segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CREIO NO ESPÍRITO SANTO


Por Gilson Barbosa

Alguns irmãos ao ouvirem minha resposta de que sou membro de uma igreja de tradição reformada, perguntam: “Você não crê no Espírito Santo?”. Confesso que essa pergunta tem me deixado preocupado. Não porque não creio na doutrina do Espírito Santo, mas por revelar ignorância ou desconhecimento desta doutrina, e até mesmo orgulho espiritual, da parte dos inquiridores. Crer no Espírito Santo, para a imensa maioria do povo evangélico, se limita a dois pontos: as línguas estranhas e os dons espirituais. Outros fatores que se revelam na pergunta são a intolerância e as disputas denominacionais.  
  
Não pretendo discutir nesta postagem a contemporaneidade dos dons do Espírito ou das línguas, mas, informar aos “desavisados” que o Espírito Santo é muito mais do que se tem pensado a Seu respeito. Para tanto passo a declinar alguns pontos importantes sobre a pessoa do Espírito Santo. Faço isso em forma de um credo.

CREIO NA PERSONALIDADE do Espírito Santo

É importante ressaltar que o Espírito Santo não é uma força impessoal, uma energia apenas, como sugere as Testemunhas de Jeová. O Espírito Santo é uma pessoa e possui todas as qualidades inerentes à personalidade. O pronome pessoal masculino empregado ao Espírito Santo denota que Ele é uma pessoa. Não obstante a palavra grega pneuma (espírito) ser neutra, Jesus a empregou em João 16.13,14, acompanhada de um pronome masculino, quando poderia ter usado um pronome neutro.

Quando falamos na personalidade do Espírito Santo, dizemos que Ele desempenha as mesmas funções de um indivíduo. Possui intelecto, emoção e vontade, e isto já é suficiente para provar sua personalidade, pois, se essas qualidades fossem apenas figuras de linguagem, como dizem alguns, então nós — os seres humanos – seríamos irreais?

1     - Atributos pessoais do Espírito Santo no Antigo Testamento

O Antigo Testamento fala do Espírito Santo “discutindo” ou “contendendo” com a humanidade por causa da sua maldade (Genesis 6:3); afirma que o Espírito Santo falou por meio de santos homens de Deus, no passado, tais como Abraão, Moisés, José, Davi, os profetas, etc (II Pedro 1:21); que Ele deu (ou ensinou) habilidades artísticas a Bezalel e Aoliabe (Exodo 31:2-6); que agiu com poder dando vitória ao povo de Deus contra os inimigos, no período teocrático (Juízes 3:10); que o Espírito Santo habita, reside, dentro do servo fiel e temente a Deus (Sl 51:11); o Espírito Santo foi entristecido por alguns do seu povo (Isaias 63:6,10); o Espírito Santo teria uma participação mais efetiva no Novo Testamento (Ezequiel 36:27), etc...

2     – Atributos pessoais do Espírito Santo no Novo Testamento.
O Espírito Santo consola (Atos 9:31), ensina (14:26), guia (Romanos 8:14), se entristece (Efésios 4:30), comissiona e nomeia ministros (Atos 13:2), intercede (Romanos 8:26), pode ser tentado (Atos 5:9), fala (Apocalipse 2:7), ordena (Atos 16:6,7), clama (Gálatas 4:6).

CREIO NA DIVINDADE do Espírito Santo

1 - Atributos divinos do Espírito Santo no Antigo Testamento

A presença do Espírito é a presença de Deus (Salmos 139:7-10). Na criação, o Espírito Santo se movia sobre a face das águas. Ele pode ser chamado de o Espírito Criador (Genesis 1:2). Na criação do homem (Genesis 1:26). O profeta Isaías teve uma visão (Isaías 6:8-10) e o apóstolo Paulo afirma que foi o Espírito Santo quem falou com Ele (Atos 28:25-27). No acordo da Nova Aliança (Jeremias 31:31 confere com Hebreus 10:15,16). Na transmissão de poder aos juízes (Juízes 6:34; 11:29; 14:6). Na mensagem dos profetas (II Cronicas 15:1; 20:14; Ezequiel 2:2; Joel 2:28,29; Zacarias 4:6).

2- Atributos divinos do Espírito Santo no Novo Testamento

Eternidade (Hebreus 9:14); onipotência (Lucas 1:35); onisciência (I Coríntios 2:10); é chamado de Deus, por Pedro (Atos 5:3,4); participou da ressurreição de Cristo (Romanos 8:11); é nomeado junto com o Pai e o Filho, nas bênçãos (II Coríntios 13:13; Apocalipse 1:4-6). Dizemos que o Espírito Santo é a terceira pessoa da trindade, em essência. Todos os atributos divinos dirigidos ao Pai e ao Filho, também são dirigidos ao Espírito Santo.

CREIO NA OBRA do Espírito Santo

O que alguns crentes não sabem ou esqueceram é que a principal obra do Espírito Santo é glorificar a Jesus Cristo para que ficasse ou fique claro aos seus seguidores quem é Ele: “O Espírito me glorificará, porque receberá do que é meu e vos anunciará. Tudo o que o Pai tem, pertence a mim. Por isso é que Eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o revelará a vós” (João16:14,15). Nem mesmo o Espírito busca glória para si, como muitos fazem a Ele. O Espírito Santo não exibe a si mesmo, pois Jesus disse que Ele testemunharia Dele: “Quando, porém, vier o Advogado que Eu enviarei para vós da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, Ele testemunhará a meu respeito” (João 15:26).

É o Espírito que convence o mundo do seu pecado, da justiça e do juízo (João 16: 8) aplicando a regeneração no coração do pecador: “Arrazoou Jesus: ‘Em verdade, em verdade te asseguro: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar o reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; mas o que é nasce do Espírito é espírito”’ (João 3:5, 6). A santificação pessoal, outra obra do Espírito, não pode ser produzida pela própria pessoa, mas o Espírito Santo é o agente da santificação (Gálatas 5:16-18).

