segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A IMPORTÂNCIA DA DISCIPLINA NA IGREJA

Por Gilson Barbosa

Generosidade sem sinceridade é hipocrisia. O casal, Ananias e Safira, ao observarem o exemplo de Barnabé (4.36,37) e os demais irmãos, sentiram-se pessoalmente constrangidos a doarem o bem que possuíam. As autoridades religiosas de Jerusalém, contudo, não impunham essa obrigação à comunidade cristã e a doação deveria partir de um coração bem intencionado.
Isso remete à lembrança e realidade de cristãos preocupados em apresentar à igreja onde congrega uma aparência de santidade, a preocupação com a avaliação dos demais irmãos a respeito de suas atitudes, uma ânsia pessoal por status, quando na verdade, sua vida cristã é apenas uma “fachada”, pois atrás disso, suas palavras, seus atos, suas intenções, estão todas eivadas de hipocrisia.
A disciplina divina e suas implicações
A disciplina divina foi deveras dramática ao ponto de Lucas registrar que “Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido” (5.5) e que “grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos” (5.11). Apesar de trágico, isso serviu para que a sociedade tivesse um alto conceito moral da igreja primitiva. Infelizmente, penso eu, que o conceito da igreja evangélica nacional na atualidade, perante a sociedade sem Deus, tem sido de descrédito, mas no início não era assim.
1. A expressão disciplina é usada neste texto (5.1-11) no sentido de “correção”, diferente da disciplina eclesiástica, que significa “o ato de excluir da membresia e da comunhão na ceia do Senhor alguém que confessa ser um cristão e está envolvido em pecado grave e pertinaz – pecado que ele recusa abandonar”. [1]
O óbito do casal aos nossos olhos parece ser uma medida divina desnecessária e aplicada com muita dureza, contudo, demonstra que ninguém mente ao Espírito Santo e consegue ficar imune e impune. A verdade deve ser dita sempre, pois desta maneira a pessoa se sente segura, ou seja, o mentiroso pode ser vítima de sua própria mentira e cair em contradição. “O mentiroso acredita que poderá esconder a verdade indefinidamente. Querendo ser bem visto pela comunidade cristã, Ananias mentiu juntamente com Safira, sua mulher, tentando enganar o apóstolo Pedro. Como medida exemplar para todos, Deus puniu-os severamente. Infelizmente, muitas pessoas são presas da mentira e são dominadas por ela”.[2]
O julgamento divino no Antigo Testamento
Com Deus não se brinca e Dele ninguém zomba (Gl 6.7). Não pense que os comportamentos moralmente indevidos por parte de crentes ficarão sem sua condenação. Muitos, hoje em dia, estão como o casal que intencionava “tentar o Espírito do Senhor” (v.9) excedendo os limites da paciência divina quando permaneceram em sua ação pecaminosa. “A ação do casal culpado é representada como sendo um mútuo acordo para tentar o Espírito, isto é, testar a Deus (assim como fizeram os israelitas no deserto, Ex 17.2; Dt 6.16) para ver quanta coisa conseguem fazer impunemente”. [3]
O julgamento divino, aplicado ao casal, tem similaridade com alguns personagens no Antigo Testamento e bastaria conhecer esses exemplos para não ter o mesmo fim. “A palavra reteve [v.2]é a mesma expressão que aparece na tradução grega do AT (Septuaginta) quando narra o pecado de Acã (Js 7.1-25). A mesma avareza, associada à hipocrisia (desejo de manter uma falsa imagem de santidade), gerou mentira, afastamento de Deus e destruição. Veja os exemplos de Nadabe e Abiú (Lv 10.2) e Uzá (II Sm 6.7). Ananias e Safira foram os primeiros exemplos de ‘falta de sinceridade no serviço cristão’ ocorridos nos primórdios da Igreja de Jesus Cristo. [4]
O discernimento espiritual do apóstolo Pedro
É imprescindível dispor dos dons espirituais que Deus graciosamente nos deu, por intermédio do Espírito Santo, pois como o apóstolo sabia que o casal estava mal intencionado? “Pedro, agindo como representante e porta-voz dos 12 apóstolos, soube imediatamente o que fora feito. Ele não tinha espiões para informá-lo; mas tinha o Espírito Santo. Talvez isto lhe fosse revelado por meio de um dos dons de revelação tal como a apalavra de sabedoria ou a palavra de conhecimento”.[5]
Morte física
O que teria provocado a morte física do casal? “A morte devia ser considerada, sem duvida alguma, um julgamento divino sobre seu pecado, embora nenhuma sentença de morte se contenha nas palavras de Pedro. Do ponto de vista médico, tratava-se provavelmente de síncope cardíaca devida ao choque” [6], isso é, ao ser impactado pela santidade do Espírito, pela palavra de autoridade, e revelação divina ao apóstolo, tanto Ananias quanto Safira, não tiveram condições de suportar a pressão moral do momento.
A causa impessoal da morte
É de extrema relevância reiterar que os crentes primitivos não eram coagidos a doar os seus imóveis ou terras, e que, quando o faziam, estavam agindo de forma voluntária, espontânea. Foi assim que Barnabé, levita, “possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos” (At 4.37). Entretanto, os cônjuges, Ananias e Safira, que tinham liberdade para doar ou permanecer com a propriedade que possuíam, resolveram, comunalmente, apresentar-se aos apóstolos, no caso, Pedro, entregando sua oferta como se fosse o valor total da venda efetuada, quando, na verdade, retiveram parte do preço. Esta foi a causa da morte do casal: a mentira, pois tudo o que disseram não passava de uma “armação”. Mas Deus conhece o coração do homem: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13). Ao repreender Ananias, Pedro lhe revelou sua atitude, dizendo-lhe que não era a Ele (ao apóstolo) que estava mentindo:  “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? [...] Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5.3,4). Como lemos, o efeito desta mentira custou a vida de ambos (At 5.5,10).
Ananias e Safira foram salvos?
Existem os que mentem, e existem os que amam e praticam a mentira (Ap 22.15), ambos são reprováveis diante de Deus, e, vamos dizer que Ananias e Safira se enquadram na primeira categoria.  Todavia, isso não é pouco, pois a Bíblia nos informa que o Diabo “é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44) e que também no céu não há espaço para a mentira (Ap 21.27 A.A). Pelo julgamento divino e pelas circunstâncias dos fatos, depreendemos a possibilidade do casal terem se perdido eternamente, porém não podemos negar que eram servos de Deus, viviam em comunhão com os cristãos da igreja primitiva e desfrutavam do poder do Espírito Santo. O maior equívoco deles foi à tentativa de apresentar algo publicamente além do que deviam, e aparentemente não teriam por que agirem dessa maneira.   
Com certeza opinar decisivamente entre uma e outra resposta é extremamente complicado. O comentarista bíblico David J. Williams arrisca dizer o seguinte sobre a polêmica questão: “Teriam esses crentes sido disciplinados sem sofrer a perdição eterna? Paulo descreve em 1 Coríntios 3:12-15 os crentes cujas obras não conseguirão passar incólumes pelo tribunal celeste, embora sejam eles salvos “todavia como pelo fogo”. Talvez essa declaração fosse comprovada de modo bastante apropriado por aqueles dois casos, e pelo de Ananias e Safira em particular”.[7] E você leitor, arrisca um palpite?





