terça-feira, 24 de junho de 2014

O DOM DE LÍNGUAS É PARA OS NOSSOS DIAS?

por Gilson Barbosa

Nossas preferencias teológicas não devem servir de norma para a condução da nossa vida espiritual, mas infelizmente isso sempre acontece na discussão de pontos doutrinários polêmicos. O ensino bíblico é deixado de lado, interpretações dúbias são invocadas, experiências espirituais são testemunhadas, e aquilo que deveria ser uma simples conversa entre irmãos descamba em grave discussão pessoal. Presenciamos essa realidade quando o assunto em reflexão é, por exemplo, a experiência pentecostal das línguas estranhas.

Há dois grandes grupos de evangélicos que discordam entre si a respeito da contemporaneidade do batismo em línguas. De um lado estão os irmãos pentecostais; do outro os irmãos denominados de tradicionais - historicamente são chamados de Reformados (devido à ocorrência histórica da Reforma Protestante). Entre os irmãos Reformados há um grupo que não admite em hipótese alguma a ocorrência do dom de línguas nos dias atuais. Outros até aceitam que ele ocorra ainda hoje se a natureza das línguas for a de idiomas estrangeiros. 

O primeiro ponto de discórdia entre os grupos é a natureza das línguas no dia de Pentecostes. Não se discute a realidade do acontecimento, mas que tipo de línguas eram aquelas e qual o verdadeiro objetivo delas. Para os irmãos pentecostais as línguas eram celestiais, sobrenaturais, estranhas sob a perspectiva humana. Para o pentecostalismo moderno as línguas são evidencias da plenitude do Espírito na vida do crente. O batismo em línguas serve para proporcionar poder para o crente vencer uma vida inclinada aos desejos da carne. O crente também adora ou serve melhor e com mais alegria ao Senhor quando é batizado em línguas. Depois da salvação, o batismo em línguas é uma exigência ao crente pentecostal. Não somente isso, mas, trata-se de uma segunda obra e bênção da salvação.

Para os irmãos Reformados as línguas no dia do Pentecostes eram idiomas humanos. Lucas registra em Atos 2:4 que os irmãos “passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem”. A expressão grega para “outras línguas” é heterais glossais, ou, línguas diversas. Nos versículos 6 e 8 o sinônimo de “línguas” é idiomas, ou no grego dialektos.  A tradução Almeida Atualizada redige o seguinte no versículo 8: “E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?”. Foi um acontecimento poderoso, impactante, sobrenatural, mas a natureza das línguas como idiomas humanos é entendida a partir dos seus objetivos.

O primeiro objetivo do dom de línguas é evidenciar a universalidade do evangelho da graça. Estavam presentes nesta festa judaica vários grupos linguísticos para os quais o evangelho foi pregado por meio de línguas que foram dadas milagrosamente. Os “homens piedosos” do versículo 5 provavelmente eram gentios interessados no judaísmo sem serem verdadeiros prosélitos batizados e circuncidados (Russel Shedd). Havia uma mistura de gente - gentios e judeus visitando Jerusalém por ocasião da Festa de Pentecostes. Após listar os diversos grupos Lucas registra: “Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (2:11).

As línguas em Atos 2: 1-13; 10:44-46; 11:16,17 e 19:1-7 funcionaram como evidencia externa da descida do Espírito sobre diferentes grupos, refletindo o progresso do evangelho a partir dos judeus até alcançar os gentios, conforme Jesus determinou em Atos 1:8 (Vagner Barbosa). A primeira finalidade dos irmãos falarem em línguas era a de que a mensagem do evangelho (“as grandezas de Deus”) fosse antecipada a toda a tribo, nação, povo e língua.

O segundo objetivo do dom de línguas foi servir como sinal do juízo de Deus para os descrentes. Paulo escreveu em I Coríntios 14:21,22: “Na lei está escrito: ‘falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor’. De sorte que as línguas constituem sinal não para os crentes, mas para os descrentes”. O apóstolo Paulo faz citação de Isaías 28:11,12. Nos dias de Isaías a situação moral e espiritual de Israel estava caótica. Já que não ouviam mais as ordens do Senhor por meio dos profetas, Deus falaria ao seu povo por “lábios gaguejantes e língua estranha”. Em outras palavras o que Paulo dizia aos irmãos de Corinto era o seguinte: “Assim como no passado o juízo de Deus se evidenciou pela destruição causada por um povo cuja língua era desconhecida aos judeus, assim também o juízo de Deus sobre os judeus incrédulos da época do Novo Testamento se evidencia pela retirada do reino de Deus aos judeus e sua entrega a todos os povos” (Vagner Barbosa).

