sábado, 21 de abril de 2012

ESMIRNA, A IGREJA CONFESSANTE E MÁRTIR (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

A característica principal da Igreja de Esmirna é o sofrimento que seus membros estavam enfrentando através de perseguições, prisões, falsas acusações e mortes. No entanto, Jesus os conforta com palavras encorajadoras e promessa de recompensa.

Essa situação da Igreja de Esmirna propõe um enorme antagonismo comparado com as intenções das Igrejas atuais onde os critérios estabelecidos, como Igreja vitoriosa, são o triunfalismo, o evangelho da prosperidade, a riqueza material, a ausência de sofrimento, o contentamento apenas com o mundo presente, e outras coisas similares a estas. A essas igrejas, a de Esmirna serve de escândalo e provavelmente modelo de igreja indesejável.

Contudo, ainda que o contexto em que estão inseridas as Igrejas atuais sejam distantes e diferentes das Igrejas da Ásia, a mensagem é a mesma àquelas igrejas que se dizem cristã. Sendo assim, podemos avaliar o quadro atual de muitas igrejas como terrível.

Cristo apresenta-se à Igreja como o Primeiro e o Ultimo, o que esteve morto, mas tornou a viver. São expressões de soberania, domínio absoluto. O autor Hernandez Dias Lopes, citando o comentarista William Hendriksen fornece relevantes informações sobre a cidade de Esmirna. É Interessante notar, diz Hernandez Dias Lopes, que “tudo o que Jesus diz nessa carta à igreja de Esmirna tem a ver com a cidade e com a igreja”. Fica evidente, na citação abaixo, que as qualidades do Senhor é infinitamente superior a beleza citadina, ocupava posição proeminente e que a esperança de vida eterna deveria sobrepor o perigo da morte, devido as perseguições:  

Em primeiro lugar, vemos uma igreja pobre em uma cidade rica. Esmirna era rival de Éfeso, diz William Hendriksen. Era a cidade mais bela da Ásia Menor. Era considerada o ornamento, a coroa e a flor da Ásia. Cidade comercial, onde ficava o principal porto da Ásia. O monte Pagos era coberto de templos e bordejado de casas formosas. Era um lugar de realeza coroado de torres. Tinha um magnífica arquitetura, com templos dedicados a Cibeles, Zeus, Apoio, Afrodite e Esculápio. Hoje essa é a única cidade sobrevivente, com o nome de Izmir, na Turquia asiática, com 255.000 habitantes.

Em segundo lugar, uma igreja que enfrenta a morte em uma cidade que havia morrido e ressuscitado. Esmirna havia sido fundada como colônia grega no ano 1.000 a.C. No ano 600 a. C., os lídios a invadiram e a destruíram por completo. No ano 200 a. C., Lisímaco a reconstruiu e fez dela a mais bela cidade da Ásia. Quando Cristo disse que estivera morto, mas estava vivo, os esmirneanos sabiam do que Jesus estava falando. A cidade estava morta e reviveu.

Jesus conhecia a tribulação que essa Igreja enfrentava. Ele usa palavras que indicam conhecimento da tribulação individual, de cada um dos crentes. Diz Ele: “conheço a tua tribulação”, a tua pobreza”, “dar-te-ei a coroa da vida”. A palavra tribulação dá ideia de “aperto’’, “pressão”, “sufoco”. Essa condição estava levando muitos a abandonarem a fé. Porém, eles não deveriam desistir, pois, estavam sofrendo pelo nome do Cristo ressuscitado, pelo verdadeiro evangelho. Hoje a Igreja é perseguida no campo mental, psicológico, espiritual, mas goza de amplos favores terrenos, e até mesmo políticos, o que não tem sido aproveitado com boa ética e testemunho cristão. Outrora, quando a Igreja cristã deu seus primeiros passos no Brasil, nossos antepassados também foram perseguidos, presos, torturados e mortos (leia sobre a Tragédia de Guanabara aqui).

Não somente sua tribulação era conhecida, mas também sua pobreza (v.9). Continuando com Hernandez Dias Lopes:

George Ladd diz que a pobreza dos esmirneanos não advinha somente de sua situação econômica normal, mas do confisco de propriedades, de bandos hostis que os saqueavam e da dificuldade de ganhar a vida em um ambiente hostil. A pobreza não é maldição.

Havia duas palavras para pobreza: ptocheia e penia. A primeira é pobreza total, extrema. Era representada pela imagem de um mendigo agachado. Penia é o homem que carece do supérfluo, enquanto ptocheia é o que não tem nem sequer o essencial. João usou a palavra ptocheia para descrever a pobreza dos esmirneanos. A pobreza dos crentes era um efeito colateral da tribulação. Ela era resultante de algumas razões: 1) os crentes eram procedentes das classes pobres e muitos deles eram escravos; e os primeiros cristãos sabiam o que era pobreza absoluta; 2) os crentes eram saqueados e seus bens eram tomados pelos perseguidores (Hb 10.34); 3) os crentes haviam renunciado aos métodos suspeitos e, por sua fidelidade a Cristo, perderam os lucros fáceis que foram para as mãos de outros menos escrupulosos.

