segunda-feira, 28 de abril de 2014

TRANSFERÊNCIA DE GERAÇÕES: NOVA HERESIA

por Gilson Barbosa


Antes de ler essa postagem você deve assistir o vídeo abaixo. 


Antigamente eu ficava surpreso e escandalizado com as heresias que iam surgindo no meio evangélico, hoje não mais. As características naturais de algumas igrejas facilitam a fabricação ou produção de heresias. São potenciais produtoras de distorções doutrinárias. Apesar de todas as igrejas, em certo sentido, estarem vulneráveis as heresias, a meu ver, o movimento neopentecostal e o pentecostalismo (um tanto mais distante) são suscetíveis a se conformarem com as distorções teológicas ou doutrinárias.

O movimento pentecostal clássico (especialmente as Assembleias de Deus mais tradicionais) só não se lança de vez em distorções doutrinárias e teológicas por causa de alguns líderes que ainda valorizam a apologética e a teologia sadia – essas duas disciplinas estão contidas na Santa Escritura. São homens e mulheres que temem ao Senhor e sabem fazer uso adequado da hermenêutica sagrada. Ainda que seja incrível, esses líderes encontram oposição dentro da própria denominação, mas continuam firmes na aplicação da exegese bíblica. Que o Senhor seja louvado por isso.

Já o movimento neopentecostal não possui nenhum freio doutrinário, pois seus próprios líderes não se preocupam com a teologia nem dão a devida atenção à exegese dos textos bíblicos. A mais recente heresia no cenário neopentecostal brasileiro é a transferência de poder às gerações. O "ato profético" aconteceu por ocasião do 15º Congresso Internacional de Adoração e Intercessão - promovido pelo Ministério de Louvor Diante do Trono. Refere-se ao ato de transmitir ou passar o poder espiritual (ou unção) de determinadas pessoas, a outras pessoas nascidas em períodos históricos diferentes. Trata-se de uma transferência virtual. Por si só isso já é muita pretensão. Essa heresia é uma distorção de, pelos menos, dois pensamentos bíblicos. Vamos lá então.

Transmissão real e não transferência virtual

Em primeiro lugar, a Bíblia não menciona nenhuma experiência como transferência mística de poderes espirituais. Não existe tal transferência. Mesmo o pentecostalismo clássico, entende que o recebimento de poder (como no dia de Pentecoste) não é uma transferência virtual ou subjetiva do mesmo e que pode ser passada a outra geração, mas, uma busca individual e constante pelo poder do alto. 

Ao contrário disso, a Bíblia incentiva os pais a transmitirem a seus filhos, ou as futuras gerações, o conhecimento a respeito do Senhor bem como dos seus atos poderosos de forma real por meio da prática de ensinamentos. Então biblicamente temos uma transmissão e não transferência. Esta transmissão não diz a respeito às habilidades naturais ou espirituais de quem quer que seja, mas refere-se aos atos poderosos do próprio Deus.

Podemos comprovar isso biblicamente, por exemplo, na instituição da Páscoa. Para que o Senhor não ferisse com morte os primogênitos dos hebreus eles deveriam matar um cordeiro e molhar seu sangue nos umbrais da porta de cada casa (Êxodo 12:21-23). O ato de celebrar a Páscoa, bem com seus detalhes, deveria ser guardado como Lei perpétua e obrigatoriamente transmitida às gerações posteriores: “Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre. E, uma vez dentro na terra que o SENHOR vos dará, como tem dito, observai este rito. Quando vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este? Respondereis: É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou”.

Outro exemplo está inserido no contexto da construção de um altar grande e vistoso junto ao rio Jordão (em Gileade) pelas tribos de Ruben, Gade e a meia tribo de Manassés, por ocasião das heranças de terras distribuídas por Moisés às tribos de Israel (para entender leia Josué 22:10-34).  As tribos a oeste do Jordão questionaram a construção deste altar entendendo o ato como uma espécie de rebelião, pois o Tabernáculo do Senhor ficava em Canaã. Ou seja, não deveria haver outro centro de adoração. Ao justificar a construção do altar em Gileade, as duas tribos e meia disseram que a única preocupação era que seus filhos tivessem o altar como um lembrete e testemunho de que serviam o mesmo Deus dos israelitas que haviam ficado do outro lado do Jordão:

Pelo contrário, fizemos por causa da seguinte preocupação: amanhã vossos filhos talvez dirão a nossos filhos: Que tendes vós com o SENHOR, Deus de Israel? Pois o SENHOR pôs o Jordão por limite entre nós e vós, ó filhos de Rúben e filhos de Gade; não tendes parte no SENHOR; e, assim, bem poderiam os vossos filhos apartar os nossos do temor do SENHOR. Pelo que dissemos: preparemo-nos, edifiquemos um altar, não para holocausto, nem para sacrifício, mas, para que entre nós e vós e entre as nossas gerações depois de nós, nos seja testemunho, e possamos servir ao SENHOR diante dele com os nossos holocaustos, e os nossos sacrifícios, e as nossas ofertas pacíficas; e para que vossos filhos não digam amanhã a nossos filhos: Não tendes parte no SENHOR. Pelo que dissemos: quando suceder que, amanhã, assim nos digam a nós e às nossas gerações, então, responderemos: vede o modelo do altar do SENHOR que fizeram nossos pais, não para holocausto, nem para sacrifício, mas para testemunho entre nós e vós.

