terça-feira, 18 de dezembro de 2012

QUEM QUER ACEITAR JESUS LEVANTA A MÃO!!!

Por Gilson Barbosa
Os erros do sistema de apelo ao pecador no culto público

Acredito piamente que há um déficit teológico gigantesco no meio evangélico (entenda déficit teológico como déficit doutrinário). Este é o primeiro erro entre os evangélicos: dissociar doutrina bíblica de teologia. O segundo erro é associar teologia com ensino e doutrina com pregação. Nos dois erros, ambas é uma coisa só. Mas, infelizmente não é esse entendimento que prevalece. Para muitos, doutrina é absolutamente distinta de teologia. Talvez seja essa a causa de tanta desordem na igreja evangélica moderna. É como se a fonte da teologia fosse os livros e não o Livro (a Bíblia Sagrada).

O educador assembleiano Claudionor Correa de Andrade disse a mim, num email, que “ensino e pregação não são excludentes; são complementares. Toda pregação deveria constituir-se num sólido ensino. E todo ensino deveria ser visto como uma proclamação da Palavra de Deus”. Hoje em dia em muitas escolas de teologia se ensina uma coisa e no púlpito da igreja outra (ledo engano!). O resultado é um conflito de ideias e desentendimentos entre docentes e o pastor da igreja.

Fiz essa necessária introdução para lhes falar sobre um procedimento extremamente comum nos cultos evangélicos: o sistema de apelo ao pecador. Esse assunto não pode ser tratado com superficialidade ou omissão, isso porque, indagado pela teologia/doutrina ele não se sustenta. A pergunta é: Qual a maneira do pecador vir a Cristo? Preste muita atenção: não estou indo contra o convite para que o pecador receba a Cristo como Salvador e Senhor. Temos vários textos onde o pecador é instado a vir a Cristo.

Textos bíblicos

1 – “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28);

2 - “O vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Isaías 55:1);

3 – “E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17).

Erros apresentado pelo sistema de apelo

1 – Entender que a confissão pública é uma condição para a salvação e não um resultado da salvação. Acontece o mesmo erro na apresentação de candidatos ao batismo. A salvação dos pecadores fica condicionada “ao levantar das mãos e vir à frente do púlpito”. Se ele fez isso, então está salvo. Quem garante isso? Quer dizer: a vida eterna da pessoa é avaliada de maneira externa a vista dos olhos humanos. Ao passar dos dias o pecador que “levantou as mãos e veio à frente” não apresenta os sinais da regeneração e os crentes ficam confusos, pois no seu entendimento elas aceitaram a Jesus e estão regeneradas. A condição para a salvação é “vir a Cristo”, e não “levantar as mãos ou vir à frente”.

2 – Fazer do “vir à frente” ou “levantar as mãos” um mandamento bíblico. Jesus certa vez censurou os escribas e fariseus com estas palavras: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7:7). Você não encontrará na Escritura Sagrada um ensinamento que aprove esse tipo de procedimento para diagnosticar ou até mesmo valorar a salvação do pecador. Nem Jesus, nem os apóstolos instituíram um sistema humano para confirmar ou sinalizar exteriormente a salvação. Não consigo imaginar que a resposta de Paulo ao carcereiro – quando indagou o que deveria fazer para ser salvo – fosse “levante a mão!”. Nesse item repousa a teimosia evangélica de estabelecer métodos e sistemas não recomendados pela Bíblia Sagrada. Se a Bíblia não prescreve algo é sensato não fazer.

3Quando “ir à frente” ou não implica em falsas compreensões - Este ato tem trazido um falso entendimento ao pecador, pois um crê que fez algo bom, próprio ou útil diante de Deus, outro, que desobedeceu a Deus simplesmente por não ter ido à frente. Há pecadores que até mesmo pensam que pelo ato de “ir à frente” ou “levantar as mãos” estão salvos. É comum pensar: “Agora que fui à frente, estou salvo”. Este pensamento produz falsa segurança. Alguns pecadores acham que estão sendo rebeldes contra Deus por não ter ido à frente, quando na verdade não é isso que caracteriza a rebelião dos pecadores (Romanos 1:18-32). Os próprios membros das igrejas pensam que o apelo é obrigatório no culto. Se o pastor ou o pregador esquecer-se de fazer o apelo pode ser lembrado ou cobrado pelos membros.  

4 – Induz pregadores a artimanhas no apelo - O pior de tudo, humanamente, é alguns pregadores que usam a artimanha de perguntar quantas pessoas não evangélicas estão presentes no culto, e ao sinalizar levantando as mãos eles são constrangidos a irem à frente e “aceitar” Jesus. Que convicção este pecador terá de que realmente recebeu a Cristo em sua alma? A Bíblia não recomenda e nem relata esse procedimento de “vir à frente” ou “levantar as mãos” para receber a salvação em Cristo. Hoje em dia quase todos os pregadores usam os cânticos como meio de “conversão” no apelo. Quando não, os usam para levar o povo a momentos externos de êxtase carismático ou sobrenatural. É comum o uso repetido de determinados cânticos, a ponto de entender que se cantar outro cântico o pecador não virá “a Cristo”.  

