segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A LETRA MATA?

 
O irmão Elvis, apologista e teólogo, adverte-nos sobre o perigo de negligenciarmos o estudo teológico tendo como base uma interpretação equivocada de II Co 3.6” – Gilson Barbosa

A marginalização do estudo teológico


Por Elvis Brassaroto Aleixo

Deus existe? Quem é Deus? Onde Deus está? Para onde vou após a morte? Existe céu? Existe inferno? Devo crer na Bíblia como Palavra de Deus?

Todos os cristãos que algum dia já se detiveram na reflexão destas simples, mas inquietantes interrogações experimentaram, ainda que inconscientemente, momentos de meditações teológicas, pois a teologia é uma matéria importante e inerente a todos os crentes que, de forma inevitável, contemplam os mistérios da vida e as revelações divinas.

Neste sentido estrito, podemos afirmar que todos os membros das nossas igrejas são teólogos, mesmo que ignorem ou até abdiquem desta condição. Se mergulharmos ainda um pouco mais no assunto, e num sentido mais amplo que o acima mencionado, poderíamos dizer que todo indivíduo de bom senso, que possua um conceito formalizado acerca de um ser divino superior, independente de seu credo, é um teólogo. Cada religião possui a sua “teologia”.                                                                                                                                                                                                                                                                                    
Definindo o termo

Mas, afinal, o que é teologia cristã?

Na perspectiva da teologia acadêmica e histórica, uma resposta objetiva e clássica seria: “fé em busca de entendimento”. Orientados por este significado, perceberemos que o genuíno desígnio da teologia acadêmica não deve ser o exame da Bíblia para de forma indiscriminada e leviana construir doutrinas para justificar uma crença. Muito pelo contrário, o teólogo cristão deve utilizar a teologia para compreender melhor aquilo que previamente expressa o texto bíblico, a despeito das suas crenças.
        

Os assassinos da letra


Não obstante a todas estas ponderações, não é difícil encontrar opositores do estudo teológico entre os mais diversos grupos religiosos. Em verdade, esse comportamento é peculiar em muitos deles. Entretanto e lastimavelmente, isso é constatado também no seio da igreja evangélica.  

Geralmente, o texto áureo e justificativo desse posicionamento encontra-se nas conhecidas palavras do apóstolo Paulo, que dizem: "O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica" (2Co 3.6; grifo do autor). Eis aí a questão que lança os fundamentos para a hostilidade de alguns em relação ao estudo teológico. 

Pois bem, se o apóstolo Paulo declara que a letra mata, então este fato é conclusivo. O que alguns precisam descobrir é quem de fato é essa “assassina”.

O que nos move a ressaltar este ponto é o fato de que essa “tal letra”, mencionada pelo apóstolo, tem sido alvo de distorções prejudicando o desenvolvimento do ensino na igreja. É verdade que essa objeção ao estudo teológico é defendida por cristãos sinceros, mas que deliberaram marginalizar o estudo teológico acreditando ser uma atitude louvada pela Bíblia. 

É curioso e contraditório, ao mesmo tempo. Mas o fato é que essa tal “letra que mata” vem tendo seu verdadeiro sentido também assassinado por alguns que a tentam interpretar. São aqueles a quem podemos chamar de “os assassinos da letra”. Se você, porventura, se identifica como um dos tais, por favor, não se ofenda! A verdade é que essa repulsa tem no mínimo duas razões para existir. Proponho refletir um pouco mais sobre estas duas questões e depois retornamos ao “homicídio espiritual causado pela letra”, o qual supostamente Paulo teria apregoado.

A marginalização da teologia


Quais seriam os fatores que cultivam esta marginalização?

Antes de qualquer palavra, é fundamental esclarecer que não é nossa finalidade aqui censurar a devoção autêntica de nossos irmãos. A sinceridade de sua fé não está em discussão. Até porque, um dos fatores que mais ajudam a alimentar a rejeição da teologia encontra raízes nos próprios teólogos.

Conversando com uma missionária, algum tempo atrás, fui interpelado com uma questão que, de certa forma, reflete o julgamento de muitos membros de igrejas em relação à teologia. Ela questionava por que os teólogos são tão apáticos em sua piedade e testemunho cristão. Não quero aqui entrar em méritos, como, por exemplo, discutir essa generalização injusta ou que está escondida atrás do conceito de apatia. Todavia, e inegavelmente, não se exige muitos esforços para identificar comportamentos teológicos que instigam a rejeição da teologia. Esse estereótipo pejorativo parece ser preservado por alguns poucos teólogos, mas acabam por macular toda a classe. O orgulho intelectual,  a racionalização vazia, as conjeturas e especulações são tidos como alguns frutos nocivos da teologia. E se torna mais grave ainda quando tais frutos são vindos de pessoas que conhecem as Escrituras e que por isso deveriam proceder totalmente ao contrário.