                                                                                   Josué 22:24-28

Devemos repassar aos nossos filhos e futuras gerações não algo místico e virtual, mas os mandamentos do Senhor para que eles O temam e o obedeçam.

As duas únicas passagens bíblicas que “poderiam” respaldar o procedimento de transferência de poder está em Números 11:16-30 onde Deus designa setenta anciãos para ajudarem Moisés e Lucas 10:19 onde o Senhor Jesus designa outros setenta para uma missão específica. Mas lendo atentamente o contexto observaremos que foram acontecimentos singulares, únicos, e com pessoas dotadas de autoridade espiritual fora do comum. No caso de Moisés não partiu dele a decisão de outorgar o poder do Espírito aos setenta anciãos, mas do Senhor. No caso de Jesus ele é o Emanuel, Deus conosco. Não carecia de receber permissão do Pai, nessa questão. Portanto, essas duas passagens não parece autorizar a transferência de poder.

Elementos objetivos e não subjetivos

Em segundo lugar, o cristianismo é uma religião de fatos objetivos e não comporta proposições subjetivas. Como alguém pode atestar que de fato recebeu o poder transferido por outra pessoa? Isso mais parece um procedimento de bluetooth tecnológico do que verdadeira manifestação de poder.

Os evangelistas registraram que Jesus ao curar um paralítico em Cafarnaum se deparou com uma questão subjetiva, mas logo solucionou objetivamente o problema que surgiu com a indagação dos fariseus (leia Mateus 9:1-8). Ao deparar com o paralítico o Senhor disse que seus pecados estavam perdoados. Os fariseus entenderam isso como uma blasfêmia e responderam que somente Deus pode perdoar pecados. Jesus não tinha nenhum direito nem autoridade para tal ato, segundo eles. O Senhor Jesus porem lhes respondeu: “Pois qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda?”. É óbvio que era mais simples e fácil dizer que os pecados do paralitico estavam perdoados por Jesus, porém isso era subjetivo. Como aferir essa experiência e avalia-la como real e verdadeira? Então Jesus para clarificar sua autoridade divina diante dos homens disse aos fariseus: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E, levantando-se, partiu para sua casa”. O que era subjetivo Jesus comprovou operando um milagre objetivo. A regra divina é trabalhar com elementos objetivos e não subjetivos.

Artimanhas evangélicas

É fácil dizer que mediante ritual e invocação ao Senhor um suposto poder espiritual de pessoas estão sendo transferidas a outras. O difícil e impossível é provar isso. Que o povo do Senhor medite na Lei do Senhor (Salmos 1:2; 119:15; 119:48; 119:97, 98). O poder do Senhor em nossas vidas não visa satisfazer nosso ego espiritual, nem é secreto ou esotérico. Não está à disposição de pessoas específicas ou números específicos de pessoas (leia aqui: O que significa ser cheio do Espírito Santo?). Esse entendimento se parece muito com um tipo de gnosticismo cristão e não com o verdadeiro cristianismo. O povo do Senhor deve ler a Bíblia e estuda-la com afinco, caso contrário alguns serão agitados de um lado para outro e levados constantemente por todo o vento de doutrinas e pelas artimanhas dos homens (Efésios 4:14). Que o Senhor nos guarde disso.


Com amor, 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

EVANGELHO COM CHEIRO DE MORTE


Por Gilson Barbosa


Muitos crentes se ofendem quando afirmamos que Cristo não morreu na cruz por cada pessoa individualmente. Em outras palavras, seu sangue foi derramado a fim de salvar muitas pessoas, mas não cada pessoa. Nem todos serão salvos. Se Cristo tivesse morrido por cada pessoa, com muita certeza, cada uma dessas pessoas seria salva. Porém, sabemos que nem todos serão salvos. Entender o porquê é a dúvida que paira sobre nossas cabeças.

Cristo não derramou seu sangue em vão. Seu sangue não foi desperdiçado. Há uma frase interessante sobre esse fato: “O sangue de Cristo é totalmente suficiente como expiação dos pecados do mundo todo, mas eficaz apenas aos seus eleitos”. O apóstolo escreveu que Cristo “que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (II Coríntios 5:21). Nossos pecados foram trocados pela justiça de Cristo. Isso não significa que Cristo se tornou pecaminoso ou pecador, mas que foi oferecido como oferta pelo pecado. Deus aceitou o sacrifício de Cristo pelos pecadores, ou, por aqueles que o Pai mesmo escolheu, como João (6:44) afirma: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”. Esse texto deixa claro que sempre é o Deus Pai que toma a iniciativa para a salvação dos homens.

