quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CONFISSÃO POSITIVA ou ABRACADABRA EVANGÉLICO?

Por Gilson Barbosa
 
Os adeptos da Confissão Positiva dizem que há poder em nossas palavras. Por esta razão não podemos pronunciar palavras negativas, pois elas podem trazer à realidade o que foi dito. Sendo assim é inadmissível dizer palavras tais como: “estou morrendo de fome” ou “parece que estou ficando calvo” ou “estou com uma leve dor de cabeça”. Significaria que você realmente morreria de fome, ou ficaria careca, ou ainda passaria de uma leve para uma forte dor de cabeça.
Mas, o que significa “confissão positiva”? Segundo o Dictionary Of Pentecostal And Charismatic Movementes (apud ROMEIRO, 1993, p.6):
 
A expressão “confissão positiva” pode ser legitimamente interpretada de várias maneiras. O mais significativo de tudo é que a expressão “confissão positiva” se refere literalmente a trazer à existência o que declaramos com nossa boca, uma vez que a fé é uma confissão.

Para que coisas ruins não se materializem em sua vida você precisa corrigir seus pensamentos e evitar pronunciar algo que soe ruim. Para os adeptos da Confissão Positiva ou da Teologia da Fé existem leis impessoais que regem o mundo espiritual e para que elas funcionem você deve usar o que chamam de “As Fórmulas da Fé”. Estas fórmulas ativam as leis espirituais e uma vez ativado possui poder para beneficiar o crente. Como escreveu o pastor Antonio Pereira da Costa Junior a fórmula consistem em:
 
- “Diga a coisa”, positiva ou negativa, tudo depende do indivíduo;
- “Faça a coisa”, o que nós fazemos irá determinar a nossa vitória;
- “Receba a coisa”, a fé irá dinamizar a ação e Deus tem que responder, pois está preso a “leis espirituais”;
 
- “Conte a coisa”, para que outras pessoas possam crer. Deve-se usar palavras como: decretar, exigir, reivindicar, declarar, determinar, e não se pode pedir “se for da tua vontade”, pois isso destrói a fé.

Leis espirituais
Os defensores da Confissão Positiva afirmam que Deus criou leis espirituais que reagem à fé daquele que crê. As leis são impessoais e funcionam independente de Deus. Sobre isso o Dr Alan B. Pieratt vê um paralelo com o deísmo dos séculos 17 e 18. No seu livro O Evangelho da Prosperidade ele escreveu:

Não é a primeira vez que essa ideia aparece na história da igreja. Nos séculos XVII e XVIII, alguns teólogos ingleses receberam o nome de “deístas”, por proporem ideias parecidas com essa. A figura que eles usavam para explicar o modo como Deus conduz o mundo era de natureza mecânica: o universo é como um relógio ao qual ele deu corda no inicio dos tempos. Desde então, ele não precisa mais de nenhuma atenção, mas funciona automaticamente, livrando Deus da necessidade de intervir no curso natural da história humana.
 
“Poder nas palavras”

A palavra falada é extremamente importante para os adeptos da Confissão Positiva. Ela vem em primeiro lugar na “formula da fé”. Há poder nas palavras, defendem os adeptos. Na tentativa de justificar biblicamente que nossas palavras podem criar coisas boas ou ruins citam os versículos abaixo:
 
E te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras a tua boca. (Provérbios 6:2)
Kenneth Hagin (um dos “teólogos” da Confissão Positiva) ensina que se alguém falar positivamente obterá resultados positivos; mas se falar negativamente obterá resultados negativos. Porém conforme afirma Hank Hanegraaff este versículo nada tem a ver com algum tipo de “fórmula da fé”.
Nesta passagem Salomão estava simplesmente pontuando que sempre que alguém entra num acordo com uma pessoa, ela se obriga por esse acordo. Ser fiador de uma pessoa o converte em responsável pelas dívidas desta pessoa. (Cristianismo em crisis, p. 77, Editorial Unilit)
Se você afiançou alguém, muito cuidado! É exatamente essa ideia que temos ao ler o contexto que compreende os versículos 1-5: “Filho meu, se ficaste por fiador do teu companheiro, se deste a tua mão ao estranho, e te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca; faze pois isto agora, filho meu, e livra-te, já que caíste nas mãos do teu companheiro: vai, humilha-te, e importuna o teu companheiro. Não dês sono aos teus olhos, nem deixes adormecer as tuas pálpebras. Livra-te, como a gazela da mão do caçador, e como a ave da mão do passarinheiro”.
A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto. (Provérbios 18:21)
Antonio Pereira da Costa Junior explica esse texto como segue:
Este versículo explica que devemos ter o cuidado de que nossas palavras não venham a nos trazer situações embaraçosas. Temos que saber como dizer as coisas, pois certamente colheremos situações que são causadas por nós mesmos. No entanto, este verso não dá margem para dizer que são as palavras em si que nos dá o controle das circunstâncias da nossa vida. São situações específicas e não o destino do ser humano que é traçado pela verbalização dos nossos desejos interiores. (Artigo: Há realmente poder em nossas palavras?)
Confissão negativa pega em crente?
O apologista Paulo Romeiro (Super Crentes, p.26, Ed:Mundo Cristão) informa que os defensores da confissão positiva “creem que, se algo negativo for declarado, isto se concretizará, resultando numa espécie de automaldição, uma expressão também cunhada pelos seus pregadores”. Por conta disso muitos evangélicos tornaram-se obcecados com as palavras que são proferidas. Se numa conversa informal com outros irmãos contiver palavras negativas os mesmos serão até mesmo exortado. Mas será que é assim mesmo?
Temos exemplos bíblicos de pessoas tementes a Deus que professaram o mal, porém isso não o tornou em realidade. Em Genesis 42:36 Jacó disse que José já não existia mais, porém suas palavras não causaram efeito negativo trazendo a morte à José: “Então Jacó, seu pai, disse-lhes: Tendes-me desfilhado; José já não existe e Simeão não está aqui; agora levareis a Benjamim. Todas estas coisas vieram sobre mim”.
Três jovens, fiéis e tementes a Deus, admitiram a possibilidade do Senhor não os livrar da fornalha ardente do rei Nabucodonosor e nem por isso pereceram no fogo: ”Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste”. (Daniel 3:17,18). [a ênfase em itálico e negrito é minha]
Certamente Jesus desconhecia esse ensino herético “do poder nas palavras” de seres humanos falíveis; e com certeza não foi suas palavras que o levou a morte de cruz: “Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”. (Mateus 26:36-38)
 