Contudo, em detrimento deste comportamento que, sabemos, não atinge os teólogos comprometidos com a Palavra de Deus, existem ainda outras objeções alicerçadas no desconhecimento  bíblico. Logicamente, é muito mais confortável escolher os mitos e as lendas do que cultivar uma fé racional, pois esta vai exigir uma atitude trabalhosa em busca do conhecimento, enquanto que aquelas conservam os fiéis na inércia, fazendo-os concordar, sem qualquer exercício mental, com tudo o que ouvem. Como disse o grande teólogo Agostinho: “Deus não espera que submetamos nossa fé sem o uso da razão, mas os próprios limites de nossa razão fazem da fé uma necessidade”. Eis aqui o matrimônio entre a fé e a razão!
        
Outro fator a ser considerado é que o estudo teológico é marginalizado porque ele incomoda, é inconveniente. É como se fosse uma pedra no sapato dos manipuladores da Bíblia. Quanto menos conhecimento as pessoas possuírem, mais facilmente serão controladas. É um comportamento assumido pelas seitas, nas quais o líder se encarrega de pensar pelos adeptos e implanta um método sutil de controle total.

Enquanto a teologia se opor aos modismos e ventos de doutrinas que não coadunam com a Palavras de Deus e que levam muitos crentes à fantasias místicas e subjetivas que beiram à heresias, ela continuará sendo menosprezada.
        

A letra mata?


Retomando a questão, mas respeitando seu contexto bíblico, alertamos que a letra a que Paulo se referiu não pode ser identificada como sendo o estudo (conhecimento) teológico. Até porque o apóstolo, que era um dos doutores da igreja (At 13.1) e jamais poderia pensar assim. Acreditamos que são dispensáveis aqui quaisquer comentários sobre a erudição e a aplicação de Paulo aos estudos. Isso é uma prova cabal dos benefícios da educação teológica!

Acerca de Coríntios 3.6, Paulo estava falando sobre a superioridade da nova aliança sobre a antiga. A morte causada pela letra realmente é espiritual, porém, é bom salientar que se trata de uma alusão ao código escrito da lei mosaica. A lei mata porque demanda obediência irrestrita, mas não proporciona poder para isso. É representada pelas tábuas de pedra (3.3). Por outro lado, o espírito vivifica porque escreve a lei de Deus em nossos corações, trazendo-nos a vida em medida muito maior do que realizava sob a antiga aliança. É representado pelas tábuas da carne (3.3). Portanto, como podemos ver, o texto comentado não fundamenta, em qualquer instância, a rejeição aos estudos teológicos.

 

Por que teologia?


Os teólogos leigos, ainda que inconscientemente, se beneficiam da educação teológica. Criticam o estudo teológico, mas lançam mão dele. Todo o legado doutrinário que usufruímos hoje foi preservado por causa do zelo impetrado pelos teólogos que formalizaram a fé por meio de credos, confissões e outras obras. As doutrinas cristãs sobreviveram ao tempo porque o Espírito Santo se encarregou de inspirar e levantar teólogos comprometidos com a fé! O estudo da teologia é um instrumento indispensável para o saudável desenvolvimento da Igreja. Todos nós precisamos da teologia!

Os teólogos leigos deveriam reconhecer o auxílio que recebem dos teólogos acadêmicos e as duas classes representadas, de mãos dadas, deveriam seguir o conselho de Pedro, um teólogo que não possuía a erudição de Paulo, mas que conseguiu equacionar a questão ordenando o crescimento na graça e no conhecimento, concomitantemente (2Pe 3.18).

Dessa forma, o evangelho sairá ganhando e cada membro da igreja estará no seu posto, lapidando o aperfeiçoamento dos santos, para a edificação do corpo de Cristo, segundo o ministério que lhe for confiado por Deus (Ef 4.11,12).

Sobretudo, e finalmente, nosso desejo e oração é para que consigamos aplicar a teologia à nossa vida. Se fracassarmos neste intento, a teologia não será mais que mera futilidade.

Que o Senhor nos guie ao genuíno conhecimento de suas revelações, pelo seu amor e para a sua glória!



A IMPORTÂNCIA DA TEOLOGIA NA APOLOGÉTICA

"O pastor Natanael Rinaldi é um dos pioneiros da apologética no Brasil,e, se não o maior, um dos maiores apologistas em nosso país. No texto abaixo, explica a necessidade de se conhecer as doutrinas fundamentais para formularmos uma apologética adequada" Gilson Barbosa  

Por Natanael Rinaldi

Já algum tempo o renomado apologista Jan Karel Van Baalen, em sua importante obra “O caos das seitas”, nos alertou acerca de um problema que a igreja evangélica no mundo vem enfrentando. Notadamente Van Baalen ressalta o desconhecimento das doutrinas bíblicas fundamentais por parte dos cristãos em contraposição ao empenho incansável dos adeptos das seitas no estudo metódico de suas doutrinas e também das doutrinas daqueles a quem pretender convencer. Todo aquele que já teve a experiência de dialogar com um sectário pôde perceber que ele domina os fundamentos de sua crença bem como a doutrina dos divergentes. Raramente esse quadro é pintado de outra forma.  

