terça-feira, 18 de dezembro de 2012

QUEM QUER ACEITAR JESUS LEVANTA A MÃO!!!

Por Gilson Barbosa
Os erros do sistema de apelo ao pecador no culto público

Acredito piamente que há um déficit teológico gigantesco no meio evangélico (entenda déficit teológico como déficit doutrinário). Este é o primeiro erro entre os evangélicos: dissociar doutrina bíblica de teologia. O segundo erro é associar teologia com ensino e doutrina com pregação. Nos dois erros, ambas é uma coisa só. Mas, infelizmente não é esse entendimento que prevalece. Para muitos, doutrina é absolutamente distinta de teologia. Talvez seja essa a causa de tanta desordem na igreja evangélica moderna. É como se a fonte da teologia fosse os livros e não o Livro (a Bíblia Sagrada).

O educador assembleiano Claudionor Correa de Andrade disse a mim, num email, que “ensino e pregação não são excludentes; são complementares. Toda pregação deveria constituir-se num sólido ensino. E todo ensino deveria ser visto como uma proclamação da Palavra de Deus”. Hoje em dia em muitas escolas de teologia se ensina uma coisa e no púlpito da igreja outra (ledo engano!). O resultado é um conflito de ideias e desentendimentos entre docentes e o pastor da igreja.

Fiz essa necessária introdução para lhes falar sobre um procedimento extremamente comum nos cultos evangélicos: o sistema de apelo ao pecador. Esse assunto não pode ser tratado com superficialidade ou omissão, isso porque, indagado pela teologia/doutrina ele não se sustenta. A pergunta é: Qual a maneira do pecador vir a Cristo? Preste muita atenção: não estou indo contra o convite para que o pecador receba a Cristo como Salvador e Senhor. Temos vários textos onde o pecador é instado a vir a Cristo.

Textos bíblicos

1 – “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28);

2 - “O vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Isaías 55:1);

3 – “E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17).

Erros apresentado pelo sistema de apelo

1 – Entender que a confissão pública é uma condição para a salvação e não um resultado da salvação. Acontece o mesmo erro na apresentação de candidatos ao batismo. A salvação dos pecadores fica condicionada “ao levantar das mãos e vir à frente do púlpito”. Se ele fez isso, então está salvo. Quem garante isso? Quer dizer: a vida eterna da pessoa é avaliada de maneira externa a vista dos olhos humanos. Ao passar dos dias o pecador que “levantou as mãos e veio à frente” não apresenta os sinais da regeneração e os crentes ficam confusos, pois no seu entendimento elas aceitaram a Jesus e estão regeneradas. A condição para a salvação é “vir a Cristo”, e não “levantar as mãos ou vir à frente”.

2 – Fazer do “vir à frente” ou “levantar as mãos” um mandamento bíblico. Jesus certa vez censurou os escribas e fariseus com estas palavras: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7:7). Você não encontrará na Escritura Sagrada um ensinamento que aprove esse tipo de procedimento para diagnosticar ou até mesmo valorar a salvação do pecador. Nem Jesus, nem os apóstolos instituíram um sistema humano para confirmar ou sinalizar exteriormente a salvação. Não consigo imaginar que a resposta de Paulo ao carcereiro – quando indagou o que deveria fazer para ser salvo – fosse “levante a mão!”. Nesse item repousa a teimosia evangélica de estabelecer métodos e sistemas não recomendados pela Bíblia Sagrada. Se a Bíblia não prescreve algo é sensato não fazer.

3Quando “ir à frente” ou não implica em falsas compreensões - Este ato tem trazido um falso entendimento ao pecador, pois um crê que fez algo bom, próprio ou útil diante de Deus, outro, que desobedeceu a Deus simplesmente por não ter ido à frente. Há pecadores que até mesmo pensam que pelo ato de “ir à frente” ou “levantar as mãos” estão salvos. É comum pensar: “Agora que fui à frente, estou salvo”. Este pensamento produz falsa segurança. Alguns pecadores acham que estão sendo rebeldes contra Deus por não ter ido à frente, quando na verdade não é isso que caracteriza a rebelião dos pecadores (Romanos 1:18-32). Os próprios membros das igrejas pensam que o apelo é obrigatório no culto. Se o pastor ou o pregador esquecer-se de fazer o apelo pode ser lembrado ou cobrado pelos membros.  

4 – Induz pregadores a artimanhas no apelo - O pior de tudo, humanamente, é alguns pregadores que usam a artimanha de perguntar quantas pessoas não evangélicas estão presentes no culto, e ao sinalizar levantando as mãos eles são constrangidos a irem à frente e “aceitar” Jesus. Que convicção este pecador terá de que realmente recebeu a Cristo em sua alma? A Bíblia não recomenda e nem relata esse procedimento de “vir à frente” ou “levantar as mãos” para receber a salvação em Cristo. Hoje em dia quase todos os pregadores usam os cânticos como meio de “conversão” no apelo. Quando não, os usam para levar o povo a momentos externos de êxtase carismático ou sobrenatural. É comum o uso repetido de determinados cânticos, a ponto de entender que se cantar outro cântico o pecador não virá “a Cristo”.  

