domingo, 25 de agosto de 2013

A SOBERANIA DE DEUS E O LIVRE-ARBITRIO

Por Gilson Barbosa

Prezado leitor, pode parecer estranho, mas preciso perguntar: você acredita na soberania de Deus? É sabido que numa perspectiva teórica todo o cristão crê na soberania de Deus. No entanto a crença é quase sempre negada quando a conversa assume dimensões profundas e é analisada à luz do cotidiano de cada cristão. Dizer que Deus é soberano implica em admitir Seu governo e controle sobre todas as coisas. Esse é um simples teste que levado à exaustão, pelas contingências da vida, demonstra que algumas pessoas não conseguem viver em paz com essa realidade.
Em nosso viver diário nos deparamos com acontecimentos que chocam a nossa percepção de como é o Ser de Deus ou como pensamos que deveria ser. É só pensar nas tragédias que acontecem mundo afora, no sofrimento humano, na ênfase libertária do livre arbítrio, na doutrina bíblica da predestinação, que, para alguns, a existência de um Deus soberano fica prejudicado. Muitos entendem que sendo Deus soberano essas coisas não deveriam existir, ou acontecer.

Porém, temos que conviver com a realidade de que essas coisas existem e Deus é soberano. Deus poderia, se quisesse, dar um fim em toda as mazelas, mas Ele decidiu e permitiu (e permite) que essas contingencias existam e assim sucedam. Na verdade, quanto a isso, não temos uma resposta que satisfaça a curiosidade humana.  A dificuldade da aceitação é resultado da ênfase na livre vontade humana, ou livre arbítrio. Porém temos que decidir: ou Deus é soberano e o livre arbítrio humano é limitado, ou o ser humano é plenamente livre e Deus não é soberano.
Deus é Soberano

De certa forma, arminianos, calvinistas, pentecostais ou tradicionais, acreditam na soberania de Deus. No entanto, a questão é o quanto (em que grau) Ele é soberano para esses grupos. Certos evangélicos afirmam que a soberania de Deus é limitada pela liberdade humana. Na teologia reformada o entendimento é o oposto: a liberdade humana é limitada pela soberania de Deus.

O teólogo Arthur W. Pink em Os Atributos de Deus (Editora PES) define a soberania de Deus como o exercício absoluto de Sua supremacia. Deus é soberano sobre sua criação (Salmo 104); sobre os governos mundiais (Daniel 4:35); na eleição e reprovação do pecador (Romanos 9:15-29); na regeneração (Tiago 1:18); nos sofrimentos de Cristo e dos crentes (Lucas 22:42; I Pedro 3:17); na nossa vida e destino (Tiago 4:13-15; Atos 18:21) e até mesmo os menores detalhes da vida (Mateus 10:29).
Entre as expressões da soberania divina estão os atributos da onipotência, sabedoria, imutabilidade e onisciência. Com respeito ao seu poder soberano devemos compreender o seguinte:

1 – A Escritura em nenhum lugar coloca limites ao poder de Deus;

2 – Deus exerce o seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providencia. Os decretos de Deus são a manifestação de sua vontade e certamente se realizam na história, no devido tempo, segundo seu propósito.

3 – O que Deus realiza não serve de limites para o seu poder. Aquilo que Deus realiza ou que deixa de realizar não compromete sua soberania. Ele apenas determinou não fazer ou fazer algo; isso não significa que não seja onipotente, mas apenas que decidiu livremente não fazer algumas coisas.   

4 – Deus exercita o seu poder em harmonia com todas as perfeições de sua natureza. O ponto 3 está unido a este. A vontade divina é eticamente determinada. Nesse sentido Deus não faria 2+2 ser igual a 5, nem criar um triangulo quadrado, escrever em linhas tortas, ou fazer uma pedra tão grande que nem ele mesmo consiga carregar. Quando as escrituras afirmam que Deus não pode mentir, não pode se arrepender, não pode mudar ou ser tentado, devemos entender que o Senhor ajusta seu poder de modo harmoniosamente perfeito ao seu ser.  
Soberania divina e livre-arbítrio

Precisamos encontrar o entendimento adequado entre a soberania divina e a liberdade humana. A vontade soberana de Deus não é impedida de ser realizada pela vontade humana. Robert Charles Sproul (Eleitos de Deus, Ed: Cultura Cristã) disse muito bem:

Se a soberania de Deus é restringida pela liberdade do homem, então Deus não é soberano, e sim o homem é soberano. Deus é livre. Eu sou livre. Deus é mais livre que eu. Sua liberdade restringe a minha; minha liberdade não restringe a dele. Existe uma analogia na família humana. Eu tenho livre-arbítrio. Meus filhos tem livre-arbítrio. Quando nossas vontades se chocam, eu tenho autoridade para reger a vontade deles. A vontade deles deve estar subordinada à minha vontade; minha vontade não deve estar subordinada à deles. É claro que, no nível humano da analogia, não estamos falando em termos absolutos.
A liberdade humana levada a exaustão certamente redundará em heresia (é o caso da Teologia Relacional, defendida por alguns teólogos norte-americanos e brasileiros). Nosso livre-arbítrio não é neutro nem puro. Ele é influenciado por causas e fatores externos. É necessário definir o que é livre-arbítrio. A maioria define o livre-arbítrio como a capacidade de fazer escolhas sem nenhum preconceito, inclinação ou disposição anterior. Para o arbítrio ser livre, é preciso agir a partir de uma postura de neutralidade, sem absolutamente nenhuma tendência. Isso é impossível. Sproul escreveu:

Na superfície isso é muito atraente. Não há elementos de coerção, nem externos nem internos, a serem encontrados aí. Embaixo da superfície, contudo, estão à espreita dois sérios problemas. Por sendo assim, se fazemos nossas escolhas estritamente a partir de uma postura natural, sem nenhuma inclinação anterior, então fazemos nossas escolhas sem nenhuma razão. Se não temos nenhuma razão para nossas escolhas, se nossas escolhas são totalmente espontâneas, então nossas escolhas não tem significado moral. Se uma escolha apenas acontece – apenas surge, sem nenhuma rima ou razão – então não pode ser julgada boa ou má. Quando Deus avalia nossas escolhas, ele está interessado em nossos motivos.
O que Sproul está dizendo é que nossas escolhas são frutos de nossa inclinação e predisposição anterior. Nossas vontades não são totalmente neutras. Antes da Queda Adão e Eva possuíam livre-arbítrio puro, pois eles tinham a possibilidade de pecar ou não. Após a Queda nosso livre-arbítrio foi maculado. Fatalmente nós pecaremos. Não temos mais a possibilidade de não pecar. Todo esse entendimento sobre o livre-arbítrio serve para demonstrar que especialmente nas coisas relativas ao Senhor faremos o que nossa natureza caída pede; repudiaremos os assuntos espirituais e desprezaremos a soberania divina.

Não há ninguém que busque a Deus por si somente

Não que não sejamos livres, apenas que nossa liberdade não é maior que a de Deus. Nós não temos o livre-arbítrio isento de inclinações e desejos predispostos. Nossa natureza caída nos conduz a escolher o mal, o pecado, o que desagrada a Deus.

Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. (Romanos 3:10-12)
Tenha sempre em mente que o Senhor é soberano. Ele governa; está no controle de todas as coisas. Nabucodonosor, um rei ímpio, fez uma declaração onde expressou a soberania de Deus:

Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes? (Daniel 4:34,35).
Não faça do livre-arbítrio o seu rei supremo. Busque a graça de Deus e peça perdão. Conduza toda a sua vida segundo a vontade de Deus. Descanse no Senhor, pois sua fidelidade é eterna. Não queira ajustar a soberania de Deus à liberdade humana; não sacrifique a soberania de Deus somente porque não compreende como pode o mal existir simultaneamente. Encerro com as graves palavras de advertência:

Os homens imaginam que o que move a Deus são sentimentos e não os princípios. Eles supõem que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mudança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidade do “livre-arbítrio” humano, e o reduza a uma “máquina”. Rebaixam a eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero “remédio” que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentirem dispostas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santo, reduzindo-a a um “oferecimento” do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.  (Os atributos de Deus – A.W. Pink, Editora PES).
Liberdade somente em Deus

Nós não somos absolutamente livres para fazer a vontade de Deus. Quase sempre a questionaremos. O pecado de adão trouxe consequências nefastas a seus descendentes direto e indireto. Muitas pessoas por não considerarem a soberania de Deus o têm reduzido em forma semelhante a um mendigo que pede favores. Não somos nós que aceitamos a Cristo, é Cristo quem nos redime e nos justifica diante de Deus. Não questione o Ser Deus só porque você não entende a razão de certos acontecimentos que na nossa avaliação são ruins. Humilhe-se diante da soberania divina.

Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? (Romanos 9:20)
 

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