Confirmando os apontamentos de Van Baalen, verificamos que muitos de nossos membros se esquivam da abordagem aos adeptos de seitas pela admitida incompetência de dialogar com eles, a fim de ganhá-los para Cristo. Paulo, entretanto, observou a importância do estudo bíblico quando recomendou: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9; grifo do autor). “A fiel palavra conforme a doutrina” podemos interpretar como um fruto gerado pelo conhecimento teológico e o “convencimento aos contradizentes” como o evangelismo de pessoas que professam uma fé distinta do genuíno cristianismo. Será que somos hábeis em conduzir um sectário a Jesus por meio da Bíblia? Qual é a importância da teologia na apologética? Vejamos:

A relação entre a teologia e a apologética
A apologética cristã é uma disciplina da teologia e tem por finalidade defender os princípios bíblicos por ela (teologia) expressos. Assim, a apologética visa combater os desvios doutrinários identificados nas diversas disciplinas teológicas, especialmente, nas doutrinas essenciais, como a natureza divina (Pai, Filho e Espírito Santo), a encarnação, morte e ressurreição de Cristo e outras.

Observando essa relação podemos concluir que a apologética atua em função da teologia. É porque os princípios doutrinários existem e são distorcidos que a apologética é necessária. Logo, todos os elementos da apologética dependem e convergem para a teologia. Tendo isso em mente entendemos que a apologética será conduzida de acordo com a teologia que quer defender. Portanto, se alguém possuir como base doutrinas distorcidas sua apologética seguirá a mesma tendência. Diante destes pressupostos, vejamos algumas categorias de apologética e como elas se relacionam com as doutrinas teológicas:

Apologética clássica
Este tipo de abordagem trabalha com o principal pressuposto teológico, isto é, a existência de Deus. É essa linha apologética que vai explorar os argumentos comprobatórios da existência divina. Os principais argumentos são:
a.) Cosmológico: uma vez que cada coisa existente no universo deve ter uma causa, deve haver um Deus, que é a última causa de tudo.
b.) Teleológico: existe um objetivo, um propósito para a criação do universo e do ser humano.
c.)  Ontológico: Deus é maior do que todos os seres concebidos porque existe na mente do homem um conhecimento básico da existência de Deus.
Os teólogos que se destacaram como apologistas clássicos foram Agostinho, Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino.

Apologética evidencial
Como já podemos inferir do próprio nome, esta linha apologética busca defender as doutrinas teológicas ressaltando as evidências que as envolvem, tais como a infalibilidade da Bíblia, a veracidade da divindade de Cristo, de sua ressurreição etc. Um teólogo que representa bem esta classe de apologistas em nossos dias é Josh McDowell, o qual constrói esta abordagem em seu best seller “Evidências que exigem um veredicto”.

Apologética histórica
Essa classe de apologética enfatiza as evidências históricas. Seus representantes acreditam que a existência de Deus pode ser provada com base apenas na evidência histórica, porém isso não significa que não lancem mão de outros artifícios. Geralmente o fundamento desta abordagem são os documentos do Novo Testamento e a confiabilidade de suas testemunhas. Podemos encontrar teólogos expoentes da apologética histórica nos primórdios da igreja, como Justino Mártir e Tertuliano.

Apologética experimental
Esse tipo de apologética é geralmente apresentada por fiéis que arrogam para si experiências religiosas pessoais e, às vezes,  até exclusivas. Assim sendo, alguns apologistas rejeitam este tipo de abordagem por seu caráter excessivamente místico, alegam que tais experiências são comprobatórias apenas para os que nelas crêem ou delas compartilham. Em suma, a apologética experimental recorre a experiência cristã como evidência do cristianismo e relaciona-se, portanto, com a teologia do leigo, ou  seja, a teologia que não é acadêmica, popular.

Um ponto negativo desta abordagem é o fato de que ela se apresenta de forma um tanto quanto subjetiva, ou seja, é difícil de sentenciá-la como verdade ou fraude. Um ponto positivo é a questão de que toda a nossa crença precisa de fato ser vivida, experimentada por nós, pois do contrário não passará de teoria.