É interessante que a Bíblia afirma que não fomos nós escolhemos a Cristo, mas que Ele nos escolheu: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda” (João 15:16). Não fomos nós que o amamos primeiro, mas Ele nos amou antes mesmo que tivéssemos qualquer intenção de amá-lo: “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (I João 5:19). A nossa salvação não aconteceu porque Cristo previu que o aceitaríamos. Essa é a conclusão que chegam alguns amados irmãos ao lerem Romanos 8:29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. O teólogo Franklin Ferreira (Teologia Sistemática, p. 233) oferece quatro respostas opostas ao ensino de que Deus apenas previu os que o aceitariam Cristo como Salvador:

1ª) A presciência de Deus refere-se a um povo, e não a qualquer ação desenvolvida pelo povo.

2ª) Deus não nos elegeu por ver algo que faríamos, isto é, aceitar a Cristo, mas somos escolhidos para que possamos “aceita-lo”.

3ª) Nossa eleição não se fundamenta no fato de que Deus previu os que acreditariam, mas nossa crença resulta de sermos eleitos (Atos 13:48).

4ª) A afirmação de que exercitamos fé ao aceitar a Cristo e que Deus previu essa fé nos leva a perguntar onde encontramos a fé para exercitar. A Bíblia assevera que a nossa fé é dádiva de Deus, não de nós mesmos (Efésios 2:8; Tito 1:1).   

É com esse pano de fundo que devemos entender as palavras do apóstolo Paulo em II Coríntios 2:15,16: “Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida. Quem, porém, é suficiente para estas coisas?”.

Paulo denota estar muito preocupado com as contingencias em seu ministério, mas encontra regozijo no Senhor e sabe que Ele tem conduzido sabiamente os eventos de sua vida: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento” (v.14). Os comentaristas bíblicos afirmam que Paulo extraiu a imagem do triunfo em Cristo (vs. 14-11) do costume romano de comemorar as vitórias travadas nas guerras, quando ocorria um cortejo triunfal em homenagem ao general romano que regressa à capital depois de uma campanha vitoriosa:

Paulo aqui tinha em mente um cortejo triunfal tipicamente romano. Sempre que um general romano regressava à capital após uma campanha vitoriosa, ele recebia uma celebração por parte do Senado. Armava-se uma grande procissão pelas ruas de Roma, em que se exibiam os cativos aprisionados na batalha. A carruagem em que ia o general vencedor era precedida por pessoas que carregavam guirlandas de flores e vasilhas com incenso perfumado. Estes eram os prisioneiros que iriam retornar à sua terra, agora conquistada por Roma, a fim de governá-la sob a direção do império. Após a carruagem, vinham outros prisioneiros, arrastando pesadas correntes nos pés e nas mãos. Esses deveriam ser executados, pois os romanos criam que não poderiam confiar neles. Quando o cortejo passava entre as multidões que soltavam brados de triunfo, aquele incenso e flores perfumadas eram, para o primeiro grupo, “aroma de vida para vida”, e para o segundo grupo, o mesmo cheiro era “cheiro de morte para morte”.

                              (A dinâmica de uma vida autentica - Ray Stedman).

É Cristo quem triunfou sobre as potestades malignas e os expôs a vergonha pública: “e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Colossenses 2:15). Entretanto, o resultado do triunfo de Cristo é duplo sobre as pessoas. Um negativo, e outro positivo. Atingem duas classes de pessoas: os que são salvos e os que se perdem. Aos salvos, o triunfo de Cristo possui “cheiro de vida”, aos perdidos tem “cheiro de morte”. Conforme observou João Calvino “sejam quais forem os resultados da nossa pregação, isso é agradável a Deus, contanto que o evangelho seja pregado, e nossa obediência lhe seja aceitável” (Comentário a II Coríntios, p.75).

Não jogamos fora nossa pregação quando pecadores não vêm a Cristo. Para estes o evangelho não produzirá o efeito exigido para a salvação, pois como dissemos acima, o Senhor não os destinou à salvação. Se Deus os tivesse escolhido certamente seriam alcançados pela expiação de Cristo e seriam salvos: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6:37). Isso nos impede de orarmos pela salvação das pessoas ou evangeliza-las? De maneira alguma, somente nos lembra de que a salvação vem do Senhor.

No amor de Cristo,


terça-feira, 15 de abril de 2014

AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ COMEMORAM A PÁSCOA?