[1] DEVER, Mark. O que é uma igreja saudável? Ed: Fiel, 2009, p.91
[2] BÍBLIA DE ESTUDO ESPERANÇA, Ed: Vida Nova, 2000.
[3] MARSHAL, I.Howard. Atos, introdução e comentário. Ed: Vida Nova, 2001, p.111.
[4] KING JAMES.
[5] HORTON, Stanley. O Livro de Atos. Ed: Vida, p. 64.
[6] MARSHAL, I.Howard. Atos, introdução e comentário. Ed: Vida Nova, 2001, p.111.
[7] WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Ed: Vida, pg. 114.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA


 “Peço desculpas aos leitores pelo post desse artigo, pois, destoa do tom teológico; é que o considerei extremamente importante, e, de alguma maneira, não é impossível algum líder eclesiástico usar as mesmas estratégias, adaptando-as e aplicando à igreja” (Gilson Barbosa)
Por Noam Chomsky

1. A estratégia da distração. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4. A estratégia de diferir. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Ae alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Noam Chomsky é linguista, filósofo e ativista político estadunidense. Professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts

SOBRE A NATUREZA DO PECADO


Por Gilson Barbosa
“O pecado é um desafio à justiça de Deus, um roubo à sua misericórdia, um zombar de sua paciência, um desprezo ao seu poder e um desdém ao seu amor” (John Bunyan).