Apologética pressuposicional
Essa abordagem é chamada desta forma porque parte de uma pressuposição para construir sua defesa. O pressuposicionalismo pode ser assim classificado:
a.) Revelacional: todo o entendimento da verdade parte da pressuposição da revelação de Deus e da legitimidade da Bíblia em expor esta revelação.
b.) Racional: a pressuposição básica gira em torno da coerência do argumento. Se o cristianismo arroga para si a posição de única verdade então isto implica em dizer e provar que todos os demais sistemas são falsos.
c.)  Prático: a pressuposição aqui é a de que somente as verdades cristãs podem ser vividas.         
Os teólogos que se destacaram como apologistas pressuposicionalistas foram Cornelius Van Till e John Carnell.

A teologia como um baluarte contra o erro
Como podemos confirmar, independente do tipo de apologética que esteja sendo exercido, o fato é que todas se relacionam com os fundamentos da teologia.

Sabemos que a grande ocorrência da apostasia em nosso meio envolve seitas pseudocristãs, ou seja, aquelas que mais se assemelham com o cristianismo. Isso se deve ao emprego distorcido dos fundamentos teológicos que são facilmente aceitos entre os crentes incautos. É como que um disfarce do cristianismo, uma maquiagem para a verdade cristã.   

Quando o crente se encontrar desabilitado para defender sua fé ele fatalmente estará propenso ao engano. Disse Charles Hodge, “Que ninguém creia que o erro doutrinário seja um mal de pouca importância. Nenhum caminho para a perdição jamais se encheu de tanta gente como o da falsa doutrina”. A tragédia espiritual de inúmeros crentes é que não atentam para isso!

O apologista Walter Martin há muito também alertou que é conhecendo a verdadeira nota que conseguimos identificar a falsa. É possível ser um teólogo e não ser apologista, embora isso não seja plausível, entretanto é impossível ser um apologista sem ser um teólogo! O conhecimento das doutrinas fundamentais da Bíblia é o maior baluarte contra o erro. Todo o engodo está na deturpação das Escrituras, na distorção da doutrina. Uma teologia voltada para a apologia certamente evitaria tantos modismos que têm trazido escândalo para os meios evangélicos em nosso país. Veja o que o apóstolo Paulo orientou a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1Tm 4.16; grifo do autor). ÀTito ele declarou: “Em tudo, te dá por exemplo de boas obras; na doutrina, mostra incorrupção, gravidade, sinceridade” (Tt 2.7; grifo do autor).

O nosso desejo e oração é para que assim como Paulo, os líderes de nossas igrejas venham estar orientando e conscientizando seus colaboradores acerca da importância da teologia para a defesa de seus membros. Somente assim, com o auxílio do Espírito Santo, conseguiremos manter singela as verdades eternas da Palavra de Deus.








quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A CONVERSÃO DE SAULO

Por Gilson Barbosa
Alguns crentes da Igreja Primitiva ficaram espantados quando souberam que Saulo havia se convertido ao cristianismo. Ananias disse “Senhor, tenho ouvido muita coisa a respeito desse homem e de todo o mal que ele tem feito aos teus santos em Jerusalém”. Em Damasco “todos os que o ouviam ficavam perplexos e perguntavam: ‘Não é ele o homem que procurava destruir em Jerusalém aqueles que invocam este nome? E não veio para cá justamente para levá-los presos aos chefes dos sacerdotes?”’. De fato, a maneira como acontece algumas conversões cristãs nos causam admiração e comprovam que para Deus nada é impossível.
Saulo de Tarso
A presença da família de Saulo, em Tarso da Cilícia, era proveniente da diáspora judaica. Segundo o livro “Apóstolo Paulo – Vida, Obra e Teologia”, Jerônimo faz menção de que a família de Saulo, outrora, havia emigrado de Giscala da Galiléia (BECKER, 2007). Saulo nasceu em Tarso da Cilícia, uma cidade da Turquia, anexada como província romana e que detinha a fama de ser um importante centro cultural e financeiro. Conforme está registrado em sua carta aos Filipenses (3.5) Saulo era “pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu”, mas por ser judeu da diáspora e por nascimento detinha a cidadania romana (At 22.28).   
É muito comum no meio pentecostal dizer que Saulo foi transformado em Paulo – uma menção ao processo de conversão. Talvez seja assim por um entendimento e interpretação errada do texto em Atos 13.9 que diz “Todavia Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, e fixando os olhos nele...”. Porém, nesse mesmo sentido, porquê não se diz que Silas foi transformado em Silvano? O correto é entender a alternância dos nomes de outra forma, como demonstra certo estudioso: “Saul, Saulus, Paulus. Três nomes para o mesmo personagem. Como criança judaica, o apóstolo recebeu, no oitavo dia do nascimento, com a circuncisão, o nome de Saul, primeiro rei de Israel; aliás, era da tribo de Benjamim (Rm 11.1; Fl 3.5). Vivendo no mundo judeu-helenista, usava a forma grega deste nome: Saulos (Saulo). Mas agora o apóstolo sai do âmbito do judaísmo, onde o nome Saul / Saulo era significativo, e vai atuar no espaço do império romano, apelando inclusive para sua cidadania romana (16.34). Por isso, Lucas usa daqui para frente o sobrenome latino, Paulus (Paulo), que significa ‘baixinho”’[1]
Saulo era um homem marcado pelas influências de três nações: Roma, Grécia e Israel. Cada uma dessas contribuiu com ele em muitos sentidos; ele fez menção e reivindicou cidadania romana quando foi preciso (At 22.25) e em alguns dos seus escritos deixou implícito conhecer os hábitos da cultura grega, tais como os esportes (II Tm 4.7; 2.5; I Co 9.26) e como religioso, era adepto do grupo dos fariseus – influência da religião judaica. Foi educado na língua aramaica, mas desde menino aprendeu também a língua grega – falada cotidianamente na cidade de Tarso. Deduzimos que era de família abastada, pois seu pai era um importante fabricante e negociante de tendas na sua cidade.   
O farisaísmo de Saulo  
Após a cerimônia do Bar Mitzav[2], aos 13 anos de idade, seu pai o enviou para estudar em Jerusalém, na escola rabínica do famoso Gamaliel, como ele mesmo atesta em Atos 22.3: “instruído aos pés de Gamaliel”. A linha religiosa, da escola, era a do grupo dos fariseus. Estes, fazem parte dos grupos que surgiram durante o período denominado intertestamentário. A origem dos fariseus situa-se no período da revolta macabéia (166-159) em que ouvimos falar do surgimento de um grupo de judeus zelosos da Lei, os hassidim (METZGER, 2001). Etimologicamente a expressão fariseus, “em grego farisaioi, é um nome derivado do hebraico perushim. Seu significado é ‘os separados’. É bem possível que este nome deva sua origem ao fato dos fariseus, que se consideravam piedosos, terem se afastado a partir da segunda metade do século II a.C. do restante do povo, considerado por eles como ímpio, isto é, como desobediente e infrator das prescrições divinas”[3].
Saulo era um devoto e fanático fariseu. Em Filipenses 3.5,6 ele diz: “quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a igreja; quanto à justiça que há na lei, fui irrepreensível”. Conforme certo estudioso, Saulo “adquiriu um conhecimento profundo do Antigo Testamento e dos métodos exegéticos dos rabinos, tornando-se um adepto fervoroso dos fariseus e defensor fanático da aplicação integral da lei e tradição dos antepassados”.[4] Senão na prática, pelo menos na questão teórica da lei os fariseus eram meticulosos. Porém, afoitos às regras, criaram muitas outras adicionais, estabelecendo-as na primeira parte do Talmude[5] - a Mishna.  Jesus os criticou severamente devido a isso, a ponto de dizer que atavam fardos pesados e difíceis de suportar, e os colocavam aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo queriam movê-los (Mt 23.4).
Salvação pela graça