Por Gilson Barbosa

Ontem (14/04/2014) estive num Salão do Reino das Testemunhas de Jeová por ocasião da celebração da morte de Jesus Cristo, conforme anunciado no convite deles. A motivação para visita-los deu-se por meu ímpeto de apologista e a curiosidade sobre a maneira como participam da Ceia do Senhor (Sacramentos), ou como elas denominam: a refeição noturna do Senhor. Este evento é celebrado apenas uma vez ao ano e acontece no mundo inteiro onde há adeptos das Testemunhas de Jeová. A data de comemoração neste ano caiu no dia 14 de abril. Na verdade elas não comemoram a Páscoa, mas usam a data em alusão a morte de Jesus.

Não devemos depreciar as Testemunhas de Jeová. Há coisas boas que podemos aprender com eles ou imitá-los. A maneira como os visitantes são recepcionados é algo apreciador. Os responsáveis pela recepção estão sempre com um sorriso no rosto, cumprimentam a todos e são prestativos nas informações. Assim que me assentei um senhor designou um jovem para estar ao meu lado durante toda a reunião. Muito atencioso, ele abria o hinário de cântico (Cantemos a Jeová) ou a “Bíblia” (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas) e fazia com que eu acompanhasse as leituras e os cânticos. São organizados quanto ao horário de início, desenvolvimento da reunião, e finalização. Não há conversação nem balbúrdia. Homens e mulheres se vestem de maneira simples, mas impecáveis. A maioria dos homens usavam terno e gravata. A reunião durou cerca de uma hora e quinze minutos. Não há como negar que esses procedimentos são dignos de elogio. Já a questão doutrinária é contaminada por heresias.

A palestra ou pregação, realizada por um ancião indicado previamente, se desenvolveu com a intenção de responder quatro perguntas básicas:

1ª) Por que precisamos de um libertador?

2ª) Quem se beneficia do sacrifício amoroso de Jesus?

3ª) Quem deve comer do pão e beber do vinho?

4ª) O que precisamos fazer para demonstrar nossa gratidão?  

Antes de qualquer coisa é necessário dizer que o Jesus das Testemunhas de Jeová não é o mesmo da Bíblia (II Coríntios 11:4). Ele não passa de uma criação de Jeová e não é Todo Poderoso. Tudo o que ele realiza somente o faz pelo poder que Jeová diretamente outorga a ele. Portanto, com uma cristologia dessas toda a estrutura da pregação desmorona, pois a morte de Cristo apenas torna possível o resgate do pecador e não é certeza que o faça.

A conclusão é que um cristão sem conhecimento teológico pode ser facilmente enganado ou confundido pela pregação jeovista. Isso porque em certos momentos a linguagem usada no desenvolvimento das respostas lembra bem a linguagem evangélica – principalmente nas perguntas 1 e 4. A explicação para as perguntas 2 e 3 é pura e terrível distorção hermenêutica. Na resposta para a pergunta 2 dizem que os beneficiários do sacrifício de Jesus se dividem em dois grupos: os ungidos (ou pequeno rebanho) e a Grande Multidão. Os ungidos são em número de 144 mil pessoas apenas. Segundo eles, somente estes estarão com Cristo no céu. A Grande Multidão deve se imaginar ou se contentar em morar no Paraíso terrestre.

No entanto, Jesus utilizou a expressão “pequeno rebanho” (Lucas 12:32) em referencia aos discípulos, que seriam enviados para trabalhar  entre lobos vorazes (Mateus 10:16) e, naquele momento, precisavam ser encorajados para que pudessem realizar a tarefa para a qual estavam sendo designados. O mais terrível é que declaram que nascer de novo é algo exclusivo dos 144 mil ungidos. Afirmam que a classe da Grande Multidão não precisa nascer de novo. É desta maneira que interpretam João 3:3. Em contraste com essa divisão de classes entre “pequeno rebanho” e “Grande Multidão”, a Escritura declara que todos os crentes verdadeiros viverão na presença direta de Deus. Todos os que crêem em Cristo são verdadeiros herdeiros do reino de Deus (Mateus 5:5; Gálatas 3:29; 4:28-31; Tito 3:7) e não somente 144 mil pessoas.

A resposta para a pergunta 3 é que apenas os que fazem parte do grupo dos ungidos ou dos 144 mil é que devem participar dos elementos da Ceia – comer o pão e beber o vinho. O curioso é que na reunião, enquanto os servos ministeriais (semelhante aos diáconos) passam o pão e posteriormente o vinho, nenhuma Testemunha de Jeová come ou bebe. Perguntei ao jovem que me acompanhava se alguma Testemunha de Jeová daquele salão fazia parte do grupo dos ungidos, ou seja, se participava dos elementos. Ele me disse que em 8 anos como Testemunha de Jeová nunca presenciou alguém participando dos elementos. Quer dizer, os elementos passam e ninguém participa – são apenas expectadores. A seguir disse-me que no mundo todo deve ter apenas uns 7000 que comem do pão e bebem do vinho – ou seja, somente estes fazem parte dos “ungidos” nos dias atuais. Se alguém na reunião tomar dos elementos e participar, seu nome é anotado e enviado ao Corpo Governante que procederá conforme seu modo de administrar. Ou seja, dificilmente alguém se sentirá um membro do “pequeno rebanho” ou um dos que estarão com Cristo no céu. Que situação triste, não é mesmo?

