sábado, 28 de abril de 2012

A MUNDANIZAÇÃO DA IGREJA DE PÉRGAMO (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

O pastor da Igreja de Pérgamo foi elogiado por causa da sua fidelidade e firmeza na fé em Cristo Jesus.

Ao anjo da igreja em Pérgamo escreva [...] Sei onde você vive, onde está o trono de Satanás. Contudo, você permanece fiel ao meu nome e não renunciou à sua fé em mim, nem mesmo quando Antipas, minha fiel testemunha, foi morto nessa cidade, onde Satanás habita. (Ap 2.12,13)

Porém, paradoxalmente ele tolerava a idolatria, heresias e imoralidades no meio da Igreja. Pecados tão notórios e públicos que incrivelmente parece não ter sido eliminado do meio da Igreja os tais praticantes. Da parte do pastor da Igreja depreendemos que fidelidade a Cristo e firmeza na fé deve vir obrigatoriamente acompanhada de uma boa teologia ou doutrina. Não são coisas excludentes e nem se pode alegar desconhecimento das heresias, pois, qualquer que fosse a justificativa do pastor da Igreja de Pérgamo o Senhor o repreendeu pela sua tolerância.

 “No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas”
(Ap 2. 14,15).

Satanás possui um arsenal de estratégias contra a Igreja de Cristo. Cabe à liderança pastoral identificar e discernir se as ações pessoais impetradas no culto ou no interstício da existência da Igreja local são teologicamente bíblicas, fiéis as Escrituras e desse modo proibir ou liberar sua aplicação na liturgia do culto. Alguém pode se espantar e pensar que estou exagerando, no entanto não devemos esquecer que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz (2 Co 11:14).  

Como Satanás, ao usar a perseguição, não logrou êxito contra a igreja, mudou sua tática e usou a sedução. A proposta agora não é substituição, mas mistura. Não é apostasia aberta, mas ecumenismo.

John Stott acertadamente disse que o ponto da discórdia na igreja de Pérgamo não era entre o bem e o mal, e sim entre a verdade e mentira.

Ambientes onde há heresias, imoralidades e idolatria oferecem à liderança pastoral e suas respectivas igrejas um enorme desafio. Por isso não podemos tolerar que doutrinas distorcidas e heréticas sejam cantadas nos cultos, que no mesmo culto qualquer pessoa usurpe o lugar de Cristo na adoração trazendo para si algum tipo de mérito e devoção ou que aqueles em pecado permaneçam impenitentes na comunhão da Igreja. Jesus conhecia a idolatria e as influencias perniciosas da cidade de Pérgamo e sabia que isso poderia exercer atração nos crentes.

Sei onde você vive, onde está o trono de Satanás. (Ap 2:12)

Quanto ao entendimento do versículo acima é importantíssima a informação do comentarista William Hendriksen:

Esta cidade estava localizada sobre uma grande montanha de rocha tendo aos seus pés um grande vale circunvizinho. Os romanos a fizeram capital da província da Ásia. Aí, Esculápio, o deus da cura, era cultuado sob o emblema da serpente que, para os cristãos, era o próprio símbolo de Satanás. Nessa cidade se encontrava, entre os muitos altares pagãos, o grande altar de Zeus.  Todas essas coisas deveriam estar na cabeça de Cristo quando ele chamou Pérgamo de o lugar “onde está o trono de Satanás”. Entretanto, parece-nos que o propósito óbvio do autor é dirigir nossa atenção para o fato de que Pérgamo era a capital da província e, como tal, centro do culto ao imperador.

Ali o governador era louvado, e ali os templos pagãos eram dedicados ao culto de César. Ali era exigido dos crentes que oferecessem incenso à imagem dos imperadores e que dissessem “César é Senhor”. Aí Satanás tinha seu trono; ali ele reinava livremente.

A cultura religiosa, social, espiritual e política da cidade de Pérgamo estava totalmente comprometidas com os ideais de Satanás. Este, tinha seu trono na cidade e o pastor com sua Igreja deveriam atentar para estes fatos, o que notamos que não aconteceu, pois Jesus critica a tolerância à imoralidade, idolatria e heresias no núcleo da Igreja. 

