terça-feira, 13 de setembro de 2011

O JESUS HISTÓRICO VERSUS O JESUS DA FÉ

Resolvido o problema dos documentos cristãos, partimos agora para o personagem principal deles: Jesus, a finalidade única para a existência de todo o Novo Testamento. Tal como acontece com os documentos, as especulações a respeito de Jesus também são polêmicas.

Uma das perguntas que têm causado opiniões cada vez mais divergentes é esta: “Quem é Jesus?”. Ao contrário do que muitos pensam, tal pergunta não foi formulada em nenhum seminário de crítica textual. É muito mais antiga. Na verdade, o próprio Jesus foi quem a formulou pela primeira vez diante de seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” (Mt 16.13). E, como sempre, as respostas foram as mais variadas possíveis: “Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas.” (v. 14).

Até a Idade Média, essa pergunta parece não ter oferecido problema algum para a maioria das pessoas. Contudo, a coisa começou a mudar com o advento do iluminismo e seu inquietante raciocínio crítico. A primeira questão a respeito de Jesus, sob um ponto de vista crítico, teve início na Alemanha, com Hermann Samuel Reimarus (1694-1768).

Ao apresentar a primeira investigação histórica sobre Jesus, Hermann alegou que o Jesus dos evangelhos e o Jesus da história eram dois personagens completamente diferentes. E baseou sua teoria na suposição de que o Jesus apresentado pelos apóstolos era apenas fruto de suas concepções teológicas, não refletindo a realidade do carpinteiro pobre da Galiléia. E chegou a acusar os discípulos de ter roubado o corpo de Jesus para provar a ressurreição.

Depois vieram as escolas críticas com Martin Dibelius e Rudolf Butman. Um terceiro movimento, porém, iniciado nos anos 70, com John Dominic Crossan e o “Seminário de Jesus”, perdura até hoje. Mais tarde, Crossan se uniu a Robert W. Funk, também líder de outro movimento com as mesmas posições. O “Seminário de Jesus” é uma coalizão de movimentos liberais, composta de católicos protestantes e ateus. Suas teorias liberais fazem que consideremos o evangelho apócrifo de Tomé mais antigo do que os quatro evangelhos canônicos. Para os integrantes do “Seminário”, Jesus teria sido apenas um homem normal. Não fez milagres, como dizem os evangelhos. E, segundo afirmam, de tudo o que está escrito nos evangelhos somente 2% podem ser atribuídos verdadeiramente ao Jesus original. A morte de Cristo é mais de caráter político que espiritual. E mais: na visão do “Seminário”, Jesus não ressuscitou. A ressurreição, para eles, baseia-se tão-somente nas experiências visionárias de seus discípulos. 

Manipulando o Jesus histórico

De modos diferentes, em épocas diferentes, diversas culturas têm tentado distorcer o Jesus simples dos evangelhos. O Jesus dos evangelhos apócrifos, o Jesus sem carne e osso, desprovido de matéria, dos gnósticos do século 1o da Era cristã, e, atualmente, o Jesus místico da Nova Era não passam de reações da cultura da época, que se recusa a aceitar o Homem de Nazaré exatamente como Ele é. Cada vez que o espírito de uma raça diferente entrou no espírito do evangelho, tentou manipular a figura daquele que é o Senhor da história que, algumas vezes, ficou deformada e irreconhecível.

Assim, em nada nos espanta a invasão do liberalismo que levou muitos no Ocidente a alterar novamente as características do Senhor. Para tanto, esses movimentos, encabeçados por acadêmicos descomprometidos com a fé cristã, buscou utilizar-se de hipóteses e documentos duvidosos sobre Jesus para tecer um amontoado de informações que, longe de acrescentar algo ao conhecimento a respeito de Jesus, distorceu completamente os fatos.

Otto Borchet, em seu livro O Jesus histórico, fez um excelente comentário sobre as várias tentativas históricas de distorcer a imagem de Jesus, conforme nos é fidedignamente mostrada por Mateus, Marcos, Lucas e João, testemunhas oculares ou contemporâneas do Senhor. “Indubitavelmente [...], cada geração que se aproxima da figura de Jesus novamente tem tentado retificar essa imagem no que acha nela deficiente”.

A verdade, porém, é que qualquer tentativa de acrescentar algo ao Jesus bíblico falha.

