segunda-feira, 27 de junho de 2011

UM DEBATE SOBRE A ORIGEM DO MONOTEÍSMO PRIMITIVO

Por L. Norman Geisler 
Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo
 

A Bíblia ensina que o monoteísmo[i] foi a concepção mais remota de Deus. O primeiro versículo do livro de Gênesis é monoteísta: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Todos o patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, apresentaram uma fé monoteísta. (Gn 12-50). Isto revela um Deus que criou o mundo e que, portanto, é diferente do mundo. Esses são os conceitos essenciais do teísmo ou monoteísmo. 
Igualmente, bem antes de Moisés, José acreditou declaradamente em um monoteísmo moral. Sua recusa em cometer adultério é justificada pelo seu conhecimento de que seria um pecado contra Deus. Enquanto estava resistindo à tentação da esposa de Potifar, ele declarou: “Como, pois, posso cometer este tão grande mal, e pecar contra Deus?” (Gn 39.9). 
Jó, outro livro bíblico contextualizado em um período remoto da antiguidade, revela claramente uma visão monoteísta de Deus. Existem grandes evidências de que o livro de Jó desenvolveu-se em tempos patriarcais pré-mosaicos. O livro vislumbra um Deus todo-poderoso (Jó 5.17; 6.14; 8.3), um Deus pessoal (Jó 1.7-8) que criou o mundo (Jó 38.4) e é soberano sobre sua criação (Jó 42.1-2). 
Encontramos na epístola de Paulo aos Romanos, no seu primeiro capítulo, a afirmação de que o monoteísmo precedeu o animismo[ii] e o politeísmo[iii]. O texto declara: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.  Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si; pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” (Rm 1.19-25).

A tese de James Frazer sobre o monoteísmo recente
A tese de um monoteísmo recente foi divulgada por W. Schmidt na sua obra High Gods in North América[iv]. Mas  é a obra de James Frazer, The Golden Bough[v], que tem alcançado proeminência sobre o assunto. Sua tese não se baseia em uma confiável procura histórica e cronológica para as origens do monoteísmo, antes, advoga que as religiões evoluíram do animismo para o politeísmo, e deste para o henoteísmo[vi] e, finalmente, chegando ao monoteísmo. Apesar de seu uso seletivo e anedótico de fontes antiquadas, as idéias do livro ainda são acreditadas amplamente. A resistência à tese de Frazer de que a concepção monoteísta de Deus evoluiu recentemente não tem fundamento por muitas razões: 
 
Argumentos para a crença do monoteísmo primitivo 
Há muitos argumentos a favor do monoteísmo primitivo. E muitos desses argumentos vêm dos registros  e tradições que temos das civilizações antigas, que incluem os livros de Gênesis e Jó e o estudo das tribos pré-alfabetizadas.  
 
A historicidade de Gênesis 
Não há nenhuma dúvida de que Gênesis apresenta uma concepção monoteísta de Deus. De igual modo, é claro, esse livro é o instrumento mais confiável que dispomos de um registro histórico da raça humana, desde os primeiros seres humanos. Conseqüentemente, os argumentos que atestem a historicidade dos primeiros capítulos de Gênesis favorecerão o monoteísmo primitivo.
O notável arqueólogo William F. Albright demonstrou que o registro patriarcal de Gênesis (Gn 12-50) é histórico. Ele declara: “graças à pesquisa moderna, reconhecemos agora sua significativa  historicidade [da Bíblia]. As narrativas dos patriarcas, Moisés e o êxodo, a conquista de Canaã, os juízes, a monarquia, o exílio e a restauração de Israel, tudo tem sido confirmado e evidenciado em uma extensão que eu julgava impossível há quarenta anos”.[vii] E acrescenta: “não há um único historiador bíblico que não tenha se impressionado pela acumulação rápida de dados que apóiam a historicidade significativa da tradição patriarcal”.[viii]
Entretanto, o livro de Gênesis é uma unidade literária e genealógica, tendo constituído listas de descendentes familiares (Gn 5,10) acompanhadas da relevante frase literária “esta é a história de” ou “estas são as origens dos” (Gn 2.4). A frase é usada largamente em outros trechos do livro de Gênesis (2.4; 5.1; 6.9; 10.1; 11.10,27; 25.12,19; 36.1,9; 37.2).
 Além disso, a importante narrativa sobre a torre de Babel, capítulo 11, é referida por Jesus e pelos escritores do Novo Testamento como histórica. Também são citados por Cristo e pelos escritores do Novo Testamento: Adão e Eva (Mt 19.4,5), a tentação que sofreram (1Tm 2.14), sua posterior queda (Rm 5.12), o sacrifício de Caim e Abel (Hb 11.4), o assassinato de Abel por Caim (1Jo 3.12), o nascimento de Sete (Lc 3.38), a trasladação de Enoque (Hb 11.5), a menção do matrimônio antes dos tempos do dilúvio (Lc 17.27), a inundação e destruição do homem (Mt 24.39), a preservação de Noé e sua família (2Pe 2.5), a genealogia de Sem (Lc 3.35,36) e o nascimento de Abraão (Lc 3.34). Assim, a pessoa que questionar a historicidade de Gênesis, conseqüentemente terá de questionar também a autoridade das palavras de Cristo e de muitos outros escritores bíblicos que recorreram ao livro de Gênesis. 
Em particular, existem fortes evidências para a historicidade dos registros bíblicos sobre Adão e Eva. Esses registros revelam que os pais da raça humana foram monoteístas desde o princípio (veja Gn 1.1,27; 2.16,17; 4.26; 5.1,2).
1) Gênesis 1-2 os apresenta como pessoas literais e narra os eventos importantes de suas vidas (entenda-se: de suas histórias, registros).
2) Eles geraram crianças reais, e não fictícias (Gn 4.1,25; 5.1).
3) A mesma frase, “estas são as gerações de”, empregada para registrar histórias posteriores (Gn 6.9; 9.12; 10.1,32; 11.10,27; 17.7,9), é usada também no relato da criação (Gn 2.4) e na formação de Adão e Eva e seus descendentes (Gn 5.1).
4) As cronologias posteriores do Velho Testamento posicionam Adão no topo da lista genealógica (1Cr 1.1).
5) O Novo Testamento cita  Adão como o primeiro antepassado literal de Jesus (Lc 3.38).
6) Jesus recorreu à historicidade de Adão e Eva, o primeiro casal “macho e fêmea”, constituindo, como base para a união física, o primeiro matrimônio (Mt 19.4).
7) O livro de Romanos declara que a morte literal foi trazida ao mundo por um “Adão” literal (Rm 5.14).
8) A comparação de Adão (“o primeiro Adão”) com Cristo (“o último Adão”), em 1 Coríntios 15.45, atrela a historicidade de Adão com a de Jesus, e autentica explicitamente a compreensão histórica de Adão como uma pessoa literal.
9) A declaração do apóstolo Paulo, de que “primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1Tm 2.13,14), revela que ele fala de uma pessoa real.
10) Logicamente, houve entre eles o primeiro relacionamento conjugal, “macho e fêmea”, do contrário, a raça humana não teria continuidade. A Bíblia chama este casal de “Adão e Eva”, e não há quaisquer razões para duvidar da existência real deles. E aqueles que argumentam a favor de sua historicidade conseqüentemente apóiam a posição bíblica de um monoteísmo primitivo.

