sábado, 28 de abril de 2012

A MUNDANIZAÇÃO DA IGREJA DE PÉRGAMO (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

O pastor da Igreja de Pérgamo foi elogiado por causa da sua fidelidade e firmeza na fé em Cristo Jesus.

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreva [...] Sei onde você vive, onde está o trono de Satanás. Contudo, você permanece fiel ao meu nome e não renunciou à sua fé em mim, nem mesmo quando Antipas, minha fiel testemunha, foi morto nessa cidade, onde Satanás habita. (Ap 2.12,13)

Porém, paradoxalmente ele tolerava a idolatria, heresias e imoralidades no meio da Igreja. Pecados tão notórios e públicos que incrivelmente parece não ter sido eliminado do meio da Igreja os tais praticantes. Da parte do pastor da Igreja depreendemos que fidelidade a Cristo e firmeza na fé deve vir obrigatoriamente acompanhada de uma boa teologia ou doutrina. Não são coisas excludentes e nem se pode alegar desconhecimento das heresias, pois, qualquer que fosse a justificativa do pastor da Igreja de Pérgamo o Senhor o repreendeu pela sua tolerância.

 “No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas”
(Ap 2. 14,15).

Satanás possui um arsenal de estratégias contra a Igreja de Cristo. Cabe à liderança pastoral identificar e discernir se as ações pessoais impetradas no culto ou no interstício da existência da Igreja local são teologicamente bíblicas, fiéis as Escrituras e desse modo proibir ou liberar sua aplicação na liturgia do culto. Alguém pode se espantar e pensar que estou exagerando, no entanto não devemos esquecer que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz (2 Co 11:14).  

Como Satanás, ao usar a perseguição, não logrou êxito contra a igreja, mudou sua tática e usou a sedução. A proposta agora não é substituição, mas mistura. Não é apostasia aberta, mas ecumenismo.

John Stott acertadamente disse que o ponto da discórdia na igreja de Pérgamo não era entre o bem e o mal, e sim entre a verdade e mentira.

Ambientes onde há heresias, imoralidades e idolatria oferecem à liderança pastoral e suas respectivas igrejas um enorme desafio. Por isso não podemos tolerar que doutrinas distorcidas e heréticas sejam cantadas nos cultos, que no mesmo culto qualquer pessoa usurpe o lugar de Cristo na adoração trazendo para si algum tipo de mérito e devoção ou que aqueles em pecado permaneçam impenitentes na comunhão da Igreja. Jesus conhecia a idolatria e as influencias perniciosas da cidade de Pérgamo e sabia que isso poderia exercer atração nos crentes.

Sei onde você vive, onde está o trono de Satanás. (Ap 2:12)

Quanto ao entendimento do versículo acima é importantíssima a informação do comentarista William Hendriksen:

Esta cidade estava localizada sobre uma grande montanha de rocha tendo aos seus pés um grande vale circunvizinho. Os romanos a fizeram capital da província da Ásia. Aí, Esculápio, o deus da cura, era cultuado sob o emblema da serpente que, para os cristãos, era o próprio símbolo de Satanás. Nessa cidade se encontrava, entre os muitos altares pagãos, o grande altar de Zeus.  Todas essas coisas deveriam estar na cabeça de Cristo quando ele chamou Pérgamo de o lugar “onde está o trono de Satanás”. Entretanto, parece-nos que o propósito óbvio do autor é dirigir nossa atenção para o fato de que Pérgamo era a capital da província e, como tal, centro do culto ao imperador.

Ali o governador era louvado, e ali os templos pagãos eram dedicados ao culto de César. Ali era exigido dos crentes que oferecessem incenso à imagem dos imperadores e que dissessem “César é Senhor”. Aí Satanás tinha seu trono; ali ele reinava livremente.

A cultura religiosa, social, espiritual e política da cidade de Pérgamo estava totalmente comprometidas com os ideais de Satanás. Este, tinha seu trono na cidade e o pastor com sua Igreja deveriam atentar para estes fatos, o que notamos que não aconteceu, pois Jesus critica a tolerância à imoralidade, idolatria e heresias no núcleo da Igreja. 

Dá-nos ideia de que a custa do bem estar dos crentes o líder pastoral da Igreja estava barganhando a santidade exigida daqueles que servem verdadeiramente ao Senhor. Essa proposição encontra respaldo no exemplo de Balaão. Havia na Igreja os que estavam dando sustentação ou que se estavam apegados a doutrina deste profeta pagão. E qual havia sido o procedimento de Balaão no passado para fazer o povo de Israel pecar contra o Senhor? Diz o Senhor Jesus que ele ensinou Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição: idolatria e imoralidade.  

Enquanto Israel estava em Sitim, o povo começou a entregar-se à imoralidade sexual com mulheres moabitas, que os convidavam aos sacrifícios de seus deuses. O povo comia e se prostrava perante esses deuses. Assim Israel se juntou à adoração de Baal-Peor. E a ira do Senhor acendeu-se contra Israel. (Nm 25.1-4)

Estava acontecendo na Igreja de Pérgamo o que outrora acontecera com o povo de Israel, em Sitim. Os crentes haviam se envolvidos nas festas pagãs e no mínimo eram cúmplices das imoralidades praticadas ali. A omissão também era um dos pecados dos crentes, pois sabiam que (e que) estavam pecando contra o Senhor, mas não tomavam a decisão de levar o caso ao “tribunal eclesiástico” para ser analisado e solucionado. Observamos que a disciplina ao crente faltoso era negligenciada nesta Igreja e por isso Jesus diz ao pastor da Igreja “tenho contra ti algumas coisas”. A atitude do pastor desta Igreja era até certo ponto elogiável, mas, ele deveria ser integralmente e totalmente ortodoxo tanto em sua vida piedosa como no entendimento teológico.

Jesus também diz que eles sustentavam a doutrina dos nicolaítas. Enquanto a Igreja de Éfeso odiou as obras dos nicolaítas (2.6) a de Pérgamo não somente tolerou, mas deu sustentação ao modo liberal e pernicioso deste grupo. Mas, qual seria de fato o ensino dos nicolaítas? O autor Hernandez Dias Lopes escreve alguma coisa que nos ajuda a sabermos o que esse grupo ensinava e pretendia:

Os nicolaítas ensinavam que o crente não precisa ser diferente. Quanto mais ele pecar maior será a graça, diziam. Quanto mais ele se entregar aos apetites da carne, maior será a oportunidade do perdão. Eles faziam apologia ao pecado. Eles defendiam que os crentes precisam ser iguais aos pagãos. Eles deviam se conformar com o mundo. Por essa razão, o texto nos diz que Cristo odeia a obra dos nicolaítas. Ele odeia o pecado. O que era odiado em Éfeso era tolerado em Pérgamo.

Preciso dizer aos leitores que tomem cuidado para não afirmarem categoricamente que os nicolaítas tem sua origem no diácono Nicolau, escolhido entre os sete pela igreja de Jerusalém (At 6.1-6). Os melhores comentaristas bíblicos não ousam afirmar isso.

Causa-me admiração a postura do pastor da Igreja de Pérgamo, que, tendo ciência de que havia na igreja sob sua liderança um grupo imoral que praticava pecados grotescos, mesmo assim não tomou nenhuma medida cautelar ou disciplinar. Até dá para admitir uma reprimenda de Cristo a uma igreja do tipo inclusiva, como existem muitas atualmente (por exemplo, igrejas evangélicas para homossexuais), mas não a uma igreja que mantinha a fé Nele. Vejo nisso, a chance que o Senhor Jesus está proporcionando ao pastor da Igreja de Pérgamo para que conseguisse enxergar sua irresponsável atitude diante desse triste quadro, que a igreja se arrependesse dos pecados cometidos e ouvisse a voz (a exortação, orientação) do Espírito Santo. A doutrina da santidade e a disciplina ao membro faltoso não pode ser negligenciada, para a saúde espiritual da Igreja de Cristo.