5 – A busca de resultados estatísticos As igrejas evangélicas tem cometido o erro fatal de condicionar a salvação em resultados numéricos. Após o culto é comum o comentário entre os crentes: “Você viu quantas pessoas aceitaram a Cristo?”. Porém, eles mesmos ficam confundidos quando essas pessoas não permanecem na fé ou não vem mais na igreja. Não conseguem compreender a parábola do semeador. Nela, Jesus ensina sobre quatro tipos de terrenos, que tem haver com a resposta da alma do pecador a mensagem evangélica (Mateus 13:1-23). O batismo também tem sido considerado a partir de dados estatísticos. Não é tão importante a convicção de fé na alma do pecador, quanto sua decisão de se batizar. Muitos que vão à frente “pedir” o batismo, depois, não permanecem. O dado numérico buscado a todo o custo, pelas igrejas, intelectualmente não consiste naturalmente em conversão (regeneração) genuína e verdadeira, mas apenas na intenção numérica. Isso tudo não passa de um autoengano ou um “faz de conta”.  Os pregadores itinerantes se encarregam das piores tolices, nesse quesito. É natural se sentirem envaidecidos ministerialmente pelo fato de dezenas de pessoas “virem à frente”.    

6 – O barateamento da graçaA salvação em Cristo é pela graça de Deus: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8, 9). É um favor imerecido: “porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” (Gálatas 2:21). Trata-se de uma obra sobrenatural processada na alma do pecador. Se há algo que a humanidade pecadora merece, é a condenação eterna. O ser humano não pode apresentar nenhuma obra que o qualifique a salvação, e esta, não tem nenhuma semelhança com qualquer ato físico. Se o ato de crer em Cristo estivesse atrelado ao ato físico todos que vem à frente teriam de permanecer em Cristo e consequentemente na igreja local – o que não é verdade.

“Venha a Cristo para ser salvo”

Quando noto tudo isso, me entristeço e percebo o quanto as igrejas evangélicas se distanciaram das práticas cultuais (litúrgicas) da igreja primitiva. Não basta confessar com a boca, deve-se crer na alma: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9). Não adianta chamar o pecador à frente e tentar arrancar dele qualquer tipo de confissão evangélica. Só saberemos de fato se foi regenerado à medida que permanece na fé e apresenta frutos de arrependimento ou sinais da conversão: “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3:7,8). O convite para a salvação não perdeu o prazo de validade: “Vinde então, e argui-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Isaías 1:18). Contudo, a genuína conversão não se processa por um ato físico de “vir à frente” ou “levantar as mãos”.

Em Cristo, com amor!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O PECADO DA COBIÇA

Por Gilson Barbosa

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe cunhou a magistral frase onde afirma que “a conduta é um espelho no qual todos exibem a sua imagem”. Nada mais que verdadeiro. Percebe-se como determinada pessoa é, ou seja, sua personalidade, reparando atentamente nos seus atos, procedimentos ou conduta de vida – o modus vivendi. Existem pessoas que escondem muito bem seu lado sombrio (pecaminoso), mas logo os efeitos das suas infames realizações vêm à tona e a máscara cai do seu rosto. Tem sido assim desde sempre. Nesta breve reflexão trato do pecado da cobiça.

A maioria dos estudiosos ensina que a cobiça é o desejo veemente de ter o que outra pessoa tem. Mas, analisando bem não é totalmente errado desejar o que outra pessoa tem. Se meu vizinho tem um carro muito bonito e isso cria em mim a vontade de ter o mesmo modelo, marca ou cor, não é nisso que reside o problema. Alguém dirá que isso é inveja. Eu respondo que isso depende da intenção da pessoa que deseja o objeto (o que em muitos casos é difícil avaliar) e do ponto de vista de quem acusa. Os técnicos no assunto dizem que desejar o que o outro tem é cobiça, não inveja. O invejoso tem sentimentos negativos pela posse do outro e deseja que ele não tenha o objeto ou que de alguma forma perca este objeto. Já o cobiçoso vai além do desejo de possuir os bens da outra pessoa, no fundo ele quer ter ou levar a vida que a outra tem. 

Na verdade o cobiçoso deseja ser ou ter o que o outro tem sem fazer esforço. Ele aproveita o momento, a situação, para então praticar o golpe. Certo pensador disse muito bem que “os cobiçosos desejam fazer fortuna sem precisarem trabalhar, desejam o cônjuge do próximo, querem ter multidões a seus pés, procuram tirar proveito de certas situações, procuram tirar férias faustosas e além de suas posses em outros países, endividam-se além de suas posses e ganhos, enfim, procuram adquirir fama e reconhecimento para satisfazer seus orgulhos e vaidades”.

No Decálogo há a seguinte exortação: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo; e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Dt 5:21). O cobiçoso olha e vê a vida próspera que o outro vive e no fundo quer ser ele. Só que para isso ele viola as regras éticas, morais e espirituais. O cobiçoso se impacienta e se irrita pelo fato de não ter o mesmo sucesso na vida que o outro tem. Daí ele querer o que é da outra pessoa. O cobiçoso não somente deseja à casa do seu próximo, a mulher, o campo, o servo ou serva, o boi ou jumento, mas ele quer essas coisas porque elas lhe satisfazem nos mínimos detalhes e não quer ter o justo esforço (ou trabalho) de ter algo similar.

De certa forma o rei Davi foi vencido pelo pecado da cobiça. Quantas mulheres os reis deste período poderiam ter, mas Davi queria exatamente Bate-Seba, que era mulher de Urias, seu fiel soldado. O rei sabia que Bate-Seba era casada: “E mandou Davi indagar quem era aquela mulher; e disseram: Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?” (2 Samuel 11:3). Como todos os cobiçosos Davi não avaliou as consequências deste pecado: “Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la; e ela veio, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundícia); então voltou ela para sua casa” (2 Samuel 11:4). Para levar sua cobiça adiante o cobiçoso torna-se até mesmo violento, ríspido, ignorante, cruel e insensato. “E sucedeu que pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe; e mandou-lha por mão de Urias. Escreveu na carta, dizendo: Ponde a Urias na frente da maior força da peleja; e retirai-vos de detrás dele, para que seja ferido e morra” (2 Samuel 11:14-15).