CREIO NO PODER do Espírito Santo

Muitos crentes quando pensam no poder do Espírito o fazem absolutamente pelo influxo místico ou carismático, para daí vencerem a carne, o mundo e o Diabo. O que me deixa escandalizado é que o mesmo poder não tem poder para refrear o pecado deles. Na verdade temos que entender que não se trata do poder pelo poder, mas poder para testemunhar, influenciar e falar de Cristo aos pecadores (Atos 1: 8; 2: 4, 37-41). Até mesmo a vinda do Espírito no Pentecoste, batizando os discípulos em línguas, culminou na exaltação da pessoa de Cristo, pregação do Evangelho e conversão dos pecadores (Atos 2: 22-41) e não num êxtase frenético. O que pode ser dito é que se busca muito os carismas, mas pouco o poder do Espírito.

CREIO NO BATISMO no Espírito Santo

Não confunda esse batismo com o das línguas, pois quanto a este ultimo, segundo o próprio apóstolo Paulo já nos seus dias nem todos falariam em línguas estrangeiras: “Acaso são todos apóstolos? São todos profetas? Ou são todos mestres? Todos tem o dom realizar milagres? Todos tem o dom de curar? Falam todos em línguas? Todos interpretam?” (I Coríntios 12: 29, 30). Sabemos que as perguntas de Paulo são apenas retóricas, pois para todas elas a resposta é sempre uma só: NÃO!

Por representar muito bem o meu pensamento transcrevo o que a Bíblia de Estudo de Genebra comenta sobre esse ponto:  “O pleno ministério do Espírito começou no Pentecostes, depois da ascensão de Jesus ao céu (Atos 2:1-4). João Batista predisse que Jesus batizaria no Espírito (Marcos 1:8; João 1:33), como o cumprimento de uma promessa feita no Antigo Testamento e repetida por Jesus (Jeremias 31: 31-34; Joel 2:28-32; Atos 1:4, 5). O Pentecostes marcou o inicio da era final da história do mundo, que terminará quando Jesus voltar. No momento em que nascem de novo, os crentes em Jesus recebem o Espírito, segundo a totalidade do Novo Testamento (Atos 2:28; Romanos 8:9; I Coríntios 12:13). Todos os dons para a vida de serviço que aparecem subsequentemente na vida dos cristãos fluem desse batismo inicial do Espírito, porque por meio desse batismo o pecador está unido ao Cristo ressurreto”.

CREIO NA TOTALIDADE do Espírito Santo

Agora pergunto: “mediante tudo o que foi exposto como pode alguém dizer que não creio no Espirito Santo?”. Dentro da economia da trindade cada Divindade exerce sua função respeitando os limites um do outro. O papel do Espírito é bem claro nas escrituras e não pode nem deve ser reduzido ou limitado. Até podemos discutir sobre a contemporaneidade das línguas ou dos dons, mas aferir a fé cristã dos outros, por estes dois pontos apenas, é pura ignorância.

Nas coisas essenciais, unidade. Nas não essenciais, liberdade. E em todas as coisas, o amor. Esse deve ser o lema do cristão. 

Que o Senhor nos ajude a tolerarmos em amor, uns aos outros.  
            

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O PADRÃO BÍBLICO DE AVIVAMENTO


por Rev. Josivaldo de França Pereira

Qual o padrão bíblico de avivamento? Os avivamentos bíblicos oferecem alguma coordenada para a renovação da igreja evangélica no Brasil de hoje?

Estas são algumas das perguntas que procuraremos responder no decorrer desse estudo.

I - O significado bíblico do termo "Avivamento":

1.1. No Antigo Testamento:

O verbo hebraico hyh (avivar) tem o significado primário de "preservar" ou "manter vivo". Porém, "avivar" não significa somente preservar ou manter vivo, mas também purificar, corrigir e livrar do mal. Esta é uma conseqüência natural em toda vez que Deus aviva. Na história de cada avivamento, dentro ou fora da Bíblia, lemos que Deus purifica, livra do mal e do pecado, tira a escória e as coisas que estavam impedindo o progresso da causa (1). 

O verbo "avivar", em suas várias formas (2), é usado mais de 250 vezes no Antigo Testamento, das quais 55 vezes estão num grau chamado piel. Um verbo nas formas do Piel expressa uma ação ativa intensiva no hebraico. Neste sentido, o avivamento é sempre indicado como uma obra ativa e intensiva de Deus. Alguns exemplos de sua ocorrência são as clássicas orações de Davi, como esta: "Porventura, não tornarás a vivificar-nos (3), para que em ti se regozije o teu povo?" (Sl 85.6) (4), e da clássica oração do profeta Habacuque: "Tenho ouvido, ó Senhor, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).

1.2. No Novo Testamento:

Encontramos no Novo Testamento grego um conjunto de palavras que expressam o conceito básico de avivamento. São elas: 'egeíro, 'anastáso, 'anázoe e 'anakaínoo. Outras palavras gregas comparam o avivamento ao reacender de uma chama que se apaga aos poucos (cf. 'anazopyréo em 2 Tm 1.6) ou uma planta que lança novos brotos e "floresce novamente" (cf. 'anaphállo em Fp 4.10).

No Novo Testamento grego as palavras supracitadas aparecem, no contexto de avivamento, apenas sete vezes, embora a idéia básica de avivamento seja sugerida com mais freqüência. Uma possível explicação para o uso escasso dos termos, em comparação ao Antigo Testamento, é que o Novo cobre apenas uma geração, durante a qual a Igreja Cristã desfrutou, na maior parte do tempo, um grau incomum de vida espiritual.

 II - O que não é avivamento bíblico:

Antes de falarmos sobre avivamento bíblico, propriamente dito, acreditamos ser de grande ajuda uma abordagem, mesmo que rápida, do que não é o padrão bíblico de avivamento. 

O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro AVIVAMENTO URGENTE, apresenta sete interessantes razões sobre o que não deve ser entendido como avivamento de verdade. Sou devedor ao dileto colega por suas pertinentes observações. Transcrevo-as quase que na íntegra.