Mesmo diante dessa situação Cristo orienta a Igreja para que se arrependesse dessas ações pecaminosas, que nada mais era a tolerância com os grupos imorais e sectários dentro da Igreja. Se Cristo não admite que esses atos ocorram na Igreja, os crentes devem seguir Seu exemplo. A ferramenta que Cristo usaria contra esses desvios  e seus respectivos grupos, era a “espada da sua boca”, que entendemos ser o registro dos seus ensinos na Bíblia Sagrada.

Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Ap 2:16)

Aos que se arrependessem dos seus pecados Cristo fez duas promessas: dar o maná escondido e uma pedrinha branca com um novo nome. Em primeiro lugar entendemos que o impenitente pecador, que faz parte da membresia local, não pode persistir no seu erro e prosseguir na senda de pecado. Ele deve reconhecer seu estado pecaminoso e buscar a reconciliação com Deus e sua Igreja. Em segundo lugar essa atitude encontrará sua recompensa na vida eterna.  

Quanto ao maná nos dias de Israel no deserto e sua importância leia Êxodo 16.11-15; 16.33,34; Sl 78.24; Hb 9.4. A interpretação mais correta dessa promessa é que

O maná escondido refere-se ao banquete permanente que teremos no céu. Aqueles que rejeitam o luxo das comidas idolatras nesta vida terão o banquete com as iguarias de Deus no céu. Bengel disse que diante desse manjar o apetite pela carne sacrificada a ídolos deveria desaparecer.
O maná era o pão de Jeová (Êx 16.15), cereal do céu (SI 78.24). Era alimento celestial. Os crentes não devem participar dos banquetes pagãos, pois participarão dos banquetes do céu. Jesus é o pão do céu.

Quanto à alusão ao “maná escondido”, o comentarista William Barclay nos oferece a seguinte explicação:

O templo que tinha construído Salomão foi destruído no sexto século a.C; a lenda conta que, ao suceder aquele desastre, Jeremias escondeu o vaso do maná numa greta do Monte Sinai. Os rabinos diziam que ao vir o Messias o vaso seria recuperado. Portanto, para um judeu comer "do maná escondido" significava desfrutar das bênçãos da era messiânica. Jesus era o Messias, e portanto para o cristão, comer do maná escondido significava ingressar na bem-aventurança do Novo Mundo que faria irrupção ao instalar o Reino, quando Jesus abriria os tesouros de sua riqueza aos que lhe pertenciam.

A pedrinha branca pode ter dois significados:

Primeiro, era uma espécie de “entrada” para um banquete. Era considerada um bilhete para admissão à festa messiânica. Segundo, era usada nos tribunais para veredito dos jurados. A sentença de absolvição correspondia a uma maioria de pedras brancas; e a de condenação a uma maioria de pedras pretas. O cristão é declarado justo, inocente, sem culpa diante do Trono de Deus.

Era usada também como bilhete de entrada em festivais públicos. A pedrinha branca é símbolo de nossa admissão no céu, na festa das bodas do Cordeiro. Quem deixa as festas do mundo vai ter uma festa verdadeira onde a alegria vai durar para sempre.

O novo nome tem a ver com uma nova posição, a natureza de uma função, outro papel num plano estabelecido, assim como acontecia com a mudança de nomes nos personagens do Antigo Testamento.

Esta lição é muito importante no sentido de avaliarmos a situação espiritual de cada Igreja evangélica. Uma igreja sem disciplina, onde se admite que um crente em situação de pecado continue nele, onde se tolera heresias e distorções bíblicas, é desfavorável e contraditório dentro do projeto e avanço do evangelho do reino.

Que os líderes espirituais, responsáveis pela condução do “rebanho” do Senhor, tenham inteligência, zelo teológico, imparcialidade no tratamento com os membros da igreja, amor e senso de responsabilidade diante de Deus, de sua Igreja e dos homens.

No amor de Cristo,


BIBLIOGRAFIA:
Lopez, Hernandez Dias. Ouça o que o Espírito diz às Igrejas: uma mensagem de Cristo à sua igreja. Ed: Hagnos, 2010.
Barclay, William. Comentário de Apocalipse. 
Kistemaker, J. Simon. Exposición del Apocalipsis. Ed: Libros Desafio, 2004.



   

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O CULTO SIMPLES


Presb. Manoel Canuto

Temos hoje uma verdadeira batalha em torno da defesa da liberdade religiosa. Muitas entidades, até mesmo não religio­sa, buscam a defesa da livre prática das muitas crenças. E toda esta batalha gira essencialmente em torno do modo como se presta culto à sua divindade. O mundo tem defendido, com poucas exceções, que cada pessoa adore livremente ao seu deus. Alguns, e não poucos, manifestam a opinião de que não se deve condenar nenhuma religião, sob pena de incorrer em condenável crime do preconceito contra a cidadania. Todos dizem que qualquer pessoa tem o “direito” de adorar ao deus que deseja e da forma que imagina. I. G. Vos afirma que se esta palavra “direito” não for bem entendi­da teremos muita confusão e mal entendido. Na verdade há uma diferença entre direito civil e direito moral. O direito civil tem sua validade no âmbito da sociedade humana, mas o direito moral tem validade no âmbito da Lei moral de Deus. Ninguém pode impedir que um homem de muitas posses gaste seu dinheiro em orgias e em práticas mundanas se esse é seu desejo. O que o governo pode e deve fazer é cobrar deste homem, que ele pague seus impostos e não proceda de forma a afrontar ou prejudicar qualquer cidadão. No entanto, quando este homem está diante de Deus, usando des­tas práticas carnais, ele tem de abandoná-las e pensar naquilo que Deus determinou que não deve ser feito, sob pena de ser condenado ao prestar contas no dia do juízo. Assim, podemos entender que a lei civil garante a qualquer pessoa cultuar seu deus como desejar ou até mesmo nunca cultuar, desde que alguma coisa escandalosa não seja praticada, ou não coloque em risco a vida de alguém ou não degrade a sociedade civil.

Mas muitos crentes imaginam que esta lei civil de liberdade reli­giosa deve ser aplicada nas igrejas de hoje. Esquecem que diante da Lei moral de Deus ninguém tem o direito de adorá-lo da forma como deseja. O homem tem uma natureza corrompida e esta corrupção o leva sempre a buscar uma forma impura de cultuar a Deus, mes­mo que suas intenções sejam sinceras. Desde cedo o homem teve de aprender a cultuar ao Criador. Foi-lhe necessário adorar com fé, para que Deus aceitasse sua adoração ─ fé em alguma verdade. O homem tem de adorar crendo na vontade de Deus revelada. Vemos em toda a Escritura que Deus sempre estabeleceu o modo correto do homem adorá-lo. Deus sempre colocou diante do homem princípios para a pureza da adoração. Deus não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem através de qualquer repre­sentação visível. A ênfase é que Deus não pode ser cultuado através de nenhum outro modo que não seja prescrito ou ordenado nas Escrituras. Por isso o crente não pode pensar como o mundo pensa. Sua liberdade religiosa não deve ser vista como uma liberdade para fazer o que deseja, mas como uma libertação das ciladas e amarras de Satanás que o incita a adorar da maneira que ele pensa; o Cristão é liberto de seus pensamentos carnais para fazer a vontade de Deus revelada na Bíblia.