5 – A busca de resultados estatísticos As igrejas evangélicas tem cometido o erro fatal de condicionar a salvação em resultados numéricos. Após o culto é comum o comentário entre os crentes: “Você viu quantas pessoas aceitaram a Cristo?”. Porém, eles mesmos ficam confundidos quando essas pessoas não permanecem na fé ou não vem mais na igreja. Não conseguem compreender a parábola do semeador. Nela, Jesus ensina sobre quatro tipos de terrenos, que tem haver com a resposta da alma do pecador a mensagem evangélica (Mateus 13:1-23). O batismo também tem sido considerado a partir de dados estatísticos. Não é tão importante a convicção de fé na alma do pecador, quanto sua decisão de se batizar. Muitos que vão à frente “pedir” o batismo, depois, não permanecem. O dado numérico buscado a todo o custo, pelas igrejas, intelectualmente não consiste naturalmente em conversão (regeneração) genuína e verdadeira, mas apenas na intenção numérica. Isso tudo não passa de um autoengano ou um “faz de conta”.  Os pregadores itinerantes se encarregam das piores tolices, nesse quesito. É natural se sentirem envaidecidos ministerialmente pelo fato de dezenas de pessoas “virem à frente”.    

6 – O barateamento da graçaA salvação em Cristo é pela graça de Deus: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8, 9). É um favor imerecido: “porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde” (Gálatas 2:21). Trata-se de uma obra sobrenatural processada na alma do pecador. Se há algo que a humanidade pecadora merece, é a condenação eterna. O ser humano não pode apresentar nenhuma obra que o qualifique a salvação, e esta, não tem nenhuma semelhança com qualquer ato físico. Se o ato de crer em Cristo estivesse atrelado ao ato físico todos que vem à frente teriam de permanecer em Cristo e consequentemente na igreja local – o que não é verdade.

“Venha a Cristo para ser salvo”

Quando noto tudo isso, me entristeço e percebo o quanto as igrejas evangélicas se distanciaram das práticas cultuais (litúrgicas) da igreja primitiva. Não basta confessar com a boca, deve-se crer na alma: “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9). Não adianta chamar o pecador à frente e tentar arrancar dele qualquer tipo de confissão evangélica. Só saberemos de fato se foi regenerado à medida que permanece na fé e apresenta frutos de arrependimento ou sinais da conversão: “E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3:7,8). O convite para a salvação não perdeu o prazo de validade: “Vinde então, e argui-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Isaías 1:18). Contudo, a genuína conversão não se processa por um ato físico de “vir à frente” ou “levantar as mãos”.

Em Cristo, com amor!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O PECADO DA COBIÇA

Por Gilson Barbosa

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe cunhou a magistral frase onde afirma que “a conduta é um espelho no qual todos exibem a sua imagem”. Nada mais que verdadeiro. Percebe-se como determinada pessoa é, ou seja, sua personalidade, reparando atentamente nos seus atos, procedimentos ou conduta de vida – o modus vivendi. Existem pessoas que escondem muito bem seu lado sombrio (pecaminoso), mas logo os efeitos das suas infames realizações vêm à tona e a máscara cai do seu rosto. Tem sido assim desde sempre. Nesta breve reflexão trato do pecado da cobiça.

A maioria dos estudiosos ensina que a cobiça é o desejo veemente de ter o que outra pessoa tem. Mas, analisando bem não é totalmente errado desejar o que outra pessoa tem. Se meu vizinho tem um carro muito bonito e isso cria em mim a vontade de ter o mesmo modelo, marca ou cor, não é nisso que reside o problema. Alguém dirá que isso é inveja. Eu respondo que isso depende da intenção da pessoa que deseja o objeto (o que em muitos casos é difícil avaliar) e do ponto de vista de quem acusa. Os técnicos no assunto dizem que desejar o que o outro tem é cobiça, não inveja. O invejoso tem sentimentos negativos pela posse do outro e deseja que ele não tenha o objeto ou que de alguma forma perca este objeto. Já o cobiçoso vai além do desejo de possuir os bens da outra pessoa, no fundo ele quer ter ou levar a vida que a outra tem. 

Na verdade o cobiçoso deseja ser ou ter o que o outro tem sem fazer esforço. Ele aproveita o momento, a situação, para então praticar o golpe. Certo pensador disse muito bem que “os cobiçosos desejam fazer fortuna sem precisarem trabalhar, desejam o cônjuge do próximo, querem ter multidões a seus pés, procuram tirar proveito de certas situações, procuram tirar férias faustosas e além de suas posses em outros países, endividam-se além de suas posses e ganhos, enfim, procuram adquirir fama e reconhecimento para satisfazer seus orgulhos e vaidades”.