O terceiro objetivo do dom de línguas é a edificação da igreja. Talvez seja esse o ponto polêmico sobre a contemporaneidade das línguas como dom. Os dois primeiros objetivos são históricos e pontuais, portanto cessaram e não continuam mais depois do período apostólico. Contudo, se quisermos ser honestos com as escrituras, quanto às línguas como edificação da igreja, não temos como provar biblicamente sua cessação após o período apostólico.

Segundo o pastor Augustus Nicodemus Lopes em O Culto Espiritual (Ed: Cultura Cristã) o dom de línguas é dado para edificação dos outros, requer interpretação e, no Novo Testamento, sempre ocorre no contexto de culto comunitário. O que tenho presenciado em cultos pentecostais, quanto a experiências no falar em línguas, está totalmente contra os ensinos paulinos. As igrejas pentecostais modernas incorrem no mesmo erro da igreja de Corinto e parecem não terem aprendido absolutamente nada sobre o ensino de Paulo. Ainda que não entendamos como exatamente o dom de línguas pode vir a ocorrer num culto nos dias de hoje, o uso das línguas no culto pelos pentecostais fere frontalmente o ensino bíblico.

Primazia da Bíblia no culto público

Penso que a Bíblia contém tudo o que a igreja precisa para sua edificação. Por isso a pregação evangélica deve ser fiel ao texto bíblico e a leitura das escrituras deve ter primazia num culto público. Penso também que as línguas com sua exata interpretação eram mais necessárias na igreja do primeiro século do que nos dias de hoje porque as escrituras canônicas estavam em formação e havia relativa necessidade de uma palavra profética da parte de Deus que edificasse a igreja nascente.

Encerro com as palavras do irmão Vagner Barbosa de que se o Senhor tiver algum plano específico Ele pode conceder o dom de línguas à igreja quando quiser, em qualquer período da história e que uma manifestação genuína do dom de línguas sempre deve seguir o padrão revelado pelo próprio Espírito na Escritura Sagrada. E se isso não acontecer não devemos ficar desesperados ou preocupados, pois temos a mais sublime revelação de Deus ao seu povo e aos pecadores: a Bíblia Sagrada. 

Se quiser aprofundamento neste tema sugiro a leitura dos livros: O Culto Espiritual (Ed: Cultura Cristã); Na Dinâmica do Espírito (Ed: Vida Nova) e Teologia do Espírito Santo (Ed: Cultura Cristã).


No amor de Cristo, nosso Senhor. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O DIABO NO SEU DEVIDO LUGAR (BATALHA ESPIRITUAL)



por Gilson Barbosa

“O dia era decisivo na vida do irmão Pedro. Após muitas tentativas, finalmente foi chamado para uma entrevista de emprego. Porém, aconteceram algumas coisas que o deixou muito preocupado. Ele acordou um pouco atrasado e com uma terrível dor de cabeça. Justo naquele dia o ônibus também atrasou. Tinha o endereço da empresa onde faria entrevista, mas se confundiu e após andar por muito tempo foi parar em outro lugar. Pelo caminho tropeçou numa pedra e feriu seu pé. Por fim, Pedro perdeu a entrevista de emprego e a chance de se recolocar no mercado de trabalho. Com todos esses horríveis acontecimentos ele não teve nenhuma dúvida: o diabo foi o causador de todos esses males. Ele estava furioso com o irmão Pedro e resolveu atrapalhar o seu dia, e conseguiu”.

Bem, a história acima é fictícia. Eu a criei para mostrar que milhares de crentes, todo o dia e no mundo todo, agem e pensam como o “irmão Pedro”. Contudo, há nessa “história” alguns detalhes que precisam ser ponderados. Vamos a eles. 