O profeta Isaías, no capítulo 59.2, apresenta aos hebreus um defeito na comunicação vertical entre estes e Deus: “Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”.
A narrativa da raça humana é apresentada na Bíblia Sagrada basicamente como o homem num estado de desobediência e rebelião contra o seu criador, e Deus estabelecendo seu plano para a remissão do homem.
Definição
Podemos dizer a priori que o pecado é um estado mau da alma e/ou da personalidade. O pecado não são meramente atos errados praticados isoladamente, não é algo apenas concreto e externo, mas é algo inerente e interiormente fixado na alma do ser humano. Sendo assim, não é só porque determinada pessoa é qualificada como “boa, de caráter, de moral, etc...” que está isenta de pecar. Independente das qualidades do ser humano em si, a Palavra de Deus afirma que todos pecaram: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23).
As pessoas, em geral, pensam no pecado somente como atos individuais tais como: roubar, matar, adulterar, mentir. No entanto, pecado é muito mais que isso. Vejamos:
Pecado é uma tendência interior
Não podemos declarar que o pecado sejam apenas atos errados conforme dito anteriormente. Pecado é a disposição que o ser humano, interiormente, tem para a prática destes atos. Ninguém mata, rouba, adultera, sem antes dispor de inclinações para a prática do pecado. Antes que o indivíduo assassine alguém, ele alimenta a ira, o ódio, a vingança. Antes que aconteça o adultério, a cobiça, a sensualidade, a imoralidade se instala no coração humano. As ações, os atos, não são mais importantes que os motivos, os desejos. Jesus não condenou apenas o homicídio e o adultério (Mt 5.21,27), mas também condenou a ira e a cobiça (Mt 5.22,28). Logo, não pecamos pelo simples fato de o pecado ser inevitável, mas, porque a nossa natureza corrompida nos compele a tal prática: eis aí a causa do pecado.
Mas como poderia então o homem obedecer ao mandamento bíblico explicitado em 1Pedro 1.15?: “Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver”.
Primeiramente, apresentando uma vida de conformidade com a lei moral e divina, não somente em atitudes santas, coerentes com as virtudes de Deus, mas também em motivos puros. A definição de pecado, portanto, é “deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja em natureza”, conforme analisa Wayne Grudem, renomado teólogo cristão.
Pecado é desobedecer, é rebelar-se
Note o que diz o texto de Romanos 2.14,15: “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os”. Este texto deixa claro que não há desculpa para o ser humano quanto a não ter o conhecimento real de Deus. Se os gentios não têm a revelação especial acerca de Deus, no entanto, a “lei” de Deus está anexada, escrita em seu coração. Não crer na mensagem apresentada, então, se torna desobediência e rebelião contra Deus. Saber o certo e fazer o errado, teologicamente é pecado, e foi exatamente isso o que aconteceu com Adão e Eva ao desobedecerem a exigência de Deus quanto a não se alimentarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.16,17).
Pecado denota a incapacidade espiritual do ser humano
Quando comete pecado o ser humano distorce e deforma a imagem na qual foi criado à semelhança de Deus originalmente. É este o motivo de tantas anomalias no comportamento humano. Analisando Romanos 1.21-32, o quadro é crônico. Tomemos como exemplo apenas os versículos 21 e 28:
        “Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu” (v 21). É como se fosse uma luz que pouco a pouco se esvai. Os valores morais passam a ser invertidos. Este quadro devastador é tão antigo que o profeta Isaías disse aos seus contemporâneos: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Is 5.20).
        “E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” (v 28). Quantas bestialidades o ser humano comete e quantas crueldades aprova e pratica? E ainda alguém pergunta: “Mas como pode um ser humano chegar a esse nível?”. São sentimentos perversos liberados e tolerados por Deus. E assim o ser humano vai como se fosse um barco à deriva. Conforme escreveu o apóstolo Paulo aos Romanos, as pessoas que estão neste estado precisam passar por uma transformação geral: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
Pecado é cumprir parcialmente as exigências de Deus
Há uma incompreensão por parte de muitos cristãos ao se depararem com o texto de Mateus 5.48 que diz: “Sede vós, pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”. Esta perfeição implica em atingir as normas estabelecidas por Deus, o que por parte do ser humano poderá não ser total ou parcialmente alcançado. Os fariseus foram censurados por Jesus nem tanto pelo que faziam, mas sim, pelos motivos com que faziam (Mt 6.1-18). Sendo assim é pecado, também, praticar atos com a intenção de ter a aprovação apenas e simplesmente humana.

