domingo, 25 de agosto de 2013

A SOBERANIA DE DEUS E O LIVRE-ARBITRIO

Por Gilson Barbosa

Prezado leitor, pode parecer estranho, mas preciso perguntar: você acredita na soberania de Deus? É sabido que numa perspectiva teórica todo o cristão crê na soberania de Deus. No entanto a crença é quase sempre negada quando a conversa assume dimensões profundas e é analisada à luz do cotidiano de cada cristão. Dizer que Deus é soberano implica em admitir Seu governo e controle sobre todas as coisas. Esse é um simples teste que levado à exaustão, pelas contingências da vida, demonstra que algumas pessoas não conseguem viver em paz com essa realidade.
Em nosso viver diário nos deparamos com acontecimentos que chocam a nossa percepção de como é o Ser de Deus ou como pensamos que deveria ser. É só pensar nas tragédias que acontecem mundo afora, no sofrimento humano, na ênfase libertária do livre arbítrio, na doutrina bíblica da predestinação, que, para alguns, a existência de um Deus soberano fica prejudicado. Muitos entendem que sendo Deus soberano essas coisas não deveriam existir, ou acontecer.

Porém, temos que conviver com a realidade de que essas coisas existem e Deus é soberano. Deus poderia, se quisesse, dar um fim em toda as mazelas, mas Ele decidiu e permitiu (e permite) que essas contingencias existam e assim sucedam. Na verdade, quanto a isso, não temos uma resposta que satisfaça a curiosidade humana.  A dificuldade da aceitação é resultado da ênfase na livre vontade humana, ou livre arbítrio. Porém temos que decidir: ou Deus é soberano e o livre arbítrio humano é limitado, ou o ser humano é plenamente livre e Deus não é soberano.
Deus é Soberano

De certa forma, arminianos, calvinistas, pentecostais ou tradicionais, acreditam na soberania de Deus. No entanto, a questão é o quanto (em que grau) Ele é soberano para esses grupos. Certos evangélicos afirmam que a soberania de Deus é limitada pela liberdade humana. Na teologia reformada o entendimento é o oposto: a liberdade humana é limitada pela soberania de Deus.

O teólogo Arthur W. Pink em Os Atributos de Deus (Editora PES) define a soberania de Deus como o exercício absoluto de Sua supremacia. Deus é soberano sobre sua criação (Salmo 104); sobre os governos mundiais (Daniel 4:35); na eleição e reprovação do pecador (Romanos 9:15-29); na regeneração (Tiago 1:18); nos sofrimentos de Cristo e dos crentes (Lucas 22:42; I Pedro 3:17); na nossa vida e destino (Tiago 4:13-15; Atos 18:21) e até mesmo os menores detalhes da vida (Mateus 10:29).
Entre as expressões da soberania divina estão os atributos da onipotência, sabedoria, imutabilidade e onisciência. Com respeito ao seu poder soberano devemos compreender o seguinte:

1 – A Escritura em nenhum lugar coloca limites ao poder de Deus;

2 – Deus exerce o seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providencia. Os decretos de Deus são a manifestação de sua vontade e certamente se realizam na história, no devido tempo, segundo seu propósito.

3 – O que Deus realiza não serve de limites para o seu poder. Aquilo que Deus realiza ou que deixa de realizar não compromete sua soberania. Ele apenas determinou não fazer ou fazer algo; isso não significa que não seja onipotente, mas apenas que decidiu livremente não fazer algumas coisas.   

4 – Deus exercita o seu poder em harmonia com todas as perfeições de sua natureza. O ponto 3 está unido a este. A vontade divina é eticamente determinada. Nesse sentido Deus não faria 2+2 ser igual a 5, nem criar um triangulo quadrado, escrever em linhas tortas, ou fazer uma pedra tão grande que nem ele mesmo consiga carregar. Quando as escrituras afirmam que Deus não pode mentir, não pode se arrepender, não pode mudar ou ser tentado, devemos entender que o Senhor ajusta seu poder de modo harmoniosamente perfeito ao seu ser.  
Soberania divina e livre-arbítrio

Precisamos encontrar o entendimento adequado entre a soberania divina e a liberdade humana. A vontade soberana de Deus não é impedida de ser realizada pela vontade humana. Robert Charles Sproul (Eleitos de Deus, Ed: Cultura Cristã) disse muito bem:

Se a soberania de Deus é restringida pela liberdade do homem, então Deus não é soberano, e sim o homem é soberano. Deus é livre. Eu sou livre. Deus é mais livre que eu. Sua liberdade restringe a minha; minha liberdade não restringe a dele. Existe uma analogia na família humana. Eu tenho livre-arbítrio. Meus filhos tem livre-arbítrio. Quando nossas vontades se chocam, eu tenho autoridade para reger a vontade deles. A vontade deles deve estar subordinada à minha vontade; minha vontade não deve estar subordinada à deles. É claro que, no nível humano da analogia, não estamos falando em termos absolutos.
A liberdade humana levada a exaustão certamente redundará em heresia (é o caso da Teologia Relacional, defendida por alguns teólogos norte-americanos e brasileiros). Nosso livre-arbítrio não é neutro nem puro. Ele é influenciado por causas e fatores externos. É necessário definir o que é livre-arbítrio. A maioria define o livre-arbítrio como a capacidade de fazer escolhas sem nenhum preconceito, inclinação ou disposição anterior. Para o arbítrio ser livre, é preciso agir a partir de uma postura de neutralidade, sem absolutamente nenhuma tendência. Isso é impossível. Sproul escreveu:

Na superfície isso é muito atraente. Não há elementos de coerção, nem externos nem internos, a serem encontrados aí. Embaixo da superfície, contudo, estão à espreita dois sérios problemas. Por sendo assim, se fazemos nossas escolhas estritamente a partir de uma postura natural, sem nenhuma inclinação anterior, então fazemos nossas escolhas sem nenhuma razão. Se não temos nenhuma razão para nossas escolhas, se nossas escolhas são totalmente espontâneas, então nossas escolhas não tem significado moral. Se uma escolha apenas acontece – apenas surge, sem nenhuma rima ou razão – então não pode ser julgada boa ou má. Quando Deus avalia nossas escolhas, ele está interessado em nossos motivos.
O que Sproul está dizendo é que nossas escolhas são frutos de nossa inclinação e predisposição anterior. Nossas vontades não são totalmente neutras. Antes da Queda Adão e Eva possuíam livre-arbítrio puro, pois eles tinham a possibilidade de pecar ou não. Após a Queda nosso livre-arbítrio foi maculado. Fatalmente nós pecaremos. Não temos mais a possibilidade de não pecar. Todo esse entendimento sobre o livre-arbítrio serve para demonstrar que especialmente nas coisas relativas ao Senhor faremos o que nossa natureza caída pede; repudiaremos os assuntos espirituais e desprezaremos a soberania divina.

Não há ninguém que busque a Deus por si somente

Não que não sejamos livres, apenas que nossa liberdade não é maior que a de Deus. Nós não temos o livre-arbítrio isento de inclinações e desejos predispostos. Nossa natureza caída nos conduz a escolher o mal, o pecado, o que desagrada a Deus.

Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. (Romanos 3:10-12)
Tenha sempre em mente que o Senhor é soberano. Ele governa; está no controle de todas as coisas. Nabucodonosor, um rei ímpio, fez uma declaração onde expressou a soberania de Deus:

Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes? (Daniel 4:34,35).
Não faça do livre-arbítrio o seu rei supremo. Busque a graça de Deus e peça perdão. Conduza toda a sua vida segundo a vontade de Deus. Descanse no Senhor, pois sua fidelidade é eterna. Não queira ajustar a soberania de Deus à liberdade humana; não sacrifique a soberania de Deus somente porque não compreende como pode o mal existir simultaneamente. Encerro com as graves palavras de advertência:

Os homens imaginam que o que move a Deus são sentimentos e não os princípios. Eles supõem que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mudança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidade do “livre-arbítrio” humano, e o reduza a uma “máquina”. Rebaixam a eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero “remédio” que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentirem dispostas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santo, reduzindo-a a um “oferecimento” do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.  (Os atributos de Deus – A.W. Pink, Editora PES).
Liberdade somente em Deus

Nós não somos absolutamente livres para fazer a vontade de Deus. Quase sempre a questionaremos. O pecado de adão trouxe consequências nefastas a seus descendentes direto e indireto. Muitas pessoas por não considerarem a soberania de Deus o têm reduzido em forma semelhante a um mendigo que pede favores. Não somos nós que aceitamos a Cristo, é Cristo quem nos redime e nos justifica diante de Deus. Não questione o Ser Deus só porque você não entende a razão de certos acontecimentos que na nossa avaliação são ruins. Humilhe-se diante da soberania divina.