2.1. Avivamento não é um programa agendado pela igreja.

Avivamento não é ação da igreja, mas de Deus. Avivamento é obra soberana e livre do Espírito Santo. A igreja não promove e nem faz avivamento. A igreja não é agente de avivamento. A igreja não agenda e nem programa avivamento. A igreja só pode buscar o avivamento e preparar o caminho da sua chegada. A igreja não produz o vento do Espírito, ela só pode içar suas velas em direção a esse vento. 

A soberania de Deus, no entanto, não anula a responsabilidade humana. O avivamento jamais virá se a igreja não preparar o caminho do Senhor (5). O avivamento jamais acontecerá se a igreja não se humilhar. Sem oração da igreja, as chuvas torrenciais de Deus não descerão. Sem busca não há encontro. Sem obediência a Deus, jamais haverá derramamento do Espírito. Contudo, quem determina o quando e o como do avivamento é Deus. Ele é soberano. David Brainerd orou vários anos pelo avivamento entre os índios peles vermelhas no século XVIII. Aquele jovem, ajoelhado na neve, suava de molhar a camisa, em agonia de alma, em oração fervente, em favor daqueles pobres índios. Quando o seu coração parecia desalentado e já não havia prenúncios de chuva da parte de Deus, o Espírito foi poderosamente derramado e os corações se dobraram a Cristo aos milhares.

2.2. Avivamento não é mudança doutrinária.

Cometem ledo engano aqueles que querem descartar a teologia e desprezar a doutrina na busca do avivamento. Desprezar a doutrina é dinamitar os alicerces da vida cristã. Desprezar a doutrina é querer levantar um edifício sem lançar o fundamento. Desprezar a doutrina é querer por um corpo de pé e em movimento sem a estrutura óssea.

Não há vida piedosa sem doutrina. A doutrina é a base da ética. A teologia é mãe da ética. "Assim como o homem crê no seu coração, assim ele é" (Pv 23.7). 

Vida sem doutrina gera misticismo e experiencialismo subjetivista. Avivamento sem doutrina é fogo de palha, é movimento emocionalista, é experiencialismo personalista e antropocentrista. Deus tem compromisso com a verdade e a sua Palavra é a verdade e todo avivamento precisa estar fundamentado na Palavra. O avivamento precisa estar norteado pelas Escrituras e não por sonhos e visões. Precisa estar dentro das balizas da Bíblia e não dentro dos muros de revelações subjetivistas, muitas vezes feitas na carne.

2.3. Avivamento não é mudança litúrgica.

Muitos crentes confundem avivamento com forma de culto, com liturgia animada, com coreografia e instrumental aparatoso. 

Louvor não é encenação. Não é mimetismo. Não é ritualismo. Não é emocionalismo. Não é apenas seguir formas pré-estabelecidas, como bater palmas, dizer aleluia, amém e levantar as mãos. Louvor não é pululância, gingos e dança (6). Louvor que apenas levanta as mãos para o alto, mas não as estende para o necessitado não agrada a Deus. A Bíblia ordena levantar mãos santas ao Senhor, num gesto de rendição e entrega (I Tm 2.8). Louvor em que a pessoa apenas saltita e pula, mas não vive em santidade, é ofensa a Deus. Louvor que apenas verbaliza coisas bonitas para Deus, mas não leva Deus a sério na vida é fogo estranho diante do Senhor. 

Louvor que não produz mudança de vida, quebrantamento, obediência e não leva as pessoas a confiarem em Deus, não é louvor, é barulho aos ouvidos de Deus. Assim diz o Senhor: "Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras" (Am 5.23). 

Hoje estamos vivendo a época dos shows evangélicos, dos show-men, dos animadores de programas religiosos, do "rock evangélico", das músicas badaladas por um ritmo sensual. 

Mais do que nunca é preciso tocar a trombeta em Sião e condenar a ideia de que precisamos imitar o mundo para atrair o mundo. A música do mundo tem entrado nas igrejas, para vergonha nossa e para derrota nossa. O louvor que agrada a Deus precisa ser em espírito e em verdade. O louvor precisa ser bíblico, senão é fogo estranho. Davi, no Salmo 40, versículo 3, fala-nos sobre as balizas do louvor que agrada a Deus: "E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão estas coisa, temerão e confiarão no Senhor". Primeiro, vemos a origem deste cântico: "E me pôs nos lábios". Este louvor vem de Deus e não do homem. Segundo, vemos a natureza deste cântico: "E me pôs nos lábios um novo cântico". Não é um novo de edição, mas novo de natureza. É um cântico que expressa a marca da sua nova vida, liberta do tremendal de lama (v2). Terceiro, vemos o objetivo deste cântico: "... Um hino de louvor ao nosso Deus". Este cântico não é para entreter ou agradar o gosto e preferência das pessoas. Este cântico vem de Deus e volta para Deus. Deus é o seu alfa e o seu ômega. Quarto, vemos o resultado deste cântico: "Muitos verão estas coisas, temerão e confiarão no Senhor". O louvor bíblico leva as pessoas a temerem a Deus, a confiarem em Deus. O verdadeiro louvor leva as pessoas a se voltarem para Deus. 

O louvor não é um espaço da liturgia. Louvor é a totalidade da vida. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo, o seu louvor estará sempre nos meus lábios" (Sl 34.1). 

À luz destas coisas, é preciso dizer que avivamento não é mudança litúrgica, é mudança de vida. Avivamento não é histeria carnal, é choro pelo pecado. Deus não procura adoração. Ele procura adoradores. 

Todavia, é preciso dizer que, embora o avivamento não seja mudança de liturgia, todo avivamento mexe com a liturgia. O avivamento desinstala a liturgia ritualista, cerimonialista, formalista, fria e morta e põe em seu lugar uma liturgia viva, alegre, ungida, onde há liberdade do Espírito, sem abandonar a ordem e a decência. Em épocas de avivamento, a liturgia é desingessada e o povo com alegria e liberdade do Espírito adora a Deus, em espírito e em verdade, sem regras rígidas pré-estabelecidas. Cada culto é um acontecimento singular, novo, onde há abertura para o que Deus deseja falar e fazer com o seu povo. 