Pecado é depreciar a Deus
Neste aspecto, não deve existir ninguém mais importante tomando o lugar que Deus deve ocupar no coração dos seus filhos. Jesus referiu-se a isso também quando disse: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.47). Portanto, ele não queria dizer com isso que os pais não devam ser amados, mas, ele se refere à posição que deveria ocupar no coração de seus seguidores. A primeira proibição no decálogo é: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). Deus deve ter a primazia em tudo: “Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.30). Dar o primeiro lugar a alguém ou a qualquer objeto em detrimento de Deus redunda em pecado, e é idolatria.
Conceito etimológico
As Escrituras Sagradas empregam, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, vários vocábulos quando se trata de definir o pecado. A seguir seguem alguns significados:
Hamartia
A palavra geralmente usada para o pecado é hamartia e tem o sentido básico de “errar o alvo”. Seu correspondente na língua hebraica é Chata’th. Myer Pearlman, em sua obra Conhecendo as doutrinas bíblicas, afirma que o sentido é o de errar o alvo: “...como um arqueiro que atira, mas erra; do mesmo modo, o pecador erra o alvo final da vida”. De hamartia temos o nome desta disciplina: hamartiologia, que refere-se ao estudo sobre a doutrina do pecado.
Adikia
O Dicionário Internacional de Teologia de Lothar Coenen e Colin Brown, obedecendo aos derivados desta palavra, afirma o seguinte acerca desse termo: “cometer uma injustiça”, “ato injusto”. Seu derivado em hebraico é avon.
Parabasis
Significa basicamente “violação”, “transgressão” como no caso de romper um pacto, uma aliança. No hebraico temos, paralelamente, o termo pesha.
Paraptoma
Seu correspondente em hebraico é resha e significa “inadvertência”, “erro”, “engano”. Entende-se como alguém que se “desviou para outro lado”.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MENTIRAS QUE OUVIMOS ACERCA DA BÍBLIA

“Cada dificuldade e suposta discrepância nas Escrituras... têm uma solução justa e razoável”. John W. Haley

Por Ministério Creced
Tradução: Gilson Barbosa

PERGUNTA: Há contradições na Bíblia?
realmente contradições na Bíblia? Como explicar algumas citações que parecem contradizer as outras?
Às vezes, ouvimos acusações de que há muitas contradições na Bíblia. Normalmente, tais acusações são provenientes de pessoas incipientes, que no fundo têm conhecimento superficial da matéria que acusam e, quando não, são totalmente incultas nesta disciplina.
A Bíblia é um livro maravilhosamente compactado, apesar do fato de ter sido escrita por cerca de 40 homens de opiniões e regiões distintas, em espaço de quase 1500 anos. Esta unidade maravilhosa é uma das evidências mais consistente que temos da inspiração divina das Sagradas Escrituras.
No entanto, existem algumas porções das Escrituras que apresentam “problemasquando alguém as pela primeira vez porque representam conceitos opostos dos dados de outros textos. Contudo, os estudantes da Bíblia têm encontrado explicações e soluções a cada uma das supostas contradições.  