A ilusão de estar cumprindo todas as exigências da lei proporcionara a Saulo certa confiança religiosa – alcançar o favor de Deus por meio das obras. Segundo o pastor Antonio Gilberto, havia duas correntes antibíblicas no período apostólico que procuravam contestar a doutrina da graça: o legalismo e o antinomismo: “Segundo este [o legalismo], só se adquire a salvação e a excelência mediante a lei mosaica. Este sistema, defendido por certos judeus cristãos em Roma, ensinava que a justificação era decorrente das obras da lei”.[6]  
Segundo Philip Yancey “graça significa apenas que o amor de Deus é dado gratuitamente, sem exigências embutidas. A graça é o oposto do legalismo”. [7] Há muitos crentes, hoje, que sufocados por exigências estatutárias das igrejas, por imposições com respeito às tradições denominacionais, por uma interpretação arbitrária e tendenciosa das Escrituras, pensam também que cumprindo essas exigências e imposições adquirem algum favor salvífico de diante de Deus.
Jesus disse que viria a hora em que qualquer que matasse um dos discípulos  julgaria estar prestando um serviço a Deus (Jo 16.2). Essa era a condição de Saulo, pois, apesar de muito religioso, consentiu na morte de Estevão (At 7.60), agredia violentamente os cristãos (At 8.3) e respirava ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor (At 9.1). O legalista se apega mais as exigências da letra do que ao espírito da lei. Muitos transformam esse apego em ódio aos que não seguem suas práticas e modo de vida, ou seja, o legalista não tolera o ser diferente. Que tipo de cristianismo é esse? Eles precisam saber que a justiça pelas obras anula a graça (Gl 2.21).
A conversão de Saulo
Conforme o teólogo Millard Erickson (Teologia Sistemática, p. 394) a conversão é um ato único que possui dois aspectos distintos, mas inseparáveis: o arrependimento e a fé. Alguns entendem a conversão como a aderência aos ritos, cerimoniais e práticas prescritivas do seu grupo religioso. No judaísmo são denominados de prosélitos, porém não se podem convalidar eficientemente essas conversões. Segundo Nilton Bonder (Judaísmo para o século XXI) há prosélitos mentirosos que manipulam o ato de conversão para obtenção de favorecimentos afetivos e mesmos materiais.  A conversão ao cristianismo não é análogo a isso, pois exige arrependimento e fé. Conforme Fernando Martinez (Eu Creio) a fé em Jesus é a graça salvadora que nos induz a confiar e descansar no Senhor e acrescenta que segundo Bancroft “Tem-se dito que o arrependimento é a fé em acção, e que a fé o arrependimento em repouso”.  
No caminho para Damasco Jesus se encontra com Saulo e lhe pergunta: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. O alento aos crentes da Igreja Primitiva era que Saulo perseguindo os irmãos, perseguia na verdade o Senhor Jesus. O Senhor lhe diz: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões”. Segundo o Dicionário Aurélio, recalcitrar significa “resistir, desobedecendo; não ceder; teimar; replicar; obstinar-se”. Na língua original “resistir ao aguilhão era aparentemente uma expressão comum, encontrada tanto na literatura grega como na latina – uma imagem rural, baseada na prática dos lavradores aguilhoarem seus bois nos campos. Embora pouco familiar para nós, todos naqueles dias conheciam o significado. Os aguilhões eram geralmente fabricados com pedaços finos de madeira, rombudos de um lado  e aguçados de outro. Os lavradores usavam a ponta aguçada para forçar um boi teimoso a andar. O animal às vezes escoiceava o aguilhão. Quanto mais ele dava coices, tanto mais o aguilhão se enterrava na carne da perna, causando dor ainda maior”.  [8] Quanto mais Saulo lutasse contra os crentes, mais se feriria. Na ida para Damasco, no entanto, Jesus coloca um ponto final na violência de Saulo contra os crentes.
Os companheiros de Saulo ouviram ou não a voz de Jesus?
Na narrativa lucana de Atos 9.7 os homens que estavam com Saulo ouviram a voz de Jesus que falava com ele, mas não viam ninguém. No entanto, o mesmo Lucas, na narrativa de Atos 22.9, diz que os homens não ouviram a voz daquele que falava com Saulo. Afinal, como relacionar os dois textos? São contraditórios?
Segundo Gleason Archer (Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas, p. 409) a explicação dessa aparente discrepância é a seguinte: “O grego faz distinção entre ouvir um som, simples barulho, e ouvir uma voz que transmite uma mensagem clara. Quando colocamos as duas declarações juntas, descobrimos que os companheiros de Paulo ouviram a voz, como de um som (algo parecido como a multidão que ouviu o som da voz do Pai falando ao Filho, em João 12.28, mas pensou que fora um trovão); contudo aquelas pessoas não entenderam a mensagem, como os companheiros de Paulo tampouco entenderam. Só o apóstolo Paulo entendeu a mensagem”.
Na Nova Versão Internacional, entendemos que os que acompanhavam Paulo viram a luz, mas não entenderam a voz daquele que falava com ele - exatamente como deve ser entendido no original.
Uma palavra de consolação
Querido leitor, se você está pregando o evangelho de Jesus Cristo a alguém da sua família ou a alguém do seu grupo de amigos e tem encontrado resistência ou até mesmo tem sido desafiado pela “religiosidade”, incredulidade ou indiferença deles, não desanime. Temos vários exemplos bíblicos de que Jesus tem poder para salvar o mais destemido e corajoso dos pecadores, e o mais empolgante destes é o do estudo em tela. Não desanime, pregue o evangelho!      