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? (Romanos 9:20)
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O QUE É TEOLOGIA REFORMADA?

Por Gilson Barbosa

É extremamente relevante que cada cristão compreenda as crenças da sua denominação religiosa. A compreensão, contudo, deve ser a etapa mínima, pois não é bom que o servo de Cristo se satisfaça apenas em saber ou entender aquilo em que crê. Apesar de eu não ter nenhuma estatística em mãos não tenho nenhuma dúvida de que inúmeros irmãos simplesmente não sabem qual teologia (ou que tipo de teologia) sua denominação evangélica está comprometida.  

No ótimo livro Hermenêutica fácil e descomplicada (CPAD) o teólogo Esdras Bentho ao expor as acepções do étimo teologia afirma o seguinte:

O termo teologia a partir do conceito escolástico medieval e das rupturas surgidas por meio das principais controvérsias cristãs tornou-se termo elástico e inclusivo para reconhecer o expoente pragmático de um sistema teológico, combinando o nome do indivíduo ao vocábulo teologia. Assim temos: Teologia Agostiniana, Teologia Arminiana, Teologia Wesleiana, Teologia Paulina, Teologia Joanina, e muitas outras.

O tipo de teologia que desejo que estudem com profundidade poderia ser designada de Teologia Calvinista. Porém, historicamente é conhecida como Teologia Reformada. Em certo sentido ela não foi introduzida por e com Calvino. Como bem escreveu James Montgomery Boice

Os crentes na tradição reformada têm em alta consideração as contribuições específicas como as de Martinho Lutero, Jonh Knox e, particularmente, de João Calvino, mas eles também encontram suas fortes distinções nos gigantes da fé que os antecederam, tais como Anselmo e Agostinho e principalmente nas cartas de Paulo e nos ensinamentos de Jesus Cristo.

As quatro tradições teológicas do cristianismo

Parte do entendimento da teologia deve-se as diversas tradições dentro das quais ela é praticada. No desenvolvimento histórico há quatro principais tradições teológicas do cristianismo: a teologia das igrejas ortodoxas orientais, a teologia da Igreja Católica Romana, a Teologia Protestante e a Teologia Liberal. Os teólogos Stanley Grenz e Roger Olson (Iniciação à Teologia, Ed:Vida) faz um resumo histórico sobre a Teologia Reformada nos seguintes termos:

A história da teologia protestante começa com a Reforma, no século XVI. Em 1517, o monge católico alemão Martinho Lutero deu inicio a uma controvérsia ao pregar suas 95 teses – ou pontos de debate – na porta da catedral de Wittenberger. Nas décadas seguintes, desabrochou o terceiro ramo da teologia cristã. Nós a chamamos “protestante” porque protestou contra a ênfase da teologia católica romana à autoridade do papa e dos concílios e contra certas crenças e práticas comuns da Igreja.

Além de Lutero, destacaram-se entre os primeiros teólogos protestantes Ulrico Zuinglio e João Calvino, da Suiça, Thomas Cranmer, da Inglaterra, e Menno Simons, da Holanda. Todos haviam sido católicos romanos, porém se voltaram para o caminho da reflexão protestante. Esses líderes estabeleceram várias tradições dentro do protestantismo. Lutero obviamente fundou o luteranismo, Zuinglio e Calvino foram os pais da ala reformada (principalmente presbiteriana, na Inglaterra e nos Estados Unidos). Cranmer ajudou a estabelecer a teologia da Igreja Anglicana. Simons foi um dos primeiros líderes anabatistas, cujo maior grupo hoje é conhecido como menonitas.

