segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A MENTIRA DE RAABE


                                                  

Raabe, que era uma estrangeira (gentia) e prostituta alcançou graça e misericórdia da parte de Deus. A misericórdia de Deus foi estendida a ela. Tiago (2:25) reconhece seu feito (o de esconder os espias israelitas) como uma boa obra e afirma que Deus a justificou: “Do mesmo modo, também não foi Raabe, a meretriz, justificada pelas obras, quando recebeu os espias e os fez partir por outro caminho?”. Ao observarmos a genealogia do Messias aprendemos que nos pensamentos de Deus o inesperado acontece, pois Raabe é listada como ancestral de Jesus (Mateus 1:5). O autor de Hebreus (11:31) coloca Raabe na galeria dos heróis da fé junto com outras pessoas ilustres.

Mas, mesmo assim os relatos de Josué 2 nos informa que ela mentiu aos emissários cananitas quando foi indagada, pelo rei de Jericó, a respeito da identidade e do paradeiro dos dois espias israelitas. Ela escondeu os homens num compartimento de sua casa e informou que eles não estavam ali. Ela enganou os emissários do rei de Jericó e desta forma livrou os dois espias de serem mortos. Com este ato ela e sua família alcançaram o favor de Deus e não foram mortos na destruição de Jericó por parte dos israelitas (Josué 6).

A grande pergunta que não se cala é: Como Deus a justificou e teve misericórdia dela não obstante sua mentira? Podemos oferecer três respostas: 1ª) não podemos saber exatamente quais os motivos, mas é certo que Deus é soberano e faz o que lhe apraz; 2ª) Deus a considerou culpada da mentira, mas decidiu perdoá-la mesmo assim; 3ª) Deus não a considerou nem errada nem culpada, pois ela praticou uma norma superior (preservou a vida dos espias).

A primeira resposta não nos oferece oportunidade para argumentar. Passemos então à segunda.

O núcleo principal das circunstâncias é que Raabe enfrentava um dilema moral: mentir e salvar a vida dos espias ou dizer a verdade e entrega-los para serem mortos. A segunda resposta afirma que num dado conflito de normas fazer o menor dos dois males (mentir ou sujeita-los a morte) é desculpável e perdoável por Deus. O menor dos dois males no caso era mentir (obviamente essa decisão pressupõe que existem níveis e gravidades de pecado). Deus a perdoou porque não foi ela quem buscou ou criou essa circunstância difícil, mas foi colocada ali por razões externas que fogem do seu controle.  Ainda que muitos estranhem isso poderíamos dizer até mesmo que foi, em certo sentido, o próprio Deus quem a colocou na circunstância. Portanto, ela errou em mentir, mas fez o menor de dois males, buscou a misericórdia e por isso Deus a perdoou. As consequências da queda (mentira e morte) é uma realidade no mundo e ela não se sente pessoalmente responsável por isso.

A terceira resposta afirma que existem normas e princípios superiores e inferiores e que num dado dilema moral a pessoa não é culpada de quebrar uma norma inferior (a mentira) quando se tem em vista uma norma superior (salvar vidas). O que é evidente nesse caso é o fato de Raabe “salvar” não apenas os dois espias, mas a nação de Israel. Ela não somente evitou o mal maior, mas praticou o melhor do bem. A norma superior à mentira é “não matarás”. Portanto, é como se Deus suspendesse seu efeito punitivo isentando Raabe de incorrer em culpa diante Dele. Na resposta em questão Raabe não mentiu, portanto não é moralmente culpada de mentir.

As duas posições são parecidas e num eventual dilema moral o cristão provavelmente fará uso de uma ou outra. Penso que a segunda posição é bem convincente. Acredito que é errado mentir, mas também que Raabe não deveria entregar os espias à morte. Quanto à culpa do pecado dela o Senhor por sua soberania a perdoou. Até porque os detalhes do relato de Josué 2 subentende o propósito eterno de Deus em entregar Jericó aos israelitas.

Lembre-se, é apenas minha opinião acerca desse dilema moral. E você? Qual sua opinião? Reflita sobre isso.      

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O RETORNO DO MISSIONÁRIO À BASE


O quê fazer com o missionário quanto ao seu retorno do campo? Como a Junta Missionaria ou outra entidade deve proceder?