A evidência do livro de Jó 
Semelhante a Gênesis, Jó é possivelmente um dos livros mais antigos do Velho Testamento. Ao menos há um consenso entre os estudiosos de que sua história originou-se em tempos patriarcais, sendo, portanto, pré-mosaica. De igual modo, o livro de Jó também confirma o monoteísmo e a pessoalidade de Deus. Revela um Deus pessoal (1.6,21), moral (1.1; 8.3,4), soberano (42.1,2), Todo-Poderoso (5.17; 6.14; 8.3; 13.3 etc) e Criador (4.17; 9.8,9; 26.7; 38.6,7). O posicionamento da história de Jó como primitiva possui vários fundamentos.
1) Sua organização familiar em clãs, adotada no período pré-mosaico e abolida posteriormente entre os hebreus.
2) A ausência total de qualquer referência à lei de Moisés.
3) O emprego patriarcal peculiar para o nome de Deus: Todo-Poderoso (5.17; 6.4; 8.3 cf. Gn 17.1; 28.3 etc).
4) A comparativa raridade com que é empregado o nome SENHOR (Yahweh) (cf. Êx 6.3).
5) O oferecimento de sacrifícios pelo chefe da família  em oposição ao sacerdócio levítico.
6) A menção da cunhagem primitiva de moedas, implícita na expressão “peças de dinheiro” (42.11 cf. Gn 33.19).
7) O uso da expressão “os filhos de Deus” (1.6; 2.1; 38.7), encontrada apenas em Gênesis 6.2-4.
8) A longevidade de Jó, que viveu 140 anos depois que sua família foi restabelecida (42.16), ajusta-se ao período patriarcal.
Jó fala de um Deus que criou o mundo (Jó 38.4), que é soberano sobre todas as coisas (42.2), inclusive sobre Satanás (1.1,6,21 etc). Todas essas coisas são características de uma concepção monoteísta de Deus. Assim, os tempos primitivos de Jó revelam que o monoteísmo não teve um desenvolvimento recente. 
 
As religiões primitivas são monoteístas 
Ao contrário da convicção popular, as religiões primitivas da África revelam por unanimidade um explícito monoteísmo. Uma das maiores autoridades em religiões africanas, John S. Mbiti que, em sua carreira, já pesquisou mais de 300 religiões tradicionais, declarou: “Em todas estas sociedades, sem uma única exceção, as pessoas têm uma noção de Deus como o Ser Supremo”.[ix] Isto é uma verdade compartilhada por outras religiões primitivas, muitas das quais crêem em um Deus Altíssimo ou em um Deus celestial, assinando mais uma vez o monoteísmo primitivo.
 
A influência de evolução 
A idéia de que o monoteísmo evoluiu recentemente ganhou popularidade após a teoria da evolução biológica de Charles Darwin, em sua obra A origem das espécies, de 1859. Em outra de suas obras, Darwin escreveu: “Não há nenhuma evidência de que o homem tenha originalmente adotado a crença na existência de um Deus onipotente”. Pelo contrário, Darwin acreditava que “as faculdades mentais humanas [...] conduziram o homem  à crença em entidades espirituais e, desta, para o fetichismo[x],  o politeísmo e, por fim, o monoteísmo...”.[xi] 
A tese evolutiva de Frazer sobre a religião está baseada em várias suposições sem provas.
Primeiro: seu apoio na evolução biológica mostra, na realidade, sua ausência de fundamentos sérios. A teoria da evolução já foi satisfatoriamente contestada por autoridades cientificas.[xii]
Segundo: ainda que considerássemos a evolução biológica como uma verdade científica, não há nenhuma razão para acreditar que tal evolução tenha sido considerada no âmbito religioso. É um engano de categoria metodológica classificar que o que é verdade em uma disciplina seja também verdade em outra.
O darwinismo social é outro caso em questão. Poucos darwinistas concordariam com Hitler em sua obra Mein Kampf , que diz que deveríamos destruir as raças inferiores, já que a evolução tem feito isto durante séculos! Ele escreveu: “Se a natureza não deseja que os indivíduos mais fracos devam se unir  (misturar) com o mais forte, ela deseja menos ainda que uma raça superior venha se misturar com uma inferior; até mesmo porque, em tal caso, todos os seus esforços, ao longo de centenas de milhares de anos, para estabelecer uma fase evolutiva mais alta, pode ser resultado em futilidade”.[xiii]
 Assim, se muitos darwinistas concordam que a evolução não deve ser aplicada ao desenvolvimento social humano, então não há nenhuma razão para aplicá-la à religião. Dessa forma, nem a suposta prova científica de Darwin serve como base para a evolução do monoteísmo recente. 
 