No Decálogo há a seguinte exortação: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo; e não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” (Dt 5:21). O cobiçoso olha e vê a vida próspera que o outro vive e no fundo quer ser ele. Só que para isso ele viola as regras éticas, morais e espirituais. O cobiçoso se impacienta e se irrita pelo fato de não ter o mesmo sucesso na vida que o outro tem. Daí ele querer o que é da outra pessoa. O cobiçoso não somente deseja à casa do seu próximo, a mulher, o campo, o servo ou serva, o boi ou jumento, mas ele quer essas coisas porque elas lhe satisfazem nos mínimos detalhes e não quer ter o justo esforço (ou trabalho) de ter algo similar.

De certa forma o rei Davi foi vencido pelo pecado da cobiça. Quantas mulheres os reis deste período poderiam ter, mas Davi queria exatamente Bate-Seba, que era mulher de Urias, seu fiel soldado. O rei sabia que Bate-Seba era casada: “E mandou Davi indagar quem era aquela mulher; e disseram: Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?” (2 Samuel 11:3). Como todos os cobiçosos Davi não avaliou as consequências deste pecado: “Então enviou Davi mensageiros, e mandou trazê-la; e ela veio, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundícia); então voltou ela para sua casa” (2 Samuel 11:4). Para levar sua cobiça adiante o cobiçoso torna-se até mesmo violento, ríspido, ignorante, cruel e insensato. “E sucedeu que pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe; e mandou-lha por mão de Urias. Escreveu na carta, dizendo: Ponde a Urias na frente da maior força da peleja; e retirai-vos de detrás dele, para que seja ferido e morra” (2 Samuel 11:14-15).

No Antigo Testamento o termo cobiça possui três sentidos. O primeiro é hamadh que é o desejo pela possessão alheia: “Ai daqueles que nas suas camas intentam a iniqüidade, e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, porque está no poder da sua mão! E cobiçam campos, e cobiçam casas, e arrebatam-nas; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Miquéias 2:1-2). O segundo é betsa que é o desejo por lucro que seja desonesto: “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jeremias 6:13). E o terceiro é awwa (ava), ou desejo egoísta: ”O cobiçoso cobiça o dia todo, mas o justo dá, e nada retém” (Provérbios 21:26). Os termos derivados da cobiça são: desejar, ansiar, cobiçar, esperar ansiosamente, sentir vontade, suspirar, anelar, querer, preferir.

No Novo Testamento, entre outros, encontramos os substantivos epithumia (ἐπιθυμία) e pleoneksía (πλεονεξία). O primeiro expressa qualquer desejo intenso e o termo bíblico correspondente é concupiscência: “Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” (Romanos 7:7-8). O segundo expressa literalmente o desejo de ter mais, ou seja, a asserção violenta dos próprios direitos: “Porque, como bem sabeis, nunca usamos de palavras lisonjeiras, nem houve um pretexto de avareza; Deus é testemunha” (1 Tessalonicenses 2:5). O apóstolo Paulo não tinha nenhum interesse em ganhos financeiros, tirar proveito da situação, no sentido de fazer agravo, defraudar ou tirar vantagem.  

Não me atrevo a dizer quem dos servos de Deus são cobiçosos, mas vale atentar para três recomendações oferecidas por J. Ligon Duncan III:

Primeira, devemos ter consciência da realidade do pecado em nós. Ele afirma que nós fomos libertos do reino do pecado, mas não fomos livres ainda da presença do pecado. Uma luta constante sucede dentro de nós, das luxúrias da carne (inicia a guerra) com o espírito. Há uma guerra espiritual acontecendo na parte mais interna de nosso ser. Necessitamos, portanto, olhar o pecado (pecado pessoal e particular) nos olhos. Não importa que cargo ou função ocupe na igreja visível de Cristo (músico, cantor, pregador, pastor), nunca perca de vista que não estás acima do pecado. Cuidado!

Segunda, precisamos detectar o que necessita ser tratado em nós – e nessa reflexão trata-se da cobiça. Temos de analisar se estamos sendo, de alguma maneira, cobiçosos ou não. Paulo escrevendo aos Colossenses (3:5) exortou: “Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra” e a seguir lista vários pecados que precisam “morrer” em nós. O grande problema é que nós temos dificuldade de autoavaliação. Uns pensam que estão em posição de maior santidade que outros, negligenciam o cuidado, mas cometem o pecado às escondidas, no íntimo.

Terceira, é necessário abandonar o pecado. Ainda em Colossenses 3:8 o apóstolo Paulo orienta os irmãos a abandonarem de vez os pecados: “Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca”. O pecado da cobiça não deve ser tratado como se fosse um bichinho de estimação, é preciso se livrar dele urgente.

Que o Senhor nos ajude a refletir sobre isso. Se temos sido cobiçosos devemos pedir perdão ao Senhor e também ao próximo que temos prejudicado com a nossa cobiça.

Em Cristo,