[1] MAZZAROLO, Isidoro. Atos dos Apóstolos. Ed: Loyola. p. 45
[2] B'nai Mitzvá (filhos do mandamento) é o nome dado à cerimônia que insere o jovem judeu como um membro maduro na comunidade judaica. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/B'nai_Mitzv%C3%A1
[3] WEGNER, Uwe. Exegese do Novo Testamento. Ed: Sinodal / Paulus, p. 377.
[4] ZILLES, Urbano. Profetas, apóstolos e evangelistas. Ed: EDIPUCRS, p.   61.         
[5] O Talmude é um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo. É um texto central para o judaísmo rabínico, perdendo em importância apenas para a Bíblia hebraica. Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude
[6] GILBERTO, Antonio. Lições Bíblicas. Ed: CPAD, p. 36 (Mestre).
[7] YANCEY, Philip. Desventuras da Vida Cristã. Ed: Mundo Cristão, p. 145.
[8] SWINDOLL, Charles. Dia a Dia com os heróis da fé. Ed: Mundo Cristão, 2007, p. 297


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

FOGO DO ESPÍRITO SANTO OU DO JUÍZO?


Por Gilson Barbosa

  E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.

As palavras de João Batista em Mateus 3.11, tem sido motivos de várias interpretações, e muitas delas sem fundamento. Alguns pensam que a menção deste fogo, teve seu cumprimento nos dias de Pentecostes. O poder experimentado pelos irmãos no dia de Pentecostes, quando “...foram vistas línguas repartidas como que de fogo...”seria um símbolo da presença de Deus, assim como Ele apareceu a Moisés (Ex 3.1-6). Não obstante alguns dizerem que trata-se de um símbolo da presença divina, é melhor aceitar a interpretação de que este fogo é uma advertência e não uma promessa. O que fica evidente no texto é que enquanto alguns foram compelidos ao arrependimento, outros, rechaçaram a mensagem de João Batista. Disso depreendemos que aos que se arrependeram de seus pecados, João lhes prometeu o batismo do Espírito Santo, aos que recusaram tal procedimento lhes resta a advertência do batismo com fogo. As razões para que este “batismo com fogo” seja uma advertência são as seguintes:

·         Os versículos 10 e 11, demonstra uma exortação de João Batista aos fariseus, o que evidencia mais uma predição de juízo do que a de bênção, inclusive há nestes versículos a palavra fogo.

·         No versículo 12 é dito que a palha será separada do trigo, e queimada a palha com fogo que nunca se apagará.

·         Em João 1.33 há a menção do batismo com Espírito Santo, porém, sem o fogo. Da mesma forma não há a menção de fogo em Atos 1.5, quando o Senhor Jesus repetiu a promessa com o batismo com o Espírito Santo.

·         Lucas não relata que o batismo, no Pentecoste, foi com fogo, e sim, “...como que de fogo...”.Tudo indica que este batismo com fogo está relacionado com o futuro.Leia II Ts 1.8;Lc 3.17; Mc 9.46-49;Ml 4.1.

É mais coerente admitir a interpretação de que este fogo é uma advertência e não uma promessa.


A EXPRESSÃO BATISMO EM EFÉSIOS 4.5

Por Gilson Barbosa

A que batismo o apóstolo Paulo se refere no texto de Efésios 4.5?

Vejamos: “Um só SENHOR, uma só fé, um só batismo”.

Pois bem, essa passagem é entendida pela maioria dos crentes leigos como sendo o batismo em águas ou, ainda, o batismo com o Espírito Santo. Entretanto, percebemos que o texto em apreço expressa uma unidade, e, portanto, não habilita estas sugestões, pois nem o batismo em águas nem o batismo com o Espírito Santo são capazes de representar perfeitamente os motivos principais da nossa unidade com Cristo. A única causa de nossa união com Cristo é a salvação levada a efeito por Ele próprio. Sendo assim, nenhuma das práticas cerimoniais pode ser postulada como fundamento desta unidade. Nas doutrinas ortodoxas cristãs, o Espírito Santo tem a ver com a função de santificação e promoção de vigor espiritual. O batismo em águas, por sua vez, é consensualmente interpretado pelas vertentes protestantes como o sinal externo e visível de que professamos publicamente a fé em Jesus.

Dessa forma, concluímos que, para que alguém usufrua a união com Cristo, esta pessoa precisa identificar-se com Ele por meio de sua morte e ressurreição: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20).

Um dos textos que ilustra muito bem esta união, que igualmente foi exigida por Cristo aos seus discípulos, encontra-se no evangelho de João, que afirma: “Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim” (Jo 15.4).

Esta identificação mística com Cristo não isenta o crente do batismo nas águas e muito menos de buscar o vigor e poder mediante a ação do Espírito Santo. Contudo, se refere à aceitação de Cristo como caminho único para a obtenção do perdão de pecados e ingresso no corpo espiritual, a Igreja. Alguns estudiosos da Bíblia preferem denominar este assunto de “realidade espiritual” ou “batismo espiritual”: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1Co 12.13).

O apostolo Paulo refere-se à união espiritual e mística com Cristo, formando um só corpo espiritual.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

SUPOSTA CONTRADIÇÃO BÍBLICA (Jo 5.31 x Jo 8.14)

Por Gilson Barbosa

Afinal, o testemunho de Jesus é ou não verdadeiro”?

Textos-base: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5.31)
“Respondeu Jesus, e disse-lhes: Ainda que eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro” (Jo 8.14)

Diante destes dois textos que aparentam contrariedade devemos perguntar: 1º) O testemunho de Jesus pode ser validado por outro homem? 2º) O testemunho a respeito de si próprio é válido? 3º) Por que precisava de outros testemunhos?