Diferentes fontes e explicações
         No excelente livro Alleged Discrepancies of the Bible (“Alegadas discrepâncias da Bíblia”), o autor John W. Haley classifica estas supostas contradições, oferecendo várias fontes e explicações. Vejamos os sete pontos que envolvem o problema:

1. Diferentes pontos de vista em diferentes períodos
Muitas pessoas pensam quecontradições entre Gênesis 1.31 e 6.6. O primeiro texto nos informa que Deus olhou para a criação e viu que tudo era muito bom, a segunda fonte escriturística nos diz que “arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra”.
Observe atentamente que no primeiro texto a referência está na atitude de Deus após a criação do ser humano antes da queda do pecado. Em contra partida, Gênesis 6.6 demonstra a tristeza de Deus muitos anos depois, ao ver que o homem, o qual havia criado, rebelara-se contra Ele. Alguns comentaristas entendem que a frase que se refere ao “arrependimento” de Deus acontece para que o homem entenda o sentimento de Deus (tristeza) somente do ponto de vista humano.
         também muitos outros mandamentos para os judeus no Antigo Testamento que não se repetem no Novo Testamento. Como exemplo, lembremos que o Antigo Testamento ordena a circuncisão, enquanto no período neotestamentário não há a exigência restrita. Isso acontece pelo simples fato de que houve diferentes mandamentos, para diferentes pessoas e em diferentes lugares.

2. Diferentes sentidos de palavras
Em Êxodo 20.13 está escritoNão matarás”; porém, em 1Samuel 15, Deus disse a Saul que matasse os amalequitas. A palavra empregada em Êxodo destina-se ao “ato homicida(Gesenius, p.779) e não às campanhas militares como a descrita em 1Samuel 15 quando por diversas vezes Deus ordena que as nações iníquas sejam castigadas. Trata-se de duas palavras com distintas definições.
         A Bíblia diz que Deus não pode ser tentado (Tg 1.13), contudo também diz que os israelitas tentaram ao Senhor em Massa (Dt 6.16). Deus condena a ira (Pv 27.4), contudo Ele é Deus, e devido ao seu zelo e dedicação, Ele se ira. Estes tipos de supostas contradições são solucionadas quando analisamos atentamente as respectivas [“iguais”] palavras de um e de outro texto. Deus se ira no sentido de aplicar sua justiça e não como os demais que demonstram zelo, em dadas situações, mas de forma superficial.

3. Diferentes detalhes em diferentes relatos
Algumas notam contradição entre Atos 1.18 ao compará-lo com Mateus 27.5, entendendo que um texto demonstra que Judas sucumbiu no campo que ele mesmo tinha comprado e que outro afirma que ele morreu enforcado. Porém, os dois textos não se contradizem, antes, dão detalhes diferentes do mesmo acontecimento. Esta ocorrência pode ser simplesmente explicada quando observamos que ao se enforcar em uma árvore, o cadáver despencou de certa altura caindo no campo, terreno que tinha adquirido.
         Da mesma maneira, os diferentes relatos, das aparições de Jesus, após a ressurreição, solucionam-se quando entendemos que os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João dão diferentes detalhes quanto ao acontecimento, cada um do seu ponto de vista.

4. Diferentes cronologias
Certo professor disse que João contradiz Mateus quando este relata a purificação do templo [por Jesus] no início de seu ministério e João o coloca no final. Porém, alguns entendem que talvez Jesus tenha purificado o templo duas vezes e ainda outros opinam a possibilidade de que João relatou o evento sem se importar com o tempo exato da obra ministerial de Cristo. Neste caso, não há contradição, mas antes simples diferenças cronológicas da ação.

5. Problemas com os números hebraicos
Os eruditos são unânimes em dizer que os números em hebraico são complexos e complicados para se copiar. Alguns pensam que estes números foram escritos em forma de palavras por muitos séculos. Por este motivo, encontramos problemas quando comparamos números na Bíblia, principalmente entre os livros de Reis e Crônicas. Estes erros são possivelmente provenientes dos escribas ao fazerem alguma cópia, e, por outro lado [os números] não têm significado objetivo com respeito aos ensinos básicos das Escrituras.

6. Termos orientais
Em todas as línguas existem expressões que denotam particularidades regionais, nacionais, etc. Da mesma maneira se dá com os escritores do oriente médio. Por isso, antes de declarar quecontradições em certas passagens, é prudente estudar a fundo a linguagem do texto para verificar se são termos regionais, nacionais, etc, cuidando para que não atribuamos à expressão o sentido inadequado.