Segundo as Escrituras, o culto não deve ser prestado a anjos, nem a santos, nem a qualquer outra criatura, mas somente a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Deve ser um culto simples através da oração com ações de graça, da leitura das Escrituras, da sã pregação da Palavra, do cântico dos salmos, pela administração correta dos sacramentos e, em ocasiões especiais, com ações de graça, jejum, votos e juramentos. Assim dizem os teólogos de Westminster.

Somos gratos aos reformadores por redescobrirem o culto simples praticado no período apostólico. Dr. Pipa de Greenville ilustra aos seus alunos a simplicidade do culto reformado, dizendo:

Outra maneira de pensar sobre a simplicidade do culto é o que chamo de portabilidade (de portátil) de culto. Portabilidade significa que nós podemos realizar nossa adoração em qualquer lugar. Essa é a sim­plicidade da adoração, nós apenas precisamos de um púlpito, uma mesa para a comunhão, um livro de louvor, um pequeno frasco de água, um pouco de vinho e um pão ─ isso é o suficiente.

Quão diferente dos dias de hoje! Não preciso mencionar as distorções cúlticas praticadas hoje quando este princípio da simplicidade é esquecido.

Deus adverte no 2° mandamento: "porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço miseri­córdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos" (Êx 20.5-6).

______________________________
Sobre o autor:
 Manoel Canuto é presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil. É editor e membro do Conselho Editorial da Revista Os Puritanos, publicação trimestral do Centro de Literatura Reformada (CLIRE).

Fonte: Revista Os Puritanos, ano XVII, nº 04, 2009.


Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org/adoracao/culto-simples-presb-manoel-canuto.html#ixzz1t3nzOjH3
Informe autores, tradutores, editora, links de retorno e fonte. Não é autorizado o uso comercial deste conteúdo. Não edite ou modifique o conteúdo. 

sábado, 21 de abril de 2012

ESMIRNA, A IGREJA CONFESSANTE E MÁRTIR (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

A característica principal da Igreja de Esmirna é o sofrimento que seus membros estavam enfrentando através de perseguições, prisões, falsas acusações e mortes. No entanto, Jesus os conforta com palavras encorajadoras e promessa de recompensa.

Essa situação da Igreja de Esmirna propõe um enorme antagonismo comparado com as intenções das Igrejas atuais onde os critérios estabelecidos, como Igreja vitoriosa, são o triunfalismo, o evangelho da prosperidade, a riqueza material, a ausência de sofrimento, o contentamento apenas com o mundo presente, e outras coisas similares a estas. A essas igrejas, a de Esmirna serve de escândalo e provavelmente modelo de igreja indesejável.

Contudo, ainda que o contexto em que estão inseridas as Igrejas atuais sejam distantes e diferentes das Igrejas da Ásia, a mensagem é a mesma àquelas igrejas que se dizem cristã. Sendo assim, podemos avaliar o quadro atual de muitas igrejas como terrível.

Cristo apresenta-se à Igreja como o Primeiro e o Ultimo, o que esteve morto, mas tornou a viver. São expressões de soberania, domínio absoluto. O autor Hernandez Dias Lopes, citando o comentarista William Hendriksen fornece relevantes informações sobre a cidade de Esmirna. É Interessante notar, diz Hernandez Dias Lopes, que “tudo o que Jesus diz nessa carta à igreja de Esmirna tem a ver com a cidade e com a igreja”. Fica evidente, na citação abaixo, que as qualidades do Senhor é infinitamente superior a beleza citadina, ocupava posição proeminente e que a esperança de vida eterna deveria sobrepor o perigo da morte, devido as perseguições:  

Em primeiro lugar, vemos uma igreja pobre em uma cidade rica. Esmirna era rival de Éfeso, diz William Hendriksen. Era a cidade mais bela da Ásia Menor. Era considerada o ornamento, a coroa e a flor da Ásia. Cidade comercial, onde ficava o principal porto da Ásia. O monte Pagos era coberto de templos e bordejado de casas formosas. Era um lugar de realeza coroado de torres. Tinha um magnífica arquitetura, com templos dedicados a Cibeles, Zeus, Apoio, Afrodite e Esculápio. Hoje essa é a única cidade sobrevivente, com o nome de Izmir, na Turquia asiática, com 255.000 habitantes.

Em segundo lugar, uma igreja que enfrenta a morte em uma cidade que havia morrido e ressuscitado. Esmirna havia sido fundada como colônia grega no ano 1.000 a.C. No ano 600 a. C., os lídios a invadiram e a destruíram por completo. No ano 200 a. C., Lisímaco a reconstruiu e fez dela a mais bela cidade da Ásia. Quando Cristo disse que estivera morto, mas estava vivo, os esmirneanos sabiam do que Jesus estava falando. A cidade estava morta e reviveu.

Jesus conhecia a tribulação que essa Igreja enfrentava. Ele usa palavras que indicam conhecimento da tribulação individual, de cada um dos crentes. Diz Ele: “conheço a tua tribulação”, a tua pobreza”, “dar-te-ei a coroa da vida”. A palavra tribulação dá ideia de “aperto’’, “pressão”, “sufoco”. Essa condição estava levando muitos a abandonarem a fé. Porém, eles não deveriam desistir, pois, estavam sofrendo pelo nome do Cristo ressuscitado, pelo verdadeiro evangelho. Hoje a Igreja é perseguida no campo mental, psicológico, espiritual, mas goza de amplos favores terrenos, e até mesmo políticos, o que não tem sido aproveitado com boa ética e testemunho cristão. Outrora, quando a Igreja cristã deu seus primeiros passos no Brasil, nossos antepassados também foram perseguidos, presos, torturados e mortos (leia sobre a Tragédia de Guanabara aqui).

Não somente sua tribulação era conhecida, mas também sua pobreza (v.9). Continuando com Hernandez Dias Lopes:

George Ladd diz que a pobreza dos esmirneanos não advinha somente de sua situação econômica normal, mas do confisco de propriedades, de bandos hostis que os saqueavam e da dificuldade de ganhar a vida em um ambiente hostil. A pobreza não é maldição.

Havia duas palavras para pobreza: ptocheia e penia. A primeira é pobreza total, extrema. Era representada pela imagem de um mendigo agachado. Penia é o homem que carece do supérfluo, enquanto ptocheia é o que não tem nem sequer o essencial. João usou a palavra ptocheia para descrever a pobreza dos esmirneanos. A pobreza dos crentes era um efeito colateral da tribulação. Ela era resultante de algumas razões: 1) os crentes eram procedentes das classes pobres e muitos deles eram escravos; e os primeiros cristãos sabiam o que era pobreza absoluta; 2) os crentes eram saqueados e seus bens eram tomados pelos perseguidores (Hb 10.34); 3) os crentes haviam renunciado aos métodos suspeitos e, por sua fidelidade a Cristo, perderam os lucros fáceis que foram para as mãos de outros menos escrupulosos.

Que contraste com a Igreja de Laodicéia que se gloriava de ser rica, próspera materialmente, mas, que ouviu de Jesus severas reprimendas, aliás, não recebeu nenhum elogio. Para Deus a igreja a verdadeira riqueza ou prosperidade não é material, mas espiritual. Interessante que o item 1 diz que na Igreja de Esmirna havia muitos escravos. Se fossem membros de certas igrejas atuais ouviriam dos “pastores” que não deveriam continuar como escravos, mas tornarem-se patrões e teriam que “quebrar a maldição” da escravidão. Jesus não diz nada disso, pois ele mesmo “sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (II Co 8.9). Para Ele não é depreciativo se somos pobres ou se somos perseguidos: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, voz injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.11,12).  