Estes primeiros irmãos protestantes apesar de serem falíveis e suscetíveis a erros, buscaram entender as Escrituras com seriedade e honestidade. Houve tanto divergências quanto concordâncias. Podemos mencionar quatro pensamentos em comum: 1) a rejeição da tradição (os pronunciamentos do papa e concílios) como de igual valor ao do testemunho bíblico; 2) a rejeição da teologia natural como guia para o verdadeiro conhecimento de Deus; 3) a afirmação de que todo o cristão tem o direito de ler e interpretar a Bíblia e 4) a afirmação da natureza contínua da reflexão teológica como esforço cooperativo do povo de Deus (“Reformando e sempre em reforma”). 

A Declaração de Cambridge e os 5 Solas

As crenças que fundamentam a Teologia Reformada são as que seguem abaixo. As mesmas constam no documento denominado de Declaração de Cambridge – Aliança de Evangélicos Confessionais - e estão em forma de teses:

1) Sola Scriptura – “Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação”.

2) Sola Fide – “Reafirmamos que a justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé e somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus. Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene o princípio da sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima”.

3) Sola Christus – “Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatoria do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai. Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada”.

4) Sola Gratia – “Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual. Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada”.

5) Soli Deo Gloria – “Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente. Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a autoestima e a autorrealização se tornem opções alternativas ao evangelho”.

Um chamado ao arrependimento e à Reforma

São muitos grupos evangélicos e pessoas que reivindicam uma segunda Reforma. Até mesmo o atual papa (Papa Francisco) tem comentado sobre o tema. O lema “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est” (Igreja Reformada Sempre se Reformando), de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676), não deve ser aplicado a qualquer momento crucial da igreja e ou para estabelecer doutrinas que não estão claras nas escrituras sagradas. A expressão “sempre se reformando” não deve ser interpretada como sendo adaptadas as práticas atuais, tais como: misticismo, novas revelações, crentes gnósticos, neopentecostalismo, pentecostalismo, entre outros. É necessário nos arrependermos e pedirmos perdão ao Senhor, devido ao profundo distanciamento quanto aos fundamentos da Teologia Protestante ou Reformada. Voltar-se à Reforma não tem nada a ver com promover outra Reforma, mas, simplesmente nos apegarmos confiantemente aos próprios fundamentos desta teologia que mudou o pensamento religioso de todos os tempos, trazendo muitos à salvação, para a glória de Deus.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

É BÍBLICO O BATISMO INFANTIL?

Por Gilson Barbosa

Quando Deus chamou Abraão fez promessas que ultrapassariam as barreiras étnicas de Israel: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Genesis 12:3b). Essa promessa refere-se ao plano de Deus para a salvação do mundo. Ainda que Deus tenha escolhido Israel como nação para representa-lo entre as demais, Israel desobedeceu e tornou-se descrente no Senhor: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência”. (Romanos 9:6-8).

Os filhos da promessa somos nós, a Igreja invisível de Cristo. Esta, é o Israel espiritual de todos os tempos unidos com Ele: “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gálatas 3:29). O apóstolo Paulo ao avisar os filipenses sobre os falsos mestres que enfatizavam o rito exterior e físico da circuncisão afirmou: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. (Filipenses 3:3). Há uma continuidade linear do plano eterno de Deus, que inclui tanto a nação de Israel como os estrangeiros. Em Efésios 2:11-19 Paulo lembra que gentios e judeus são unidos por Deus mediante a cruz de Cristo. Não há dois povos, não há um plano divino para cada um, não há frustração em Deus por Israel não manter o compromisso da Aliança. O que há são apenas administrações diferenciadas. A Igreja cristã é o Israel do Antigo Testamento. No discurso de Estevão isso fica claro quando ele diz que Moisés esteve entre a congregação no deserto (Atos 7:38). A expressão congregação é eklesia; a mesma usada para falar da Igreja de Cristo. Isso não significa necessariamente que Deus tenha desistido de salvar seus eleitos entre a nação de Israel.

