quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O QUE AS IGUARIAS DE NABUCODONOSOR TEM A VER COM CHOCOLATE?

Por Gilson Barbosa

Tenho sido informado sobre um procedimento que está virando rotina entre os crentes: a abstenção de certas coisas tendo em vista a conquista de bênçãos divinas ou como agradecimento de bênçãos recebidas. Essas coisas podem ser, por exemplo, não comer chocolate, não tomar Coca-Cola, não assistir televisão, não usar calça (esta proibição diz respeito ás mulheres; membros de igrejas “radicais” quanto aos usos e costumes, mas que desobedecem a ordem do Ministério), não ir ao cinema, etc. A lista de abstenções pode ser enorme, sempre condicionado ao gosto do interessado nas bênçãos. Com a proposta de buscar o Espírito Santo certa igreja estabeleceu a seguinte campanha:

A Igreja Universal do Reino de Deus lançou no último dia 28 de março uma campanha de jejum pela busca do Espírito Santo, o tema é Jejum de Daniel e os fiéis do mundo todo estão participando se abstendo de pensamentos, diversão e entretenimento.

Diferente dos jejuns de comida a IURD trouxe uma nova proposta: evitar ver TV, jogos, sair para cinemas, restaurantes, festas e praticar outras atividades de lazer com os amigos, como por exemplo, acessar redes sociais e usar a internet para fins pessoais. (Nota no final do texto).

Uns entendem que a ação trata-se de uma espécie de jejum parcial. Invocam o jejum praticado por Daniel e seus amigos, na corte babilônica. Outros falam em votos ou promessas. E ainda outros dizem tratar-se de renuncia. Ou seja, renunciam algo que gostam muito para agradar a Deus e cumprir sua Palavra. 

O jejum parcial de Daniel e seus amigos

Queria estar errado, mas penso que esta prática está longe de ser bíblico-cristã. Daniel pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não se contaminar (Daniel 1:8). Ainda que não encontremos nas escrituras a razão explicita para o procedimento deles e no que consistia essa contaminação, o certo é que agindo assim se recusaram a comprometerem sua fé em um ambiente pagão. Por estarem inseridos dentro de um ambiente de grande risco de morte, foram recompensados com a bênção divina (Daniel 1:11-20). Creio que o caso não se aplica a abstenção de lazer, convívio social ou algum tipo especial de alimento, nos dias de hoje. O que chocolate tem a ver com as iguarias do rei Nabucodonosor? Ou o lazer com a Babilônia? Trata-se de um anacronismo lógico e cronológico.

A Bíblia ordena a santificação diária no Espírito e não santidade forçada, a conta gotas, e temporária:

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; (Hebreus 12:14)

Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. (1 Pedro 1:15-16)

Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação. (1 Tessalonicenses 4:7)

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; (2 Tessalonicenses 2:13)

Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da fornicação; (1 Tessalonicenses 4:3)

Outro perigo desse entendimento é qualificar a criação divina, a cultura, o trabalho, o lazer, o entretenimento, as artes, como elementos que trazem malefícios aos cristãos. Isso é conhecido como o dualismo do sagrado e do profano. Esta distinção dicotômica não é bíblica. Muitos associam o espiritual aos momentos de adoração no ambiente do culto e o profano as demais coisas. Deve ser por isso que muitos vivem uma vida dupla. Na igreja é um santo, fora dela um perverso. 

Votos ou promessas

Há outros que ficam com a consciência culpada, pois prometeram algo a Deus e não conseguem cumprir. Leia a pergunta que foi feita num site católico romano:

Pergunta: Boa tarde! Sr Pe. sou Católica devota de Nossa Senhora e de São Jorge, fiz uma promessa em 04/07 de passar 6 meses sem comer chocolate, mas tá muito difícil pra mim. Gostaria de saber se tem algum problema se eu quebrar essa promessa que fiz a Deus!

Na verdade a pessoa prometeu a si mesmo e não consegue controlar seu desejo. A linguagem honesta, os votos ou juramentos possuem sentido no relacionamento com outras pessoas e especialmente com o Senhor Nosso Deus. É necessário considerar a gravidade e seriedade do que está sendo prometido ou votado. Com certeza isso não passa por questões banais como deixar de assistir televisão, comer algum tipo de carne, acessar as redes sociais, etc. Já pensou o apóstolo Paulo dizendo assim aos irmãos tessalonicenses: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da carne vermelha, da Coca Cola, do chocolate, da televisão...”.

A Confissão de Westminster, XXII. 7 afirma:

Ninguém deve prometer fazer coisa alguma que seja proibida na Palavra de Deus ou que impeça o cumprimento de qualquer dever nela ordenado.

Negando o Eu interior

Outra justificativa para tal falta de bom senso é o mandamento de Jesus sobre a renuncia que cada cristão deve praticar em sua vida: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” (Marcos 8:34). O texto não diz nada sobre a questão de que seguir após Cristo será mais puro, nobre e santo, se abstermos de certos tipos de alimentos, lazer, e assim por diante. 

Tomar a cruz de Cristo significa obedecer e identificar-se com Jesus, mesmo até a morte, e não simplesmente suportar alguma obrigação específica imposta pelo Senhor. Em Marcos 8:34 (e nos textos paralelos) Jesus acrescenta o mandamento da negação de si mesmo. A chamada ao discipulado exige o abandono completo do desejo natural de buscar conforto, fama ou poder. (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA).

O texto deve ser lido todo: “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma?” (Marcos 8:35-37).

Imagine se a eternidade do crente estivesse condicionada a questão de comer ou não chocolates, beber ou não Coca Cola, ir ou não à praia ou cinema, comer ou não carne vermelha, etc!!! Com certeza quem conseguisse abster-se destas coisas alcançariam a salvação por obras. Outros amargariam eternamente o inferno só por causa do chocolate, da carne, do lazer, da calça feminina, da televisão....

Que sejamos sábios... No amor de Cristo,






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