Hoje existem muitos cultos solenes, aparatosos, pomposos, mas estão mortos. Disse J. I. Packer no seu livro "Na Dinâmica do Espírito": "Não há nada mais solene do que um cadáver. Há cultos solenes que estão mortos". Embora o avivamento não seja mudança litúrgica, todo avivamento muda a liturgia, tornando-a bíblica, alegre, ungida, dirigida pelo Espírito de Deus. Devemos clamar como os puritanos: "Queremos liturgia pura".

2.4. Avivamento não é uma ênfase carismática unilateral.

Muitas pessoas hoje estão limitando o avivamento a milagres, curas e exorcismos, sem observarem a abrangência global da doutrina pneumatológica. Este é um sério perigo. Toda vez que super-enfatizamos uma verdade em detrimento de outra, nós produzimos deformações e distorções nesta verdade. 

Deus pode e faz maravilhas, curas e prodígios extraordinários quando Ele quer. Ele é soberano. Ninguém pode deter a sua mão. Ninguém pode ser o conselheiro de Deus. Ninguém pode instruir a Deus e dizer o que Ele pode e o que Ele não pode fazer. Ninguém pode obstaculá-lo nem ensinar-lhe qualquer coisa. Ele faz tudo quanto Ele quer, como quer, onde quer, quando quer, com quem quer. "Ele faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Ef 1.11). Ele não obedece à agenda dos homens. Ele não se deixa pressionar. Ele é livre. 

Entretanto, esta não é a ênfase do avivamento. A igreja hoje está correndo mais atrás de sinais do que atrás de santidade. A igreja hoje empolga-se mais com milagres do que com vida cheia do Espírito. A igreja hoje anseia mais as bênçãos de Deus do que o Deus das bênçãos. A igreja hoje busca mais uma vida antropocêntrica do que teocêntrica. 

Avivamento não é efervescência carismática. Uma igreja pode ter todos os dons sem ser uma igreja avivada. Avivamento não é conhecido pelos dons do Espírito, mas pelo fruto do Espírito. 

A igreja de Corinto possuía todos os dons, todavia, era uma igreja imatura e bebê espiritualmente. Naquela igreja profundamente carismática, havia divisões, cismas, brigas, partidos, contendas, imoralidade e irmãos levando outros irmãos aos tribunais mundanos. Havia falta de compreensão acerca do casamento e da liberdade cristã. Naquela igreja a ceia do Senhor estava sendo incompreendida, os dons estavam sendo usados erradamente, a ressurreição dos crentes estava sendo negada, e a cooperação financeira com os pobres negligenciada. 

É verdade que, em épocas de avivamento, os dons são buscados e exercidos para a glória de Deus e a edificação da igreja, mas a ênfase carismática não é sinônimo de avivamento.

2.5. Avivamento não é modismo.

Muitos crentes, por desconhecimento, se posicionam contra o avivamento porque acham que ele é a mais nova onda da igreja. Acham que avivamento é uma coqueluche moderna e uma inovação sem nenhum respaldo bíblico e histórico. 

Certamente, aqueles que assim pensam não estudam com critério a Bíblia nem a história da igreja. Os pontos culminantes da igreja aconteceram em épocas de avivamento. Desde o Antigo Testamento que esta é uma verdade incontestável. É só olhar para os grandes despertamentos na época de Ezequias, de Josias e de Neemias. É só ver o grande avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. É só ver o que Deus fez na Reforma do Século XVI, na Inglaterra, no século XVIII e em outros grandes avivamentos da história. Certamente, avivamento não é uma onda, não é um modismo. Ele possui firmes lastros históricos. Ele é nossa herança e nosso legado e deve continuar sendo nossa aspiração e nossa busca constante.

2.6. Avivamento não é uma visão dicotomizada da vida.

Muitas pessoas, quando começam a buscar avivamento, saem da realidade e enclausuram-se nos castelos inexpugnáveis de uma espiritualidade isolada e monástica. Tornam-se tão "espirituais" que já não sabem mais conviver com a vida, isolam-se, fazendo da vida uma caverna de fuga. Querem sair do mundo em vez de serem guardados do mal. Dividem a vida entre sagrado e profano, corpo e alma, matéria e espírito. Acham que Deus está interessado apenas nas coisas espirituais. Acham que Deus só olha para a vida de trabalho na igreja, sem observar os negócios, a família, o trabalho, os estudos e a vida do dia-a-dia com o mesmo interesse. 

Esta não é a visão bíblica nem a visão do verdadeiro avivamento. Tudo em nossa vida é vazado pelo sagrado. Toda a nossa vida é cúltica. Todo o nosso viver é litúrgico. O grande avivalista John Wesley lutou pelas causas sociais na Inglaterra ao mesmo tempo que pregou sobre avivamento. Finney pregou ardorosamente contra a escravidão nos EUA no século passado ao mesmo tempo que foi o maior avivalista do seu país. João Calvino atacou com veemência os juros extorsivos em Genebra. O avivamento sempre traz profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais. O avivamento não leva a igreja à fuga, mas ao enfrentamento.

2.7. Avivamento não é campanha de evangelização.

Não podemos confundir avivamento com campanhas evangelísticas. Avivamento é para a igreja, pessoas que já têm vida; evangelização é para o mundo, pessoas que estão mortas em delitos e pecados. Avivamento é para crentes nascidos de novo; evangelização é para pecadores inconversos. Na evangelização, a igreja trabalha para Deus; no avivamento, Deus trabalha para a igreja. Na evangelização, a igreja vai aos pecadores; no avivamento, os pecadores correm para a igreja. Na evangelização, os pregadores apelam aos pecadores; no avivamento, os pecadores apelam aos pregadores.

 III - O Padrão Bíblico de Avivamento:

Podemos definir o avivamento bíblico em dois sentidos distintos:

3.1. O sentido estrito de avivamento.

Estritamente falando, avivamento é algo que acontece unicamente no meio do povo de Deus. O Espírito Santo renova, reaviva e desperta a igreja sonolenta. É revitalização onde já existe vida. Ou, como disse Robert Coleman, é "o retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito" (7). 