Os cristãos de Esmirna eram acusados de coisas que não praticavam. Jesus denomina essas falsas acusações de blasfêmia. Muitos dos que receberam o privilégio de terem os profetas, de serem servos do Deus verdadeiro, de legar ao mundo o Messias e a salvação e de serem possuidores dos oráculos de Deus (Rm 3.2), agora são adjetivados por Jesus de blasfemarem, pois voltaram-se contra o evangelho de Cristo, seus ensinos, e não o reconheciam como o Salvador. Por causa das falsas acusações mentirosas de serem anárquicos, maus cidadãos, ateus, imorais, eles (os judeus religiosos) fazem parte da “sinagoga de Satanás”. Jesus está rechaçando a falsa religiosidade, pois estavam perseguindo os seguidores de Jesus Cristo, mas diante das pessoas se portavam como zelosos da Lei.

Segundo o versículo 10 algumas pessoas que perseguem (por extensão todos os tipos de perseguição) os verdadeiros cristãos, os que temem ao Senhor, quer seja no trabalho, na escola, em qualquer outro ambiente, e até mesmo dentro da Igreja, de fato estão sendo instrumentos de Satanás: “Eis que o Diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós”. São agentes do Diabo, a serviço dele para desestimularem os servos de Cristo. Os verdadeiros crentes de Esmirna sofreriam a prisão física, seriam encarcerados, por amor a Cristo. Ser preso naquela época não era nada fácil. Possivelmente morreriam na prisão, de fome, maus tratos, doenças.

Contudo, há uma promessa de esperança aos fiéis de Esmirna: receberiam a coroa da vida. Replica a mensagem o apóstolo João: Sê fiel até a morte. Segundo comentaristas bíblicos os cidadãos de Esmirna eram fiéis a Roma. Hernandez Dias Lopes comenta que:

Aqueles crentes eram pobres, perseguidos, caluniados, presos e agora estavam sendo encorajados a enfrentar a própria morte, se fosse preciso. A questão em destaque aqui não é ser fiel até o último dia da vida, mas fiel até o ponto de morrer por essa fidelidade. E preferir morrer a negar a Jesus. Jesus foi obediente até a morte e morte de cruz. Ele foi da cruz até à coroa. Essa linha também foi traçada para a igreja de Esmirna: "Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida" (Ap 2.10). Desta forma, a igreja de Esmirna não é candidata à morte, mas à vida.


Na Igreja de Esmirna havia autênticos cristãos que estavam dispostos a entregar sua vida em sacrifício a Cristo, literalmente.

Policarpo, o bispo da igreja, discípulo de João, foi martirizado no dia 23/02/155 d.C. Ele foi apanhado e arrastado para a arena. Tentaram intimidá-lo com as feras. Ameaçaram-no com o fogo, mas ele respondeu: "Eu sirvo a Jesus há oitenta e seis anos, e ele sempre me fez bem. Como posso blasfemar contra o meu Salvador e Senhor que me salvou?" Os inimigos furiosos, queimaram-no vivo em uma pira, enquanto ele orava e agradecia a Jesus o privilégio de morrer como mártir.

A mensagem (v.10) prossegue afirmando que, aos fiéis, ainda que fossem mortos por amor ao evangelho, receberiam a coroa da vida. A Bíblia de Estudo de Genebra anota o seguinte:


A deusa Cibele de Esmirna é retratada em moedas com uma coroa, seguindo o modelo das muralhas da cidade. Dizia-se que as construções no Monte Pagos de Esmirna se pareciam com uma coroa. Em oposição a estes conceitos, Jesus promete dar a coroa verdadeira.

A mensagem a Igreja de Esmirna é um grande desafio ao evangelho triunfalista do nosso tempo. Sofrer por amor a Cristo, não é vergonhoso e nem maldição. Ser fiel aos valores secularizados do mundo, aos ditames dos formadores de opinião, ao liberalismo apregoado, não condiz com os requisitos dos verdadeiros servos de Cristo.

Que o Senhor nos ajude a enfrentarmos as tribulações do mundo corrente, e do sistema orquestrado pelo diabo. Que sejamos fiéis e suportemos os sofrimentos, pois somos peregrinos nesse mundo. Nosso alvo é a vida eterna ao lado do Cristo da Igreja de Esmirna.

Em Cristo,

BIBLIOGRAFIA:
Lopes, Hernandes Dias. Ouça o que o Espírito diz às Igrejas: uma mensagem de Cristo ã sua igreja. São Paulo: Hagnos, 2010.
Kistemaker, Simon J. Exposicion del Apocalipis. Libros Desafio, 2004.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O PRINCÍPIO REGULADOR DE CULTO

NOTA: Nas aulas de teologia que leciono percebo o desconhecimento do que seja Princípio Regulador de Culto. A postagem abaixo proporciona a oportunidade de conhecimento. Leia com atenção, analise, avalie e tire suas conclusões.


por Matthew McMahon

O Princípio Regulador do Culto recebeu sua forma clássica e definitiva nas confissões de fé reformadas do século XVII. Foi editado em linguagem idêntica na Confissão de Fé de Westminster e na Confissão Batista Londrina de 1689. Desta última extraímos a seguinte afirmativa:


“A luz da natureza mostra que existe um Deus, que tem senhorio e soberania sobre todos, que é justo, bom, e faz o bem a todos; e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido, de todo o coração, de toda a alma, e com todas as forças. Mas a maneira aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instituída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por sua própria vontade revelada, para que Deus não seja adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas, nem com as sugestões de Satanás, nem por meio de qualquer representação visível ou qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras”.

O Princípio Regulador do Culto afirma apenas isto: “O verdadeiro culto é ordenado somente por Deus; o falso culto é algo que Ele não ordenou”. Este era o conceito puritano a respeito do culto. Nas palavras de Samuel Waldron:


“Parece que um dos obstáculos de ordem intelectual que impede os homens de aceitarem o Princípio Regulador é que este envolve a idéia de que a igreja e seu culto foram ordenados de maneira diferente do restante da vida. No que concerne ao restante da vida, Deus estabelece para os homens os grandes e abrangentes princípios de sua Palavra e, de acordo com os limites estabelecidos nestas orientações, permite que eles conduzam suas vidas da melhor forma que puderem. Ele não dá aos homens orientações detalhadas sobre como devem edificar suas casas ou seguir carreiras seculares. O Princípio Regulador, por outro lado, envolve uma limitação na iniciativa da vontade humana, o que não é característico no que se refere ao restante de nossa vida. Evidentemente, isto admite que existe uma diferença entre a maneira como o culto da igreja deve ser regulado e a maneira como o restante da sociedade e a conduta humana devem ser ordenadas. Portanto, o Princípio Regulador está sujeito a ofender muitas pessoas, por considerarem-no como opressivo, específico e, por conseguinte, sob suspeita, por não estar de acordo com a maneira de Deus lidar com os homens e orientar os outros aspectos de nossa vida”.

Esta declaração é muito acertada, e reflete algo que realmente tem acontecido.
           
