém.” Paulo disse aos coríntios: “Portanto, meus amados, fujam da idolatria”. O conselho paulino reflete a tendência de alguns irmãos que se consideravam “fortes” espiritualmente e de alguma forma não se preocupavam em se alimentarem junto com os gentios num templo pagão. (Leia I Coríntios 10:19, 20; 8:4,10).  

Você pode estar pensando: “Mas qual a relação deste assunto com os evangélicos atuais?”. É que está acontecendo entre “o povo de Deus” uma adoração idolátrica sorrateira, subliminar, disfarçada. Os ídolos atuais e a idolatria moderna possuem outro formato, mas seu poder de destruição é o mesmo que levou o povo de Israel ao cativeiro. Algumas atitudes idolátricas que percebemos hoje: o amor ao dinheiro (Mamom); o endeusamento do ego (autolatria); os pecados sexuais, tais como pornografia, fantasias sexuais, infidelidade conjugal, diversões carnais (Baal Peor – Êxodo 25:1); crentes que confiam nos signos do zodíaco (astrologia); os que cultuam e adoram os anjos (Angelolatria); o culto do e com entretenimento (o bezerro de ouro); os desleixos moral, social e principalmente espiritual com a educação dos nossos filhos (deus Moloque).        

São muitos que se empenham em tirar Deus do trono e se esforçam por sentar em seu lugar. Muitos têm ignorado e até mesmo questionado a soberania de Deus. Outros têm zombado dos santos mandamentos do Senhor e ensinado seus “próprios mandamentos” como se fossem melhores e mais corretos. E ainda outros falam pelos dois cantos da boca – de um lado falam como profetas, do outro defendem e pregam veementemente a malfadada teologia da prosperidade e o triunfalismo evangélico.

Eu não sei onde tudo isso “vai dar”. O povo de Israel foi parar no cativeiro!!! Quem vai parar esses “santos” doidos? Que o Senhor tenha misericórdia de nós.

Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1 João 1:8-9).    

Em Cristo,