Comentando um pouco mais sobre o sentido estrito de avivamento, diz o Dr. Martin Lloyd-Jones: 

É uma experiência na vida da Igreja quando o Espírito Santo realiza uma obra incomum. Ele a realiza, primeiramente, entre os membros da Igreja: é um reviver dos crentes. Não se pode reviver algo que nunca teve vida; assim, por definição, o avivamento é primeiramente uma vivificação, um revigoramento, um despertamento de membros de igreja que se acham letárgicos, dormentes, quase moribundos (8). 

Quando há esse impacto da obra do Espírito de Deus na vida da igreja, os resultados imediatos do avivamento são sentidos no povo de Deus: senso inequívoco da presença de Deus; oração fervorosa e louvor sincero; convicção de pecado na vida das pessoas; desejo profundo de santidade de vida e aumento perceptível no desejo de pregação do evangelho. Em outras palavras, a igreja amortecida e tristemente doente é a primeira a ser beneficiada pelo avivamento.

3.2. O sentido amplo de avivamento.

Como a própria expressão define, neste sentido não apenas a igreja, mas a sociedade não-cristã também é beneficiada pelo avivamento. Isto acontece porque, além da atuação soberana do Espírito Santo no mundo, na igreja passa a existir uma conscientização profunda de sua missão; isto é, a missão integral de servir o mundo evangelística e socialmente. No avivamento a igreja vive a missão para a qual foi chamada. 

A sociedade não-cristã, por sua vez, volta-se para Deus em resposta ao evangelho. Acertadamente o Dr. Héber de Campos comenta que "o reavivamento começa na igreja e termina na comunidade maior onde ela vive. Os efeitos do reavivamento são muito mais perceptíveis nas mudanças morais que acontecem na região ou num país onde ele acontece. Ele não se limita simplesmente aos membros das igrejas atingidas pela obra de Deus. Ele causa impacto em toda a comunidade onde a igreja de Deus está inserida" (9). 

Em suma, as duas características principais do avivamento são 1) o extraordinário revigoramento da igreja de Cristo e 2) a conversão de multidões que até o momento estiveram fora dela na indiferença e no pecado.

3.3. Avivamento e a Bíblia.

Aqui também abordaremos dois aspectos essenciais do avivamento. 

1) O padrão bíblico de avivamento é a Bíblia

Por mais simplória e pleonástica que esta declaração pareça ser, ela é tão autêntica e singular como dois e dois são quatro. Estamos falando do único padrão inerrante e infalível de avivamento: a Bíblia. 

Uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que nos pode dar a direção certa deste assunto. A relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um avivamento de verdade sem que a Bíblia faça parte dele. 

Além disso, numa época de tantos extremos como este em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que vêem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até àqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico. É necessário, mais do que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho. 

Permita-me ilustrar o que queremos dizer por "extremos". Edwin Orr (10), uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões de avivamentos. Uma delas dizia: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona este fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o avivamento fosse produzido simplesmente pelo desempenho humano com data e hora marcadas. 

Voltando ao lugar da Bíblia no avivamento, é importante salientar que ela foi, é e sempre será a espada do Espírito Santo em todo avivamento bíblico. Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na história da igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Bíblia. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um mero pentecostalismo convencional. 

"Um reavivamento", diz o Dr. Héber de Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus" (11). 

2) O padrão bíblico de avivamento está na Bíblia

Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26) (12). O nome Enos quer dizer fraco ou doente. O que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina" (13). À parte desta indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subseqüente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados. 

Depois temos os patriarcas que por vários séculos lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia, eles agiam como a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9). 

No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31). 

O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão, o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (I Sm 7.1-17). 

Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2 Sm 6.12-23). A dedicação do templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (I Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (I Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (I Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2 Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2 Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do livro da lei, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2 Rs 22,23; 2 Cr 34,35). 

Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31). 

Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4. 

No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberam a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia - o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o Evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)" (14). 

O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá, são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na história da igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI, na Inglaterra no século XVIII, entre os negros Zulus da África do Sul na década de 60 e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros. 

Que Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador" que nos purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.

NOTAS:

(1) Cf. D. M. Lloyd-Jones, DO TEMOR À FÉ (2ª ed. São Paulo: Editora Vida, 1987), pp. 73,4. Veja também, de Gerard Van Groningen, AVIVAMENTO SOB UM PRISMA VÉTERO-TESTAMENTÁRIO no site www.ipcb.org.br.

(2) Os termos "avivamento", "reavivamento", "renovação", "despertamento", "vivificação", "reviver" e "tornar a viver" são usados no mesmo sentido.

(3) O significado literal da expressão hebraica "vivificar-nos", do Salmo 85.6, é "causa-nos viver", onde se reconhece que a vitalidade espiritual depende inteiramente de Deus.

(4) O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, dá a este Salmo o sugestivo título: UMA ORAÇÃO PEDINDO REAVIVAMENTO.

(5) Para um ponto de vista diferente, veja a obra do Dr. Paul E. Pierson, A HISTÓRIA DOS AVIVAMENTOS, material apostilado pela Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina - PR.

(6) Uma posição semelhante foi apresentada pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira, em entrevista ao Jornal Brasil Presbiteriano (Abril/94, p. 12): "Confunde-se avivamento com atitude pessoal e inclusive corporal (física), com expressão emocional, levantar de mãos, etc. Essas atitudes em si não são propriamente prejudiciais. Todavia, pela confusão que se faz a doutrina sai perdendo. Há uma superficialidade doutrinária muito grande, porque se dá ênfase excessiva ao louvor, a sermões eletrizantes, a práticas pentecostais, quando avivamento é tão somente uma consciência clara e profunda da vontade de Deus (que é doutrinária) e uma disposição plena de obediência (que é prática)".

(7) R. Coleman, A CHEGADA DO AVIVAMENTO MUNDIAL (São Paulo: CPAD, 1996), p. 18.