Em primeiro lugar, há muitos evangélicos que entendem a realidade da vida segundo dois princípios fundamentais: o bem e o mal (ou a luz e a treva, o puro e o impuro). Para eles a dualidade do bem e do mal está encarnada e figurada em duas divindades antagônicas que não cessam de combater-se. Ou ainda, que a divindade é o bem, e o mal provêm de entidades demoníacas, inferiores à divindade e em eterna luta contra ela.

Michael Horton em O Cristão e a Cultura (Ed: Cultura Cristã) nota dois problemas com esse tipo de pensamento. O primeiro é a semelhança com o movimento gnóstico que vê este mundo como um campo de batalha cósmica entre forças espirituais cujo destino será decidido pela habilidade de seres humanos com conhecimento e destreza espiritual. Essas pessoas são irmãos que acreditam que um cristão regenerado pode ter demônios, que Satanás e seus demônios dificultam a pregação do evangelho em uma cidade ou nação (“espíritos territoriais”), e que é necessário fazer uma espécie de mapeamento espiritual para “amarrar” os maus espíritos da região. Definitivamente: isso não faz parte do ensino cristão, mas trata-se de puro paganismo.

Concordo com Michael Horton quando disse que Satanás tenta confundir o crente ou diminuir nele a confiança em Cristo; há uma batalha, mas esta é uma batalha pelos corações e pelas mentes e tem a ver com verdade versus erro, fé versus incredulidade, crença em Cristo versus crença em qualquer outra coisa ou pessoa.

Alguém citando II Coríntios 4:4 pode dizer: “mas Satanás é o deus deste século”! Porém, como João Calvino afirmou: “O diabo é chamado o deus deste mundo exatamente do mesmo modo que Baal é chamado o deus daqueles que o adoram ou o cão é chamado o deus do Egito”. Ou seja, o diabo é deus somente nas imaginações dos povos pagãos (I Coríntios 8:5, 6). 

Em segundo lugar, podemos atribuir a Satanás algo que pode ser uma ação da parte do Senhor. O impedimento vindo do Senhor visa benefícios aos seus servos. Lembre-se que o apóstolo Paulo queria pregar o evangelho na Ásia, mas o plano de Deus para ele estava na Europa, portanto, o Senhor não permitiu que os planos de Paulo prevalecessem. Notamos que Paulo em nenhum momento atribuiu este impedimento ao diabo (leia Atos 16:6-10). Na história fictícia do irmão Pedro, quem pode negar que o Senhor poderia ter uma porta de emprego, em certo sentido, melhor para ele? Quem pode negar que o Senhor poderia estar preservando seu servo de algum acontecimento que poderia trazer desgosto no futuro naquela empresa? Só o Senhor sabe. Lembre-se de Isaías 55:8 “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos”.

Em terceiro lugar, não devemos nem superestimar nem subestimar as ações do diabo. Uma dor de cabeça pode ser combatida com uma aspirina. Um erro de endereço pode ser falta de atenção ou planejamento. O tropeção numa pedra pode ser um descuido. Acordar mais cedo pode evitar certas inconveniências no trânsito. Mas muitos preferem atribuir todas as contingências ao diabo. Há igrejas que nos cultos falam mais no diabo do que na obra redentora de Cristo Jesus. Preferem provocar Satanás a adorar a Deus.

Por outro lado há aqueles que não acreditam nem na existência nem no “poder” de Satanás. Quero deixar claro que há sim uma luta espiritual onde Satanás busca atingir os servos do Senhor. Satanás exerce duas atividades principais contra os verdadeiros crentes: a tentação e a acusação. Ele tentou até mesmo o Senhor Jesus e acusou tanto Jó quanto Deus. Ele disse que a justiça de Jó não era sincera, pois advinha do interesse pelos benefícios divinos. Com isso acusou Deus de comprar a fidelidade de Jó com bênçãos terrenas. O diabo é sagaz, atrevido e astuto.

Em quarto lugar, há crentes que imaginam que o mundo é inerentemente mal. Para eles o diabo controla todas as ações do planeta e do universo. Porém, é preciso entender que quando a Bíblia diz que “o mundo inteiro jaz no Maligno” (I João 5:19) refere-se a homens e mulheres em estado de rebeldia contra o Senhor. São pessoas escravizadas voluntariamente ao diabo, pois fazem seus desejos (João 8:44).