A melhor explicação
As origens do politeísmo podem ser explicadas como uma degeneração do monoteísmo original, como vimos na declaração anterior de Romanos 1.19. Quer dizer, o paganismo originou-se do monoteísmo primitivo, e não o contrário. Isso é evidenciado no fato de que a maioria das religiões pré-alfabetizadas possuía uma visão monoteísta de Deus. William F. Albright reconhece, igualmente, que os respectivos deuses dessas religiões “eram considerados todo-poderosos e cridos como criadores do mundo; eram, geralmente, deidades cósmicas e seus adeptos, freqüentemente, acreditavam que tais deuses residiam no céu”.[xiv]
Essa concepção é claramente contra as concepções politeístas e animistas de deidade. 
            Não há nenhuma razão concreta para negar o monoteísmo primitivo apresentado pela Bíblia. Pelo contrário, há toda evidência para acreditar que o monoteísmo foi a primeira concepção religiosa que algumas religiões deturparam. De fato, essa é a posição que melhor se ajusta à forte evidência de que o monoteísmo revelado na Bíblia foi distorcido pelas tendências humanas.[xv]
 Em resumo, a concepção correta de Deus, o monoteísmo primitivo, foi resgatada, e não evoluída durante séculos. Deus fez o Homem conforme a sua imagem, mas os homens corromperam esta verdade (Rm 1.23).


[i] Monoteísmo: crença na existência de um único Deus.
[ii] Animismo: idéia de que todas as coisas no universo são investidas de uma força de vida, alma ou mente. Um animismo filosófico, por exemplo, considera que uma pedra ou uma árvore não é meramente um aglomerado de átomos e moléculas, mas, pelo contrário, possui um a “conscientização” das forças ou dos outros corpos que estão ao redor.
[iii] Politeísmo: crença na existência de vários deuses.
[iv] High Gods in North of América. W. Schmidt. Oxford: Claredon Press, 1933.
[v] The Golden Bough. James G. Frazer. London: Mcmillan, 1890.
[vi] Henoteísmo ou Enoteísmo: deriva seu nome dos termos gregos henos, um, e theos, deus. A idéia é que só existe um único Deus. Mas, no uso comum que se faz da palavra, a idéia transmitida é que existe uma divindade suprema, que tem contato com um certo mundo ou um certo grupo de seres, ao mesmo tempo em que podem existir outros deuses com outros campos de atividade. Pelo menos em algumas culturas, como na dos hebreus, o henoteísmo pode ser um passo intermediário entre o politeísmo e o monoteísmo.
[vii] From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City,  NY: Doubleday,  1957, p. 1329.
[viii] The Biblical Period. Willian F. Albright. New York: Harper, 1955.

[ix] African Religions and Philosophy. John S. Mbiti. New York: Praeger Publishers, 1969.
[x] Fetichismo: crença mantida particularmente nas religiões da África ocidental de que os espíritos são capazes de possuir objetos. Existe também a crença de que certos objetos ou “talismãs” podem afastar os espíritos maus.
[xi] The Descent of Man and selection in relation to Sex. Charles Darwin. New York: Appleton and Company, 1896, p. 302,303.
[xii] Evolution: a Theory in Crisis. Bethesda, MD: Adler and Adler,  1985.
[xiii] Mein Kampft. Adolph Hitler. London: Grust and Blackett Ltds, Publishers, 1939, p. 239-242.
[xiv] From Stone Age to Christianity. Willian F. Albright. Garden City,  NY: Doubleday,  1957, p. 170.
[xv] The Kalam Cosmological Argument. Willian Lane Craig. London: The McMillan Press, 1979.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

O AVIVAMENTO QUE PRECISAMOS

Por Gilson Barbosa
 
O desejo de Deus sempre foi que seu povo lhe obedecesse e mantivesse um elevado padrão espiritual. Quando entravam em declínio espiritual Ele os punia. Foi assim com os dois cativeiros (Assíria e Babilônia) e no período dos juízes. Neste período, o povo tinha decaído muito na crença em Yahweh. A geração corajosa e guerreira de Josué tinha passado (Jz 2.10) e agora a geração presente em juízes era fraca e obstinada (Jz 2.11-13). Tornaram- se indiferentes entre seus irmãos. Cada um se importava somente consigo mesmo. O patriotismo judaico hebreu nacional se arrefeceu. Ao invés de expulsarem as nações ímpias de Canaã, apenas os subjugavam. Desta forma, foram fazendo alianças com elas e aderindo suas práticas, o que trouxe grandes prejuízos para a nação de Israel.
 
Com isto, os antigos donos do terreno foram se fortalecendo, a ponto de fazerem frente com aos exércitos de Israel e tornarem-se seus inimigos ferrenhos. Dentre eles: os filisteus, os midianitas, os sírios e os moabitas. Enfim, a degeneração de Israel contribuiu para a sua própria condenação, sofrimentos e derrotas. Não obstante a desordem ser mais ressaltada neste período houve também pessoas que obedeciam piedosamente a Deus.
 
O perigo do secularismo
Conforme o tempo passa, parece que o fervor religioso tende a se arrefecer e a institucionalização das estruturas denominacionais tende a se sacralizar. É nesse momento que urge um avivamento espiritual ou até mesmo uma reforma. A conceituação de avivamento, segundo o editorial da nossa lição, é “o retorno de algo à sua verdadeira natureza e propósito”. Hoje em dia os modismos teológicos, provenientes das igrejas neopentecostais, o entendimento errado e inadequado acerca do tema em pauta, a ênfase em elementos periféricos (como os usos e costumes em detrimentos dos fundamentos doutrinários da fé), as heresias evangélicas, tudo isso e muito mais, tem minado a efervescência da chama pentecostal. “Não apagueis o Espírito” (I Ts 5.19) foi a ordem dada pelo apóstolo Paulo à igreja tessalonicense. Essa ordem não foi simplesmente para uma igreja categorizada como pentecostal, mas serve para todos os ramos denominacionais, pois nenhuma delas está livre de se moldarem ao secularismo. Conforme sua natureza, “o secularismo tem como proposta a rejeição de toda forma de fé e devoção religiosas, admitindo como lema de vida apenas os fatos e influencias derivados da vida presente”. 
 