Em oposição a esse entendimento Jesus ensinou que todos os que nele crêem devem participar da Ceia. As Testemunhas de Jeová, no entanto, não obedecem à ordem de Jesus: “E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos” (Mateus 26:27). No texto de I Coríntios 11:23-26, o apóstolo Paulo não faz distinção entre os irmãos, afirmando que somente alguns que se sentisse dignos participassem da ceia (1Co 11:23-26). Ao agirem dessa forma, as Testemunhas de Jeová deixam de cumprir as Escrituras para seguirem preceitos de homens (Mateus 15:9).  


Não devemos desrespeitar nem atacar a crença das pessoas ou instituições religiosas, mas qualquer grupo que se intitule cristão não deve falsear a verdade por meio de interpretações esdruxulas das escrituras sagradas. Em II Pedro 2:1 o apóstolo Pedro previu o seguinte: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”. É verdade que nesse texto Pedro trata dos falsos mestres dentro da Igreja. Todavia não podemos negar que qualquer pessoa que se diga cristã, mas que desvirtue a pregação do evangelho, não passa de um falso mestre também. Amar ao próximo não significa ocultar ou omitir a verdade. 

Em Cristo,


sábado, 12 de abril de 2014

PÁSCOA CRISTÃ


Por Gilson Barbosa

Os cristãos evangélicos não comemoram a Páscoa como os judeus. Mas, para nós essa festa é repleta de simbolismo e significado; por isso deve ser altamente considerada e respeitada. Apesar de não comermos a carne do cordeiro, nem pão levedado, nem ervas amargas, nem tomarmos os quatro cálices de vinho, temos motivos de sobra para festejarmos também. Sabemos, entretanto, que muitas pessoas distorcem e destratam o verdadeiro sentido da Páscoa.

Alguns, sem se importar com os festejos ou significado da Páscoa, aproveitam o feriado para viajar com a família ou amigos. É óbvio que nem todos que viajam desconsideram essa data. O comércio aproveita a época para vender ovos de chocolate e outros produtos ligados à comemoração. A crença popular é que os ovos representam uma nova vida que retorna à natureza na época da Páscoa. Um coelhinho, segundo o pensamento das crianças, é quem lhes traz os ovos de Páscoa. A origem dessa crença conforme a Enciclopédia Delta Universal se deu assim: “Uma lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presentes de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho trouxera os ovos”.  

Neste ano (2014) a Páscoa cai no dia 20 de abril, mas a data não é fixa no calendário cristão. Contudo, sempre cai no primeiro domingo após a primeira lua cheia depois de 21 de março. A religião judaica celebra a Páscoa na véspera de 14 de nisan ou abibe – o primeiro mês do calendário sagrado hebraico (entre março-abril), sendo que abibe é um nome babilônico (Deuteronômio 16:1) e foi alterado posteriormente para nisan (Neemias 2:1). É possível que tanto a Páscoa quanto a Festa dos pães ázimos fossem festas agrícolas, pois as grandes festas judaicas estavam ligadas as estações do ano agrícola de Canaã.  

A Páscoa era uma das três grandes festas em Israel; as outras duas eram a Festa do Pentecostes e dos Tabernáculos. Eram festas tão solenes a ponto de o senhor ordenar o seguinte: “Três vezes no ano, todo varão entre ti aparecerá perante o SENHOR, teu Deus, no lugar que escolher, na Festa dos Pães Asmos, e na Festa das Semanas, e na Festa dos Tabernáculos; porém não aparecerá de mãos vazias perante o SENHOR”. Os judeus deveriam apresentar, em associação com a Páscoa, os primeiros molhos de grãos maduros (Levítico 23:10). A Pascoa era conjugada com a Festa dos Pães Asmos (Levítico 23:6). Segundo John MacArthur Jr:

As duas festas eram tão intimamente relacionadas que o período de oito dias era às vezes chamado a “Páscoa” e às vezes chamado “a Festa dos Pães Asmos”. Porém em termos técnicos, a Páscoa refere-se ao décimo quarto dia de Nisã e a Festa dos Pães Asmos refere-se aos sete dias restantes do período festivo, que terminava no dia 21 de Nisã.