Entendido que judeus e gentios foram unidos por Deus como seu único povo, devemos também compreender que as crianças fazem parte da família de Deus (Marcos 10:13-16). Jesus disse que dos tais é o Reino de Deus. Isso não significa garantia de regeneração ou salvação, mas sim um revestimento de especial importância dentro do plano salvífico. O texto bíblico diz que o Senhor Jesus as abençoou. Deus não é apenas o Deus dos adultos, mas das crianças, ou em outras palavras, dos nossos filhos.
No princípio Deus estabeleceu uma aliança com Abraão (Genesis 17:9-11) e instituiu o rito da circuncisão como herança espiritual: “Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua” (Genesis 17:13). Apesar de ser um rito físico a circuncisão era uma espécie de sinal de salvação para Abraão; isto não anula nem precede a fé de Abraão nas promessas do Senhor: “E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada” (Romanos 4:11). A circuncisão tinha sentido de limpeza espiritual interna: “E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6). Ela era um sinal externo para denotar uma realidade essencial e interna. Circuncidar o menino significava introduzi-lo nas bênçãos da aliança. As meninas não possuíam um ritual de circuncisão, pois numa sociedade patriarcal como a de Israel, a mulher era representada pelo homem.
Nos tempos modernos qual é o sinal de que a pessoa faz parte da comunidade visível de Cristo? Qual é o símbolo que denota uma realidade espiritual interna? É o batismo. Os que são favoráveis ao batismo infantil enfatizam seu paralelo com a circuncisão. Embora não sejam idênticos possuem pontos cruciais em comum. Sproul afirma que ambos são sinais da aliança e sinais da fé. O batismo também possui o sentido de separação para uma vida santa, o que corresponde essencialmente ao mesmo sentido da circuncisão. Assim como a circuncisão o batismo não salva nem santifica por si mesmo, mas prepara a pessoa para receber esses resultados.  
Sabemos que na Igreja Cristã o batismo tomou o lugar da circuncisão. Nos casos onde pessoas receberam os dois elementos (circuncisão e depois o batismo) devem ser entendidos como aplicações em momentos e situações diferentes, e nisso não há contradição. No início em Israel o batismo com água era para prosélitos que quisessem professar o conjunto doutrinário dos judeus. Como é um símbolo externo de uma realidade interna também possui o sentido de limpeza; purificação (Atos 22:16; Tito 3:5). O batismo se torna um mandamento quando o Senhor Jesus ordena sua prática para os cristãos principiantes, em Mateus 28:19.
Se o batismo era para a Igreja, sabemos que as crianças também fazem parte da mesma e devem ser batizadas com base no mesmo entendimento da circuncisão: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (Atos 2:39). Alguns indagam que isso excluiria as mulheres no batismo, mas, Cristo trouxe outro sentido a algumas práticas e comportamentos, portanto as meninas e mulheres podem ser batizadas tendo como perspectiva esse argumento: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).
Com base no argumento de que as crianças devem ser introduzidas nas bênçãos espirituais da Nova Aliança encontramos evidencias do batismo infantil na Bíblia Sagrada (Leia com atenção Atos 16:13-15; 16:30-34; 18:7,8; I Coríntios 1:14-16). É verdade que biblicamente não há uma ordem positiva explicitamente, mas não podemos nem devemos ignorar a realidade das evidencias e a coerência e vigência da Teologia da Aliança para a igreja atual.  
Algumas objeções ao batismo infantil não se sustentam, tais como:

- a criança não pode exercer fé pessoal e não possui consciência para tal. A isso respondemos que “no caso de Abraão, ele abraçou a fé depois de adulto e fez uma profissão de fé antes de ser circuncidado. Ele tinha fé antes de receber o sinal da fé. Seu filho Isaque, no entanto, recebeu o sinal da fé antes que tivesse a fé que o sinal simbolizava (como foi o caso de todos os outros filhos da aliança)”. Verdades essenciais da fé cristã, p. 17

- O batismo infantil viola a liberdade de escolha pessoal. Em certo sentido muitos prefeririam ter sua liberdade violada a padecer no inferno, você não acha? Ordenar aos nossos filhos sobre o que devem comer, vestir, fazer, etc, é um direito dos pais, assim como aplica-los o batismo, que os introduzem numa esfera de comunhão com o Senhor. Porém, isso não o exime de confessar sua fé livremente quando adulto.   

- Não se pode ter certeza da regeneração da criança. Da mesma forma que não se pode ter certeza da regeneração de um adulto também. Não acredito que se batizem pessoas crendo infalivelmente que são externamente regenerados.