Não obstante, devemos considerar apropriado o fato de que a casa de Deus e a vida de seu povo são regulamentadas pelas normas e preceitos dEle. Temos de reputar apropriado o fato de que a adoração acompanhada de reverência, amor, devoção e regozijo em Deus seja fundamentada e regulada de acordo com as Escrituras e os princípios estabelecidos por Ele. A adoração para o crente deve ser uma expressão do amor de Deus retornando para Ele mesmo. Temos de expressar-Lhe quão maravilhoso e bendito Ele é. Portanto, é impossível adorá-Lo através de invenções e ingenuidades dos homens. É impossível adorá-Lo em uma atmosfera que não foi estabelecida e ordenada por Ele e sua Palavra. O Princípio Regulador, que encontramos na Bíblia e, fielmente expresso pelos puritanos, não deve ser deixado de lado porque nós e a cultura contemporânea somos mais fascinados e atraídos pelo entretenimento do que pela adoração a Deus.

Os puritanos presbiterianos, ao formular os artigos da Confissão de Westminster, e os batistas reformados, na Confissão de Fé de 1689, tinham o mesmo alvo: o culto aceitável a Cristo. Primeiramente, vamos considerar a Confissão de 1689 e veremos os argumentos bíblicos que apóiam sua afirmativa sobre adoração. Esta confissão diz:

“A luz da natureza mostra que existe um Deus, que tem senhorio e soberania sobre todos, que é justo, bom e faz o bem a todos; e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido, de todo coração, de toda a alma, e com todas as forças”.

Nesta afirmação podemos ver os argumentos bíblicos e filosóficos para a existência de Deus precedendo aqueles que dizem respeito a adoração a este Deus existente. Se utilizássemos argumentos apologéticos, a própria luz da natureza nos levaria à conclusão de que existe um Deus.

Ele é o soberano Senhor do universo. Isto não significa apenas que Deus é soberano, mas também que Ele é soberano sobre todos, governando sobre todos os seres viventes, todas as criaturas, e átomos, e em todas as partes do universo. Ele é Deus sobre todas as coisas! Se existe um Deus que é bondoso, justo e faz o bem a todos ou, pelo menos, pode fazer o bem a todos, Ele tem de ser adorado, temido, amado, invocado, servido e nEle devemos confiar, com todo nosso coração, alma e forças. Se este Deus é santo, então existe uma maneira correta de nos aproximarmos dEle. De acordo com sua Palavra, o Senhor Jesus Cristo deu à humanidade não apenas a habilidade de aproximar-se mas também todas as diretrizes pelas quais podemos nos achegar a Deus. A expiação realizada por Cristo assegura isto aos eleitos. Em essência, a Confissão Batista de 1689 afirma que temos de servir a Deus simplesmente porque Ele é Deus. Deste modo, podemos observar que os puritanos batistas não podiam iniciar apenas afirmando como o culto a Deus deveria ser orientado e realizado, sem primeiro falarem algo sobre o Deus que temos de adorar.

A segunda parte do parágrafo diz o seguinte:

“Mas a maneira aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instituída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por sua própria vontade revelada, para que Deus não seja adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas, nem com as sugestões de Satanás, nem por meio de qualquer representação visível ou qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras”.

O vocábulo “aceitável”, cuidadosamente escolhido e utilizado, implica existir um modo inaceitável de adorar a Deus. E, visto que a adoração foi instituída por Deus, está limitada por aquilo que Ele revelou a respeito de Si mesmo. Somente o que lemos nas Escrituras, que expressamente estabelecem certas condições para o culto, constituem o culto aceitável. Aquilo que o homem procura fabricar, inventar, acrescentar e retirar ou aquilo que ele pode ser tentado a fazer por ouvir o diabo não é adoração aceitável a Deus. E os puritanos estavam certos ao afirmar que o culto a Deus não poderia ser realizado através de qualquer representação visível ou de qualquer outra maneira não prescrita nas Escrituras. Por isso, eles combateram a idolatria do catolicismo romano, bem como suas imagens, ídolos e qualquer tipo de “culto da vontade” (logo falaremos sobre o “culto da vontade”). Portanto, na Confissão Batista de 1689, os puritanos tinham como alvo a pureza do culto, ou seja, aquele que agrada a Deus, fundamentado exclusivamente na Bíblia. Eles não permitiriam, em boa consciência, que o homem pecador determinasse por que meios eles mesmos se aproximariam de Deus. E não é possível que qualquer cristão saudável imagine estar tão acima do pecado, que se ache capaz de mostrar para Deus a maneira pela qual se aproximaria dEle. Somente Deus, que é santo e puro, pode determinar, por Si mesmo, a maneira pela qual os seres humanos podem aproximar-se dEle.

Na Confissão Batista de 1689, existem quatro argumentos dos puritanos em favor do Princípio Regulador da igreja e de seu culto. Primeiro: somente a Deus pertence a prerrogativa de determinar os termos pelos quais os pecadores se aproximam dEle, em adoração. Samuel Waldron citou James Bannerman em seu folheto sobre o Princípio Regulador:

“O Princípio Fundamental que alicerça todo o argumento é este: em relação à ordenança do culto público, compete a Deus e não ao homem determinar tanto os termos quanto o modo pelo qual ele deve ser realizado. O caminho para nos aproximarmos dEle foi obstruído e fechado em conseqüência do pecado do homem; para este era impossível renovar o relacionamento que solenemente havia sido interrompido pela sentença judicial que o excluía da presença e favor de Deus. Aquele caminho seria aberto novamente, e a comunhão entre Deus e o homem, restabelecida? Isto era algo que somente Deus poderia determinar. Se isto aconteceria, em que termos aconteceria esse restabelecimento? De que maneira seria outra vez mantida a comunhão entre a criatura e seu Criador? Isto também era algo que somente Ele poderia resolver.”

Com efeito, Deus é justo em suas prerrogativas, e a Bíblia demonstra que Ele exerce suas prerrogativas (Gn 4.1-5; Êx 20.4-6). Se Deus tivesse decretado que seria adorado somente por aqueles que usam camisas brancas, teria o direito de fazê-lo. Se Ele tivesse ordenado que todo crente deve usar camisas brancas para adorá-Lo, posso imaginar que todos os crentes, porque amam seu Senhor, sairiam e comprariam muitas, a fim de jamais ficar em falta. Eles viriam aos cultos da igreja usando as camisas brancas que Deus lhes ordenou usarem para sua adoração. Deus é o único que regula nossa adoração. Quão arrogantes são os homens ao se imaginarem no direito de determinar, numa pequena parte que seja, como Deus será adorado!

O segundo argumento no princípio puritano sobre o culto é este: a introdução de práticas extra bíblicas tende inevitavelmente a anular e menosprezar o culto designado por Deus (Mt 15.3, 8, 9; 2 Rs 16.10-18). A passagem de 2 Reis 16.10-18 foi bem explicada por Samuel Waldron. Ele afirmou que aquele relato é uma maravilhosa ilustração do modo pelo qual práticas extra bíblicas inevitavelmente, e, com freqüência, de forma muito sutil, substituem a maneira designada por Deus. Waldron nos mostra que o rei Acaz, em sua apostasia e aliança com a Assíria, determinou em seu coração ter um altar semelhante ao que vira em Damasco. Acaz ordenou a construção daquele altar e que fosse colocado no lugar central do templo, antes ocupado pelo altar de bronze. O novo altar substituiu o anterior como o local onde os sacrifícios regulares, da manhã e da tarde, seriam oferecidos. Mas o altar designado por Deus não seria destruído. É claro que não! Seria apenas colocado em um canto (v. 14). Em uma observação em seu decreto sobre o assunto, o rei Acaz assegurou aos seus mais tradicionais súditos que não pretendia insultar o velho altar designado por Deus. O decreto terminava com estas palavras: “O altar de bronze ficará para a minha deliberação posterior” (v. 15). Os inovadores com seus lábios reconheciam os elementos de culto designados por Deus e, ao mesmo tempo, no exercício de tal adoração, acabavam anulando o valor de tais elementos. Isso ilustra admiravelmente a sutileza com que as práticas não ordenadas pela Bíblia tendem a substituir o culto designado pelas Escrituras. Essa tendência é constatada em igrejas evangélicas nas quais programas ingênuos ou mundanos, shows e apresentações musicais, oportunidades para testemunho, coreografias e mímicas, teatro, marionetes, danças e filmes cristãos assumem completamente o lugar ou restringem os ele- mentos de adoração ordenados nas Escrituras.