(8) D. M. Lloyd-Jones, OS PURITANOS: SUAS ORIGENS E SEUS SUCESSORES (São Paulo: PES, 1993), pp. 15,6. Veja também, do mesmo autor, o excelente livro AVIVAMENTO (São Paulo: PES, 1992) 320 pp.

(9) Héber C. Campos, CRESCIMENTO DA IGREJA: COM REFORMA OU COM REAVIVAMENTO? In Fides Reformata, Vol I, Nº 1 (São Paulo: 1996), pp. 44,5.

(10) Citado por Brian H. Edwards em REVIVAL! A PEOPLE SATURED WITH GOD (England: Evangelical Press, 1994), p. 25.

(11) H. C. Campos, op. cit., p. 45.

(12) R. Coleman, op. cit., p. 53.

(13) Idem.

(14) Idem, p. 61. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

CARNAVAL, A LIBERAÇÃO DA CARNE!


Por Gilson Barbosa



É interessante notar que enquanto nos países de origem a importância dessa festa diminuiu e arrefeceu, no Brasil ela parece estar apenas começando. Será que é devido à expansividade cultural do brasileiro? Seria sua característica festiva, criativa e alegre? Ou seria interesses financeiros das grandes empresas que lucram patrocinando o carnaval brasileiro? Ou ainda seria a "banalização" e irresponsabilidade do brasileiro face ao trabalho? O feriado carnavalesco trás lucros a que segmento de empresa? Não sei bem qual seria a resposta correta.

Não podemos negar o caráter cultural e folclórico do carnaval, mas, para nós cristãos é bom saber que o carnaval é uma festa pagã. Historiadores nacionais concordam que o carnaval teve origem primeiro no Egito, quando o povo saia de suas casas para comemorar as colheitas. Depois o carnaval sofreu evolução com os gregos e romanos. A enciclopédia Britânica do Brasil informa o seguinte quanto à origem:

                      Quanto à origem, o carnaval também é objeto de controvérsia: frequentemente tem sido atribuído a evolução e à sobrevivência do culto de Isis, das bacanais, lupercais e saturnais romanas, dos festejos em honra de Dionísios, na Grécia, e até mesmo às festas dos “inocentes”,  e dos “doidos” na Idade Média, as quais, mediantes sucessivos processos de deformação e abrandamento, teriam originado famosos carnavais dos tempos modernos, como os de Nice, Paris, Veneza, Roma, Nápoles, Florença, Colônia e Munique. Mas seja qual for sua origem, o certo é que o carnaval já era encontrado na Antiguidade clássica, e mesmo pré-clássica, com suas danças barulhentas, suas máscaras e licenciosidade, traços que seriam mantidos praticamente até hoje.

Apesar de não concordar com as festas carnavalescas, a Igreja Católica Romana “cristianizou” a festa incorporando-a no calendário litúrgico. Devido a forte influencia que essa festa carnavalesca pagã teve ao povo romano, ao invés de censurá-la a igreja romana atribuiu-lhe características católicas.  A essa transculturação discorda a revista Defesa da Fé:


A tentativa da Igreja Católica Romana na cristianização do carnaval e a sua atual justificativa é inconsequente, infeliz e irresponsável. Não existe uma referencia bíblica sequer favorável ao seu argumento. Pelo contrário. Existe todo um contexto explicitamente contrário a essa manifestação popular. Todos os especialistas cristãos sabem muito bem quando devem aplicar a transculturação cristã em determinada manifestação cultural (como por exemplo, o Natal, período em que ocorre a mudança do objeto de culto e a extirpação total da velha ordem, transformação das simbologias e referencias). Sabem também quando à determinada comemoração popular é impossível aplicar quaisquer processos de cristianização.

Somente no Brasil a época da festa é padronizada. Em outras nações, onde o carnaval é comemorado, a data é alternada. Segundo a Enciclopédia Mirador

O carnaval é uma série de folguedos populares promovidos habitualmente nos três dias anteriores ao inicio da Quaresma.

A Quaresma são os quarenta dias que vão da quarta-feira de cinzas ao domingo de páscoa. O carnaval acontece nos três dias que antecedem a quarta-feira. No Brasil há flexibilidade nas festas, pois, as escolas de samba e blocos carnavalescos começam a desfilar no sábado, portanto, no Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro) temos quatro dias de comemorações.  

No período da quaresma inicia-se a abstenção de carne, imposta pela Igreja Romana. A revista apologética Defesa da Fé informa o seguinte:

A palavra carnaval deriva da expressão latina carne levare, que significa abstenção de carne. Este termo começou a circular por volta dos séculos XI e XII para designar a véspera da quarta-feira de cinzas, dia em que se inicia a exigência da abstenção de carne, ou jejum quaresmal. Comumente os autores explicam que este nome a partir dos termos latim tardio carne vale, isto é adeus carne, ou despedida da carne; esta derivação indicaria que no carnaval o consumo de carne é considerado lícito pela ultima vez antes dos dias de jejum quaresmal.

A incoerência lógica está no fato de enquanto há conselhos a abstenção da alimentação de carne, praticando-se assim uma “categoria” de jejum, é nesta época onde a natureza carnal humana mais se sobressai dando asas a libertinagem imoral. Adolescentes engravidam irresponsavelmente, jovens se embriagam causando confusões nas festas, encomendas de grandes quantidades de drogas especialmente para atender a demanda nesse período, enorme aparatos de segurança pública são exigidas para manter a ordem nas festas, alta somas de dinheiro público são injetados nas comemorações. Tudo isso tem trazido mais prejuízos do que benefícios à sociedade. A geração de emprego como justificativa para a promoção do carnaval é fictícia. Muitos trabalhadores são contratados apenas temporariamente nas festas, por exemplo, como seguranças, para operarem aparelhagem de som e carros de sons. É dispensada uma grande quantidade de funcionários públicos, entre os quais preferiam estar com suas famílias ou em viagens. O vídeo abaixo, sob a ótica de pessoa não cristã, atesta o que escrevi acima.