É necessário também compreender que somente Deus é soberano. Seus propósitos e objetivos não podem ser frustrados (leia Daniel 4:34-37). É o Senhor Deus e não Satanás quem controla e governa o mundo. O profeta Isaias (46:10) afirma que o conselho do Senhor permanece de pé e toda a Sua vontade é executada. Nada acontece sem a permissão do Senhor. Até mesmo as ações de Satanás só acontecem por permissão divina. Lutero dizia: “O diabo é o diabo de Deus”.

Em sexto e ultimo lugar, não podemos atribuir nossos próprios pecados a ação diabólica. Muitos pecam e depois dizem: “O diabo me fez pecar”. O irmão Vagner Barbosa diz o seguinte sobre isso:

Toda a ênfase em Satanás e nos demônios tende a nos distrair de outra ameaça muito real: nosso próprio pecado. Sim, o diabo existe. Os demônios também. Mas há também a realidade do pecado. Satanás pode ser nosso cumplice no pecado contínuo, mas não podemos passar a culpa e a responsabilidade por nosso pecado a um demônio controlador.

Ainda nessa linha de pensamento outros atribuem aos demônios uma lista intensa de pecados: prostituição, imoralidade, ciúme, inveja, alcoolismo, seitas, ira, assassinatos, corrupções e vários outros. Em algumas reuniões evangélicas é normal expulsar o espírito da mentira, da prostituição, de morte, etc. A Bíblia tem outro nome para os tais “espíritos”: obras da carne (leia Gálatas 5:16-21). São atitudes carnais, provenientes de pessoas não regeneradas ainda.

Que o Senhor nos ajude a termos discernimento espiritual para detectamos a fonte das nossas dificuldades. Não dê ibope ao diabo, mas não ignore suas artimanhas (Tiago 4:7; Efésios 6:10-17). Concentre-se no poder de Cristo Jesus para o fortalecimento da fé cristã. Você precisa saber que a derrota de Satanás foi proclamada pelo Senhor desde o início do mundo (Genesis 3:15; Romanos 16:20). Amém?

No amor de Cristo, 

domingo, 8 de junho de 2014

NEM TODOS SÃO FILHOS DE DEUS



por Gilson Barbosa

Antes de alguma partida de futebol é muito comum os jogadores, ainda nos vestiários, repetirem a oração do “Pai Nosso”. Trata-se de uma oração certamente conhecida tanto por cristãos quanto por não cristãos no mundo inteiro. Mas, sem nenhum medo de errar afirmo que essas pessoas não conhecem ou entendem o real sentido desta oração. Elas fazem a oração pensando que trará algum tipo de benefício material ou físico, como se fosse uma espécie de mágica ou amuleto. Ela se tornou um mantra.

No contexto histórico-bíblico esta oração é extremamente importante, pois foi a única ensinada pelo Senhor Jesus (Mateus 6:9-13). É uma oração modelo que todos os cristãos devem usar. E, em si mesma não é errado fazermos esta oração recitando-a num culto ou num outro evento religioso. O mais importante é compreendermos que há na oração do “Pai Nosso” certos elementos, princípios, implicações e significados para nossas vidas.

A oração pode ser dividida em três partes: invocação, petições, e conclusão. Neste momento gostaria de falar sobre a primeira parte que é “Pai Nosso, que está no céu”.
   
O primeiro ensinamento é que nem todos possuem o direito de chamar Deus de Pai. Em outras palavras, nem todos são filhos de Deus. Há um ditado popular que diz “não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”. Respeito toda a carga de emoção por trás dessas palavras, mas biblicamente não tem nenhum valor. Num certo sentido Deus até pode ser considerado Pai de Todos quanto a ser o Criador e Sustentador do universo. No entanto, o sentido da expressão Pai, na oração, invoca o conceito de redenção e esta só é possível àqueles que creem em Jesus como seu único e suficiente Salvador. O apóstolo João escreveu: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (1:12). E de que modo acontece a filiação divina?