Que contraste com a Igreja de Laodicéia que se gloriava de ser rica, próspera materialmente, mas, que ouviu de Jesus severas reprimendas, aliás, não recebeu nenhum elogio. Para Deus a igreja a verdadeira riqueza ou prosperidade não é material, mas espiritual. Interessante que o item 1 diz que na Igreja de Esmirna havia muitos escravos. Se fossem membros de certas igrejas atuais ouviriam dos “pastores” que não deveriam continuar como escravos, mas tornarem-se patrões e teriam que “quebrar a maldição” da escravidão. Jesus não diz nada disso, pois ele mesmo “sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (II Co 8.9). Para Ele não é depreciativo se somos pobres ou se somos perseguidos: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, voz injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.11,12).  

Os cristãos de Esmirna eram acusados de coisas que não praticavam. Jesus denomina essas falsas acusações de blasfêmia. Muitos dos que receberam o privilégio de terem os profetas, de serem servos do Deus verdadeiro, de legar ao mundo o Messias e a salvação e de serem possuidores dos oráculos de Deus (Rm 3.2), agora são adjetivados por Jesus de blasfemarem, pois voltaram-se contra o evangelho de Cristo, seus ensinos, e não o reconheciam como o Salvador. Por causa das falsas acusações mentirosas de serem anárquicos, maus cidadãos, ateus, imorais, eles (os judeus religiosos) fazem parte da “sinagoga de Satanás”. Jesus está rechaçando a falsa religiosidade, pois estavam perseguindo os seguidores de Jesus Cristo, mas diante das pessoas se portavam como zelosos da Lei.

Segundo o versículo 10 algumas pessoas que perseguem (por extensão todos os tipos de perseguição) os verdadeiros cristãos, os que temem ao Senhor, quer seja no trabalho, na escola, em qualquer outro ambiente, e até mesmo dentro da Igreja, de fato estão sendo instrumentos de Satanás: “Eis que o Diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós”. São agentes do Diabo, a serviço dele para desestimularem os servos de Cristo. Os verdadeiros crentes de Esmirna sofreriam a prisão física, seriam encarcerados, por amor a Cristo. Ser preso naquela época não era nada fácil. Possivelmente morreriam na prisão, de fome, maus tratos, doenças.

Contudo, há uma promessa de esperança aos fiéis de Esmirna: receberiam a coroa da vida. Replica a mensagem o apóstolo João: Sê fiel até a morte. Segundo comentaristas bíblicos os cidadãos de Esmirna eram fiéis a Roma. Hernandez Dias Lopes comenta que:

Aqueles crentes eram pobres, perseguidos, caluniados, presos e agora estavam sendo encorajados a enfrentar a própria morte, se fosse preciso. A questão em destaque aqui não é ser fiel até o último dia da vida, mas fiel até o ponto de morrer por essa fidelidade. E preferir morrer a negar a Jesus. Jesus foi obediente até a morte e morte de cruz. Ele foi da cruz até à coroa. Essa linha também foi traçada para a igreja de Esmirna: "Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida" (Ap 2.10). Desta forma, a igreja de Esmirna não é candidata à morte, mas à vida.


Na Igreja de Esmirna havia autênticos cristãos que estavam dispostos a entregar sua vida em sacrifício a Cristo, literalmente.

Policarpo, o bispo da igreja, discípulo de João, foi martirizado no dia 23/02/155 d.C. Ele foi apanhado e arrastado para a arena. Tentaram intimidá-lo com as feras. Ameaçaram-no com o fogo, mas ele respondeu: "Eu sirvo a Jesus há oitenta e seis anos, e ele sempre me fez bem. Como posso blasfemar contra o meu Salvador e Senhor que me salvou?" Os inimigos furiosos, queimaram-no vivo em uma pira, enquanto ele orava e agradecia a Jesus o privilégio de morrer como mártir.

A mensagem (v.10) prossegue afirmando que, aos fiéis, ainda que fossem mortos por amor ao evangelho, receberiam a coroa da vida. A Bíblia de Estudo de Genebra anota o seguinte:


A deusa Cibele de Esmirna é retratada em moedas com uma coroa, seguindo o modelo das muralhas da cidade. Dizia-se que as construções no Monte Pagos de Esmirna se pareciam com uma coroa. Em oposição a estes conceitos, Jesus promete dar a coroa verdadeira.

A mensagem a Igreja de Esmirna é um grande desafio ao evangelho triunfalista do nosso tempo. Sofrer por amor a Cristo, não é vergonhoso e nem maldição. Ser fiel aos valores secularizados do mundo, aos ditames dos formadores de opinião, ao liberalismo apregoado, não condiz com os requisitos dos verdadeiros servos de Cristo.

Que o Senhor nos ajude a enfrentarmos as tribulações do mundo corrente, e do sistema orquestrado pelo diabo. Que sejamos fiéis e suportemos os sofrimentos, pois somos peregrinos nesse mundo. Nosso alvo é a vida eterna ao lado do Cristo da Igreja de Esmirna.

Em Cristo,

BIBLIOGRAFIA:
Lopes, Hernandes Dias. Ouça o que o Espírito diz às Igrejas: uma mensagem de Cristo ã sua igreja. São Paulo: Hagnos, 2010.
Kistemaker, Simon J. Exposicion del Apocalipis. Libros Desafio, 2004.

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