Assim como as antigas festas pagãs, o carnaval de hoje sobrevive e prossegue promovendo todos os elementos que contrariam o mandamento bíblico: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus (Gl 5.19-21). O cristão não deve jamais pensar em admitir o carnaval como algo que não lhe traga prejuízo espiritual. Se alguém entre os crentes se regozija com esse tipo de festa mundana deve seriamente avaliar sua regeneração, pois a Bíblia afirma que esse procedimento não faz parte da nova vida em Cristo: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2.1-3).

Em Cristo,

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

QUEM MANDA NA IGREJA!

                           

Este artigo é um breve pensamento sobre os oficiais da igreja primitiva e o sistema de governo adotado pelos apóstolos

Por Gilson Barbosa

Muitos com certeza não consideram importante o estudo sobre os sistemas de governos da igreja. Os sistemas definem como a igreja deve ser governada dentro do âmbito terreno. Entretanto, à revelia dos desinteressados, se uma igreja deseja ser totalmente bíblica é necessário esposar e se enquadrar num sistema puro, bíblico e historicamente confiável.

Obviamente a forma de governo da igreja não é doutrina primária, comparado com outras de fundamentos inabaláveis, porém, se um sistema de governo não é plenamente bíblico podemos esperar consequências terríveis na esfera administrativa. Sendo assim, apesar de não ser uma doutrina central, é uma questão importante conhecer o sistema adotado pelos apóstolos na formação da igreja, e ter ou implantar o mesmo na igreja atual.

Os oficiais na igreja

Para entendermos bem os sistemas de governo da igreja, primeiramente é necessário saber e compreender como a Bíblia denominava os oficiais da igreja primitiva.

A Bíblia relata os ofícios de apóstolo, presbítero e diácono. Estes eram pessoas que tinham sobre si o reconhecimento público e desempenhava certas funções em beneficio da igreja. Dos três ofícios citados na linha anterior um estava limitado ao tempo e hoje já não existe mais: o apóstolo. Não é minha intenção discutir sobre as bases da inexistência desse ofício agora, e fica quem sabe para outra postagem. Reconhecidamente sobram os ofícios de presbítero e diácono. Podemos perceber que não há o ofício de pastor, pois se trata de função e não titulo ou ofício. É verdade que os presbíteros em certo sentido podem ser chamados de pastores, mas é simplesmente por causa da função de pastorear. A única vez que a Bíblia menciona a palavra pastor para referir-se a um oficial da igreja se encontra em Efésios 4.11: “Assim, Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”. Mas sabemos que esses pastores/mestres, na verdade eram os presbíteros. Note bem que em Atos 20.17 o apóstolo Paulo pediu para que fossem chamados os presbíteros da Igreja de Éfeso, mas no versículo 28 ele lhes diz que Deus os estabeleceu “para pastoreardes a Igreja de Deus”. Leia mais em I Pedro 5.2.

Pluralidade de presbíteros

Em segundo lugar não há na Bíblia a ideia de um único pastor dirigindo e detendo poder sobre um grupo de igrejas e consequentemente de presbíteros e diáconos. Entendo que o modelo bíblico é o da pluralidade de presbíteros. Em Atos 14.23 quando os missionários retornavam pelas cidades de Listra, Iconio e Antioquia, diz, por exemplo, que “Paulo e Barnabé lhes constituíram presbíteros em cada igreja; e, tendo orado e jejuado, eles os consagraram aos cuidados do Senhor, em quem haviam crido”, ou seja, estabeleceram um grupo de presbíteros em cada igreja que fundavam. Tito foi aconselhado a fazer o mesmo em Creta: “Para esta missão te deixei em Creta, para que pusesses em ordem o que ainda faltava e constituísses presbíteros, de acordo com minhas orientações” (Tito 1.5).

O apóstolo Tiago (1.1) escreveu sua epístola “ás doze tribos dispersas entre as nações” o que significa que era para as muitas igrejas neotestamentárias, e em 5.14 ele orienta a igreja: “Algum de vós está doente? Chame os presbíteros da igreja, a fim de que orem sobre a pessoa enferma, ungindo-a com óleo em nome do Senhor” (5.14). O apóstolo Pedro também segue a mesma linha quando diz: “Suplico, portanto, aos presbíteros que há entre vós, eu que sou também presbítero com eles [...] pastoreai o rebanho de Deus que está sob o vosso cuidado” (I Pe 5.1,2).

O iminente teólogo Wayne Grudem ratifica a mesma linha da pluralidade de presbíteros em cada igreja: “Duas importantes conclusões podem ser tiradas desse panorama de dados do Novo Testamento. Primeiro, nenhum texto sugere que qualquer igreja, não importa quão pequena, tivesse um só presbítero. O padrão coerente do Novo Testamento é a pluralidade de presbíteros ‘em cada igreja’ (At 14.23) e ‘em cada cidade’ (Tt 1.5). Segundo, não vemos uma diversidade de formas de governo eclesiástico no Novo Testamento, mas um padrão único e coerente, segundo o qual toda a igreja tinha presbíteros que a dirigiam e zelavam por ela (At 20.28; Hb 13.17; I Pe 5.2,3)”. TEOLOGIA SISTEMÁTICA, p. 765.

Não quero acusar ou criticar os que defendem a figura de um único pastor com autoridade sobre um corpo de presbíteros, grupo de diáconos e membros da igreja, mas pra mim isto não é essencialmente bíblico. Certa vez Jesus censurou os discípulos quando discutiam entre si quem era o maior. Em resposta Jesus disse que “se alguém deseja ser o primeiro, será o último, e servo de todos” (Mc 10.33-37). Mais á frente, a respeito do pedido inusitado de Tiago e João, Jesus lhes respondeu: “Sabeis que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Contudo, não é assim que ocorre entre vos. Ao contrário, quem desejar tornar-se importante entre vós deverá ser servo; e quem ambicionar ser o primeiro entre vós que se disponha a ser o escravo de todos” (Mc 10.35-45).