Um modelo bíblico de igreja secularizada é a igreja em Laodicéia (Ap 3.14-20). Deus a descreve espiritualmente como uma igreja nem fria nem quente. Ela se vangloriava de ser uma igreja abastada financeiramente: “Rico sou, e estou enriquecido, de nada tenho falta”. A prosperidade em si não é mal, mas apresenta certos perigos, como a independência Divina, por exemplo. Até mesmo pastores e obreiros integrais na obra do Senhor por vezes são meio que independentes de Deus, em certo sentido, devido aos altíssimos salários que recebem da administração da igreja local. Disso entendemos que a prosperidade material não significa saúde espiritual, nem sinal da aprovação de Deus, pelo contrário, pode até mesmo esconder pecados gravíssimos. No Antigo Testamento o profeta Oséias denunciou o pecado de Efraim: “É um mercador; tem nas mãos uma balança enganosa; ama a opressão. E diz Efraim: Contudo me tenho enriquecido, e tenho adquirido para mim grandes bens; nem todo o meu trabalho não acharão em mim iniquidade alguma que seja pecado”. No entanto, o que Deus requer de nós é fidelidade e não riqueza, obediência e não sacrifícios tolos, pois, para Ele nosso caráter é mais importante do que as nossas posses. 
 
O fato dela ser nem fria nem quente significa que seus crentes eram indiferentes, não adotavam uma posição definida e isto os levou à ociosidade e preguiça. A Bíblia de Aplicação Pessoal redigiu uma nota muito interessante nesse sentido: “Laodicéia era a mais rica das sete cidades, conhecida por seu sistema bancário, manufatura de lã e uma escola de medicina que produzia unguento para os olhos. Mas a cidade sempre tinha enfrentado problemas com o fornecimento de água. Em certa ocasião construíram um aqueduto para transportar água até a cidade, a partir de nascentes de água quente. Mas, no momento que a água chegava, ela não estava nem quente, nem agradavelmente fresca – estava apenas morna. A igreja ali havia se tornado uma comunidade tão branda como a água tépida que servia à cidade”. Conheço igreja pentecostal que sua situação está muito parecida com a igreja de Laodicéia: rica, independente, mas morna (perdeu ou não se preocupa com a saúde espiritual ou o fervor pentecostal) e indiferente.
 
O verdadeiro avivamento
 
Eu não acredito num avivamento que não produza “estudo da Palavra de Deus, oração, adoração (Ne 8.1-18), confissão de pecados (Ne 9.1-38) e o desejo de cumprir e obedecer os estatutos do Senhor (Ne 10.29)” – conforme escreve o comentarista da nossa lição. Alguns crentes por pura ignorância, outros por petulância, outros por serem fundamentalistas, outros por compreensão equivocada, tem interpretado o avivamento de maneira errada. Por isso é relevante escrever o que não é avivamento:
 
Não é o crescimento numérico da igreja
É claro e óbvio que “Deus quer que todos os homens se salvem” e, consequentemente pessoas recebendo a Cristo como seu Salvador haverá um acréscimo destes à comunidade local. Lucas registra nos Atos dos Apóstolos (6.7) que “crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia à fé”, contudo isso não evidencia ou comprova necessariamente a natureza do avivamento – pelo menos não nos nossos dias.
 
O estimado leitor deve lembrar o episódio bíblico onde o profeta Elias desafiou e enfrentou sozinho os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, e os quatrocentos profetas de Asera (I Rs 18.19). Não obstante serem muitos os profetas de Baal e de Asera, no entanto, a verdade e o Deus verdadeiro estavam com Elias e não com eles. Dizer que determinada denominação está sendo avivada tão somente pelo aumento de número dos seus adeptos é um padrão de medida extremamente falível. Conforme orienta o apologista Eguinaldo Hélio “a nossa fé não se apoia na adesão de poucos ou de muitos. O prumo das Escrituras ignora resultados numéricos, embora o mundo moderno ame as estatísticas. Seguir multidões não é sinônimo, nem antônimo de seguir a Cristo. A Palavra é a Palavra ‘quer ouçam, quer deixem de ouvir’” (Ezequiel 2.7). Na verdade, uma pequena igreja, mas avivada, é mais útil à Deus do que uma igreja enorme, mas carente de vigor espiritual e improdutiva.
 
Não é o apego aos usos e costumes
Não ignoro a importância de nos portamos bem (em termos de aparência pessoal) diante da sociedade sem Deus, mas daí dizer que o estereótipo do crente resultará em maiores ou melhores e efetivas conversões do pecador, penso ser pura ignorância cristã e bíblica. Muitos até mesmo entendem que um dos critérios para saber se determinada igreja é avivada tem a ver com os usos e costumes da igreja, ou seja, é o fato de que seus jovens não jogam futebol, as irmãs não cortam os cabelos nem usam jóias, o não assistir televisão e coisas do gênero. Estas coisas não produzem avivamento e, o avivamento em si não depende de sermos ou não adeptos dos costumes da igreja que pertencemos, mas da soberania de Deus. Com isso não quero dizer que sou favorável aos exageros na questão da apresentação pessoal (em termos de usos e costumes) à sociedade. Por outro lado, o avivamento também não produz o desejo pelos costumes. Na verdade as imposições do ministério da igreja, nesse assunto, se assemelham muito ao que Jesus disse: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15.9). 
 