Para sabermos como se deu a instituição da Páscoa judaica e como os hebreus deveriam proceder devemos ler Êxodo 12:1-14. Em linhas gerais tratava-se de uma prática para comemorar a libertação de Israel da escravidão do Egito. Porém não devemos esquecer que a libertação de Israel custou muito caro aos egípcios em geral devido à renitência de Faraó. Se por um lado presenciamos a graça de Deus, do outro notamos Sua ira sendo derramada. Ao anunciar a décima praga o Senhor demonstrou a gravidade daqueles que não alcançam sua redenção: todo o primogênito na terra do Egito morreria. Deus ordenou que os hebreus protegessem seus primogênitos da morte espargindo o sangue do cordeiro morto, nas ombreiras e vergas das portas de suas casas. O cordeiro morria subistutivamente em lugar dos primogênitos.  O significado etimológico da palavra Páscoa é “passar por cima” – uma referencia que o Senhor não executaria seu juízo na casa onde houvesse o sinal de sangue do cordeiro morto (Êxodo 12:12,13).

O Deus Eterno não alterou seu plano ou decreto quanto à salvação do Seu povo (I Pedro 2:9). Cristo Jesus ao participar da ultima páscoa com seus discípulos instituiu a Nova Aliança. O Novo Testamento estabelece uma conexão remidora direta entre a Páscoa e a morte de Jesus, o Cordeiro Pascoal por excelência, que foi sacrificado por nós (Bíblia de Estudo de Genebra). João Batista afirmou que Jesus expiaria o pecado da humanidade perdida: “No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29). O apóstolo João confirma o plano salvífico do Senhor que contemplaria a morte remidora de seu Filho amado: “e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:8). Na cruz Cristo Jesus morreu em substituição aos pecadores que certamente seriam alcançados por sua morte: “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (I Pedro 2:24).

Que os cristãos evangélicos tenham a Páscoa como uma festa que deve ser celebrada. Ela retrata para nós a ira de Deus sendo derramada sobre os pecadores, a graça de Deus alcançando os escolhidos e os libertando do poder do pecado, a morte substitutiva de Cristo em favor dos salvos, e o mais glorioso acontecimento, a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Para os cristãos evangélicos esse é o verdadeiro sentido da Páscoa. Alegremo-nos e nos regozijemos nisso.



No amor de Cristo,


domingo, 6 de abril de 2014

TEMPESTADE EM COPO D'ÁGUA

Por Gilson Barbosa


Tanto na Igreja quanto na sociedade em geral existem pessoas que são fáceis em promover tumultos causando constrangimentos em pessoas e atrapalhando ou dificultando a administração de outros. São aqueles que gostam de provocar “tempestade em copo de água”. Geralmente são pessoas de difícil relacionamento interpessoal, egoístas e afirmam presunçosamente estarem corretas nas avaliações que fazem das situações. Ocorre, porém, que esse tipo de pessoa não se importa em chatear seu semelhante e causar dificuldades por conta do seu ponto de vista. Infelizmente, quase todos nós somos ou fomos vítimas de alguém desse tipo. É muito desagradável.

O apóstolo Paulo viveu também esse tipo de situação, inclusive tendo que escrever sua segunda carta aos coríntios para defender-se de várias acusações que certa pessoa fazia contra ele. Entre as acusações estavam a de que ele era leviano e inconsistente. Com isso o opositor tinha a intenção de anular sua reivindicação e autoridade de apóstolo de nosso Senhor. Vamos aos fatos.

Na sua primeira carta aos coríntios no capítulo 16:5 o apóstolo tinha um plano de viagem que consistia em passar primeiro pela Macedônia e logo após visitar Corinto e a igreja ali. Mas Paulo alterou seu plano de viagem, devido a acusações, indo primeiro visitar os coríntios e depois à Macedônia. Havia dois propósitos nessa mudança de Paulo: 1º) proporcionar benefício espiritual aos irmãos coríntios e 2º) beneficiar a si próprio em suas necessidades bem como os irmãos da Judeia com ofertas recolhidas ali (II Coríntios 1:15, 16).

Para certa pessoa na congregação de Corinto Paulo estava sendo leviano e inconsistente simplesmente em mudar seu itinerário no plano de viagem e agia segundo a carne. O apóstolo Paulo não estava sendo íntegro em suas palavras, segundo o opositor (1:16,17). Se isso não consistia em fazer tempestade em copo d’água pelo menos era um artifício para desqualificar o apóstolo Paulo.

Paulo não merecia esse tipo de constrangimento. Ele afirma que era sincero e tinha sua consciência limpa e tranquila diante de Deus e da igreja. Hernandes Dias Lopes comenta sobre isso quando diz:

“A glória de Paulo não estava na posição que ocupava, mas na qualidade de vida que vivia. Ele não dependia de elogios humanos nem se desanimava com as críticas. Ele tinha o testemunho de sua consciência de que vivia de forma santa e sincera no mundo e diante da igreja, não pela força da sabedoria humana, mas estribado na graça divina. Os homens podiam ver suas ações, mas Deus via suas intenções”.