Outro livro que apresenta os principais estudos acadêmicos atuais dos críticos para tentar reconstruir o Jesus histórico foi publicado em 1998, por Mark Alan Powell. Powell. A obra é um apanhado sobre os vários retratos do “Jesus histórico” apresentado pelos críticos ao longo da história. Assim, R. Horsley vê Jesus como um profeta, G. Vermes como um judeu carismático, Morton Smith como um mágico, B. F. Witherington como um sábio judeu e F. G. Downing como um filósofo cínico. Esses são apenas alguns dos homens que fazem coro com os críticos do “Seminário de Jesus”: J. D. Crossan, M. Borg, E. P. Sanders, J. P. Meier e N. T. Wright.

Contudo, urge esclarecer que quando falamos em “Jesus histórico” estamos, na verdade, tratando de uma expressão não muito definida. O que seria o Jesus histórico? O mesmo Jesus da Bíblia? Caso seja, até que ponto? Trataremos disso logo abaixo.

O Jesus histórico versus o Jesus real

Devemos levar em consideração uma distinção muito significativa levantada pelo crítico John P. Meier, em seu livro Um judeu marginal, qual seja: “Qual é a diferença entre o Jesus histórico e o Jesus real?. Será que existe essa diferença?”.

Meier diz que o Jesus histórico não é o Jesus real. E explica que a noção de real é enganosa, pois existem varias gradações da noção de real. Não podemos nos referir à realidade total de uma pessoa em tudo que ela pensou, sentiu, experimentou, fez e disse. Mesmo com todos os documentos oficiais disponíveis não se poderia descobrir a realidade total de uma pessoa. O máximo que o historiador ou biógrafo poderia montar seria um quadro “razoavelmente completo”.

Os relatos que os evangelhos apresentam de Jesus é justamente isso. Os quatro evangelistas se detêm somente nos três últimos anos de sua vida. Apenas dois deles, Mateus e Lucas, falam sobre sua infância, mesmo assim de modo bem limitado.  A maioria dos atos e palavras de Jesus e os chamados anos obscuros de sua vida ficaram vedados por um véu de mistério. O apóstolo João confirma esta verdade ao narrar em seu evangelho: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem” (Jo 21.25).

Assim sendo, o Jesus real, mesmo com todos os registros disponíveis sobre Ele, foge à nossa verificação total. Mas Jesus não é o único que enfrenta tal dificuldade, a problemática dessa abordagem se estende a todos os outros personagens famosos da história, como Sócrates, Platão, Augusto, Alexandre, entre outros. Todavia, tal dificuldade está longe de ser um obstáculo à existência de Jesus. Estamos tratando somente sobre a diferença empírica que se impõe entre o Jesus real e o Jesus da história. As informações que subsistiram sobre Jesus, obviamente, nunca conseguirão refletir a totalidade de sua vida. Não obstante, podemos conhecer o Jesus histórico. 

O exegeta D. A. Carson resume a questão com muita propriedade: “Portanto, o fato de que não é possível reconstruir uma vida detalhada de Jesus com base nos evangelhos sinópticos não põe, de modo algum, em dúvida os evangelhos como fontes históricas exatas. Devem ser julgados por aquilo que de fato nos dizem, não pelo que não nos dizem”.

A busca pelo Jesus histórico

Muito embora tenhamos falado que o Jesus real não pode ser resgatado pela pesquisa histórica, no entanto, o Jesus histórico pode apresentar fragmentos do Jesus real. O Jesus histórico é aquele personagem reconstruído pelas informações que chegaram até nós por vários documentos históricos. Alguém poderia nos taxar de fundamentalistas, mas cremos que os poucos registros deixados nos evangelhos sobre Jesus são suficientes para o nosso conhecimento. Na verdade João nos fornece de maneira resumida o propósito dos registros evangélicos sobre Jesus: “Estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.31).

Acreditamos que muitos não considerariam de alguma importância uma pesquisa sobre o Jesus da história, antes, se contentariam apenas com o Cristo da fé. Infelizmente, a disposição em pesquisar historicamente Jesus parte, em geral, dos críticos agnósticos e não dos cristãos ortodoxos. Geralmente, para os cristãos ortodoxos, tal busca é de pouca relevância, porque o que vale mesmo é o Cristo da fé. No entanto, esta posição é um grande paradoxo, pois o Jesus da fé não pode ser desvinculado do Jesus da história. A fé cristã não é um salto no escuro. É, em suma, a aceitação de alguém real que viveu no espaço/tempo. Essa busca ressalta que a fé cristã não é uma vaga atitude existencial ou mera maneira de ser, mas, sim, que existe um conteúdo específico na fé cristã, ligado a eventos históricos especiais.