Mesmo os discípulos que aparentemente são apontados por alguns como prediletos de Jesus (Pedro, Tiago e João), não foram instruídos a se sentirem superiores nem deter algum tipo de autoridade sobre os demais. Novamente cito Wayne Grudem que felizmente disse: “Isso pode bem refletir a sabedoria de Cristo de precaver o abuso de poder que inevitavelmente acontece quando qualquer ser humano tem excesso de poder sem o necessário controle ou supervisão por parte de outros. Assim como Jesus deixou uma pluralidade de apóstolos com a autoridade (humana) definitiva na igreja primitiva, também os apóstolos sempre estabeleceram uma pluralidade de presbíteros em cada igreja, nunca deixando só uma pessoa com a autoridade de liderança”.

Formas de governo da igreja

Feito essa introdução necessária, passemos para as formas de governo da igreja. Há três formas de governo eclesiástico estabelecido: o Episcopal, o Presbiteriano e o Congregacional. De certa forma todos eles possuem perigos inerentes do próprio ser humano, mas, buscar seguir o modelo que seja bíblico é considerar o que as escrituras dizem sobre o assunto. Não compartilho com outros estudiosos que os modelos de administração são intercambiáveis e que podem ser defendidos mutuamente. Acredito que a Bíblia esclarece e aprova apenas um modelo: o congregacional.

Episcopal

A origem da palavra episcopal na língua grega remete ao vocábulo episkopos, que significa “supervisor”, traduzido seguidamente por “bispo” ou “superintendente”. Comparado aos outros, é o sistema eclesiástico mais antigo. O líder principal revestido de autoridade é o arcebispo, tendo à sua disposição o “domínio” sobre vários bispos. Basicamente este sistema apoia seu pensamento na certeza de que os sucessores dos apóstolos (bispos) foram legalmente constituídos por Cristo, obtendo de sua liberação o controle da igreja na Terra.

Os que defendem esse sistema ou usufruem dele, alegam que se deu este desenvolvimento naturalmente no início da igreja. Acreditam estes, que após a morte do apóstolo João, naturalmente e sob sua aprovação, um bispado foi surgindo em cada igreja enquanto os apóstolos (originais) faleciam, e, pouco a pouco se tornou em grandes proporções com extremos poderes. Entre as igrejas que adotaram este sistema, a igreja Católica Romana é a mais “aguerrida defensora” e, apesar de existir vários bispos, um só é autoridade infalível, o Papa. As reivindicações e justificativas repousam na teoria de que Pedro foi o primeiro papa e que logo após a morte deste teria se iniciado uma série de sucessões papais, predominante hodiernamente. Menos fervorosos do que a igreja católica nesta reivindicação, mas, participantes do sistema episcopal estão a Igreja Anglicana, a Igreja Metodista Unida, a Igreja de Deus (pentecostais dos EUA) e a Igreja da Santidade Pentecostal (EUA). No Brasil, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus é episcopal.

Presbiteriano

No sistema presbiteriano não há a centralização da autoridade ou dos direitos em alguém, contudo, há um representante, escolhido pela igreja local, através do sistema de eleição, que figura a igreja nas atividades eclesiásticas. O representante, neste sistema, é denominado de presbítero (gr. presbuteros), e vemos sua presença, por exemplo, em Atos 11.30: “O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos (presbíteros) por mão de Barnabé e de Saulo”. As decisões básicas eclesiais, no sistema presbiteriano, são tomadas por sequenciais concílios. Os presbíteros são responsáveis pelo governo das igrejas de determinadas áreas jurisdicionais. Fazem parte do presbitério os membros que compõem um conselho, ou uma assembleia. Este presbitério deve respeito ao superior hierárquico, o pastor da igreja, que não deixa de ser um presbítero, cuja autoridade é exercita sobre os demais presbíteros das igrejas locais. Em um patamar mais elevado, e de maior autoridade eclesiástica, está a Assembléia Geral ou Supremo Concílio, o órgão máximo do sistema presbiteriano.

Congregacional

Cada igreja local, geograficamente, exerce poderes eclesiásticos, sendo que as decisões tomadas pela congregação (de crentes) são investidas de autoridade. É o sistema em que mais se executa a democracia, pois, coloca em ascendência a vontade dos “leigos”. Decisões de extrema importância são tomadas pelos membros da congregação, denotando que todo o poder emana do povo, sendo que, nenhum poder externo tem a supremacia, e as decisões não podem ser revogadas por nenhum corpo eclesiástico. A compra e venda de propriedades, a escolha e até o orçamento do pastor, por exemplo, neste sistema, é feito totalmente sob a “aprovação” dos membros congregacionais. Porém, isto não isenta uma determinada congregação de deter uma representação pastoral e até mesmo um corpo eclesiástico. Destaco, neste modo, as igrejas Batistas e Congregacionais.

O que a Bíblia diz a respeito do sistema de governo primitivo

Segundo o pastor Rosivaldo Sales entres os fatos que comprovam a biblicidade desse modelo estão: a ausência de uma hierarquia sacerdotal piramidal na igreja primitiva; as cartas apostólicas eram dirigidas para toda a comunidade e não aos líderes em particular como se houvesse diferenciação; a resolução das situações importantes não estava numa classe ordenada ou privilegiada (um clero, conselho, pastor ou sacerdote), mas na comunidade cristã (At 6.1-3; 13.1-3; 14. 21-23; 15. 22-25; I Co 5; 6.1-5; 16.3); o direito das igrejas de elegerem representantes para acompanhar o apóstolo Paulo na missão de levar as ofertas à igreja de Jerusalém; a sinergia entre a igreja reunida (os irmãos) com os presbíteros e diáconos, na direção do Espírito.

Não tenho como reprovar as escrituras e ela deixa claro que o sistema congregacional de governo é o mais provável. As características de uma igreja saudável passam pelas virtudes da comunhão, respeito, liberdade e participação e isso está mais presente numa igreja que adota o congregacionalismo. Não significa que as igrejas congregacionais sejam perfeitas, imaculadas, mas não temos como negar que nele (no sistema congregacional) o importante mesmo não é quem manda na igreja até porque o dono da igreja é Cristo, o Salvador e Senhor.

No amor de Cristo,