Um detalhe importante é que quase sempre é enfatizado mais o aspecto exterior do crente do que seu interior. Crentes que aparentam santidade exteriormente, mas são maldosos, julgam inadequadamente seu irmão, odeiam, mentem, etc. No entanto, por manterem fidelidade às exigências do ministério, quanto a esse assunto, são promovidos, recebem maiores oportunidades e são adjetivados como “verdadeiros crentes”.  Entendo que Deus na sua infinita grandeza e sabedoria não estipularia os usos e costumes como critério para o verdadeiro avivamento – não obstante se descontentar com os escândalos advindos de uma roupa feminina sensual ou de um jovem com seu nariz ou boca perfurado com piercing ou sua orelha com alargador. Os bons costumes em termos de vestes, jóias, hábitos, e outros, são bem-vindos quando entendemos a essência do que é ser um discípulo de Cristo. Por outro lado, conheço uma seita onde os usos e costumes são uma de suas marcas, mas nem precisa dizer nada a respeito não é mesmo? Trata-se da Igreja Apostólica Santa Vó Rosa.
 
Prefiro ficar com aquilo que nosso Mestre disse aos seus discípulos: “Jesus, porém, disse: Até vós mesmos estais ainda sem entender? Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem” (Mt 16.20).
 
Passos para o avivamento
Conforme informa o pastor Valdir Bícego, os quatro passos necessários para que o avivamento aconteça em nossa vida ou na nossa comunidade são: volta à palavra, retorno à oração, retomada da missão evangelizadora e assumir o evangelho completo de Cristo. Muitos querem avivamento à margem do estudo e leitura das Escrituras Sagradas – isso é impossível. Na lição em apreço vimos que o avivamento produzido nos dias do rei Josias aconteceu somente após o Livro da Lei ser encontrado (estava perdido) no Templo. Imagine só, o Livro da Lei perdido dentro do Templo – parece até uma similaridade com os nossos dias! A liturgia de muitas igrejas nos dias de hoje é somente e quase unicamente os cânticos e movimentos “pentecostais”. À pregação expositiva (quanto tem) é dada poucos minutos e quase nenhuma importância.  A oração é necessária, pois é a maneira de conversamos com Deus e a forma para pedirmos um grande avivamento: “E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; Porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á” (Lc 11.9,10). Após os discípulos serem revestidos de poder retomaram a missão de evangelizar imediatamente. Estar avivado também significa pregar o evangelho a todos indistintamente.  E por fim, a igreja que necessita de um avivamento deve assumir um evangelho completo. “A salvação é acompanhada de muitas outras coisas (Hb 6.9): o batismo no Espírito Santo (At 1.8); a manifestação do fruto do Espírito (Gl 5.22); os dons espirituais (I Co 12.1-11); a cura divina. São os sinais que Deus manifesta no meio do seu povo; são a confirmação de que precisamos (Rm 15.18,19; I Co 9.2; II Co 12.12)”.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

SERIA O NASCIMENTO VIRGINAL DE CRISTO UMA MITOLOGIA?

Por João Flávio Martinez, do CACP



Acreditar que o Jesus histórico realmente existiu não é mais problema para os historiadores de maneira geral, pois há várias provas comprobatórias nesse sentido. Evidências filológicas, arqueológicas, paleográficas... Enfim, negar a passagem de Jesus pela terra seria hoje como assinar um atestado de obtusidade histórica ou se declarar descontextualizado com as novas descobertas.
Entretanto, alguns arvoram que, apesar da historicidade humana de Jesus, seus seguidores o mitificaram com muitas lendas sem estribo lógico, fazendo algumas questões parecerem em truanices! Nessa pequena minuta sobre este tema, nos deteremos em o quanto cooperou a “lenda” da concepção virginal de Cristo para a sua deificação. Não quereremos provar com argumentos teológicos a concepção virginal de Jesus, afinal de contas isso é uma questão de fé. Nosso objetivo é mostrar que realmente os cristãos da época acreditavam nisso, não por causa de uma mitologia antecessora ao acontecimento cristológico, mas pelas evidências que muitos alegaram ter!

A mitologia egípcia, babilônica e greco-romana e a questão da divindade de Jesus

Bem, sabemos que culturas bem anteriores à judaica-cristã já acreditavam em teofanias.1 Vejamos alguns exemplos:

 

Egito

O faraó egípcio retrata bem o que estamos falando. Os faraós centralizavam todo o poder em si mesmos e eram tidos como encarnação de Hórus, o grande deus, filho de Osíris (senhor dos mortos), e da deusa Ísis. Por conta de tal ostentação, os faraós conseguiram ter governabilidade extremamente teocrática e manter uma soberania durável, além de serem cultuados como divinos.

Mesopotâmia

As religiões mesopotâmicas abrangem as crenças e práticas religiosas que moldaram a cultura dos antigos sumérios e acadianos, e também de seus sucessores, os assírios e os babilônios, habitantes da Mesopotâmia até pouco antes da era cristã. Para eles, a escolha do rei, diferentemente da teofania egípcia, era uma eleição divina, ou seja, acreditavam que os reis mais valentes, perspicazes e vitoriosos deveriam ostentar o cetro real e governar por ordem dos deuses. Dos panteões dos deuses, podemos destacar dois principais: Marduk e Baal.

Roma antiga

Segundo a lenda divulgada pelo grande escritor Vergílio, no ano 29 a.C., Rômulo e Remo foram os fundadores de Roma. A tradição conta que o usurpador Amúlio, após derrubar seu irmão Numitor do trono de Alba Longa, obrigou Réia Sílvia, filha de Numitor, a converter-se em virgem vestal (sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo), para que não gerasse descendência do antigo rei. Entretanto, a jovem Réia recebeu a visita do deus marte, que lhe apareceu em forma de serpente. Da relação sexual de Réia com está serpente Rômulo e Remo foram concebidos. E, devido a esse sinal miraculoso, Roma fora fundada.

Os apóstolos ousariam apelar para uma mitologia pagã?