Ao explicar sua demora e mudança em ir a Corinto primeiro, o apóstolo Paulo também afirma que suas palavras não eram inconsistentes. Ele diz: “Ora, determinando isto, terei, porventura, agido com leviandade? Ou, ao deliberar, acaso delibero segundo a carne, de sorte que haja em mim, simultaneamente, o sim e o não?” (1: 17). Ele está simplesmente dizendo aos irmãos que era fiel em suas palavras (v.18) assim como Deus é fiel em cumprir Suas promessas (v.20). É claro que isso exige também seriedade em nossas palavras. O cristão deve ser sério em suas palavras. Muitas pessoas dizem algo no começo de um determinado desafio, mas depois com o passar do tempo mudam levianamente sua postura e com isso trazem inúmeros problemas. Não é o caso de Paulo.

Mas, meu foco nessa postagem é demonstrar a confusão e o constrangimento que alguns crentes causam a alguém ou a obra do Senhor por coisas banais e fúteis quase sempre tendo em vista seus interesses pessoais. Não que os crentes não tenham direito de opinar em alguns assuntos de interesse da congregação. Porém, ficar causando tumulto, se metendo em polêmicas, constrangendo a liderança ou outro membro da igreja, discutindo questões tolas, não deveria ser jamais o alvo do crente.

Mesmo assim o apóstolo está disposto a amar e perdoar o ofensor: “Ora, se alguém tem causado tristeza, não me tem contristado a mim, mas em parte (para não ser por demais severo) a todos vós. Basta a esse tal esta repreensão feita pela maioria. De maneira que, pelo contrário, deveis antes perdoar-lhe e consolá-lo, para que ele não seja devorado por excessiva tristeza. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor” (II Coríntios 2:5-8). Aqui temos o outro lado da moeda. Em primeiro lugar, é quando o líder toma postura de arrogância, muitas vezes não admitindo suas falhas e pisoteando em cima dos membros. Em segundo lugar, é quando o líder mesmo com consciência limpa e sinceridade manifesta amor e perdão aos seus opositores.

Muitas divisões denominacionais são frutos de razões arbitrárias e a justificativa em muitos casos não passam de “tempestade em copo d’água”. Aos membros de igrejas evangélicas que gostam de tumultuar o ambiente constrangendo as pessoas vai o conselho de evitar falatórios inúteis. Caso contrário à liderança da igreja tem autoridade e o dever de aplicar a disciplina eclesiástica (2:7) a esse infeliz.

No amor de Cristo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                


quinta-feira, 3 de abril de 2014

SIMPLES CONSELHOS AOS PREGADORES


Por Gilson Barbosa

O Reino de Deus é apresentado aos pecadores por meio de simples palavras através da pregação do evangelho. Por isso o pregador deve ser fiel à mensagem proveniente de Deus. A Bíblia contém a mensagem de Deus para o seu povo, mas, do jeito que as coisas andam nos púlpitos receio que os pregadores estejam falando de si mesmos e não da parte do Senhor. Os púlpitos foram invadidos por pessoas despreparadas, marqueteiros, animadores de auditórios, profissionais da pregação, aventureiros. O povo do Senhor é levado ao engodo por esses tipos de pregadores que estão anunciando mensagens provenientes do seu próprio coração. Por outro lado também o povo do Senhor é negligente quando não toma a Bíblia como padrão ao avaliar uma pregação.

Mas, não bastassem às intenções destes tipos de pregadores (claro que há exceções) temos ainda a questão do método homilético utilizado por eles. A grande maioria usa o método textual ou temático para pregar. Os benefícios desses métodos são bem poucos e, francamente, não representam a melhor maneira de expor a mensagem de Deus. Percebemos que em muitas pregações não há simetria, concordância, análise da gramática, cultura ou história. Não há nenhum tipo de preocupação com as perícopes (grupos de versículos uniformes no texto) nem com o contexto. O resultado disso é que textos bíblicos que edificam, consolam, exortam (quando interpretados corretamente) são alegorizados e o seu verdadeiro sentido é perdido. Meu conselho é que os pregadores mudem o método de pregação para o expositivo. Este se preocupa com o verdadeiro sentido da mensagem de Deus contida no texto bíblico e analisa, quase como que palavra por palavra, os versículos contidos num texto – é o que os estudiosos denominam de exame do método gramático-histórico-cultural. A negligencia no uso do método expositivo tem levado a uma espécie de crise da pregação.  