O terceiro argumento envolvido no princípio que os puritanos extraíram das Escrituras foi este: se os homens, pecadores, tivessem de acrescentar ao culto qualquer elemento não ordenado por Deus, eles estariam, por meio dessa atitude, questionando a sabedoria do Senhor Jesus e a plena suficiência das Escrituras. Em 2 Timóteo Paulo afirma: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3. 16-17). O homem de Deus mencionado nestes versículos não se refere a todo crente. Existem razões convincentes para identificarmos “homem de Deus” como uma referência a homens como Timóteo, que tinham o encargo de estabelecer a ordem e a liderança na igreja de Deus. Os presbíteros de uma igreja devem utilizar as Escrituras de tal maneira que estabeleçam e regulem a maneira como o culto será realizado. Eles não fazem isso impondo suas próprias idéias a respeito; pelo contrário, eles o fazem por manterem-se fiéis à Palavra de Deus, implementando o que Deus afirma e deseja no que concerne à adoração celebrada por seu povo. Portanto, as Escrituras são capazes de habilitar completamente o homem de Deus para toda boa obra na igreja de Deus, para a glória dEle através da adoração.

Em quarto lugar, os puritanos eram inflexíveis em provar que a Bíblia condena todo culto que não foi ordenado por Deus. Eis alguns textos que compravam isto: Levítico 10.1-3; Deuteronômio 17.3; 4.2; 12.29-32; Josué 1.7; 23.6-8; Mateus 15.8-9, 13; Colossenses 2.20-23. Consideremos Levítico 10.1-3 e as duas passagens citadas do Novo Testamento.

Levítico 10.1-3 afirma: “Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR. E falou Moisés a Arão: Isto é o que o SENHOR disse: Mostrarei a minha santidade naqueles que se cheguem a mim e serei glorificado diante de todo o povo. Porém Arão se calou” (Lv 10.1-3). Esta passagem inicialmente nos mostra que Nadabe e Abiú achegaram-se a Deus, para oferecer-Lhe incenso, mas Deus não o aceitou. Ele não se agradou do que aqueles homens Lhe estavam ofertando. Nadabe e Abiú ofereceram “fogo estranho”. Esta expressão é bastante admirável. Deus jamais havia dito que alguém não Lhe poderia oferecer aquele tipo de fogo. Você pode examinar toda a Bíblia, a fim de em vão procurar o mandamento que lhes proibia de fazer isso. Pelo contrário, descobriremos o que Deus positivamente havia dito. Embora não tenha proibido que alguém Lhe trouxesse esse fogo estranho, o texto bíblico nos mostra que Deus não o aprovou e matou os homens que o ofereceram. Nadabe e Abiú determinaram por si mesmos oferecer algo que Deus não havia expressamente pedido; e, por causa disso, foram “consumidos” pelo Senhor. O princípio aqui estabelecido permanece verdadeiro: Deus será “santificado” naqueles que se aproximam dEle. Isto significa que seu povo haverá de considerá-Lo “santo”, ou seja, completamente separado. Deus será glorificado, ou através da execução de sua justiça sobre homens que oferecem fogo estranho, ou através da correta adoração. O pecado de Nadabe e Abiú consistiu em oferecer a Deus aquilo que Ele não havia ordenado. Deus não havia previamente ameaçado de matá-los, se oferecessem fogo estranho; mas, apesar disso, Ele os matou. Este fato nos mostra que temos de fazer uma exegese cuidadosa da Palavra de Deus, para encontrarmos seu exato significado e nós mesmos não sermos vítimas da ira divina. Ele é exigente no que se refere ao seu culto.

A segunda passagem que desejamos considerar é Mateus 15.8-9: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”. Esta é uma declaração notável. Jesus mostra que pessoas, embora professem o nome dEle, realmente não O possuem, porque não O adoram em verdade. Elas O honram com seus lábios; declaram-se cristãs, dizem que O amam e afirmam muitas outras coisas. (Observe que nesta passagem da Bíblia Jesus estava falando sobre os fariseus, que pareciam ter sua religião caprichosamente empacotada com o rótulo “justo para Deus”.) Mas Jesus prosseguiu e declarou que os corações daqueles homens estavam longe dEle; estavam em outro lugar, bem distante. Não pertenciam a Cristo. Eles realmente não O adoravam. Pelo contrário, acrescentavam coisas à adoração divina e, deste modo, ensinavam como “doutrinas” (ou verdades do evangelho) as vãs imaginações dos homens. Os mandamentos criados por homens (tais como acréscimos ao culto) são condenados, porque em verdade não honram a Cristo. O homem não recebeu o direito de criar a atmosfera do culto e do aproximar-se de Deus. Jesus condena essa atitude da parte do homem.

A terceira passagem que desejamos examinar é Colossenses 2.20-23: “Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade”.

Nesta passagem, o apóstolo Paulo estava refutando a falsa adoração que os homens impõem sobre as demais pessoas. O culto que não está alicerçado na correta orientação fornecida pelas Escrituras é chamado de “culto da vontade”. Em essência, é uma adoração do “ego”, porque procede do “ego” e das coisas que o agradam. O “culto da vontade” acontece quando fatores humanos são os agentes pelos quais realiza-se a adoração. Com freqüência, ele ocorre quando o auditório diz ao pastor o que deve ser pregado e como o culto deve ser realizado. Muitas vezes a igreja satisfaz o mundo e cria uma atmosfera “não- agressiva” a este, de modo que as pessoas do mundo encham a igreja. Infelizmente, esta se torna semelhante ao mundo, ao invés de conversões de almas transformarem o mundo na igreja. A adoração se torna uma questão de gosto e conveniência. Os desejos humanos se tornam o elemento decisivo. Imaginem se Nadabe e Abiú pudessem visitar igrejas contemporâneas, eles cairiam de joelhos e lamentariam amargamente ao reconhecer que seu pecado ainda é praticado, e com grande complacência e aceitação em nossos dias.

Os puritanos desejavam um culto simples e bíblico; regulavam-no pelas Escrituras, ao invés de o realizarem de acordo com a vontade deles mesmos. Eles não tinham qualquer desejo de oferecer “fogo estranho”, embora este fosse bastante “estimulante” ao auditório. Não estavam interessados em montar um “show”. Quando Elias estava no monte Carmelo (1 Reis 18), ele perguntou ao povo se eles queriam seguir a Deus ou a Baal. Ao ser confrontado por esta pergunta, o povo ficou em silêncio. Quando Elias declarou que desejava ter uma “competição” (um “show”) com os sacerdotes de Baal, o que aconteceu ao povo? Todos ficaram bastante interessados. “Sim, vamos ter um show.” E tiveram. Com igrejas contemporâneas dá-se o mesmo. Elas querem “show”; desejam que caia fogo do céu, que a igreja realize algo espetacular ou, pelo menos, promova tanto entretenimento quanto possível. Mas isso não agrada a Deus. E, se não fosse por causa da misericórdia de Deus, muitos hoje talvez fossem consumidos, assim como Nadabe e Abiú o foram.

