sábado, 17 de setembro de 2011

A INTEGRIDADE DA DOUTRINA CRISTÃ

Por Gilson Barbosa
Num universo evangélico eivado de heresias e estranhos ensinos é necessário que tenhamos discernimento espiritual para “não sermos levados ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4.14). Segundo o Comentário Bíblico de John McArthur, ser levado por todo o vento de doutrina é um aviso paulino de que “os cristãos espiritualmente imaturos, os quais não estão fundamentados no conhecimento de Cristo por meio da Palavra de Deus, são inclinados a aceitar, de modo não crítico, toda a sorte de erros doutrinários enganosos e interpretações ardilosas da Escritura anunciadas pelos falsos e enganosos mestres na igreja. Eles devem aprender a ter discernimento (1 Ts 5.21,22)”.
Infelizmente é incontável o número de crentes que “precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus” (Hb 5.12 – NVI) quando na verdade pelo tempo que professam a fé cristã deveriam ser mestres no assunto. Se perguntarmos a certos tipos de crente o que sabem, basicamente, das doutrinas cristãs, com certeza vamos nos decepcionar. Associando teologia com frieza espiritual e doutrina bíblica com usos e costumes, se tornam presas fáceis dos falsos mestres, das seitas, do fanatismo religioso, dos erros doutrinários, de um equivocado entendimento hermenêutico das Escrituras e de uma falsa e ilusória sensação de ser mais espiritual do que os demais. Temos de aceitar e praticar toda a doutrina que emana da Palavra de Deus, mas antes, é obrigatório sabermos o que é doutrina.  
DEFINIÇÃO DE DOUTRINA
Segundo o pastor Esequias Soares “à luz da Bíblia, doutrina é o ensino bíblico normativo, terminante, final, derivado das Sagradas Escrituras, como regra de fé e prática de vida, para a igreja, para seus membros. Ela é vista na Bíblia como expressão prática na vida do crente. As doutrinas da Palavra de Deus são santas, divinas, universais e imutáveis”.[1]
As doutrinas bíblicas são extremamente importantes para a vida cristã. O estudo da autêntica doutrina bíblica auxilia o crente a ter uma vida espiritual abundante. Fico espantando com a ignorância e a falta de bom senso de alguns crentes que repudiam o estudo teológico (o estudo sistematizado das doutrinas bíblicas) e zombam da sua importância e necessidade. Não consigo acreditar que estudar sistematicamente a Palavra de Deus possa influir negativamente na vida do crente – esta é a tese de muitos que negligenciam o estudo teológico. Estes, na verdade, acabam por se revelar intencionalmente e interiormente mais espirituais do que aqueles que se esforçam em frequentar um curso de teologia, que implica em ler livros, fazer resenhas, trabalhos extraclasse, avaliações, provas, redação, etc. Resumindo: o Espírito Santo é o único responsável por produzir neles os resultados que espera e no momento que se espera. A meu ver isso soa mais preguiça do que poder ou santidade.
Quando se diz que a doutrina é o ensino bíblico normativo entendemos, entre outras coisas, que todas as experiências pessoais, na vida do crente, devem ser submetidas ao escrutínio bíblico para saber se a Bíblia comprova ou autoriza tal experiência. Qual é a doutrina bíblica, por exemplo, de pessoas que tiveram arrebatamento de sentidos? E o que diz sobre as pessoas que “caem no poder”? E quando ao grande número de profecias que temos no mesmo culto, por um único “profeta”? Qual é o ensino bíblico sobre esses assuntos?
Por outro prisma a nossa prática cristã deve se conformar as normas bíblicas. Os ensinos de Cristo sobre o amor, perdão, paciência, humildade, desprendimento material, tem feito a máscara cair do rosto de muitos, pois são doutrinas bíblicas pregadas, mas não vividas dentro do âmbito local da igreja. Os que agem assim estão na mesma condição e situação dos escribas e fariseus, quando Jesus os censurou publicamente (Mt 23.2,3): “Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus, fazei e guarda, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem”.
ETIMOLOGIA DA PALAVRA
No Novo Testamento as duas palavras gregas usadas para “doutrina” são didaquê e didaskalia. Ambas possuem a mesma ideia e significam aquilo que é ensinado (a substancia do ensino) como também se referem ao ato do ensino, instrução. O Dicionário Vine (CPAD) corrobora esse entendimento e fala sobre os dois termos gregos que “Ambos são usados nos sentidos ativo e passivo (ou seja, o ato de ensinar e o que é ensinado); a voz passiva é predominante em didaquê, e a voz ativa, em didaskalia; o primeiro põe em relevo a autoridade, o ultimo, o ato”.
O primeiro termo aparece na pregação de Jesus em Marcos 1.22, 27: “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”; “Todos se admiravam, a ponto de perguntarem entre si: Que vem a ser isto? Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!”. O segundo termo encontramos em Romanos 16.17: “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles”.
TEOLOGIA E DOUTRINA
Muitos não conseguem entender a relação entre teologia e doutrina. Alguns chegam ao cúmulo de dizer que a doutrina se contrapõe à teologia, e vice-versa. Outros, literalmente pedantes, dizem que o que deve ser ensinado (à igreja) são doutrinas e não teologia. Pobres coitados! Precisam saber que os termos teologia e doutrina são similares. O Reverendo Joao Alves dos Santos explica que:
“A palavra ‘teologia’ não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é equivalente, no N.T., é ‘doutrina’ (“didache” ou “didaskalia”, no grego), que vem de uma raiz que significa ‘ensinar’ e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente, como ao conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9, etc.). Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A essa forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de ‘Teologia Sistemática’. O adjetivo aqui, não altera o conceito de ‘teologia’. Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina”’. [2]
A CORRUPÇÃO DA DOUTRINA BÍBLICA
Segundo o apóstolo Paulo, a conduta do cristão deve estar de acordo com sua crença: “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1). É importante crer nas doutrinas bíblicas para que o procedimento pessoal justifique positivamente o cristianismo vivido. O resultado dessa negligencia (crer em doutrinas sadias) tem sido alastrador e catastrófico. A perda da ética e da santidade cristã tem sido um dos resultados colhidos. Estamos vivendo dias de imoralidade no meio cristão devido a omissão e até mesmo o ceticismo em relação às doutrinas bíblicas. Podemos dizer que no cristianismo você é aquilo que você crê.
O padrão doutrinário bíblico também tem sido vítima de gravíssimas distorções nestes últimos tempos. Hoje, temos de combater os desafios procedentes e impostos tanto pelas seitas quanto por grupos evangélicos que perverteram (e estão pervertendo) a fé cristã. Inventam moda teológica (modismos teológicos) e confundem o povo de Deus, rachando a unidade e a integridade doutrinária da igreja. Os neopentecostais e alguns grupos pentecostais tem corrompido a doutrina bíblica. Para não enfadar o leitor e até mesmo estimulá-lo às pesquisas, apresento abaixo apenas uma das corrupções da doutrina bíblica: o cair no Espírito. Mas, sugiro que pesquise sobre outros temas, tais como a Maldição Hereditária, Arrebatamento em grupo, a utilização de frases como “amarrar Satanás”, Confissão Positiva, Cura Interior, a prosperidade financeira conforme pregada por alguns adeptos do deus Mamom, Guerra Espiritual, letras de “hinos” que contradizem a doutrina bíblica, entre outros. É tanta distorção da doutrina bíblica que, sinceramente, não disponho de tempo suficiente para comentar uma por uma. Desculpe-me por isso.
CAIR NO ESPÍRITO
O cair no Espírito, muito em voga nestes dias, é sinônimo do poder do Espírito Santo fazendo com que a pessoa não suporte o poder e desfaleça fisicamente, dizem os que aderem a queda. Nesses movimentos evangélicos ser tocado ou soprado por alguém “cheio do Espírito” é a ação que resulta em derrubar a pessoa. O que não entendo é que não há nenhum resultado de mudança, transformação, vida poderosa, santidade, depois que a pessoa se levanta da queda – ela continua exatamente igual. Pergunto: Qual a finalidade de ser derrubado pelo toque de alguém? Qual a finalidade de cair no Espírito? Alguns tentam justificar biblicamente mencionando o poder que Elias tinha na sua capa, o poder que Eliseu tinha até mesmo nos seus ossos, o poder da sombra de Pedro, o poder nas vestes de Paulo, o sopro de Jesus nos discípulos. No entanto não temos nenhuma prescrição dos próprios servos de Deus, nem de Jesus, nem bíblicos, de que devemos proceder da mesma forma hoje. Deve ser lembrado que esses acontecimentos tiveram um propósito específico dentro do tempo e da soberania de Deus. Nesses movimentos, o cair no Espírito, pelo toque ou sopro, é subjetivo, repetitivo, coletivo, em grupos, em alguns casos são manipulações, em outros a pessoa é induzida, e ainda há quedas forjadas. Cair prostrado diante da glória de Deus, como aconteceu com Daniel, Ezequiel e o apóstolo João, é muito diferente de ser derrubado por alguém.
Recentemente presenciamos a polemica desse fenômeno sendo exaustivamente mostrada em um programa televisivo pelos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Num vídeo gravado na Igreja Batista da Lagoinha, eles sadicamente ironizam a queda no Espírito da cantora Ana Paula Valadão. Não é meu objetivo aqui comentar sobre o assunto, mas apenas constatar o fato como um fenômeno corrente. O que é irônico é o ataque partir justamente da IURD que não possui nenhuma moral doutrinária, espiritual e bíblica para tratar de um assunto desta envergadura. Como sempre o que eles querem é o show, o sensacionalismo, a provocação. Por outro lado, goste o leitor ou não, a Igreja Batista da Lagoinha não pode ser considerada modelo de uma igreja bíblica por conta dos seus muitos desvios doutrinários.
INTEGRIDADE NA DOUTRINA
A palavra integridade tem sentido de imparcialidade. Na reflexão dessa postagem significa que a igreja deve acatar como norma e regra de fé toda a doutrina bíblica e não apenas algumas. Todas as doutrinas bíblicas são essenciais conforme disse Joseph Irons: “Abracemos toda a verdade ou renunciemos totalmente ao cristianismo”. Faço minha as palavras do pastor Claudionor Correa de Andrade (Lições Bíblicas, 4º trimestre de 2006): “Não podemos acreditar em algumas doutrinas, e desacreditar de outras. Haveremos de receber toda a verdade conforme no-la confiou o Senhor em sua Palavra: integralmente. Sem doutrina, a vida espiritual é impossível”.
Em Cristo,


[1] Revista Obreiro, Ano 24, nº 17, p. 23.
[2] Artigo publicado no site Monergismo com o tema “A igreja precisa de teologia”?

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