segunda-feira, 28 de abril de 2014

TRANSFERÊNCIA DE GERAÇÕES: NOVA HERESIA

por Gilson Barbosa


Antes de ler essa postagem você deve assistir o vídeo abaixo. 


Antigamente eu ficava surpreso e escandalizado com as heresias que iam surgindo no meio evangélico, hoje não mais. As características naturais de algumas igrejas facilitam a fabricação ou produção de heresias. São potenciais produtoras de distorções doutrinárias. Apesar de todas as igrejas, em certo sentido, estarem vulneráveis as heresias, a meu ver, o movimento neopentecostal e o pentecostalismo (um tanto mais distante) são suscetíveis a se conformarem com as distorções teológicas ou doutrinárias.

O movimento pentecostal clássico (especialmente as Assembleias de Deus mais tradicionais) só não se lança de vez em distorções doutrinárias e teológicas por causa de alguns líderes que ainda valorizam a apologética e a teologia sadia – essas duas disciplinas estão contidas na Santa Escritura. São homens e mulheres que temem ao Senhor e sabem fazer uso adequado da hermenêutica sagrada. Ainda que seja incrível, esses líderes encontram oposição dentro da própria denominação, mas continuam firmes na aplicação da exegese bíblica. Que o Senhor seja louvado por isso.

Já o movimento neopentecostal não possui nenhum freio doutrinário, pois seus próprios líderes não se preocupam com a teologia nem dão a devida atenção à exegese dos textos bíblicos. A mais recente heresia no cenário neopentecostal brasileiro é a transferência de poder às gerações. O "ato profético" aconteceu por ocasião do 15º Congresso Internacional de Adoração e Intercessão - promovido pelo Ministério de Louvor Diante do Trono. Refere-se ao ato de transmitir ou passar o poder espiritual (ou unção) de determinadas pessoas, a outras pessoas nascidas em períodos históricos diferentes. Trata-se de uma transferência virtual. Por si só isso já é muita pretensão. Essa heresia é uma distorção de, pelos menos, dois pensamentos bíblicos. Vamos lá então.

Transmissão real e não transferência virtual

Em primeiro lugar, a Bíblia não menciona nenhuma experiência como transferência mística de poderes espirituais. Não existe tal transferência. Mesmo o pentecostalismo clássico, entende que o recebimento de poder (como no dia de Pentecoste) não é uma transferência virtual ou subjetiva do mesmo e que pode ser passada a outra geração, mas, uma busca individual e constante pelo poder do alto. 

Ao contrário disso, a Bíblia incentiva os pais a transmitirem a seus filhos, ou as futuras gerações, o conhecimento a respeito do Senhor bem como dos seus atos poderosos de forma real por meio da prática de ensinamentos. Então biblicamente temos uma transmissão e não transferência. Esta transmissão não diz a respeito às habilidades naturais ou espirituais de quem quer que seja, mas refere-se aos atos poderosos do próprio Deus.

Podemos comprovar isso biblicamente, por exemplo, na instituição da Páscoa. Para que o Senhor não ferisse com morte os primogênitos dos hebreus eles deveriam matar um cordeiro e molhar seu sangue nos umbrais da porta de cada casa (Êxodo 12:21-23). O ato de celebrar a Páscoa, bem com seus detalhes, deveria ser guardado como Lei perpétua e obrigatoriamente transmitida às gerações posteriores: “Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre. E, uma vez dentro na terra que o SENHOR vos dará, como tem dito, observai este rito. Quando vossos filhos vos perguntarem: Que rito é este? Respondereis: É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou”.

Outro exemplo está inserido no contexto da construção de um altar grande e vistoso junto ao rio Jordão (em Gileade) pelas tribos de Ruben, Gade e a meia tribo de Manassés, por ocasião das heranças de terras distribuídas por Moisés às tribos de Israel (para entender leia Josué 22:10-34).  As tribos a oeste do Jordão questionaram a construção deste altar entendendo o ato como uma espécie de rebelião, pois o Tabernáculo do Senhor ficava em Canaã. Ou seja, não deveria haver outro centro de adoração. Ao justificar a construção do altar em Gileade, as duas tribos e meia disseram que a única preocupação era que seus filhos tivessem o altar como um lembrete e testemunho de que serviam o mesmo Deus dos israelitas que haviam ficado do outro lado do Jordão:

Pelo contrário, fizemos por causa da seguinte preocupação: amanhã vossos filhos talvez dirão a nossos filhos: Que tendes vós com o SENHOR, Deus de Israel? Pois o SENHOR pôs o Jordão por limite entre nós e vós, ó filhos de Rúben e filhos de Gade; não tendes parte no SENHOR; e, assim, bem poderiam os vossos filhos apartar os nossos do temor do SENHOR. Pelo que dissemos: preparemo-nos, edifiquemos um altar, não para holocausto, nem para sacrifício, mas, para que entre nós e vós e entre as nossas gerações depois de nós, nos seja testemunho, e possamos servir ao SENHOR diante dele com os nossos holocaustos, e os nossos sacrifícios, e as nossas ofertas pacíficas; e para que vossos filhos não digam amanhã a nossos filhos: Não tendes parte no SENHOR. Pelo que dissemos: quando suceder que, amanhã, assim nos digam a nós e às nossas gerações, então, responderemos: vede o modelo do altar do SENHOR que fizeram nossos pais, não para holocausto, nem para sacrifício, mas para testemunho entre nós e vós.

                                                                                   Josué 22:24-28

Devemos repassar aos nossos filhos e futuras gerações não algo místico e virtual, mas os mandamentos do Senhor para que eles O temam e o obedeçam.

As duas únicas passagens bíblicas que “poderiam” respaldar o procedimento de transferência de poder está em Números 11:16-30 onde Deus designa setenta anciãos para ajudarem Moisés e Lucas 10:19 onde o Senhor Jesus designa outros setenta para uma missão específica. Mas lendo atentamente o contexto observaremos que foram acontecimentos singulares, únicos, e com pessoas dotadas de autoridade espiritual fora do comum. No caso de Moisés não partiu dele a decisão de outorgar o poder do Espírito aos setenta anciãos, mas do Senhor. No caso de Jesus ele é o Emanuel, Deus conosco. Não carecia de receber permissão do Pai, nessa questão. Portanto, essas duas passagens não parece autorizar a transferência de poder.

Elementos objetivos e não subjetivos

Em segundo lugar, o cristianismo é uma religião de fatos objetivos e não comporta proposições subjetivas. Como alguém pode atestar que de fato recebeu o poder transferido por outra pessoa? Isso mais parece um procedimento de bluetooth tecnológico do que verdadeira manifestação de poder.

Os evangelistas registraram que Jesus ao curar um paralítico em Cafarnaum se deparou com uma questão subjetiva, mas logo solucionou objetivamente o problema que surgiu com a indagação dos fariseus (leia Mateus 9:1-8). Ao deparar com o paralítico o Senhor disse que seus pecados estavam perdoados. Os fariseus entenderam isso como uma blasfêmia e responderam que somente Deus pode perdoar pecados. Jesus não tinha nenhum direito nem autoridade para tal ato, segundo eles. O Senhor Jesus porem lhes respondeu: “Pois qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda?”. É óbvio que era mais simples e fácil dizer que os pecados do paralitico estavam perdoados por Jesus, porém isso era subjetivo. Como aferir essa experiência e avalia-la como real e verdadeira? Então Jesus para clarificar sua autoridade divina diante dos homens disse aos fariseus: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E, levantando-se, partiu para sua casa”. O que era subjetivo Jesus comprovou operando um milagre objetivo. A regra divina é trabalhar com elementos objetivos e não subjetivos.

Artimanhas evangélicas

É fácil dizer que mediante ritual e invocação ao Senhor um suposto poder espiritual de pessoas estão sendo transferidas a outras. O difícil e impossível é provar isso. Que o povo do Senhor medite na Lei do Senhor (Salmos 1:2; 119:15; 119:48; 119:97, 98). O poder do Senhor em nossas vidas não visa satisfazer nosso ego espiritual, nem é secreto ou esotérico. Não está à disposição de pessoas específicas ou números específicos de pessoas (leia aqui: O que significa ser cheio do Espírito Santo?). Esse entendimento se parece muito com um tipo de gnosticismo cristão e não com o verdadeiro cristianismo. O povo do Senhor deve ler a Bíblia e estuda-la com afinco, caso contrário alguns serão agitados de um lado para outro e levados constantemente por todo o vento de doutrinas e pelas artimanhas dos homens (Efésios 4:14). Que o Senhor nos guarde disso.


Com amor, 

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