Essa necessidade foi sentida pelos seguidores de Bultmann que, por isso, acabou formando uma nova escola. Bultmann cria que os fatos históricos quanto a Jesus eram irrelevantes, pois o que valia mesmo era o Cristo da fé e o nosso encontro pessoal com Ele, mesmo que este Cristo seja o Cristo emergido das supostas lendas e mitos criados pelos cristãos primitivos, segundo a opinião de Bultmann. Contudo, uma nova busca teve início, pois seus discípulos perceberam que “um rompimento tão completo entre a fé cristã e os liames históricos deixaria a Igreja à deriva e sem condições de reivindicar absolutamente qualquer coisa para si” (Carson p.59).

Gregory A. Boyd, refutando os argumentos do “Seminário de Jesus”, acrescenta: “A verdade teológica baseia-se na verdade histórica”.

O Jesus da história é o mesmo Jesus da fé?

Uma questão derivada da anterior é a relação entre o Jesus de carne e ossos e o Jesus místico (espiritual) adorado pelos cristãos, o que o filósofo e historiador Albert Schweitzer denominou de “o tremendo fosso”. Existe realmente alguma relação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé? Porventura seriam o mesmo? A historicidade de Jesus é reconhecida universalmente hoje em dia, tanto pelos cristãos como pelos críticos da fé cristã. Nenhum estudioso sério duvida da existência do carpinteiro de Nazaré. A discussão, entretanto, centraliza-se na sua identidade. Para alguns críticos, como os do “Seminário de Jesus” (EUA), os cristãos teriam alterado a imagem de Jesus, um camponês galileu, atribuindo-lhe uma identidade divina que o próprio Jesus nunca teria reclamado para si. Como um rabino obscuro, e, possivelmente, um operador de curas, poderia ter-se transformado num objeto de adoração de milhões de pessoas em todo o mundo?

A resposta oferecida pelos críticos baseia-se na mesma premissa utilizada para a questão da confiabilidade dos evangelhos. Há um consenso entre esses críticos quanto ao fato de que, não importa quem os tenha escrito, os autores não eram testemunhas oculares e podem ter feito seus registros um século após a morte de Jesus. Isso facilitaria, e muito, que cristãos de gerações posteriores criassem mitos, por meio dos quais o humilde galileu fosse transformado no Filho de Deus, com prerrogativas que só o Deus dos judeus ou, em menor grau, os deuses greco-romanos e das religiões de mistério possuíam. Paulo chega a ser acusado por alguns críticos de ter sido o principal responsável pela transformação do homem Jesus no Cristo divino. Segundo eles, Paulo teria distorcido o evangelho original de Jesus, convertendo-o de um simples rabino inovador em objeto de devoção de seus discípulos posteriores. A evidência histórica, entretanto, aponta em outra direção.

Para Paulo, o Cristo divino e exaltado pela ressurreição é o mesmo Jesus histórico que morreu crucificado e foi ressuscitado ao terceiro dia. Em 1Coríntios 15.3-7, Paulo afirma sua crença nos fatos históricos, circundando a morte de Jesus. Como já vimos em outra parte deste livro, esses mesmos fatos foram asseverados nos evangelhos pelas próprias testemunhas oculares da crucificação e ressurreição de Jesus ou por autores ligados a essas testemunhas.

Os críticos do cristianismo se levantam contra a posição histórico-ortodoxa dizendo que Jesus é uma figura idealizada, um símbolo de fé. No século 19, alguns chegaram até mesmo a duvidar de sua existência. Porém, existem muitas evidências históricas disponíveis sobre Jesus Cristo.