Não somente o tipo de método utilizado pelos pregadores tem servido de combustível para minar o poder da mensagem divina, mas, o descaso com a importância da pregação do evangelho. O pastor Paulo Anglada no seu livro Introdução à Pregação Reformada nos informa o seguinte quadro da pregação pelos púlpitos afora:

A pregação, como forma distinta de comunicação da vontade de Deus revelada na sua Palavra, está em declínio. Em muitas igrejas ela tem sido substituída por um número cada vez maior de atividades, tais como representações, recitação de poemas, jograis, testemunhos, debates, discursos políticos, atividades sociais e administrativas e especialmente pela música, incluindo corais, conjuntos, bandas, quintetos, quartetos, duetos, solos, etc. Cada vez mais tempo tem sido concedido a essas atividades e menos à pregação.

Em muitas igrejas a pregação do evangelho também tem sido substituída pelo “movimento do Espírito” no culto, entre os quais estão as revelações, profecias, adivinhações, sessões de poder, etc. Quando muitos pensam que isso é, de fato, o que Deus quer para sua igreja o que notamos é a improdutividade no testemunho cristão. Cristo disse que se uma árvore não der fruto deve ser cortada e lançada no fogo. Crente sem mudança e sem testemunho de vida é crente que vive a vida espiritual sem o poder da mensagem do evangelho, contida na pregação bíblica. Talvez o problema esteja nos ouvidos moucos da congregação, mas talvez seja a mão do semeador ou o sermão que ele prega.

A função do pregador deve ser simplesmente de lançar a semente do evangelho, nada mais. Sei de eventos evangélicos onde pregadores pagam uma determinada quantia em dinheiro para pregar. Isso é uma vergonha. Seu objetivo se resume a entreter o povo com discursos eloquentes, “poderosos”, e uso hábil da retórica tendo em vista sua própria projeção como pregador no cenário brasileiro ou mundial. Quão diferente a Bíblia retrata o pregador. Ele é apenas aquele que semeia a semente.

Na parábola do semeador o destaque são os tipos de solos e a semente. Conforme a boa observação de Robert Gundry (Panorama do Novo Testamento) o título dado ao texto de Mateus 13:1-23 como “Parábola do Semeador” pode ser um título ilusório, se for erroneamente usado na interpretação. O semeador nem ao menos é identificado na interpretação. O pregador não deve se preocupar com o tipo de semente nem com os tipos de solos. A semente sempre produzirá seus frutos no bom terreno. Não é necessário se “violentar” na busca por resultados na pregação, pois a semente é divina, ela com certeza é muito boa e alcançará resultados.

O bispo John Charles Ryle ao comentar sobre a Parábola do Semeador afirmou que o trabalho do pregador é muito semelhante ao trabalho de um semeador, pois se ele deseja ver bons frutos precisa semear boa semente e não as tradições da igreja ou doutrinas de homens. A questão é que o evangelho tem se tornado puro pragmatismo e muito da responsabilidade disso são os semeadores. O semeador também deve ser diligente e persistente se quer ver os frutos da semeadura. Ocorre que os pregadores de ocasião necessitam ver os resultados num único culto, numa única pregação – disso depende sua agenda. O importante na boa produção do solo não é o semeador, é a semente. Assim também o pregador não deve se considerar o mais importante na pregação. O importante é atingir o coração das pessoas e usar a boa semente. Prossegue dizendo o bispo Ryle que o semeador não pode transmitir vida. Ele pode espalhar a semente que lhe foi confiada; mas não pode ordenar que ela cresça. É um absurdo ouvir pregadores que determinam ao Espírito quando e como Ele deve vir sobre as pessoas na congregação.  Pregadores não podem ordenar que a semente plantada gere vida no coração do pecador, isso é tarefa do Senhor.

Que os pregadores se considerem servos inúteis. Jonas Madureira (no artigo servo inútil) assevera que isso não significa que o Senhor considere inútil o servo inútil, mas isso deve ser considerado pelo próprio servo. Ou seja, se a ordem do Senhor é para que se pregue um evangelho bíblico devemos fazer isso por pura obediência e não na busca de méritos. Jonas Madureira continua dizendo que a consciência da sua inutilidade “é que salva o servo de fazer do serviço um palco para exibir seu ego, suas capacidades, seu brilhantismo, sua rigorosa obediência e farisaísmo. A consciência da inutilidade fixa os olhos do servo numa direção que não pode ser desviada nem para esquerda nem para a direita. Por isso, esse olhar nunca está voltado para a sua obediência ou seu serviço; seu olhar deve repousar em seu Senhor. Tudo o que o servo faz é para o seu Senhor”. O servo é em primeiro lugar inútil para si mesmo, e é para si mesmo que o servo confessa todos os dias essa inutilidade.

Que os pregadores sejam humildes na proclamação do legítimo evangelho. Lembre-se sempre, o semeador não é mais importante do que a semente e os tipos de solos dependem da eficácia da semente e não do manejamento do semeador. É necessário restaurar o verdadeiro sentido do pregador e da pregação. Que o Senhor nos ajude.


No amor de Cristo,