No Antigo Testamento o termo cobiça possui três sentidos. O primeiro é hamadh que é o desejo pela possessão alheia: “Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniqüidade, e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, porque está no poder da sua mão! E cobiçam campos, e cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Miquéias 2:1-2). O segundo é betsa que é o desejo por lucro que seja desonesto: “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jeremias 6:13). E o terceiro é awwa (ava), ou desejo egoísta: ”O cobiçoso cobiça o dia todo, mas o justo dá, e nada retém” (Provérbios 21:26). Os termos derivados da cobiça são: desejar, ansiar, cobiçar, esperar ansiosamente, sentir vontade, suspirar, anelar, querer, preferir.

No Novo Testamento, entre outros, encontramos os substantivos epithumia (ἐπιθυμία) e pleoneksía (πλεονεξία). O primeiro expressa qualquer desejo intenso e o termo bíblico correspondente é concupiscência: “Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” (Romanos 7:7-8). O segundo expressa literalmente o desejo de ter mais, ou seja, a asserção violenta dos próprios direitos: “Porque, como bem sabeis, nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto de avareza; Deus é testemunha” (1 Tessalonicenses 2:5). O apóstolo Paulo não tinha nenhum interesse em ganhos financeiros, tirar proveito da situação, no sentido de fazer agravo, defraudar ou tirar vantagem.  

Não me atrevo a dizer quem dos servos de Deus são cobiçosos, mas vale atentar para três recomendações oferecidas por J. Ligon Duncan III:

Primeira, devemos ter consciência da realidade do pecado em nós. Ele afirma que nós fomos libertos do reino do pecado, mas não fomos livres ainda da presença do pecado. Uma luta constante sucede dentro de nós, das luxúrias da carne (inicia a guerra) com o espírito. Há uma guerra espiritual acontecendo na parte mais interna de nosso ser. Necessitamos, portanto, olhar o pecado (pecado pessoal e particular) nos olhos. Não importa que cargo ou função ocupe na igreja visível de Cristo (músico, cantor, pregador, pastor), nunca perca de vista que não estás acima do pecado. Cuidado!

Segunda, precisamos detectar o que necessita ser tratado em nós – e nessa reflexão trata-se da cobiça. Temos de analisar se estamos sendo, de alguma maneira, cobiçosos ou não. Paulo escrevendo aos Colossenses (3:5) exortou: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra” e a seguir lista vários pecados que precisam “morrer” em nós. O grande problema é que nós temos dificuldade de autoavaliação. Uns pensam que estão em posição de maior santidade que outros, negligenciam o cuidado, mas cometem o pecado às escondidas, no íntimo.

Terceira, é necessário abandonar o pecado. Ainda em Colossenses 3:8 o apóstolo Paulo orienta os irmãos a abandonarem de vez os pecados: “Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca”. O pecado da cobiça não deve ser tratado como se fosse um bichinho de estimação, é preciso se livrar dele urgente.

Que o Senhor nos ajude a refletir sobre isso. Se temos sido cobiçosos devemos pedir perdão ao Senhor e também ao próximo que temos prejudicado com a nossa cobiça.