Essa postagem é ao mesmo tempo uma orientação técnica missiológica e uma pertinente preocupação. Um dos assuntos tratado no estudo missiológico é: o quê fazer com o missionário que retorna a sua base. Claro que este fato supõe alguns antecedentes. Ou seja, que o missionário enviado possui vocação, que deixou seus parentes para ir fazer missões em terras “estranhas” à sua, que há uma junta missionária ou uma igreja o enviando (a base), que sua família (esposa e filhos) o apoia e irá também com ele ao campo, que será sustentado pela entidade enviadora, etc. A questão é como proceder quando por forças das circunstancias ele seja obrigado a retornar a seu país de origem. Como a entidade que o enviou deve agir com ele?

Esse é um assunto que suscita polêmicas, visto que nem todas as entidades estão dispostas a dar uma solução viável ao missionário que retorna. É claro que isso pode variar de denominação pra denominação dependendo do tipo de governo estabelecido pela igreja (enquanto instituição) ou da estrutura hierárquica da denominação. Por exemplo: 1ª) há denominações que possuem uma Junta Missionária autônoma e paralela à igreja com poderes supra; 2ª) outras são administradas ou gerenciadas diretamente pela autoridade máxima da denominação.

Quando o segundo caso é o vigente o risco do missionário ficar desamparado após seu retorno à base está muito claro. Muitos missionários ao retornar a base temem por um futuro incerto. Ao falar de desamparo me refiro ao abandono físico e psíquico. Fisicamente ele necessita de meios financeiros para sobreviver (moradia, alimentação, roupas), pois não possui (ou possuía) outra renda. No sentido psíquico, havendo o abandono pela vida do missionário ele sofrerá terríveis transtornos psicológicos. Tudo isso deveria promover nas entidades responsáveis pelo envio do missionário ao campo evangelístico grande senso de responsabilidade. Em alguns casos enviar missionários ao campo, talvez, seja mais fácil do que recebê-lo de volta.

O quê fazer com o missionário que retorna para a base deve ser considerado na mesma intensidade quando no início do seu envio. Sua vocação, família, parentes, seu emprego formal (que ele provavelmente deixou), seu esforço na tarefa de pregar o evangelho, tudo isso e mais, deve ser levado em conta. A Junta Missionária ou qualquer outra entidade responsável pelo envio deve alocar o missionário de forma digna e nobre. Talvez o nomeando para coordenar a entidade missionária da denominação ou pastoreando alguma igreja – as duas nomeações em tempo integral. O que não se deve fazer é abandoná-lo.  


Receber o missionário que retorna a base, com atitudes de nobreza, subentende um ato de boa vontade feito com um senso do dever de ampará-lo fisicamente, psicologicamente e espiritualmente, em um momento tão importante. Abandoná-lo subentende que ele foi “usado” apenas como um meio a outros fins. O missionário não deve ter finalidade subjetiva cujo objetivo de enviá-lo ao campo deu-se apenas como o efeito de ações arbitrárias. Ele não pode ser usado como um meio para alcançar um fim. Isso seria tratá-lo como uma coisa. Seres não racionais são tratados como coisas, mas o missionário não é uma coisa; é uma pessoa. Agir de forma contrária é falta de amor. 

sábado, 8 de agosto de 2015

NEM TODO MAL É PROVENIENTE DO DIABO

                                                 

Tudo na vida deve ser pautado pelo equilíbrio. Parece tão fácil dizer isso, mas na prática quase sempre nos inclinamos a pender para um lado ou outro de forma impensada e até mesmo irresponsável. Na fé cristã também devemos manter o mesmo entendimento. Nos últimos tempos percebemos a tendência dos crentes de desprezarem todo o conselho das escrituras sagradas nos diversos temas do cristianismo passando a fundamentar a fé evangélica somente nas experiências espirituais.

Isso não é tratado de forma diferente no entendimento sobre certo tipo de batalha espiritual que enfrentamos. As experiências pessoais têm pautado e fundamentado o tema. Não devemos agir assim, mas analisar o que a Bíblia ensina sobre esse assunto.