7. Preconceitos
A maior parte das supostas contradições são provenientes de pessoas predispostas a desacreditarem da Bíblia. Se alguém quer encontrar defeito em alguma coisa, encontrará, ainda que não seja de fato verdade, ainda que o defeito não exista. Por fim, a natureza superficial das acusações contra a Bíblia e a facilidade com que tem sido refutadas simplesmente corroboram o fato de a Bíblia ser o livro mais importante do mundo.

RESPOSTA: Não há contradição
         Há várias explicações para as supostas contradições da Bíblia e conforme explicitado neste breve artigo, temos dado algumas demonstrações simples para a busca de soluções. O importante é saber e reconhecer que cada suposta contradição, ao longo dos séculos, teve e continuará tendo explicações convincentes.
Concluímos, assim, com a precisa declaração de John W. Haley: “Cada dificuldade e suposta discrepância nas Escrituras têm uma solução justa e razoável”. Nãocontradição na Bíblia!


PAULO CONTRADIZ OS ENSINOS DE JESUS EM II CORÍNTIOS 11.17?

Por Gilson Barbosa

“O que digo, não o digo segundo o SENHOR, mas como por loucura, nesta confiança de gloriar-me” (2Co 11.17)

         A condição pressuposta da pessoa para aceitar e entender a Bíblia como a inerrante e infalível Palavra de Deus é de salutar importância. Se ela desqualifica a Bíblia antes de qualquer coisa, então passa a procurar e enxergar tão somente as “contradições” na Bíblia. O diabo foi o primeiro a dizer o que Deus não disse, porque amargava ódio de Deus e da criatura humana a qual Ele criou.
O que as pessoas chamam de “contradições bíblicas” não passam de dificuldades em entendê-la. Contudo dificuldade em entender a Bíblia não é o mesmo que impossibilidade, obscuridade em compreendê-la. Há para isso escolas teológicas, cursos para obreiros e leigos em geral, muitos livros na área da hermenêutica, conhecimento indutivo, etc. Agostinho prontamente disse: “Se estamos perplexos por causa de aparente contradição nas Escrituras, não nos é permitido dizer que o autor desse livro tenha errado; mas ou o manuscrito tinha falhas, ou a tradução está errada, ou nós não entendemos o que está escrito”. É bom que se entenda que manuscrito é uma coisa e cópia original das Escrituras é outra.
Uma das coisas que aprendemos no estudo bibliológico é que a convicção e a certeza da autoridade da Bíblia provém do estudo interno do Espírito Santo na vida da pessoa. Uma pessoa que não tenha em si o Espírito Santo (Jô 14.17), não foi regenerada (Jô 3.6), é portanto natural (1Co 2.14) e não tem capacidade para entender as coisas espirituais (1Co 2.14). As dificuldades são dirimidas quando há o testemunho interno do Espírito Santo na vida da pessoa.
         O apóstolo Paulo tinha a Palavra de Deus com reverencia e reconhecia ser ela singular: “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1Ts 2.13).
Em outro texto Paulo reconhece que o evangelho que pregava tinha sido revelado a ele por nosso Senhor Jesus Cristo: “Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11,12).
O apóstolo Pedro, ao fazer menção do cuidado que Paulo tinha com os irmãos, refere-se aos seus escritos como tendo autoridade escriturística tanto quanto os outros livros bíblicos: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quaispontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2Pe 3.15,16).
Quando Paulo diz “Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento” (1Co 7.6) ou “O que digo, não o digo segundo o SENHOR” (2Co 11.17) não quer dizer com estas expressões que a Palavra de Deus está em contradição com outros textos, como por exemplo, de 2Timóteo 3.16, que diz que: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”.
No mínimo, entendemos que Paulo está tratando de um assunto segundo seu ponto de vista e que nada fere a sã doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo e das Escrituras em geral. Associar 2Timóteo 3.16 com 1Coríntios 7.6 e 2Coríntios 11.17 e afirmar que isto é contradição implica em pelo menos dois erros: associação indevida de textos e desconhecimento das regras de interpretação bíblica. Devemos tomar “cuidado com a Bíblia na boca do Diabo”.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SINAIS E MARAVILHAS NA IGREJA