A região da Mesopotâmia é o lugar em que encontramos maior similaridade com a cultura judaica, e vice-versa. Tanto é que os judeus também acreditavam em uma teocracia: “Então Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o no meio de seus irmãos; e desde aquele dia em diante o Espírito do SENHOR se apoderou de Davi; então Samuel se levantou, e voltou a Ramá” (1Sm 16.13). Isso, no entanto, não significa que eles tinham afinidades religiosas com os mesopotâmicos. Ao contrário, criou rivalidade entre eles. Prova disso é que essa problemática foi um dos vários motivos de guerras entre os judeus e os povos antigos da região (cf. os livros de Reis e Crônicas). Depois do cativeiro babilônico, os hebreus se fecharam ainda mais. No período helênico, aproximadamente no século II a.C., o povo hebreu resistiu bravamente à helenização cultural impetrada por Antíoco Epifânio. Isso mostra a condição sociológica em que sempre se manteve o povo judaico — separado e antagônico em relação à mitologia pagã!
A contextualização sociológica da época de Cristo é extremamente relevante para entendermos se alguma mitologia havia-se infiltrado ou penetrado na cultura judaica. O dr. R. L. Hoover explica o seguinte sobre a questão: “O judaísmo, no primeiro século da era cristã, era uma religião baseada na revelação de Deus por meio das Escrituras, isto é, da Lei e dos Profetas. Os judeus enfatizavam o monoteísmo e não era permitido sequer louvar ou admitir a existência de qualquer outro deus”.2
          O porquê de estarmos explicando tudo isso é para responder às considerações de alguns que argumentam negativamente a respeito da concepção virginal de Jesus. Ou seja, para responder àqueles que acreditam que, se não existissem as lendas que antecederam o fato cristão, Jesus jamais teria sido aceito como o Messias que nascera de uma virgem.
 Bem, mas será que a teologia cristã precisaria de mais esse argumento para “mitificar” ou divinizar Jesus?
           Será que os apóstolos, sendo judeus, ousariam apelar para uma mitologia pagã?

Algumas considerações relevantes
1). O mais relevante para a aceitação messiânica de Jesus era se ele descendia da linhagem de Davi, pois todas as profecias assim arvoravam a respeito do Cristo: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Cf. Jr 23.5,6 e Mq 5.2). Por isso, tanto Mateus quanto Lucas deixaram claro que José e Maria eram descendentes da tribo de Judá — tribo de Davi (Cf. Mt 1 e Lc 3.23-38).
2). A profecia de Isaías 7.14, em que afirma que a virgem conceberia, servia, para o momento cristológico, mais de embaraço para a exposição do evangelho do que para corroboração da missão messiânica de Cristo. Explicamos: a aplicação imediata desse vaticínio seria uma nubente que fora virgem até a ocasião do seu casamento. Antes de o seu filho ter idade suficiente para distinguir entre o certo e o errado, os reis da Síria e de Israel seriam destruídos (Is 7.16). Ou seja, o fato já havia ocorrido como sinal na época do próprio profeta. Elucidar aos judeus que tal profecia teve um duplo cumprimento foi muito difícil para os discípulos de Cristo.
Já que Mateus e Lucas haviam provado a messianidade de Jesus pela genealogia davídica, seria muito mais aproveitável para a causa se os discípulos tivessem obliquado uma polêmica dessa envergadura que, de maneira nenhuma, tiraria a ótica messiânica cristã. Além do mais, exige muita credibilidade da parte dos críticos e dos céticos acreditar que autores judaicos monoteístas como Mateus e Lucas poderiam empregar mitologia pagã em suas narrativas.
3). Os apóstolos e os discípulos cristãos eram etimologicamente judeus, e tinham uma educação religiosa judaica, o que tudo indica que a maneira de pensar era bem diferente da maneira greco-romana. Também, no principio da pregação evangélica, os seguidores de Cristo acreditavam que Jesus deveria ser primeiro e, de maneira exclusivista, apregoado aos seus patrícios judeus. Só um tanto depois, mais precisamente após a experiência de Pedro junto à família gentílica de Cornélio é que esse paradigma foi alterado e o evangelho pregado a todos (At 10).
4). A sede da Igreja ficou em Jerusalém até a sua destruição por Tito no ano 70 d.C. Isso, com certeza, protegeu a teologia cristã em seu alicerce contra o sincretismo religioso que vigorava no mundo romano.
Enumeramos essas quatro ocorrências para mostrar que os discípulos não levariam vantagens em inventar um embuste como esse na propagação do evangelho, principalmente entre os judeus. Jesus poderia ter sido pregado sem necessariamente expor seu nascimento virginal. Seria falta de critério uma pregação com mitos greco-romanos dentro do contexto judaico oriental, a não ser que os apóstolos acreditassem mesmo que Jesus era nascido de uma virgem.
A Igreja Apostólica nunca teve dúvida sobre a questão de Jesus ter sido concebido por uma virgem. Os primeiros líderes da Igreja cristã, chamados de Pais da Igreja, corroboraram positivamente com os ensinos dos apóstolos. Em 110 A.D., Inácio escreveu: “Pois nosso Deus Jesus Cristo [...] foi concebido no ventre de Maria [...] pelo Espírito Santo. Pois a virgindade de Maria e Aquele que dela nasceu... são os mistérios mais comentados em todo o mundo” (grifo do autor). Inácio recebeu a informação de seu mestre, o apóstolo João.
Aristides, em 125 A.D., fala do nascimento virginal de Jesus: “Ele é o próprio Filho do Deus excelso que se manifestou pelo Espírito Santo, desceu dos céus e, nascido de uma virgem hebréia, se encarnou a partir da virgem” (grifo do autor).
 Em 150 A.D., Justino oferece muitas provas a favor da idéia do nascimento milagroso do Senhor: “Nosso Mestre Jesus Cristo, que é o primogênito de Deus Pai, não nasceu como resultado de relações sexuais [...] O poder de Deus, descendo sobre a virgem, cobriu-a com sua sombra e fez com que, embora ainda virgem, concebesse...”3 (grifo do autor).
O primeiro grande cristão de fala latina foi o advogado convertido Tertuliano. Ele nos informa que, em seus dias (ano 200 A.D.), existia não apenas um credo cristão estabelecido, sobre o qual todas as igrejas concordavam. Ele cita esse credo quatro vezes, o qual inclui as palavras ex virgine Maria, que significa: “da Virgem Maria”, dando a entender claramente que Cristo nascera de uma mulher virgem.4
O historiador e erudito R. E. Brown ainda comenta: “Paralelos não-judaicos têm sido encontrados nas religiões mundiais (O nascimento de Buda, de Krishna e do filho de Zoroastro), na mitologia greco-romana, nos nascimentos dos faraós (com o deus Amon-Rá agindo por intermédio de seu pai) e nos nascimentos sensacionais dos imperadores e filósofos (Augusto, Platão etc.). Mas esses ‘paralelos’ sempre envolvem um tipo de hieros gamos em que um macho divino, em forma humana ou em outra, insemina uma mulher, seja por meio do ato sexual normal, seja por meio de uma forma substituta de penetração. Eles não são realmente semelhantes à concepção virginal não-sexual que está no âmago das narrativas da infância de Jesus, concepção esta em que nenhum elemento ou deidade macho insemina Maria [...] Portanto, nenhuma busca por paralelos nos tem dado explicação verdadeiramente satisfatória de como os primitivos cristãos chegaram à idéia de uma concepção virginal — a menos, é claro, que ela realmente tenha acontecido historicamente”.5
Independente de se acreditar no milagre do nascimento virginal de Cristo ou não, para nós, nesta exposição, é mais relevante mostrar que os primeiros cristãos só teriam motivos para falar desse nascimento misterioso caso eles realmente acreditassem nesse milagre. Então, podemos afirmar que qualquer conjectura de uma ideologia pagã no seio primitivo da Igreja para elevar Cristo a divino seria falar de uma incongruência muito grande, seria desconhecer a cultura judaica e sua grande complexidade. O que realmente esperamos é que o leitor reflita e consiga fazer suas próprias conjecturas sobre o explicitado nestas sucintas linhas.