Fonte: http://www.editorafiel.com.br/artigos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ESMIRNA - A RECOMPENSA PROMETIDA (Subsidio EBD)

William Barclay

Jesus Cristo não deverá nada a ninguém; Ele dá a recompensa de nossa lealdade. Ele não deixará de vir em seu momento oportuno. Nesta passagem mencionam-se duas recompensas.

(1) Há a coroa de vida. No Novo Testamento menciona-se a coroa de vida em várias oportunidades. Aqui e em Tiago 1:12 trata-se da coroa de vida. Paulo fala da coroa da justiça (2 Timóteo 4:8), e da coroa de alegria (1 Tessalonicenses 2:19). Pedro fala da coroa de glória (1 Pedro 5:4). Paulo estabelece um contraste entre a coroa eterna do cristão e a coroa perecível de louro que era o prêmio dos vencedores nos jogos atléticos (1 Coríntios 9:25) e Pedro fala de uma coroa de glória que nunca perde seu brilho (1 Pedro 5:4).

O "de" que aparece em cada uma destas expressões refere-se ao material de que estão feitas as coroas. Menciona-se, então, uma coroa que é feita de glória, de justiça, de beleza, de vida. Ganhar a coroa da justiça, da glória, da vida, é ser coroado de justiça, de glória, de vida.

Devemos entender bem a idéia que há por trás desta palavra "coroa". Em grego há duas palavras para dizer "coroa". Uma é diadema, que é a coroa real, e a outra é stefanos, uma palavra que em geral se relaciona com momentos de alegria e vitória. Vejamos quais são as distintas classes de stefanoi (este é o plural de stefanos) que se conheciam na antiguidade.

(a) A primeira que vem à mente é a coroa que recebiam os vencedores nos jogos atléticos. Esmirna celebrava anualmente jogos que eram famosos em toda a Ásia.

Como nos Jogos Olímpicos (que eram os mais famosos de todos) a retribuição dos vencedores era uma coroa de louro. O cristão pode ganhar a coroa de louro da vitória na luta da vida.

Pode correr a carreira da vida e estar seguro de que no final dela será coroado o atleta vitoriosa de Cristo.

(b) Quando alguém executava de maneira eficiente e fiel a tarefa de magistrado, ao terminar seu tempo de serviço era-lhe outorgada uma coroa. A coroa era a recompensa pela fidelidade no cumprimento de uma tarefa. Aquele que serve fielmente a Cristo e a seu  próximo ao longo de toda uma vida de discipulado receberá sua coroa.

(c) No mundo pagão era costume de usar coroas e arranjos de flores nas festas e banquetes. A coroa era um símbolo da alegria festiva. Ao terminar a vida, quando o cristão foi leal, terá a alegria de participar do banquete celestial como hóspede e convidado de Deus.

(d) Os adoradores pagãos tinham o costume de pôr na cabeça uma coroa quando iam ao templo de seus deuses. A coroa era uma forma de assinalar o fato de que se ia comparecer perante Deus. Ao terminar sua vida o cristão que tenha sido fiel terá a alegria de comparecer perante a presença de Deus.

(e) Por último, alguns eruditos pensaram que nesta menção de uma coroa, faz-se referência ao halo ou auréola que rodeia os seres divinos e os santos nas representações pictóricas. Se fosse assim, o significado é que os cristãos, se forem fiéis a seu chamado, serão coroados com a vida que pertence exclusivamente a Deus. Tal como dissesse João: “Seremos semelhantes a Ele, porque haveremos de vê-lo como Ele é” (1 João 3:2).

É possível que nesta vida a lealdade a Cristo também ponha sobre a cabeça do cristão uma coroa de espinhos, mas na vida vindoura não há dúvida que levará a coroa de glória.

(2) Cipriano usa duas grandes expressões para descrever os que são fiéis até a morte. Diz que são "ilustres, com a nobreza de um bom nome" e "a coorte de mantos brancos entre os soldados de Cristo". Os fiéis recebem outra promessa: Não serão danificados pela segunda morte. "A segunda morte" é uma frase misteriosa que em todo o Novo Testamento somente aparece no livro do Apocalipse (20:6, 14; 21:8). Os rabinos usavam essa mesma frase quando referiam-se "à segunda morte que morrerão os ímpios no outro mundo". Esta frase tem duas origens.

(a) Entre os judeus os saduceus criam que depois da morte não havia absolutamente nada; os epicureus, entre os gregos, sustentavam a mesma doutrina. Encontramos tais conceitos inclusive no Antigo Testamento, porque o cético livro do Eclesiastes é obra de um saduceu. "Melhor é cão vivo que leão morto" (Eclesiastes 9:4-5). Para os saduceus e os epicureus a morte era a aniquilação total, a obliteração, a extinção, o fim último mais além do qual não havia absolutamente nada. Para o judeu ortodoxo isto era muito fácil, pois significava dizer que o crente fiel e o incrédulo teriam o mesmo fim (Eclesiastes 2:15,16; 9:2).

Portanto, chegaram a sustentar que havia algo assim como duas mortes — a morte física, que devem atravessar todos os homens, e uma segunda morte, depois da morte física que era o juízo divino.

(b) Tudo isto está intimamente relacionado com as ideias que estudávamos quando falamos da palavra "paraíso" (2:7). Vimos que muitos judeus e alguns pensadores cristãos primitivos criam que havia um estado intermediário por aquele que passavam todos os homens, no qual esperavam até o dia do juízo. Se as coisas sucedessem assim, poderia falar-se literalmente de duas mortes: a física e a outra, que sofreriam somente os que fossem condenados no tribunal de Deus.

Ninguém pode falar com total confiança com relação a estas coisas.

Mas quando João diz que os fiéis não serão danificados pela segunda morte, dizia exatamente o mesmo que Paulo quando afirmava que não há nada, na vida ou na morte, que possa nos separar do amor de Deus em Jesus Cristo. O crente fiel está seguro na vida e na morte (Romanos 8:38, 39).

ESMIRNA – OS TÍTULOS DE CRISTO E SUAS EXIGÊNCIAS (Subsidio EBD)

William Barclay

Vimos que a Igreja em Esmirna estava lutando contra dificuldades e que a ameaçavam dificuldades ainda maiores no futuro imediato. É porque o autor tem isto em mente que a carta começa com a menção dos títulos atribuídos a Cristo, nos quais ele nos sugere quais são as coisas que Cristo pode oferecer aos que se veem frente a uma situação similar à que viviam os cristãos em Esmirna.

(1) Cristo é o primeiro e o último. No Antigo Testamento este título pertence a Deus. Isaías ouviu Deus dizer. “Eu sou o primeiro e Eu sou o último” (Isaías 44:6; 48:12). Este título tem dois aspectos. Para o cristão é uma magnífica promessa. Seja o que for que aconteça do primeiro dia da vida até o último, com toda a colorida variedade de experiências que podem suceder, sejam boas ou más, o Cristo ressuscitado está conosco.

Temos sua palavra de que Ele estará conosco sempre, até o fim do mundo. A quem temeremos, então? Quem poderá nos assustar? Mas para os pagãos de Esmirna estas mesmas palavras são uma advertência. Amavam a sua cidade. Chamavam-na a primeira da Ásia e estavam dispostos a discutir com qualquer pessoa sua qualidade de principal. Viviam num mundo pequeno de vaidade provinciana, no qual todos competiam para ser melhores que os demais e ascender um degrau acima dos outros. Todos queriam ocupar os primeiros lugares e se esforçavam para obtê-los. Mas o Cristo ressuscitado diz “Eu sou o primeiro e o último”. Aqui se põe fim a todo orgulho humano. Junto à glória de Cristo todos os nossos títulos ficam reduzidos ao ridículo, carecem de importância real.