Em Cristo,

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

UMA DEFINIÇÃO SOCIOLÓGICA DE SEITA

O que se  pode afirmar das seitas que seja válido em geral dentro de contextos culturais e épocas diferentes? E preciso que tal afirmação não deixe que alguns fatores culturais e históricos concretos empanem os elementos sociais uniformes que se dão na estrutura e desenvolvimento das seitas.
As seitas são agrupamentos de caráter voluntário. Os indivíduos têm certa possibilidade de decidir (teoricamente, uma possibilidade absoluta de decidir) com respeito a sua adesão aos dogmas da seita. O crente deve eleger a seita, embora se trate, na realidade, de uma eleição reciproca ( a seita admite ou rejeita essa pessoa). Para passar a ser um de seus membros se requer certa prova de mérito: o indivíduo tem de ser digno de pertencer a  ela. Há nisso  um forte sentido de identidade: aquele que é admitido se converte em “um dos nossos”. E este “dos nossos” se coloca acima de todos os demais “nossos”,   crescendo  em força no sentido  em que a seita reclama para si um acesso especial e, normalmente, exclusivo as verdades sobrenaturais. A seita  é um  grupo que exige de seus membros um submissão plena e consciente que se não chega a eliminar todos os   demais compromissos deve, ao menos, situar-se acima deles, quer se refiram  ao estado, a tribo, a classe social ou  a família.
Relacionado a estas características, se encontra o fato  que a seita se considera a si mesma como uma elite. Enquanto possuidora da única e verdadeira doutrina, dos ritos adequados e dos modelos corretos de retidão no comportamento social, se considera a si mesma com um grupo  aparte, arrogando para si normalmente a salvação exclusiva. As seitas mostram normalmente uma inclinação para o exclusivismo. O estar afiliado a  elas se situa acima de todos os demais compromissos de tipo secular, e normalmente exclui os demais compromissos religiosos. Ao separar-se dos outros grupos, as seitas impugnam a santidade e autoridade dos mesmos; o fato de pertencer a    uma seita determinada supõe, assim, um distanciamento, e talvez uma hostilidade, frente a outras seitas e grupos religiosos.
Do rigor destes atributos se segue que a maioria das seitas, sendo voluntárias, têm um vida muito intensa e impõe a seus membros responsabilidades, assim como contam também com certos procedimentos para expulsar os desviados. A seita não é uma entidade inconsciente, como poderia ocorrer com uma casta ou um clã em determinadas circunstâncias sociais. Em outras palavras: não é um grupo social que se considere como uma unidade “natural”. Em oposição ao modo tradicional que tinham os judeus de conceber sua fé, ou os povos latinos de conceber o catolicismo, a seita tem consciência de si mesma, e sua formação e recrutamento são processos conscientes e deliberados. Por isso, é  também um grupo que possui um sentido de sua própria integridade e que pensa que essa integridade pode ser ameaçada pelos membros despreocupados ou insuficientemente comprometidos. Por isso, as seitas expulsam aqueles que se mostrem indignos delas.
Isto impõe, por sua vez, uma série de normas a cada um dos seus membros. Eles hão de seguir a vida do perfeito sectário e, por conseguinte, a voluntariedade de sua submissão e a prova de que merece ser membro do grupo somente serão possíveis  se tenham um sentido de compromisso pessoal. Como as seitas não admitem discriminações quanto ao grau de compromisso, a integridade da seita e claramente a integridade que reina entre seus membros. O autocontrole, a consciência e a retidão são, pois, importantes características do sectarismo.
Embora as seitas professem uma série de ensinamentos, de mandamentos e de práticas distintos dos que mantêm os ortodoxos,   esta  alternativa não supõe jamais uma total e absoluta negação de todos os elementos existentes na tradição ortodoxa, pois de outro modo não poderíamos qualificar a seita de ser uma  seita. Ela ainda se mantêm, ou procura manter-se, e mesmo defender sua posição de ser a forma mais pura e legitima da fé original.  Se trata fundamentalmente  de acentuar uma série de matizes diferentes, acrescentando-se alguns elementos novos e suprimindo outros. Para propor esta alternativa a seita deve recorrer a algum principio de autoridade distinto daquele que é inerente a tradição ortodoxa, defendendo, ao mesmo  tempo, sua supremacia. A autoridade invocada por uma seita pode ser a suprema revelação de um líder carismático, pode consistir em uma reinterpretação dos escritos sagrados, ou bem pode ser a idéia de que os verdadeiros fiéis obterão uma revelação por si mesmos. Em qualquer caso, a seita renega a autoridade oficial da fé ortodoxa.
CARACTERISTICAS GERAIS
As descrições que acabamos de fazer são de caráter geral e apontam a um “tipo ideal”. Consequentemente, é uma caracterização das seitas bastante abstrata e produto, em parte, da mente. Tratando já das seitas concretas, devemos esperar  que cada um destes atributos de tipo geral se afaste um pouco da formulação proposta. As seitas estão sujeitas a mudanças, tanto devido as variações que se dão a sua volta como também a um processo de mutação interna. Por conseguinte, alguns atributos podem ir perdendo peso, e outros, em troca, ir ganhando importância em determinados momentos da história de uma seita.
VOLUNTARIEDADE.  Embora as seitas sejam organismos de caráter voluntário, existe certa tendência a que os filhos de seus membros abracem a mesma fé de seus pais. No cristianismo ocidental uma determinada seita pode continuar exigindo de seus jovens adeptos a profissão explicita de seus dogmas, o mesmo que fez com seus pais, já que em tais sociedades existe a possibilidade de escolha entre numerosas religiões.
EXCLUSIVISMO. Umas das características essenciais de uma seita e exigir de seus fiéis uma submissão absoluta. A raiz desta atitude e, entre as seitas cristãs, o principio de afiliação exclusiva que rege no cristianismo e   que surge do fato do Deus de Israel ser um Deus zeloso. Normalmente, o adepto assume seu compromisso com a seita de forma distinta dos demais homens: com efeito, a seita se converte no ponto mais importante com respeito a sua pessoa. Quando se faz alusão a ele, o que interessa saber antes de qualquer outro dado, e que se trata de um membro de tal ou qual seita.