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Bibliografia
Dicionário Aurélio Século XXI, em CD ROM.
Hoover, R. L. Os evangelhos. Editora EETAD.
Barsa 2001, em CD ROM.
James, T. G. H. Mitos e lendas do Egito antigo. Ed. Melhoramentos.
Stamps, D. C..  Bíblia de Estudo Pentecostal. Editora  CPAD. 1995.


1Cf. Dicionário Aurélio XXI: “Manifestação de Deus em algum lugar, acontecimento ou pessoa”.
2 Hoover, R. L. Os evangelhos. Editora EETAD. 1992. Campinas.

3Apologia 1.21-33. Diálogo com Trifo, o judeu.
4Adaptado do livro Evidências que exigem um veredicto. Josh Macdowel. Vol.1. Editora Candeia.

5Revista Defesa da Fé, edição 41.   

A HERMENÊUTICA DE WESTMINSTER

O que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre a interpretação das Escrituras

Por Augustus Nicodemus Lopes

O neoliberalismo
Não poucos estudiosos e teólogos modernos concordam que o antigo liberalismo, como movimento histórico do século passado, está agonizando. Entretanto, muitos dos seus pressupostos quanto à interpretação das Escrituras têm sobrevivido e encontrado expressão em várias correntes teológicas e hermenêuticas que, historicamente, pertencem ao período pós-moderno.
O rótulo “neoliberalismo” tem sido aplicado ao movimento teológico-hermenêutico que preserva alguns pressupostos racionalistas do antigo liberalismo e se utiliza de conceitos da filosofia, da hermenêutica, da lingüística e da teologia pós-modernas. Particularmente, é o sistema de interpretação das Escrituras do neoliberalismo que se constitui um desafio urgente à doutrina reformada.

A hermenêutica neoliberal
De acordo com a hermenêutica neoliberal, é impossível alcançar o sentido original do texto bíblico. Por outro lado, é possível explorar uma pretensa “reserva de sentidos” que há no texto da Bíblia, extraindo “sentidos” que dependerão das circunstâncias em que estivermos. Conseqüentemente, a hermenêutica neoliberal coloca a verdade apenas como um ideal a ser perseguido, mas um ideal que jamais será alcançado com segurança nesta vida, o que significa, também, que jamais poderemos ter certeza absoluta de que conhecemos a verdade. O máximo que poderemos fazer é afirmar, com convicção, um dos muitos sentidos que poderíamos encontrar no texto.
Partindo de algumas teorias modernas de lingüística, essa hermenêutica sugere que os autores bíblicos poderiam ter escrito algo que não correspondesse à sua intenção original. Com isso, exagera a distância entre o autor e o texto, a ponto de não podermos encontrar a intenção do autor nos textos.
Ainda postulam que a Bíblia nada mais é que uma interpretação da vida e do mundo feita por seus autores, ou seja, basearam-se em sua maneira de interpretar a realidade. O texto bíblico é reduzido ao resultado da busca de sentido na realidade e na história dos seus próprios autores. Esse ensino fere frontalmente o conceito reformado de que a Bíblia, mesmo tendo sido escrita por homens situados no tempo e no espaço, é a revelação autoritária de Deus, por isso o homem faz de tudo para tentar compreender a realidade.
Tais teorias afirmam, ainda, que não se pode ter conhecimento do sentido pleno e verdadeiro das Escrituras, já que o texto não tem um único sentido (pleno e verdadeiro), mas, sim, sentidos múltiplos. O pluralismo religioso do pós-modernismo, em verdade, rejeita o conceito de verdade proposicional (ou seja, de que uma idéia possa ser verdadeira), por isso prega a impossibilidade de se alcançar a interpretação correta de uma passagem bíblica.

Desafios à teologia reformada
Essa abordagem interpretativa tem servido de ferramenta para o surgimento das teologias ideológicas, teologias feministas, teologias de libertação, entre outras, já que transfere o sentido do autor e do texto para o leitor.
Tradicionalmente, a hermenêutica reformada reconhece a necessidade de aplicarmos o texto bíblico às diversas situações em que nos encontramos, mas vê essas aplicações não como “sentidos” novos e múltiplos de um mesmo texto, mas como a significação do sentido único de um texto para as diversas situações da vida.
As implicações da hermenêutica neoliberal acabam transformando a mensagem das Escrituras inacessível à Igreja. De acordo com essa abordagem, acabamos sem Escritura, sem revelação, sem verdade e sem pregação, podendo, no máximo, pregarmos apenas uma interpretação nossa do texto, mas nunca a verdade divina.
Se não podemos alcançar o sentido das Escrituras, não nos resta qualquer base para a doutrina e a prática da igreja, para decisões teológicas, para o ensino doutrinário, para a ordem eclesiástica. Assim, instala-se o caos, por meio do qual cada um pode interpretar, como quiser, as Escrituras, as decisões da Igreja e seus símbolos de fé.