Dá-nos ideia de que a custa do bem estar dos crentes o líder pastoral da Igreja estava barganhando a santidade exigida daqueles que servem verdadeiramente ao Senhor. Essa proposição encontra respaldo no exemplo de Balaão. Havia na Igreja os que estavam dando sustentação ou que se estavam apegados a doutrina deste profeta pagão. E qual havia sido o procedimento de Balaão no passado para fazer o povo de Israel pecar contra o Senhor? Diz o Senhor Jesus que ele ensinou Balaque a armar ciladas diante dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição: idolatria e imoralidade.  

Enquanto Israel estava em Sitim, o povo começou a entregar-se à imoralidade sexual com mulheres moabitas, que os convidavam aos sacrifícios de seus deuses. O povo comia e se prostrava perante esses deuses. Assim Israel se juntou à adoração de Baal-Peor. E a ira do Senhor acendeu-se contra Israel. (Nm 25.1-4)

Estava acontecendo na Igreja de Pérgamo o que outrora acontecera com o povo de Israel, em Sitim. Os crentes haviam se envolvidos nas festas pagãs e no mínimo eram cúmplices das imoralidades praticadas ali. A omissão também era um dos pecados dos crentes, pois sabiam que (e que) estavam pecando contra o Senhor, mas não tomavam a decisão de levar o caso ao “tribunal eclesiástico” para ser analisado e solucionado. Observamos que a disciplina ao crente faltoso era negligenciada nesta Igreja e por isso Jesus diz ao pastor da Igreja “tenho contra ti algumas coisas”. A atitude do pastor desta Igreja era até certo ponto elogiável, mas, ele deveria ser integralmente e totalmente ortodoxo tanto em sua vida piedosa como no entendimento teológico.

Jesus também diz que eles sustentavam a doutrina dos nicolaítas. Enquanto a Igreja de Éfeso odiou as obras dos nicolaítas (2.6) a de Pérgamo não somente tolerou, mas deu sustentação ao modo liberal e pernicioso deste grupo. Mas, qual seria de fato o ensino dos nicolaítas? O autor Hernandez Dias Lopes escreve alguma coisa que nos ajuda a sabermos o que esse grupo ensinava e pretendia:

Os nicolaítas ensinavam que o crente não precisa ser diferente. Quanto mais ele pecar maior será a graça, diziam. Quanto mais ele se entregar aos apetites da carne, maior será a oportunidade do perdão. Eles faziam apologia ao pecado. Eles defendiam que os crentes precisam ser iguais aos pagãos. Eles deviam se conformar com o mundo. Por essa razão, o texto nos diz que Cristo odeia a obra dos nicolaítas. Ele odeia o pecado. O que era odiado em Éfeso era tolerado em Pérgamo.

Preciso dizer aos leitores que tomem cuidado para não afirmarem categoricamente que os nicolaítas tem sua origem no diácono Nicolau, escolhido entre os sete pela igreja de Jerusalém (At 6.1-6). Os melhores comentaristas bíblicos não ousam afirmar isso.

Causa-me admiração a postura do pastor da Igreja de Pérgamo, que, tendo ciência de que havia na igreja sob sua liderança um grupo imoral que praticava pecados grotescos, mesmo assim não tomou nenhuma medida cautelar ou disciplinar. Até dá para admitir uma reprimenda de Cristo a uma igreja do tipo inclusiva, como existem muitas atualmente (por exemplo, igrejas evangélicas para homossexuais), mas não a uma igreja que mantinha a fé Nele. Vejo nisso, a chance que o Senhor Jesus está proporcionando ao pastor da Igreja de Pérgamo para que conseguisse enxergar sua irresponsável atitude diante desse triste quadro, que a igreja se arrependesse dos pecados cometidos e ouvisse a voz (a exortação, orientação) do Espírito Santo. A doutrina da santidade e a disciplina ao membro faltoso não pode ser negligenciada, para a saúde espiritual da Igreja de Cristo.