MÉRITOS. As seitas exigem um ato de aceitação. Mas quando as seitas perduram durante muito tempo,   semelhante prova de méritos pode converter-se em algo puramente nominal.
AUTOIDENTIFICAÇÃO. Qualquer de nós,  arrastados pelo desejo de impor ao mundo uma ordem conceitual, sente a tentação de buscar limites precisos e categorias inequívocas. As seitas parecem uma afirmação quase natural desse mesmo principio. E não poderia ser de outro modo, dado que as seitas são entidades sociais construídas pelos homens e com consciência de si mesmas. Sem renunciar a esse enunciado geral, temos de admitir que na realidade pode resultar tão árduo o trabalho de definir com certeza as características de uma seita como nos trabalhos antropológicos o é definir entidades as vezes tão vagas que são as tribos. As seitas, semelhantemente as tribos, mantêm uma forte concepção de “nós” em contraposição com todos os demais. Mas este “nós” pode variar  quanto a sua aplicação, como ocorre com as tribos, e apresentar limites pouco definidos. Quem se acha completamente comprometido normalmente não tem problemas, mas há casos em que estão vinculados as seitas os chamados “simpatizantes”  que jamais procuraram a admissão nelas, ou que jamais a conseguiram. Possuem   também em seu bojo jovens que não poderão fazer parte dela até alcançarem certa idade. E, o que é mais significativo,  as seitas podem considerar a alguns movimentos, de certo modo, mais próximos da verdade que outros. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando dentro de uma  seita ocorre um cisma. No principio, os grupos cindidos entre si possivelmente lançarão anátemas múltiplos, fortalecendo consideravelmente seu sentido de autoidentificação pelo fato de terem um inimigo palpável. Mas, uma vez que a ruptura inicial sumir no esquecimento, ambos os grupos podem chegar a admitir que têm mais em comum que motivos de separação, levando os velhos  antagonismos de caráter reciproco a se apaziguarem.
STATUS DE ELITE. Até que ponto uma seita considera a si mesma como uma elite social é algo que depende de toda uma série de fatores concretos, os mais importantes dos quais são a   tradição escatológica recebida e o caráter das relações que os membros da seita  mantêm com os de fora. Dentro do cristianismo é fundamental a idéia de uma certa eleição: o velho conceito de tipo étnico de um povo escolhido foi herdado do judaísmo e transmitido a fé cristã por aqueles que voluntariamente a abraçavam. Apesar de inclusas dentro da tradição cristã, as seitas que têm buscado sua legitimação através das Escrituras nem sempre conseguem facilmente afirmar que elas e somente elas são os eleitos de Deus.
EXPULSÃO. Cabe pensar  que, em geral, a prova de méritos prévia à admissão em uma seita implica já nos critérios para continuar pertencendo a ela. Mas na prática vemos que se bem que algumas seita mantêm seu nível de rigor, existem algumas em que o nível daquele que estão afiliados começa  a relaxar. Isto pode acontecer quando uma seita adota medidas extremas para separar-se do resto da sociedade e começou a nutrir suas fileiras, em geral, a base dos nascidos em seu próprio meio, levando a  surgir o questionamento de seus valores.
CONSCIÊNCIA. Igualmente pode variar o grau de autoconsciência e de compromisso consciente que têm lugar dentro de uma seita. Isto ocorre, sobretudo, quando se impõe o princípio de nutrir as fileiras da seita a base dos nascidos em seu próprio seio, se bem que algumas seitas fazem um trabalho de socialização de suas crianças que ao abandonarem a primeira infância já tem consciência de suas diferenças com o resto do mundo.
Ocorre também outro caso em que a consciência, se não já a autoconsciência,   parecem sofrer uma transformação insólita dentro de alguns movimentos sectários.  Se trata do caso em  que se  aceita com tal entusiasmo a ideia de um status de elite, que os fieis creem ser um povo escolhido, independentemente de sua conduta moral. Ao ser os escolhidos, podem chegar a considerar-se perfeitos:  e deste modo, a conduta que em outros podia ser pecaminosa, não pode, por definição, ser pecaminosa para eles. Esta tendência — o antinomianismo — há tido lugar em uma série de seitas cristãs, especialmente nos séculos XVI e XVII. Tal posição  sempre tem se chocado com uma profunda desaprovação, já que se trata de uma doutrina que dá rede a solta aos membros de tais seitas para se comportarem como melhor lhes apraz. Este fato  contrasta fortemente com a tendência mais freqüente ente as seitas de impor a seus membros normas de decoro e de conduta mais severas que as de outros homens, a fim de que assim se manifeste sua adesão a uma verdade superior.
LEGITIMAÇÃO. Nenhuma seita faz sua aparição sem contar com uma justificação de tipo ideológico. As seitas se atribuem uma autoridade sagrada, com o fim de persuadir aos homens que abandonem o sistema religioso ortodoxo. É necessário haver uma pessoa — ou várias pessoas — com uma autoridade que lhes permita dar a conhecer esta  legitimação. Quando a seita se forma em torno de um líder carismático (o qual pode ser, por sua vez, a fonte sagrada e seu interprete), a legitimação está constituída pelo carisma. Em outros casos se reconhece um colégio de líderes, e são criados métodos para nomear ou eleger aos líderes. Mas também há seitas cujos membros negam veementemente que exista intermediário entre Deus ou sua palavra e eles.  Estes rechaçam qualquer forma de organização  humana, crendo-se chamados eles mesmos a fazer o que Deus ordena. Estas seitas se opõem a autoridade e tornam-se  profundamente anticlericais, sua oposição lança-se tanto contra a organização da Igreja como contra seus ensinamentos.
FONTE:
—    Wilson, Bryan: Sociologia de  las sectas religiosas, Madrid, Ediciones Guadarrama, 1970. Tradução e adaptação do texto para língua portuguesa feita por Josué Giamarco
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ANIQUILACIONISMO OU SONO DA ALMA