3 comentários:

  1. Somente na mente de crentes e em benefício da própria fé, a história da origem do cristianismo pode ser acolhida como se apresenta. É contada no Novo Testamento, e apenas nele existe. Portanto, nada há de científico no seu acatamento. Trata-se de um ato de imposição política.
    Toda essa conversa de “Cornélio Tácito, respeitado historiador romano do primeiro século, escreveu: “O nome [cristão] deriva-se de Cristo, a quem o procurador Pôncio Pilatos executou no reinado de Tibério.” Suetônio e Plínio, o Jovem, outros escritores romanos daquela época, também se referiram a Cristo. Além disso, Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, escreveu sobre Tiago, a quem identificou como “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Não vale meio centavo furado. Por quê?
    Porque, inicialmente, nenhum dos primeiros apologistas cristãos se referiu a nenhuma dessas “provas” fabricadas posteriormente ou a partir do século IV. Por quê?
    Porque o cristianismo surgiu no século II e a “história” contada e situada na Palestina no século I é pura invenção. Oh! Não pode ser! Pode sim. Lembra de que nos primórdios havia uma contenda entre os cristãos? Pois então, Uns queriam um Cristo espiritual e outros um Cristo de carne e osso, o “histórico”. Os primeiros aspiravam pelo aprimoramento espiritual do indivíduo na luta contra o judaísmo. Os segundos estavam determinados a vencer e subjugar o judaísmo. Para tanto necessitavam de uma ligação mais convincente com a cultura judaica. Mais por quê?
    Porque nos primeiros séculos o proselitismo judaico avançava perigosamente sobre a cultura greco-romana e o número de convertidos plenos crescia de forma preocupante. A pressão de certa camada das classes altas pressionava o governo a tomar uma atitude e assim foi feito. O imperador Adriano (117-138) proibiu a circuncisão em todo o Império, um dos principais motivos da guerra contra os judeus, de 132.
    A conversão ao judaísmo seguia passos obrigatórios que levavam tempo. No final do processo o prosélito era circuncidado e somente a partir daí era aceito como membro da nação de Israel. Isto significa que a aceitação dos pagãos, em especial gregos e romanos, pelo judaísmo era ampla e perigosa para a cultura dominante na época. Todavia, o sucessor de Adriano, Antonino Pio (138-161), relaxou um pouco as medidas antijudaicas, mas manteve a proibição da circuncisão sob pena de morte somente para não judeus. Daí uma legião de prosélitos incircuncisos, que jamais seria aceita na nação de Israel, recebe atenção de uma nova religião alegadamente surgida de uma seita judaica que havia abolido a circuncisão e a rigidez mosaica abrindo concorrência com o judaísmo real.
    Detalhe: quem eram esses divulgadores ou propagandistas dessa nova religião?
    Judeus reformistas insatisfeitos com o judaísmo tradicional? Não. Eram gregos na maioria e uns poucos latinos, os mais incomodados com o proselitismo judaico, a liderar tal iniciativa.
    É só pensar um pouquinho: pelo teor das suas mensagens, Jesus, precisava ser judeu? Não. Por que os fariseus (defensores do judaísmo ortodoxo) foram tão esculachados pelos evangelhos e os judeus em geral pela história cristã? Por que a crucificação do personagem Jesus foi creditada aos malévolos judeus? Essa é uma história de ódio. Engana-se quem quiser. O Jesus histórico é uma invenção da ala vitoriosa do cristianismo primitivo na ânsia de submeter o judaísmo e a nossa cultura não quer que isto apareça se não ela se ferra. Pronto.

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  2. Eu vou fazer um breve comentário: Quem crucificou Jesus Cristo não foram os judeus,foram os maus, assim como quem matou os judeus na segunda guerra, não foram os alemães, foram os maus, você não pode culpar um povo ou uma nação inteira pelos atos de meia duzia de pessoas más, quem crucificou Jesus Cristo foram alguns fariseus maus, juntamente com a cupula do império romano que lavou as mãos diante dos fatos, então não foi uma história de ódio como nosso amigo sitou, imas uma história de amor de um homem que deu a sua vida para salvar a minha a sua e inclusive a vida daqueles carrascos que o crucificaram.

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  3. O que se tem do Jesus histórico são apenas desculpas para a sua não confirmação como figura histórica. Quando não se tem um único motivo para justificar sua existência e diversos a contrariar, o que deve prevalecer?
    A religião percebida como um instrumento político é bem diferente de quando é percebida como um instrumento de aperfeiçoamento moral. A tendência é que ela seja apreciada preferencialmente pela segunda possibilidade. No entanto, é sob o ponto de vista secular que faço essa reflexão a respeito da origem do cristianismo. Conheça um pouco mais a respeito da origem da nossa cultura ocidental. Visite a página do livro A Origem do Cristianismo em Reflexão, no Facebook:
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