Mesmo diante dessa situação Cristo orienta a Igreja para que se arrependesse dessas ações pecaminosas, que nada mais era a tolerância com os grupos imorais e sectários dentro da Igreja. Se Cristo não admite que esses atos ocorram na Igreja, os crentes devem seguir Seu exemplo. A ferramenta que Cristo usaria contra esses desvios  e seus respectivos grupos, era a “espada da sua boca”, que entendemos ser o registro dos seus ensinos na Bíblia Sagrada.

Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Ap 2:16)

Aos que se arrependessem dos seus pecados Cristo fez duas promessas: dar o maná escondido e uma pedrinha branca com um novo nome. Em primeiro lugar entendemos que o impenitente pecador, que faz parte da membresia local, não pode persistir no seu erro e prosseguir na senda de pecado. Ele deve reconhecer seu estado pecaminoso e buscar a reconciliação com Deus e sua Igreja. Em segundo lugar essa atitude encontrará sua recompensa na vida eterna.  

Quanto ao maná nos dias de Israel no deserto e sua importância leia Êxodo 16.11-15; 16.33,34; Sl 78.24; Hb 9.4. A interpretação mais correta dessa promessa é que

O maná escondido refere-se ao banquete permanente que teremos no céu. Aqueles que rejeitam o luxo das comidas idolatras nesta vida terão o banquete com as iguarias de Deus no céu. Bengel disse que diante desse manjar o apetite pela carne sacrificada a ídolos deveria desaparecer.
O maná era o pão de Jeová (Êx 16.15), cereal do céu (SI 78.24). Era alimento celestial. Os crentes não devem participar dos banquetes pagãos, pois participarão dos banquetes do céu. Jesus é o pão do céu.

Quanto à alusão ao “maná escondido”, o comentarista William Barclay nos oferece a seguinte explicação:

O templo que tinha construído Salomão foi destruído no sexto século a.C; a lenda conta que, ao suceder aquele desastre, Jeremias escondeu o vaso do maná numa greta do Monte Sinai. Os rabinos diziam que ao vir o Messias o vaso seria recuperado. Portanto, para um judeu comer "do maná escondido" significava desfrutar das bênçãos da era messiânica. Jesus era o Messias, e portanto para o cristão, comer do maná escondido significava ingressar na bem-aventurança do Novo Mundo que faria irrupção ao instalar o Reino, quando Jesus abriria os tesouros de sua riqueza aos que lhe pertenciam.

A pedrinha branca pode ter dois significados:

Primeiro, era uma espécie de “entrada” para um banquete. Era considerada um bilhete para admissão à festa messiânica. Segundo, era usada nos tribunais para veredito dos jurados. A sentença de absolvição correspondia a uma maioria de pedras brancas; e a de condenação a uma maioria de pedras pretas. O cristão é declarado justo, inocente, sem culpa diante do Trono de Deus.

Era usada também como bilhete de entrada em festivais públicos. A pedrinha branca é símbolo de nossa admissão no céu, na festa das bodas do Cordeiro. Quem deixa as festas do mundo vai ter uma festa verdadeira onde a alegria vai durar para sempre.

O novo nome tem a ver com uma nova posição, a natureza de uma função, outro papel num plano estabelecido, assim como acontecia com a mudança de nomes nos personagens do Antigo Testamento.

Esta lição é muito importante no sentido de avaliarmos a situação espiritual de cada Igreja evangélica. Uma igreja sem disciplina, onde se admite que um crente em situação de pecado continue nele, onde se tolera heresias e distorções bíblicas, é desfavorável e contraditório dentro do projeto e avanço do evangelho do reino.

Que os líderes espirituais, responsáveis pela condução do “rebanho” do Senhor, tenham inteligência, zelo teológico, imparcialidade no tratamento com os membros da igreja, amor e senso de responsabilidade diante de Deus, de sua Igreja e dos homens.

No amor de Cristo,


BIBLIOGRAFIA:
Lopez, Hernandez Dias. Ouça o que o Espírito diz às Igrejas: uma mensagem de Cristo à sua igreja. Ed: Hagnos, 2010.
Barclay, William. Comentário de Apocalipse. 
Kistemaker, J. Simon. Exposición del Apocalipsis. Ed: Libros Desafio, 2004.



   

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