                         Aniquilando a Verdade Bíblica

Muitos grupos religiosos como os adventistas do Sétimo Dia acreditam que quando o homem morre, ele fica inconsciente, não percebendo o que se passe ao seu redor. Porém, a Bíblia não ensina a doutrina do “aniquilacionismo”, vulgarmente chamada de “sono da alma”. O fato de que a alma dos cristãos vai imediatamente para a presença de Deus também significa que a doutrina do sono da alma está errada. Essa doutrina ensina que quando os cristãos morrem, eles entram em um estado de existência inconsciente e que voltarão à consciência somente quando Cristo voltar e ressuscitá-los para a vida eterna. Ela tem sido ensinada even­tualmente por alguns na história da igreja, inclusive alguns anabatistas da época da Reforma e alguns seguidores de Edward Irving na Inglaterra no século XIX. Na verdade, um dos primeiros escritos de João Calvíno foi um folheto contra tal doutrina, a qual nunca teve ampla aceitação na igreja.

Encontra-se geralmente apoio para a doutrina do sono da alma no fato de que a Bíblia fala diversas vezes do estado de morte como “dormir” ou “adormecer” (Mt 9.24; 27.52; Jo 11.11; At 7,60; 13.36; I Co 15.6, 18, 20, 51; I Ts 4.13; 5.10). Além disso, alguns textos bíblicos parecem ensinar que os mortos não estão conscientes (veja Sl 5.5; 115.17 [veja porém o v. 18!]; Ec 9.10; Is 38.19). Mas quando as Escrituras falam da morte como “dormir” trata-se apenas de uma metáfora usada para indicar que a morte é apenas temporária para os cristãos, como é temporário o sono. Isso é visto claramente, por exemplo, quando Jesus fala a seus discípulos sobre a morte de Lázaro.Jesus diz: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo» João 11.11). Devemos notar que Jesus não diz aqui que alma de Lázaro adormeceu, nem qualquer texto bíblico de fato afirma que a alma de alguém está dormindo ou inconsciente (declaração necessária para provar a doutrina do sono da alma). Em vez disso Jesus diz apenas que Lázaro adormeceu. João prossegue, explicando: “Jesus, porém, falar; com respeito à morte de Lázaro; mas eles supunham que tivesse falado do repouso do sono. Então, Jesus lhes disse claramente:Lázaro morreu” (Jo 1.13, 14). Os outros versículos que falam sobre dormir após a morte são igualmente metáforas que ensinam que a morte é temporária.

Já os textos que indicam que os mortos não louvam a Deus, ou que a atividade consciente cessa depois da morte, devem ser entendidos da perspectiva da vida nesse mundo. De nossa perspectiva, uma vez que pessoa esteja morta, ele não se envolve mais com atividades como essas. Mas o salmo 115 apresenta a perspectiva bíblica plena sobre essa posição. O texto diz: “Os mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio”. Prossegue, porém, no próximo versículo com um contraste indicando que aqueles que crêem em Deus bendirão o Senhor para sempre: “Nós, porém, bendiremos o Senhor, desde agora e para sempre. Aleluia!” (SI 115.17-18).

Finalmente, os versículos citados acima que mostram que a alma dos cristãos vai imediatamente a presença de Deus e desfruta da comunhão com ele ali (2Co 5.8; Fp 1.23; Hb 12.23) indicam todos que o cristão tem consciência e comunhão com Deus imediatamente após a morte. Jesus não disse: “Hoje já não terás mais consciência de nada que esta acontecendo”, mas sim “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.43). Certamente o conceito de paraíso naquela época não era de existência inconsciente mas sim de existência de grande bênção e de regozijo na presença de Deus. Paulo não disse: “Tenho o desejo de partir e ficar inconsciente por muito tempo”, mas sim “tenho o desejo de partir e estar com Cristo” (Fp 1.2 3) — e sem dúvida ele sabia que Cristo não era um Salvador inconsciente, adormecido, mas sim alguém que está vivo, ativo e reinando no céu. Estar com Cristo era desfrutar a bênção da comunhão da sua presença, e é essa a razão por que partir e estar com ele era incomparavelmente melhor (Fp 1.23). Foi por isso que ele disse: “Preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2Co 5.8).

O fato de Hebreus 12.1 afirmar que “temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas”, logo depois de gastar um capitulo inteiro falando sobre a fé dos santos do Antigo Testamento, já mortos (Hb 11), e o fato de o autor do livro incentivar-nos a correr a corrida da vida com perseverança porque estamos rodeados por essa grande nuvem de testemunhas, sugerem ambos que aqueles que morreram e já partiram têm alguma consciência do que está acontecendo na terra vede Apocalipse 6:9. A Bíblia fala muito pouco sobre isso, provavelmente porque ela não quer que falemos com os que morreram nem que oremos a eles, nem que tenhamos algum contato com eles (observe o grande pecado de Saul nessa área em I Sm 28.7.25). No entanto, Hebreus 12.1-2 faz essa insinuação, provavelmente como incentivo para que permaneçamos também fiéis a Deus, como o foram aqueles que morreram e partiram para o céu antes de nós. De maneira semelhante, no fim de Hebreus 12, o autor nos diz que quando adoramos a Deus, entramos na sua presença, no céu, e não chegamos aos “espíritos dos justos adormecidos em estado inconsciente” mas “a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança” (Hb 12:22-24).

Apocalipse 6.9-11 e 7. 9-10 também mostram claramente as almas (ou espíritos) dos mortos que foram para o céu orando e adorando a Deus: “Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (46.10). E eles foram vistos «em pé, diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7. 9-10). Todos esses versículos negam a doutrina do “aniquilacionismo” ou “sono da alma”, pois deixam claro que a alma do cristão experimenta comunhão consciente com Deus no céu imediatamente após a morte.



sábado, 10 de novembro de 2012

EXISTE CRENTE CARNAL?


Por Gilson Barbosa

Sempre me interessei em descobrir porque certos crentes que frequentam regularmente a igreja e que trabalham em seus departamentos não possuem evidencias de serem regenerados por Cristo. Eles não fogem do pecado, aceitam as coisas do mundo com facilidade, se assentam nas rodas dos escarnecedores, estão sempre arrumando confusão, não evidenciam os sinais da salvação e não fazem questão de esconder isso. Apesar de conhecerem intelectualmente a Cristo não manifestam o poder do evangelho em suas vidas. Em minha busca conclui que a razão da existência desses crentes na igreja é o ensinamento de que existe na esfera evangélica o “cristão carnal”.

Este ensinamento tem sido pernicioso à fé cristã, pois não reproduz o correto ensinamento das escrituras com respeito à categorização do homem. Dentro do evangelicalismo moderno há uma corrente de pensamento que divide o homem em três grupos: natural, espiritual e carnal. Porém, à luz da correta interpretação bíblica, só há dois grupos: espiritual e carnal. A origem do ensinamento do crente carnal é atribuída a Bíblia de Estudo de Scofield. Ela afirma: ”Paulo divide os homens em três classes: ‘natural’, quer dizer, o homem adâmico, não regenerado através do novo nascimento; ‘espiritual’, quer dizer, o homem nascido de novo que anda em Espírito, está cheio do Espírito e em plena comunhão com Deus; e o homem ‘carnal’, quer dizer, o homem renovado que ao ‘andar na carne’ segue sendo um bebê em Cristo”’.