Os princípios de interpretação de Westminster
Devemos ter em mente as coisas que os puritanos escreveram sobre esse assunto na Confissão de Fé de Westminster. Os tópicos da capítulo I da Confissão tratam das Escrituras, por meio dos quais os puritanos expressaram suas convicções quanto à correta interpretação das Escrituras. Vejamos, ainda que em resumo, esses pontos:
1. Para evitar que sua vontade e a verdade se perdessem pela corrupção dos homens e a malícia de Satanás, Deus fê-la escrever nas Escrituras Sagradas. A inspiração das Escrituras resulta no fato de que elas expressam fielmente a vontade de Deus, a verdade divina.

Confissão de Westminster: “Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo” (CFW, I.1).

Referências bíblicas: Sl 19.1-4; Rm 1.32; 2.1; 1.19,20; 2.14,15; 1Co 1.21, 2.13,14; Hb 1.1,2; Lc 1.3,4; Rm 15.4; Mt 4.4,7, 10; Is 8.20; 1Tm 3.15; 2Pe 1.19.

2. Temos a possibilidade de conhecer o sentido das Escrituras, conforme pretendido por Deus, mediante o autor humano.

Confissão de Westminster: “Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a sua própria glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW, I.6)

Referências bíblicas: 2Tm 3.15-17; Gl 1.8; 2Ts 2.2; Jo 6.45; 1Co 2.9, 10, l2; 1Co 11.13,14.

3. O Espírito Santo garante a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra de Deus, as Escrituras.

Confissão de Westminster: “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens. Reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra, que sempre devem ser observadas” (CFW, I.6. Cf. Catecismo maior, pergunta 4).

Referências bíblicas: 2Tm 3.15-17; Gl 1.8; 2Ts 2.2; Jo 6.45; 1Co 2.9,10,l2; 1Co 11.13,14.

4. O sentido das Escrituras é tão claramente exposto e explicado que a suficiente compreensão das mesmas pode ser alcançada pelos meios ordinários (pregação, leitura e oração).

Confissão de Westminster: “Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura, são tão claramente expostas e explicadas que não só os doutos, mas também os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas” (CFW, I.7).

Referências bíblicas: 2Pe 3.16; Sl 119.105, 130; At 17.11.

5. Há somente um sentido verdadeiro e pleno em cada texto da Escritura e não múltiplos sentidos, e esse sentido pode ser alcançado e compreendido pela Igreja.

Confissão de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente” (CFW, I.9).

Referências bíblicas: At 15.15; Jo 5.46; 2Pe 1.20,21.

6. É exatamente porque as Escrituras não têm sentidos múltiplos que são o supremo tribunal em controvérsias religiosas, às quais a Igreja sempre deve apelar.

Confissão de Westminster: “O Antigo Testamento em hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência, conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e, assim, em todas as controvérsias religiosas, a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal” (CFW, I.8. Cf., como exemplo, XXIX.6).

Referências bíblicas: Mt 5.18; Is 8.20; 2Tm 3.14,15; 1Co 14.6,9,11,12,24, 27,28; Cl 3.16; Rm 15.4.

7. A vontade de Deus está claramente expressa nas Escrituras e ao alcance da Igreja, de forma que a mesma pode distinguir entre o culto aceitável a Deus e aquele que não é.

Confissão de Westminster: “A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás, e muito menos sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras” (CFW, XXI,1).

Referências bíblicas: Rm 1.20; Sl 119.68; 31.33; At 14.17; Dt 12.32; Mt 15.9; 4.9,10; Jo 4.3, 24; Êx 20.4-6.

8. Apesar de os salvos serem humanos e pecadores, recebem de Deus o que é necessário para que possam compreender as coisas de Deus para a salvação.

Confissão de Westminster: “Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é servido, no tempo por Ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tirando-os, por meio de Jesus Cristo, daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isso Ele o faz, iluminando o seu entendimento espiritualmente, a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, arrancando deles seus corações de pedra e dando-lhes corações de carne, renovando as suas vontades e as determinando pela sua onipotência para aquilo que é bom, além de atraí-los eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça” (CFW X,1. V. tb. o Catecismo maior, pergunta 157).

Referências bíblicas: Jo 15.16; At 13.48; Rm 8.28-30; 11.7; Ef 1.5,10; 1Tes 5.9; 2Ts 2.13,14; 2Co 3.3,6; Tg 1.18; 1Co 2.12; Rm 5.2; 2Tm 1.9,10; At 26.18; 1Co 2.10,12; Ef 1.17,18; 2Co 4.6; Ez 36.26; 11.19; Dt 30.6; Jo 3.5; Gl 6.15; Tt 3.5; 1Pe 1.23; Jo 6.44,45; Sl 90.3; Jo 9.3; Jo 6.37; Mt 11.28; Ap 22.17.

Considerações finais
         Esse pequeno resumo dos princípios de interpretação bíblica, que se encontram na Confissão de Fé de Westminster, serve para mostrar que os puritanos, seguindo a linha de interpretação dos reformadores, entenderam que a única maneira de interpretar as Escrituras, sem violar sua integridade, propósito e escopo, era procurar compreender o sentido que os autores humanos pretenderam transmitir. Os autores reconheciam que essa nem sempre era uma tarefa fácil, mas confiavam que, com a ajuda da ação iluminadora do Espírito, do conhecimento das línguas originais e do contexto histórico, poderiam alcançar esse sentido. A teologia que temos na Confissão de Fé de Westminster é o resultado do emprego sistemático dessa hermenêutica.