Para responder a primeira e a terceira pergunta temos de ser sinceros e aceitar que realmente alguém deveria ser acreditado caso pudesse provar, por testemunhas, suas reivindicações. Se alguém testemunhasse de si mesmo às autoridades rabínicas, diante de um tribunal, seu testemunho não seria considerado válido. Ora, esse não é o procedimento normal caso alguém, até mesmo na sociedade contemporânea, necessite apelar para a justiça dos homens quando seu caso for julgado diante de um juiz? Isto é, de alguma forma, Jesus necessitava de algum tipo de testemunho a seu respeito para que provasse sua messianidade, por exemplo. Jesus não precisava testemunhar a respeito de ele próprio ser o Messias tão esperado pelos judeus, mas, para que os judeus acreditassem nele, outras pessoas deveriam dar testemunho acerca de Cristo. Para isto Jesus contava com testemunhas externas. E, esta prova ele teve em diversas ocasiões. Em resumo: seus milagres foram vistas por inúmeras pessoas, João Batista deu testemunho a seu respeito (Jo 1.7, 15,19, etc) e o próprio Deus deu testemunho de Jesus em dois episódios: no batismo e no momento da transfiguração (Mt 3.16,17; 17.5).

É relevante atentar para a história do povo hebreu. A vinda de um Messias, salvador e libertador, era um pensamento normal na cultura judaica. O povo judeu, por diversas vezes, esteve sob jugo estrangeiro: egípcio, babilônico, persa, grego, sírio, romano, etc. Na época dos juízes, ainda que as pressões sobreviessem de povos semitas, algunsparentes” dos judeus, Deus levantava juízes, que na verdade eram libertadores do domínio inimigo. Não foram poucos os anos passados em terras distantes, estranhas e em situações adversas. Por isso, o assunto sobre a vinda de um Messias enchia de esperança o povo judeu. Chegando o tempo proposto por Deus o Messias veio, porém, os judeus estavam equivocados quanto às atribuições dele. O discípulo André disse a seu irmão Simão Pedro: “Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)” ( Jo 1.41). Filipe disse a Natanael: “Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José” (Jo 1.45). Ao dialogar com Jesus, a mulher samaritana disse: “Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo”, ao que prontamente Jesus respondeu: ‘Eu o sou, eu que falo contigo’” (Jo 4.25,26). Daí em diante a mulher passa a testemunhar de Jesus. “Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo? Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele. E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito” (Jo 4.29,30,39).

Estes exemplos provam a necessidade das pessoas testemunharem acerca de Jesus. Ou seja, ele não precisava falar de si próprio que era o Messias prometido no Antigo Testamento e estes testemunhos procederam de pessoas simples, sinceras e eram verdadeiros (se bem que não de todos). A questão do “testemunho de Jesus não ser verdadeiro” deve ser entendida no sentido de quepalavras sem a necessária confirmação de santidade e poder não convencem. Os judeus baseados nos seus preconceitos atribuíram maldade a Jesus. Este, por sua vez, defendendo suas reivindicações messiânicas, apela para a regra bíblica que exigia duas testemunhas (Nm 35.30; Dt 17.6)”.[i]

Em suma, a resposta para a segunda pergunta (O testemunho a respeito de si próprio é válido?) é, afirmativa – sim! Jesus não era somente o Messias prometido, mas antes, Deus encarnado. Sendo assim, apenas o testemunho humano não é pleno. Ora, Jesus falava com propriedade do que havia experimentado na eternidade. Ao orar a Deus Pai ele disse: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.5). A Nicodemos asseverou: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu” (Jo 3.13).

O texto de João 8 sugere que a discussão tinha a ver com o perdão de Jesus outorgado à mulher pecadora. Quando Jesus diz “quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”, obviamente refere-se a algo muito maior do que ter o messianismo endossado pelos judeus. Fala de algo espiritual, místico, metafísico, e, neste sentido, Ele não precisa do endosso de um ser humano. Tanto é assim que os fariseus disseram a Jesus: “Tu testificas de ti mesmo; o teu testemunho não é verdadeiro”, ao que Jesus rebateu: “Ainda que eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro, porque sei de onde vim, e para onde vou; mas vós não sabeis de onde venho, nem para onde vou” (Jo 8:13,14). Pelo fato de Jesus ser o Emanuel (Deus conosco) ele não necessita de provas humanas. Jesus, como todo bom judeu, conhecia bem as normas e regimentos prescritos aos judeus e, logicamente, como em outros casos muito mais complexos, não a violaria. Contudo, no caso em questão, Cristo não falava como um simples judeu e sim como o Soberano do universo, por isso não precisava de testemunhos. Até porque, os inquiridores de Jesus não estavam aptos a testemunharem a respeito dele e nem a aceitarem seu próprio testemunho.

Norman Geisler arremata: “O testemunho de Jesus não era verdadeiro: oficialmente, legalmente e para os judeus”, mas, era verdadeirofactualmente, pessoalmente e em si mesmo[ii]. Jesus tinha os testemunhos completos: das pessoas alcançadas por eles; até por alguns de seus inimigos, e Dele próprio.



[i] Bíblia Vida Nova. Comentário de João 5.31. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
[ii] GEISLER Norman & HOWE Thomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999, p 418.