Quando o imperador Juliano fracassou em seu intento de fazer retroceder a trás a história, eliminando o cristianismo e restaurando a religião pagã, e quando seus esforços lhe custaram à vida, exclamou, antes de morrer: “Não era para eu expulsar a Cristo do lugar mais destacado”. O posto de preeminência pertence Àquele o que é o primeiro e o último; junto a Ele todas as nossas glórias humanas não são mais que vaidade.

(2) Cristo é aquele que esteve morto e tornou a viver. Neste versículo os tempos dos verbos são de primeiríssima importância. A palavra grega que traduzimos “esteve” é genomenos, que pode traduzir-se, com maior fidelidade, “chegou a estar”. Descreve um episódio, uma experiência transitiva, algo que sucedeu a alguém. Quando Cristo esteve morto, para Ele a morte foi uma experiência transitiva, um episódio de sua vida. Experimentou a morte e a venceu, e já não esteve mais morto.

Quanto à palavra “tornou a viver”, devemos notar que se trata de um verbo no tempo passado (em aoristo no grego), que descreve uma ação já realizada de maneira completa. A tradução correta seria “voltou à vida de uma vez por todas”. Faz-se referência, é obvio, ao evento da ressurreição. O Cristo ressuscitado é Aquele que experimentou a morte, passou através da morte, e saiu da morte; voltou a viver, triunfante, pela ressurreição, e está vivo para sempre jamais. Aqui também há dois aspectos, mas desta vez ambos são para que o cristão tome nota deles.

(a) O Cristo ressuscitado tem a experiência do pior que a vida nos pode oferecer. Sofreu a agonia e a agonia de uma cruz. Não importa o que suceda aos cristãos de Esmirna, Cristo tinha vivido ainda pior. Jesus Cristo pode nos ajudar porque Ele conhece as maiores amarguras da vida, e ainda tem experiência da morte. Nada nos pode suceder que não tenha sucedido, e ainda pior, a Ele.

(b) O Cristo ressuscitado conquistou o pior que a vida pode nos oferecer. Triunfou sobre a dor, triunfou sobre a cruz, triunfou sobre a morte. Não nos oferece algo que Ele mesmo não tenha conquistado em sua própria experiência e vida. E o que nos oferece é o caminho para uma vida vitoriosa.

Mas nesta passagem também há uma exigência, e a exigência nos pede lealdade. A exigência do Cristo ressuscitado é que seu povo lhe seja fiel até a morte, fiel mesmo quanto à própria vida seja o preço dessa fidelidade. A lealdade era uma virtude que os habitantes de Esmirna conheciam muito bem, porque sua cidade tinha comprometido seu destino com Roma e se manteve leal, até em épocas quando a grandeza de Roma não era mais que uma remota possibilidade. Nas horas boas e nas horas más manteve-se fiel a seu compromisso inicial. Não há nada neste mundo que possa ocupar o lugar da lealdade. Se todas as outras boas qualidades Que pode ter a vida fossem postas num pires da balança, e a lealdade, sozinha, no outro, a lealdade moveria o fiel da balança a seu favor.

R. L. Stevenson rogava a Deus que “na diversidade de minha fortuna, até que chegue a atravessar os portais da morte, sejamos leais e nos amemos mutuamente”.

O Cristo ressuscitado nos faz grandes ofertas e uma grande exigência. E é somente na fortaleza e na coragem que nos oferece que podemos satisfazer a lealdade que pede de nós.

ESMIRNA – A CAUSA DOS PROBLEMAS (Subsidio EBD)

William Barclay

Os instigadores das perseguições eram os judeus. Era deles que provinham as calúnias. Em repetidas ocasiões, nos Atos dos Apóstolos, vemos como os judeus convenciam as autoridades para que tomassem medidas contra os pregadores cristãos. Sucedeu em Antioquia (Atos 13:50), em Icônio (Atos 14:2, 5), em Listra (Atos 14:19) e em Tessalônica (Atos 17:5).

A história do que sucedeu em Antioquia é um bom exemplo de como agiam os judeus. Em Atos diz que os judeus conseguiram comover um grupo de mulheres honoráveis e aos principais homens da cidade (Atos 13:50). Em torno da sinagoga se reuniam, habitualmente, muitos homens e mulheres “temerosos de Deus”. Estes eram gentios que embora criam em Deus não estavam dispostos a aceitar o judaísmo até suas últimas consequências nem desejavam tornar-se prosélitos; eram atraídos pela pregação sobre um só Deus em lugar das teorias pagãs sobre muitos deuses, e em especial a pureza da ética judia, em comparação com a lenidade e a luxúria que, em matéria sexual, era comum entre os pagãos. Eram especialmente as mulheres as que se sentiam atraídas ao judaísmo, por estas razões. Muito frequentemente estas mulheres eram de alta posição social, esposas de magistrados e governadores, e era mediante estas que os judeus influíam sobre as autoridades para que perseguissem os cristãos. Os judeus dispunham de molas — que certamente eram muito efetivas — para fazer com que as autoridades romanas tomassem medidas contra a Igreja.

João chama os judeus de “a sinagoga de Satanás”. Aqui João está usando uma expressão que era muito comum entre os judeus, ainda que nele assume o significado inverso. Quando os judeus se reuniam gostavam de autodenominar-se “a assembleia do Senhor” (Números 16:3; 20:4; 31:16). A palavra “sinagoga” significa literalmente “reunião”, “assembleia” ou “congregação”. É como se João estivesse dizendo: “Vocês se chamam a Assembleia de Deus quando, em realidade, não são senão uma assembleia de Satanás, o Diabo”.

Em certa oportunidade João Wesley replicou a uns homens que estavam apresentando uma imagem crua, cruel e selvagem de Deus. “Seu Deus é meu diabo”. É terrível quando uma religião converte-se em instrumento do mal, da crueldade ou da selvageria.

Nos dias da Revolução Francesa Madame Roland pronunciou suas palavras famosas: “Liberdade, que crimes se cometem em teu nome!”.

Houve tempos trágicos nos quais poderia ser dito o mesmo com relação à religião.  Quais eram as calúnias que se levantavam contra os cristãos? Havia seis calúnias que era moeda corrente em todo o mundo antigo:

(1) Baseando-se nas palavras da comunhão — isto é o meu corpo, isto é o meu sangue — corria a história de que os cristãos eram canibais.

(2) Porque os cristãos chamavam ágape a suas ceias fraternais (onde se celebrava a Eucaristia), e essa palavra em grego significa “amor”, dizia-se que os cristãos praticavam orgias de luxúria desatada e terrível imoralidade.

(3) Sendo um fato que o cristianismo muitas vezes dividia as famílias quando alguns de seus membros se convertiam e outros seguiam sendo pagãos, acusava-se a Igreja de ameaçar a estrutura familiar e interferir nas relações entre maridos e esposas, pais e filhos, etc.

(4) Os pagãos acusavam os cristãos de ateísmo porque não podiam compreender um culto no qual não havia imagens da divindade que se honrava, como em seus templos.

(5) Os cristãos eram acusados de serem cidadãos desleais e potenciais revolucionários, visto que negavam-se a dizer “César é o Senhor”.

(6) Os cristãos eram acusados de serem incendiários, porque profetizavam o fim do mundo numa grande conflagração cósmica com fogo.

Não era difícil para as pessoas maliciosas disseminarem rumores  perigosos e calúnias infamantes com relação à Igreja.