Por Gilson Barbosa
O cristianismo é uma religião de milagres. Por esse fato, alguns céticos afirmam que crer no sobrenatural significa se igualar as culturas mais primitivas e bárbaras da humanidade. Essa afirmação é uma característica especialmente do período histórico denominado “Iluminismo”, onde a razão humana passou a ser a única ferramenta indispensável para explicar os fenômenos sobrenaturais (Racionalismo). Entendido dessa maneira, a fé é um fator indesejado que anula o raciocínio. Porém, os cristãos não precisam abrir mão do raciocínio para crer nos acontecimentos inexplicáveis à luz da razão, mesmo não encontrando uma resposta que satisfaça à exigência humana.
Existem vários tipos de milagres, e, alguns deles consideramos mais extraordinários - concepção virginal de Cristo, sua ressurreição, transfiguração, a conversão do pecador – e outros menos – os milagres com efeitos sobre a natureza, sobre o ser humano, sobre a morte física, etc. Devido às muitas testemunhas e relatos desses milagres bíblicos, os incrédulos optam por desconsiderar o caráter das pessoas que os presenciaram ou tratar a Bíblia como um livro qualquer e nenhuma autoridade. Quando consideramos o assunto dos milagres no âmbito bíblico, os grupos cristãos concordam, mas quando analisamos se é possível acontecer esses milagres na igreja contemporânea começam as divergências. De um lado estão os pentecostais, que acreditam na continuidade do poder de Deus, na operação e realização dos milagres. Do outro, estão os protestantes tradicionais, que explicam os milagres terem servido a propósitos definido no início da igreja primitiva, e, como esses propósitos já aconteceram no passado, não há mais a necessidade do seu acontecimento no presente.   
DIVERGENCIAS SOBRE OS MILAGRES
Dr. Alan Pieratt informa, que “as primeiras divergências sobre milagres dentro da igreja são encontradas na época turbulenta da Reforma. Naquele tempo, os católicos apelavam para o poder de operar milagres como prova da veracidade de seu ensino”.[1] Eles desafiaram os protestantes a provarem a veracidade de seu cristianismo tendo como base os milagres que reivindicavam acontecer em seu meio, mas, porque seus milagres foram realizados em associação com sacrários católicos, relíquias católicas e santos católicos, foram refutados por grandes teólogos da época, como João Calvino e Lutero. Para Calvino era impossível verdadeiros milagres terem acontecido na igreja católica, pois isso reconheceria como autêntico a doutrina católica. Lutero, explicou que os milagres aconteciam apenas no sentido espiritual, ou seja, os milagres verdadeiros são os da conversão, santidade, regeneração – denominado como os milagres que ocorrem “na alma”.
Quanto à alegação dos milagres para autenticar suas doutrinas, o protestantismo tradicional reagiu contra a igreja católica romana e posteriormente, contra os pentecostais. Por outro lado, para combater a incredulidade dos céticos e teólogos liberais – que negavam todos os tipos de milagres – reagiram afirmando positivamente os milagres bíblicos.  
Observe que os protestantes tradicionais não negavam os milagres bíblicos, mas, seu acontecimento na igreja da época – da mesma maneira que fazem até hoje. Os argumentos contrários a reivindicação católica dos milagres são basicamente os mesmos usados também contra o pentecostalismo e foram: 1) os protestantes ensinavam exatamente o que a Bíblia ensinava – os católicos não; 2) nem todos os fatos milagrosos têm sua origem em Deus, principalmente quando acontece num ambiente eivado de falsos ensinos; 3) os milagres deveriam ser apenas os que aconteciam na alma – conversão, regeneração, etc; 4) os pais da igreja (século II) não alegaram realizar algum milagre; 5) os milagres encerraram com a morte dos apóstolos, pois serviam para validar o apostolado; 6) os milagres foram gradualmente desaparecendo da igreja bíblica e primitiva; 7) serviam para autenticar a revelação do evangelho – como nos dias atuais o evangelho se encontra revelado, buscar experiências milagrosas seria um ato sem objetividade; 8) comparados com os milagres da Bíblia, os atuais são inferiores em termos de valor ou qualidade; 9) a prioridade eclesial, na atualidade, é a pregação do evangelho, o ensino, o caráter moral do cristão, o conhecimento doutrinário e não a busca de milagres, de sinais, de ambientar o culto com emoções humanas, de favorecer a ocorrência do misticismo na igreja.
