quinta-feira, 19 de junho de 2014

O DIABO NO SEU DEVIDO LUGAR (BATALHA ESPIRITUAL)



por Gilson Barbosa

“O dia era decisivo na vida do irmão Pedro. Após muitas tentativas, finalmente foi chamado para uma entrevista de emprego. Porém, aconteceram algumas coisas que o deixou muito preocupado. Ele acordou um pouco atrasado e com uma terrível dor de cabeça. Justo naquele dia o ônibus também atrasou. Tinha o endereço da empresa onde faria entrevista, mas se confundiu e após andar por muito tempo foi parar em outro lugar. Pelo caminho tropeçou numa pedra e feriu seu pé. Por fim, Pedro perdeu a entrevista de emprego e a chance de se recolocar no mercado de trabalho. Com todos esses horríveis acontecimentos ele não teve nenhuma dúvida: o diabo foi o causador de todos esses males. Ele estava furioso com o irmão Pedro e resolveu atrapalhar o seu dia, e conseguiu”.

Bem, a história acima é fictícia. Eu a criei para mostrar que milhares de crentes, todo o dia e no mundo todo, agem e pensam como o “irmão Pedro”. Contudo, há nessa “história” alguns detalhes que precisam ser ponderados. Vamos a eles. 

Em primeiro lugar, há muitos evangélicos que entendem a realidade da vida segundo dois princípios fundamentais: o bem e o mal (ou a luz e a treva, o puro e o impuro). Para eles a dualidade do bem e do mal está encarnada e figurada em duas divindades antagônicas que não cessam de combater-se. Ou ainda, que a divindade é o bem, e o mal provêm de entidades demoníacas, inferiores à divindade e em eterna luta contra ela.

Michael Horton em O Cristão e a Cultura (Ed: Cultura Cristã) nota dois problemas com esse tipo de pensamento. O primeiro é a semelhança com o movimento gnóstico que vê este mundo como um campo de batalha cósmica entre forças espirituais cujo destino será decidido pela habilidade de seres humanos com conhecimento e destreza espiritual. Essas pessoas são irmãos que acreditam que um cristão regenerado pode ter demônios, que Satanás e seus demônios dificultam a pregação do evangelho em uma cidade ou nação (“espíritos territoriais”), e que é necessário fazer uma espécie de mapeamento espiritual para “amarrar” os maus espíritos da região. Definitivamente: isso não faz parte do ensino cristão, mas trata-se de puro paganismo.

Concordo com Michael Horton quando disse que Satanás tenta confundir o crente ou diminuir nele a confiança em Cristo; há uma batalha, mas esta é uma batalha pelos corações e pelas mentes e tem a ver com verdade versus erro, fé versus incredulidade, crença em Cristo versus crença em qualquer outra coisa ou pessoa.

Alguém citando II Coríntios 4:4 pode dizer: “mas Satanás é o deus deste século”! Porém, como João Calvino afirmou: “O diabo é chamado o deus deste mundo exatamente do mesmo modo que Baal é chamado o deus daqueles que o adoram ou o cão é chamado o deus do Egito”. Ou seja, o diabo é deus somente nas imaginações dos povos pagãos (I Coríntios 8:5, 6). 

Em segundo lugar, podemos atribuir a Satanás algo que pode ser uma ação da parte do Senhor. O impedimento vindo do Senhor visa benefícios aos seus servos. Lembre-se que o apóstolo Paulo queria pregar o evangelho na Ásia, mas o plano de Deus para ele estava na Europa, portanto, o Senhor não permitiu que os planos de Paulo prevalecessem. Notamos que Paulo em nenhum momento atribuiu este impedimento ao diabo (leia Atos 16:6-10). Na história fictícia do irmão Pedro, quem pode negar que o Senhor poderia ter uma porta de emprego, em certo sentido, melhor para ele? Quem pode negar que o Senhor poderia estar preservando seu servo de algum acontecimento que poderia trazer desgosto no futuro naquela empresa? Só o Senhor sabe. Lembre-se de Isaías 55:8 “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos”.

Em terceiro lugar, não devemos nem superestimar nem subestimar as ações do diabo. Uma dor de cabeça pode ser combatida com uma aspirina. Um erro de endereço pode ser falta de atenção ou planejamento. O tropeção numa pedra pode ser um descuido. Acordar mais cedo pode evitar certas inconveniências no trânsito. Mas muitos preferem atribuir todas as contingências ao diabo. Há igrejas que nos cultos falam mais no diabo do que na obra redentora de Cristo Jesus. Preferem provocar Satanás a adorar a Deus.

Por outro lado há aqueles que não acreditam nem na existência nem no “poder” de Satanás. Quero deixar claro que há sim uma luta espiritual onde Satanás busca atingir os servos do Senhor. Satanás exerce duas atividades principais contra os verdadeiros crentes: a tentação e a acusação. Ele tentou até mesmo o Senhor Jesus e acusou tanto Jó quanto Deus. Ele disse que a justiça de Jó não era sincera, pois advinha do interesse pelos benefícios divinos. Com isso acusou Deus de comprar a fidelidade de Jó com bênçãos terrenas. O diabo é sagaz, atrevido e astuto.

Em quarto lugar, há crentes que imaginam que o mundo é inerentemente mal. Para eles o diabo controla todas as ações do planeta e do universo. Porém, é preciso entender que quando a Bíblia diz que “o mundo inteiro jaz no Maligno” (I João 5:19) refere-se a homens e mulheres em estado de rebeldia contra o Senhor. São pessoas escravizadas voluntariamente ao diabo, pois fazem seus desejos (João 8:44).

É necessário também compreender que somente Deus é soberano. Seus propósitos e objetivos não podem ser frustrados (leia Daniel 4:34-37). É o Senhor Deus e não Satanás quem controla e governa o mundo. O profeta Isaias (46:10) afirma que o conselho do Senhor permanece de pé e toda a Sua vontade é executada. Nada acontece sem a permissão do Senhor. Até mesmo as ações de Satanás só acontecem por permissão divina. Lutero dizia: “O diabo é o diabo de Deus”.

Em sexto e ultimo lugar, não podemos atribuir nossos próprios pecados a ação diabólica. Muitos pecam e depois dizem: “O diabo me fez pecar”. O irmão Vagner Barbosa diz o seguinte sobre isso:

Toda a ênfase em Satanás e nos demônios tende a nos distrair de outra ameaça muito real: nosso próprio pecado. Sim, o diabo existe. Os demônios também. Mas há também a realidade do pecado. Satanás pode ser nosso cumplice no pecado contínuo, mas não podemos passar a culpa e a responsabilidade por nosso pecado a um demônio controlador.

Ainda nessa linha de pensamento outros atribuem aos demônios uma lista intensa de pecados: prostituição, imoralidade, ciúme, inveja, alcoolismo, seitas, ira, assassinatos, corrupções e vários outros. Em algumas reuniões evangélicas é normal expulsar o espírito da mentira, da prostituição, de morte, etc. A Bíblia tem outro nome para os tais “espíritos”: obras da carne (leia Gálatas 5:16-21). São atitudes carnais, provenientes de pessoas não regeneradas ainda.

Que o Senhor nos ajude a termos discernimento espiritual para detectamos a fonte das nossas dificuldades. Não dê ibope ao diabo, mas não ignore suas artimanhas (Tiago 4:7; Efésios 6:10-17). Concentre-se no poder de Cristo Jesus para o fortalecimento da fé cristã. Você precisa saber que a derrota de Satanás foi proclamada pelo Senhor desde o início do mundo (Genesis 3:15; Romanos 16:20). Amém?

No amor de Cristo, 

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