O mesmo apóstolo afirma que a obra da salvação é realizada pela soberana e graciosa vontade de Deus e não por meio de descendências humanas, pelo esforço humano ou pela vontade própria das pessoas (1:13). Dizer-se filho de Deus é expressar algo que não compete ao ser humano, no aspecto redentivo. Se não for por meio da obra mediadora e redentora de Cristo Jesus ninguém pode ser considerado filho de Deus. Para isto acontecer, temos que ser adotados por ele. Não é a criança, na iminência de ser adotada, que escolhe seus futuros pais, mas o contrário.

Já o apóstolo Paulo diz que a adoção é recebida, e por meio dela Deus nos aceita e nos recebe como Pai amoroso. Não somos nós que aceitamos a Cristo, é ele quem nos aceita e por esse instrumento (a adoção) passamos de escravos a filhos: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos [...] de sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus” (Gálatas 4:4,5,7).

Como disse acima, ainda que as pessoas se dirijam a Deus como seus filhos, a legitimidade desse fato só acontece por meio da obra redentora de Cristo, efetuada na cruz do Calvário. Daí segue-se que nem todos são “filhos de Deus”, visto que, muitas dessas pessoas não creem em Cristo como Salvador e Senhor. Certa feita Jesus disse aos judeus que, na verdade, eles eram filhos do Diabo: “Vós sois do Diabo, que é vosso pai, e querei satisfazer-lhes os desejos”. No cotidiano as pessoas cometem todo o tipo de pecado, buscam satisfazer os desejos da carne, e depois ainda dizem serem filhos de Deus!

O segundo ensinamento é que Deus não ouve a oração de todos, mas somente dos seus filhos. Estes são pessoas adotadas por Cristo: “E, porque sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gálatas 4:6). A expressão Aba significa “papai” ou “paizinho”. Os judeus não oravam chamando Deus de “papai” ou “paizinho”. Mas nesta oração o Senhor Jesus ensina seus discípulos a chamar Deus de Pai. O salmista afirmou: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem”. Note que o salmista diz que os que temem ao Senhor é fruto da sua compaixão e cuidado, portanto, é necessário que essa pessoa seja regenerada por Cristo e assim faça parte da família de Deus (Efésios 3:15). Isso demonstra o cuidado amoroso de Deus com os seus filhos.

Do lado contrário, Jesus em sua oração sacerdotal não orou por todos, mas apenas aos que o Pai lhe confiou (João 17:6). Ele disse: “É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aquele que me deste, porque são teus” (João 17:9). O sacrifício supremo de Cristo não foi em favor de todas as pessoas, mas para aqueles que creram em Cristo para sua salvação (João 17:19). Mais a frente ele diz que nem todos creram na sua palavra e não o reconheceram como o Messias prometido (João 17: 25). A obra de redenção realizada por Jesus refere-se particularmente aos eleitos – aqueles que o Pai lhe deu (Bíblia de Estudo de Genebra). Isso está ilustrado na oração sacerdotal de Jesus. Somente aqueles que estão num relacionamento com Deus, como filhos adotivos (Romanos 8:14-17), são ouvidos por Ele.

O terceiro ensinamento é um alerta quanto à maneira displicente que podemos nos dirigir a Deus na oração. As palavras “Pai Nosso que está nos céus” destacam a imanência e a transcendência de Deus. Ele está tanto perto (o que indica intimidade) quanto distante (indica que devemos nos reportar á Ele com humildade e reverencia) de nós. Muitas pessoas se aproximam de Deus com palavras que caracterizam banalidade e falta de reverencia. Já ouvi muitos chamarem Deus de “fofinho”; musicas tratam Deus como “o cara lá de cima”. Penso que os usos de tais expressões são inapropriados e não são autorizadas conforme o ensino de Jesus. É necessário ter humildade e reverencia na oração.  

Por fim, apesar de ser soberano e excelso Deus ouve a oração dos seus filhos e atende as petições que estão conforme sua vontade. Não considere essa reflexão grave ou severa demais, como se faltasse compaixão humana a todos os pecadores. Atente para o fato de que a continuação da oração até sua conclusão exige uma postura que pecadores rebeldes não possuem nem possuirão. Resumindo: no sentido da Criação Deus pode até ser Pai de todos, mas no conceito da Redenção, nem todos são filhos de Deus.


Com amor,