- Não há mandamento expresso. Concordamos com esse fato, mas respondemos que “mais precisamente, o argumento bíblico para o batismo das crianças dos crentes se apoia no paralelo entre a circuncisão, do Antigo Testamento, e o batismo, do Novo Testamento, como sinais e selos da graça (Genesis 17:11; Romanos 4:11; Colossenses 2:11,12), e na alegação de que o princípio da solidariedade familiar na comunidade da aliança (a Igreja, como é agora chamada) não foi afetado pela transição da ‘velha’ para a ‘nova’ forma da aliança com Deus, realizada pela vinda de Cristo. As crianças dos crentes gozam do status de filhos da aliança e, portanto, devem ser batizadas, do mesmo modo que os filhos meninos dos judeus eram anteriormente circuncidados” (Bíblia de Estudo de Genebra, p. 34).
A apresentação de crianças: prática inusitada

A maioria das igrejas evangélicas se contrapõem a prática do batismo infantil e fazem nos cultos a apresentação de crianças. Constatamos, porém, que essa prática não é nem bíblica, nem teológica e nem doutrinária. Trata-se, obviamente, de uma ordenança arbitrária, impositiva e tendo como base a tradição. Felizmente temos pessoas sensatas dentro destes grupos evangélicos que não só sabem disso, mas alertam para o “perigo” dessa prática. Leia abaixo um trecho interessante do pastor assembleiano Vitor Gadelha sobre esse assunto:
Não raro os pastores que ministram a apresentação do bebê dizem que realizam o ato seguindo o modelo do Senhor Jesus, que também foi apresentado no templo (sendo muito comum a leitura da passagem correlata de Lucas 2.22).
É justamente esta transposição que é inadequada - a apresentação do Senhor Jesus no templo é um ato totalmente distinto da apresentação de bebês praticada pela igreja brasileira contemporânea.
Jesus foi apresentado no templo, ao oitavo dia, em cumprimento à exigência da lei mosaica de consagração (ou resgate) dos primogênitos (Êxodo 13.1, 11-14; Levítico 12.1-8). Sendo assim, a apresentação do Senhor Jesus:
1.       Era uma disposição cerimonial da lei judaica (veja Gálatas 4.4);
2.       Era um ato estendido a todos os primogênitos judeus (ou seja, Lucas 2.22-24 não cria um novo paradigma);
3.       Era um ato que envolvia a circuncisão (Levítico 12.3);
4.       Era um ato que exigia a purificação cerimonial da mãe (Levítico 12.1,4);
5.       Exigia a apresentação de dois animais como sacrifício (um como holocausto pelo pecado e outro como oferta para o pecado), que poderiam ser um cordeiro e uma pomba ou rolinha ou, no caso das famílias pobres, duas pombas ou rolinhas (como foi o caso da família de Jesus – veja Levítico 12.6-8 e Lucas 2.24).
Se continuarmos insistindo que a apresentação contemporânea de crianças segue os mesmos moldes da apresentação de Jesus no templo, então:
1.       Estaríamos afirmando a vigência da Lei cerimonial mosaica, com seus ditames sobre pureza cerimonial e sobre a circuncisão (Gálatas 3.23-25);
2.       Meninas não poderiam ser apresentadas no templo, e nem os filhos não-primogênitos;
3.       Algum tipo de oferta/sacrifício teria de ser exigido dos pais – algo inadmissível diante da Nova Aliança e do sacrifício perfeito de Cristo (Hebreus 9.11-15).
Ainda que pudesse ser “provado” que o batismo infantil não é bíblico, a apresentação de crianças é menos ainda; podemos dizer até mesmo que ela é antibíblica.
A responsabilidade dos pais no lar
O batismo infantil não salva as crianças nem lhes garante a salvação. Essa mesma verdade se aplica aos adultos. Outra verdade é a questão da confissão pública. Se uma criança não tem consciência para confessar sua fé e ser batizada, um adulto também enfrenta os mesmos obstáculos e o mesmo pode ser dito dele. Muitos adultos que fazem profissão de fé não têm convicção nem consciência do que está professando. Quem aplica eficazmente o batismo nos crentes é somente Deus.
Assim como a responsabilidade de Abraão não terminou com a circuncisão (Genesis 18:17-19) a dos pais de crianças batizadas também não se encerra após a cerimonia de batismo. Da mesma forma que a circuncisão, o batismo é um sinal da aliança em que os pais se comprometem a criar os filhos no amor e temor ao Senhor.
Que o Senhor nos dê graça para aceitarmos as diferenças!