O entendimento de Scofield é que há três classes de homens e que mesmo após a conversão alguns são carnais, pois, se inclinam ao pecado idêntico a forma como um inconverso se inclina. O crente carnal, segundo esse pensamento, apesar de professar fé em Cristo continua a agir pautado nos princípios da sua velha natureza. Há muitos problemas com esse pensamento:

1 – A Bíblia menciona apenas dois grupos

Não há como provar que as escrituras mencionam três grupos de homens. A inserção de um terceiro grupo, baseado em I Coríntios 3:1-3, trata-se de uma falácia lógica. Na verdade, a Bíblia menciona apenas dois grupos de pessoas: natural e espiritual. Disso entendemos o que Paulo cita em I Coríntios 2:14,15: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”. As obras da carne e o fruto do Espírito, de Gálatas 5:17-24,  subentendem que existem pessoas que são guiadas pelo Espírito e outros que realizam as obras da carne. Apesar da possibilidade de um crente verdadeiro ser tentado ao pecado e até mesmo ceder a ele, não significa que o fez desejando pecar, ou que foi atraído fatalmente à ele, ou coagido pelo fato de ser “carnal”. Se isso acontecer o resultado é causa da depravação total do homem. A natureza é inclinada ao pecado, simplesmente por sermos descendentes de Adão. Contudo, a Bíblia afirma que os que recebem Cristo em suas vidas são regenerados e santificados: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” II Coríntios 5:17. Em Romanos 8:1-9 a distinção não é entre cristãos carnais e espirituais, mas entre os que andam conforme a carne (incrédulos) e os que andam segundo o Espírito (os que estão em Cristo Jesus).

2 – Interpretação equivocada de I Coríntios 3:1-3

O único texto “claro” para os defensores da teoria do crente carnal é este. Leiamos: “E EU, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis, porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?”.

O contexto desta assertiva de Paulo trata do partidarismo dos crentes ao preferirem determinado pregador a outro. Uns diziam ser do grupo de Paulo, outros de Apolo, outros de Pedro, e ainda outros de Cristo. Por esse motivo a igreja estava rachada, não havia unidade. Paulo identificou a atitude deles como as dos que ainda não houveram sido regenerados em Cristo. Eles eram meninos no sentido de serem imaturos até então. Com o tempo iriam aprender que o que faziam não condizia com a realidade da nova vida em Cristo. Não significa que Paulo está criando uma segunda categoria de crente. Posto assim haveria na igreja em Corinto crentes regenerados e crentes não regenerados, mas renovados. Isso causaria um defeito na eficácia redentora e regenerativa da obra sacrificial de Cristo.

O texto deve ser entendido no sentido de que os coríntios agiam como pessoas do mundo, não convertidas, homens naturais que não compreendem as coisas do Espírito e por isso se envolvem em disputas tolas. Os carnais, na verdade, são os que vivem segundo as paixões da carne – é o homem natural. Um crente convictamente salvo em Cristo não vive assim. Ademais, Paulo os chama em 1:2 de “santificados em Cristo Jesus, chamados santos”, diz que foram “enriquecidos“ em Cristo (1:5), não faltava a eles “nenhum dom” (1:7), os crentes não haviam recebido o “espírito do mundo” (2:12) e tinham “a mente de Cristo” (2:16). Tudo isso nos leva a entender que o problema dos irmãos coríntios era de imaturidade, graus individual de santidade, natureza pecaminosa, e não que eram carnais.

3 – A necessidade de uma segunda obra da graça

Se depois de regenerado por Cristo o crente ainda permanece agindo como o homem não convertido, é necessário algum acontecimento sobrenatural para que possa sobrepujar a carnalidade. Desta forma, a busca de momentos de intensa infusão sobrenatural se torna cada vez mais necessária para subjugar a força do pecado. Isso muitas vezes se traduz em cultos onde a manifestação física e mística é buscada a exaustão. É por isso que num culto se vê rodopios, “aviãozinho”, gritos, quedas (“no espírito”), e o uso incessante e inadequado das línguas. Quase todos os crentes acreditam que esses momentos místicos ou sobrenaturais serão os elementos que infundirão força para vencer a natureza carnal. Qual o problema disso? O problema está na ausência ou omissão de arrependimento na experiência da conversão.

O arrependimento é uma parte essencial na conversão do pecador. Porém, o entendimento teórico de que existe crente carnal banaliza essa ordem da salvação quando insinua que mesmo após a regeneração o crente ainda permanece agindo como o homem natural. O apóstolo Paulo não entendia assim. Ele falou aos irmãos de Éfeso que nunca deixou de anunciar e ensinar publicamente de casa em casa “testificando, tanto aos judeus como aos gregos, o arrependimento para com Deus, e a fé no Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:20,21). Não adianta buscar experiência mística ou sobrenatural, sem ter se arrependido dos pecados no momento da conversão ou tentando disfarçar uma vida impiedosa e sem compromisso com o senhorio de Cristo.

4 – Falsa espiritualidade

Alguns crentes se julgam mais espirituais que outros pelo fato de falar em línguas ou possuir dons espirituais. O que me enoja é saber depois que esses mesmos crentes estão envolvidos com mentiras, rebeldias, intrigas, esquemas, insubmissão, adultérios e todo o tipo de imoralidade. O que é isso senão o resultado de dissociar o ambiente do culto do ambiente de casa, ou o secular. No culto é “poderoso” em outro ambiente é carnal. Que é isso leitor!!! Deus nos guarde desse tipo de comportamento. Isso é resultado de admitir o ensino de que existe o crente carnal. É uma espécie de prêmio para o crente relaxado com as coisas de Deus.