ETIMOLOGIA
O Novo Testamento emprega quatro palavras para descrever as obras milagrosas de Jesus e dos apóstolos: teras, semeion, ergon e dynamis. A primeira, teras, significa “maravilhas”, faz alusão ao caráter extraordinário do milagre (Jo 4.48; At 14.3), tem haver com a grandeza do milagre e com a produção de expectativas nas pessoas. A segunda, semeion, significa “sinal” e indica a conexão imediata com o mundo espiritual. Trata-se de algo que convence as pessoas de que o milagre ocorrido autentica a verdade religiosa. A terceira, ergon, “trabalho”, refere-se aos feitos miraculosos realizados (Mt 11.2; Jo 7.3). A quarta, dynamis, significa “poder”, “prodígio”, e descreve o exercício do poder divino e demonstra que forças espirituais se introduziram e estão em operação neste mundo (Mt 11.20; Mc 6.5).[2]
DEFINIÇÃO
O apologista Paulo Sérgio Batista define os milagres como uma “intervenção sobrenatural no mundo físico que produz resultados inexplicáveis à luz da ciência moderna. O milagre não nega as leis naturais pré-estabelecidas pelo Senhor Deus, apenas interfere no curso natural dos eventos”. [3]
CRISTIANISMO NÃO É JUDAÍSMO
Percebemos na narrativa bíblica de Atos 3.1-11, alguns pontos que evidenciam uma indiferença entre os adeptos do novo movimento cristão e a antiga religião judaica. Os primeiros cristãos eram judeus e se portavam cultural e religiosamente como tal. Não abandonaram a ida ao Templo, a prescrição alimentar, os horários judaicos de oração, a obediência incondicional apegada á Lei, e, até serem percebidos como um novo grupo religioso – ou como uma seita, como foi denominada posteriormente – tinha livre acesso às dependências sociais e religiosas dos judeus. Contudo, alguns acontecimentos sobrenaturais, como o milagre da cura do coxo, atraíram a atenção das autoridades religiosas e estes imaginaram um método para barrar o avanço da nova fé. Neste relato bíblico temos o primeiro milagre após a ascensão de Cristo, e o ocorrido chancelava as palavras prometidas por Cristo, seu caráter, sua pessoa, seu poder Divino, bem como autenticava o novo movimento religioso (o cristianismo) e a autoridade apostólica. Lucas registra (At 4.16) a respeito da postura e da possibilidade do Sinédrio aceitar esse milagre - pois não tinham como negar que aconteceu – sem admiti-lo.
DESAFIO AO MOVIMENTO PENTECOSTAL
Os milagres foram acontecendo naturalmente na igreja primitiva, mas, não devemos imaginar que os primeiros cristãos mantinham sua fé no elemento miraculoso, pelo contrário, consideravam a pregação apostólica uma prioridade. Talvez seja esse um dos grandes equívocos da eclesiologia pentecostal da atualidade: pensar que a verdadeira conversão dos pecadores acontece por causa dos milagres, pelo culto “carregado” de emoção humana, pela ocorrência dos dons espirituais, pela exorcização de demônios, desprezando o valor do conteúdo bíblico e tempo de pregação adequado nos cultos. Há outros, em atitude oposta, que supostamente defendendo os postulados pentecostais, não dão liberdade as manifestações dos dons espirituais, não oram por enfermos, não oram para que os crentes recebam o batismo com Espírito Santo - com a evidência do falar em línguas estranhas - ficam aparentemente desajeitados quando os crentes manifestam fisicamente o fervor pentecostal e tornam a liturgia do culto tão técnica que nos sentimos em uma igreja tradicional.    
         
              



[1] Pieratt, Allan. Sinais e Maravilhas. 1994, p.26
[2] Lição Bíblica. 1º trimestre de 2008, p.71 (lição de Mestre)
[3] Batista, Paulo Sérgio. Manual de Respostas Bíblicas. 2006, p.257