Encontramos respaldo bíblico para esse assunto em Efésios 6:10-18. Há sim, principados e potestades malignas que lutam contra o povo de Deus. O apóstolo Paulo informa os efésios que os crentes em geral estão numa luta renhida contra esses principados e potestades (Ef 6:12).  Não é diferente também no mundo espiritual. A Bíblia descreve a luta cósmica entre o arcanjo Miguel contra Satanás e suas hostes malignas em Apocalipse 12:7-12. Segundo alguns estudiosos esse fato aconteceu por ocasião da morte e ressurreição de Cristo.

Alguns crentes que caíram em pecado afirmam que pecaram somente devido à atuação maligna em sua vida. Entretanto, Satanás não coage os crentes a pecarem à força, mas usa a sedução como arma. Tanto que ser tentado não se configura em pecado. Todos nós somos tentados pelo Diabo. Ele possui ciladas e estratégias. A orientação paulina é que não devemos dar lugar, ou ceder às tentativas do nosso adversário. O apóstolo Pedro disse que ele “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (I Pe 5:8).

Ao lermos as escrituras sagradas devemos ter o cuidado para não fazermos de casos isolados um padrão para a toda a experiência espiritual. Quero dizer com isso que para muitos crentes todo o mal que acontece é proveniente das forças espirituais do mal. Tudo o que acontece de mal é “culpa” do Diabo. Por exemplo: é verdade que certas enfermidades podem ter como fonte a atuação maligna. O evangelista Lucas informa que Jesus curou uma mulher que “estava possessa de um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; andava ela encurvada, sem de modo algum poder endireitar-se” (Lc 13:11). Indagado pelo chefe que era dia de sábado a efetuação da cura, Jesus respondeu: “Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?” (Lc 13:16). Podemos depreender desse fato que todas as enfermidades são resultados de ação diabólica? Não, não podemos.

Outro caso é a confusão em associar obras da carne com influencias espirituais malignas na vida do crente. Os proponentes da batalha espiritual ensinam que adultério, imoralidade, prostituição, roubos, e todos os tipos de pecados são efeitos de espíritos malignos alojados na vida de pessoas. Mas o ensino bíblico é que esses pecados são obras da carne e não atuações diretas de demônios. O apóstolo Paulo afirma que “as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 5:19-21). Dizem mais, se determinado crente possui certas fraquezas em algumas áreas de sua vida ele precisa expulsar esses espíritos por meio de “declaração ou ordem profética”. Por isso é muito comum em certos cultos ouvir pregadores expulsando o “espírito da mentira, do adultério, da frieza, etc”. Na verdade deveriam advertir os pecadores ao arrependimento de seus pecados. As pessoas precisam de regeneração que resultará simultaneamente em libertação e não o oposto. Nesse sentido sou contrário aos “cultos de libertação” que acontecem em algumas igrejas evangélicas.

Há até mesmo orações ordenando que demônios deixem de agir em certas ruas, bairros, cidades, etc – esses demônios são denominados de “espíritos territoriais”. Que certos demônios atuem diretamente em ruas, bairros, cidades ou nas instituições como a política, educação, cultura ou governo induzido pessoas a corrupção, crime, violência, drogas, sexo, é apenas um entendimento isolado de certas passagens bíblicas.  Satanás não age em coisas, mas sim em pessoas.  O apóstolo Paulo informa os crentes efésios que outrora todos nós andávamos “segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2:3). O padrão de pecar é que pecamos por conta da nossa própria natureza adâmica, inclinada ao pecado. O Diabo apenas nos tenta. É verdade que em certo sentido ele controla este mundo (I Jo 5:19), mas é limitado pela soberania e poder de Deus (Jó 2:6) e não detém o poder da morte eterna: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hb 2:14).    

O ser humano não pode fugir da sua responsabilidade ao atribuir todo o acontecimento ruim em sua vida ou no mundo a atuação direta do Diabo e seus anjos. Existem acontecimentos ruins em nossa vida que são frutos do nosso próprio pecado, condutas e escolhas (mal moral). Outros “podem” ter a ação direta do Diabo em “algumas” ocasiões (males circunstanciais). A regra é não ultrapassar o limite imposto pelas escrituras sagradas (I Co 4:6). O que preciso que você entenda é que tudo o que podemos saber sobre principados e potestades do mal e da atuação do Diabo no mundo deve ser proveniente da Bíblia e não de experiências pessoais.