5 – A concessão da natureza divina

O teólogo Lewis Sperry Chafer explicou a regeneração não como uma mudança interior, da mente, da alma do pecador, mas como uma concessão de Deus da natureza divina do crente. Quando o crente recebe a Cristo recebe de Deus a natureza divina. Essa teoria de Chafer oferece margem para que o crente aceite que há uma parte da sua natureza (a velha natureza) que não é afetada pela regeneração e continua a operar de forma de pecaminosa, como antes da regeneração, até ser destruída na morte.

Segundo R.C. Sproul “essa visão de regeneração provavelmente é responsável pela possibilidade comumente sustentada pelos dispensacionalistas modernos do chamado cristão carnal. Essa é uma pessoa que recebeu Jesus como Salvador mas ainda não se submeteu a ele como Senhor. Essa pessoa ainda é basicamente carnal na orientação mas desfruta da sua ‘posição’ de ser justificado. Ela ainda não foi enchida pelo Espírito”.

Prejuízos

O ensino de que existe o crente carnal traz muito mais prejuízos, em vez de benefícios, à fé cristã. Uns vivem a fé no autoengano substituindo os meios da graça (oração, santificação, leitura da Bíblia) por experiência mística ou sobrenatural. Outros, nem se importam mais em pecar. Paulo ataca a visão distorcida do pecado que alguns judeus tinham: “QUE diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?” (Romanos 6:1). Os ensinadores do “crente carnal” deveriam responder essa pergunta assim: “Sim, podes continuar no pecado e ser um cristão carnal”.

Este tipo de pregação trata-se de um evangelho sem poder, pois não tem capacidade nem força para transformar o pecador. Não promove alternativa piedosa ao “crente carnal” e até mesmo o incentiva a permanecer no pecado. As duas opções do homem é: ser espiritual ou natural/carnal; andar pelo caminho estreito ou pelo caminho largo; servir a Cristo como Salvador e Senhor ou ser fantoche de Satanás.

Grande abraço,

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

FINADOS: O DIA DOS MORTOS

Por Gilson Barbosa


Nesta sexta-feira (02/11/2012) milhares de pessoas se dirigirão aos cemitérios de suas cidades para prestarem homenagens a entes queridos já falecidos. Outros simplesmente aproveitarão o feriado para viajar sem se importar com a data.

Celebrado em 02 de novembro é o dia em que, na crença da Igreja Católica Romana, se fazem orações pelas almas que estão no Purgatório. É denominado de celebração omnium fidelium defunctorum (“de todos os fiéis defuntos”). Segundo os estudiosos a celebração foi introduzida no século X por santo Odílio ou Odillon (962-1049), abade beneditino de Cluny, na França, para os mosteiros da sua ordem. No século XIV, a Igreja Católica universalizou essa data.

Hoje em dia o sentido da comemoração ultrapassou o aspecto religioso para revelar uma feição emotiva, como preito de saudade aos que se foram de nosso convívio. Mas, no sentido original trata-se de uma das práticas fundamentais das religiões pagãs ligados aos cultos agrários e aos da fertilidade. Cria-se que os defuntos, assim como as sementes, eram enterrados com vistas a uma ressurreição. Cada religião pagã possui uma forma de celebrar a data. Umas festejam com banquetes e orgias perto dos túmulos, outras costumam espalhar terra trazida dos cemitérios, nos campos cultivados. Hipócrates cria que os espíritos dos defuntos faziam crescer e germinar as sementes. Outras, fazem preces intercessoras pelos mortos.

A perspectiva da morte e a crença na vida futura sempre foram encaradas com preocupação. Nos dias em que surgiu o cristianismo as religiões de mistérios aspiravam pela imortalidade e a vida no além era uma realidade transcendente. A crença generalizada da reencarnação ou transmigração da alma era outra característica daquela época. No Antigo Testamento não houve uma sistematização ou preocupação do assunto por parte dos judeus.

Já no cristianismo houve dois fatos interessantes a respeito deste assunto: uma atitude mais otimista com relação à morte e uma crença inabalável acerca da realidade e bem-aventurança da vida no porvir.  O apóstolo Paulo disse aos coríntios: “Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor” (II Coríntios 5:8). Os dois fatos estavam ligados a 1) afirmação de uma relacionamento pessoal ou comunhão com o Senhor Jesus Cristo e 2) a personalidade toda estava envolvida no processo (alma e corpo). O desejo de estar com Cristo era algo comum entre os primeiros cristãos: “Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo” (Filipenses 1:23,24). Temos de estar preparados para a morte.

Os pensamentos sobre a morte, os mortos, e a vida no porvir, ao longo da história, foram descritas de várias maneiras pelas religiões. Já mencionei a crença sobre a reencarnação dos mortos (hinduísmo, espiritismo), mas, há ainda a do purgatório (igreja católica romana) e a doutrina do sono da alma (Adventistas do Sétimo Dia). Esses ensinos foram repudiados pelos reformadores protestantes. O entendimento da teologia protestante clássica é que os corpos dos mortos repousam no túmulo até a ressurreição, mas as suas almas vão imediatamente para a presença de Deus.   

A atitude cristã, quanto aos entes queridos que partiram, deve ser essencialmente de lembranças e por fim a esperança de que ressuscitarão para também, conosco, estarem com Cristo na eternidade. A cultura cristã possui um tratamento discreto a respeito dos mortos, diferente dos judeus que observam formas de comportamentos e hábitos curiosos (LEIA AQUI). Porém permanece a firme convicção de que ainda que a morte de um servo do Senhor seja extremamente triste para nós, ela é preciosa aos olhos Dele: “Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos” (Sl 116.15).

Em Cristo,