Mesmo regenerado e convertido Paulo reconhecia que era um grande pecador. Porém essa confissão não trouxe a maldição do pecado sobre si o tornando num cometedor de pecados: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (I Timóteo 1:15)
 
A igreja filipense ouviu que Epafrodito, companheiro de Paulo, estava doente. Fica implícito no texto e na narrativa que não se preocuparam em omitir a palavra “doente” para Epafrodito ao mencioná-lo em seu momento difícil. Não foi as palavras que o deixaram doente, mas o fato de mencionar a doença não complicou mais sua saúde, pelo contrário, o Senhor teve misericórdia e dele e restabeleceu sua saúde: “Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador, e companheiro nos combates, e vosso enviado para prover às minhas necessidades. Porquanto tinha muitas saudades de vós todos, e estava muito angustiado de que tivésseis ouvido que ele estivera doente. E de fato esteve doente, e quase à morte; mas Deus se apiedou dele, e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.” (Filipenses 2:25-27).

Quando Tiago disse que da nossa boca procede benção ou maldição (Tiago 3:10) não se referia a palavras mágicas imantada com poder de transferir na vida da pessoa o que fora proferido. O pastor Augustus Nicodemus Lopes dá a seguinte interpretação do texto:
 
Havia, de fato, nas igrejas de seus leitores pessoas que causavam problemas com suas palavras – e eram provavelmente os mestres aos quais Tiago se dirigiu no inicio desse capítulo e na parte final (3:13-18) [...] o apóstolo Paulo exorta os crentes a ser coerentes no uso da língua: devem parar de falar palavras torpes e, dizer apenas o que edifica (Ef 4:29; cf Rm 12:14; I Pe 3:9).
O abracadabra evangélico
Resumindo: a questão das palavras é de ordem moral e espiritual e não mágica ou mística. Em nossas palavras não há nenhum poder divino ou sobrenatural. Todo esse entendimento e defesa não passam de uma espécie de “abracadabra evangélico” com a finalidade de abrir as portas da prosperidade financeira, cura, sucesso, fama, etc. Que o Senhor nos dê graça para confiarmos somente em Sua palavra.
No amor de Cristo,

terça-feira, 10 de setembro de 2013

AOS CRENTES PRATICANTES DE IOGA, MEDITAÇÃO, HIPNOSE...

Por Gilson Barbosa

A ciência não tem autoridade nem legitimidade para legislar em matéria de fé; ainda que suas pesquisas a favoreça e incentive sua busca. Hoje em dia a ciência até mesmo reconhece os benefícios de ser um religioso. No entanto em matéria de religião a ciência é eclética, sincrética, dá tiros para todos os lados. Seus estudos podem favorecer tanto ortodoxos quanto heterodoxos. É por isso que não devemos nos apoiar em suas teses, pois ela vê benefícios em algumas práticas que no fundo quase sempre contradiz o verdadeiro cristianismo. É o caso dos benefícios da meditação ou da Ioga, por exemplo. Mas, por que a ciência tem entrado no terreno da religião? Alguém deu a seguinte sugestão:
Há algum tempo, a ciência investiga conexões entre a mente e o corpo. Alguns cientistas descobriram que a fé de uma pessoa pode ajudá-la a viver uma vida mais longa e saudável. A oração pode baixar a pressão arterial e diminuir o ritmo cardíaco, dois fatores que contribuem para um sistema imunológico mais resistente.
Obviamente não é sensato o crente orar tendo em vista “uma vida mais longa e saudável”, ou para baixar sua pressão arterial e “diminuir o ritmo cardíaco”. A oração é um mandamento bíblico e tem por finalidade realidades espirituais, piedosas e celestiais:

E quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação. (Lucas 22:40)
Orai sem cessar (I Tessalonicenses 5:17)
E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer (Lucas 18:1)  
Algum tempo a ciência tem noticiado sobre os efeitos positivos de algumas práticas denominadas de terapias complementares (chamada antes de terapias alternativas). Essas terapias agora estão sendo usada em hospitais públicos e particulares; esta nova realidade é chamada de Medicina Integrativa:
Medicina Integrativa é a abordagem que procura casar tradicionais práticas baseadas em evidência com métodos que, em vez de focar num problema específico, buscam tratar o corpo como um todo.
A questão não é mais tratar a dor ou a enfermidade do paciente em si, mas “considerar outras demandas desse paciente, como questões emocionais, espirituais e familiares”. Algum crente pode perguntar: “Mas que mal há nisso?”.
A maioria das práticas é de origem oriental. As mais procuradas são: Acupuntura, Musicoterapia, Homeopatia, Fitoterapia, Aromaterapia, Hipnose, Técnicas de respiração, Meditação, Massagem Ayurveda, Quiropraxia, Reiki, Ioga, Florais de Bach. Essas práticas não são incentivadas pelas escrituras sagradas, ainda que pudesse trazer benefícios corporais ou mentais. Alguns crentes questionam o tratamento rigidamente de cunho espiritual e religioso que os apologistas têm dado a essas práticas e indagam se elas não poderiam ser feitas apenas na perspectiva do bem-estar.  
A hipnose, por exemplo, possui o potencial de expor a mente a manipulações humanas. A sugestão do hipnotizador é que a mente do paciente se esvazie. Como explica a dra. Rosemeire Lopes de Souza (psicóloga clínica): “Nesse estado, os sentidos são enganados e as percepções, radicalmente alteradas. É prejudicial à saúde mental, principalmente no que tange à sugestão pós hipnótica, quando o paciente, depois das sessões, realiza tarefas que tenta explicar de maneira racional por não se lembrar que fora induzido”. O cristão não deve expor sua mente a essa prática: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti” (Isaias 26:3).
Determinado artigo incentivando o uso dos Florais de Bach (considerado um regulador das vibrações que nos equilibram com a natureza) enuncia o seguinte: “As emoções negativas são a causa primária de muitas doenças. Se intensas, podem distorcer a manifestação dos ideais de força, sabedoria e beleza, preexistentes na natureza humana”. O que eles chamam de emoções negativas a Bíblia denomina de efeitos da Queda do homem no Éden ou o pecado radical.
A Ioga é vista pela Medicina Integrativa como “uma atividade com caráter mais preventivo do que terapêutico”. Segundo os estudiosos os benefícios da Ioga advêm pela técnica de respiração, fortalecimento muscular ou postura corporal. A interpretação que é dada a Ioga neste caso é a de uma prática esportiva ou ginástica. Porém sabemos que a origem da Ioga é hinduísta. Quanto a metodologia não tem como separar os exercícios físicos de um processo mental. A mente humana é inevitavelmente envolvida. A Revista Defesa da Fé, em sua edição de número 37, informa que Pedro Kupfer, um dos principais formadores de professores de ioga no Brasil disse à revista “Super Interessante” que a “ioga sem meditação não é ioga”. A que tipo de meditação se refere Kupter? Pesquisando a vasta literatura dedicada à difusão da ioga encontramos o que vem a ser esta meditação: é liberar o “ego divino”, aprisionado dentro do homem, permitindo que poderes fluam para sua pessoa. Para o praticante experiente da ioga seu poder flui do seu próprio interior. O inexperiente terá a sensação de algo que vem de fora para dentro.
A Medicina Integrativa também incentiva a meditação, como uma terapia complementar ao tratamento médico. Percebemos que há uma tentativa cientifica de desassociar essas práticas de qualquer cunho religioso ou místico, mas o tiro sempre sai pela culatra. O Dr. Paulo de Tarso Lima, do Hospital Albert          Einstein ao comentar sobre os efeitos da meditação em um grupo de pessoas disse o seguinte: “Estamos avaliando, com exames de ressonância magnética, o impacto da meditação tibetana em pessoas que sofreram danos cognitivos por causa da quimioterapia” [meu grifo]. Esse tipo de meditação é voltado para o interior do homem e visa à extensão e expansão da mente.
A Bíblia também menciona a meditação. Mas, ela não é uma meditação no vazio, ou cósmica, visando equilibrar a mente e o corpo. O pastor Natanael Rinaldi escreveu algo interessante sobre a meditação bíblica:
O objetivo da meditação bíblica é a comunhão com Deus: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3.1,2). O meio usado é a palavra de Deus: “Medita estas coisas, ocupa-te nelas, para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos” (1Tm 4.15). E de modo racional: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).
Eu sei que alguns irmãos podem achar exagerada essa preocupação com as terapias complementares. Porém, a ideia central tem a ver com um ensino conhecido como holismo. A autora Caroline Faria, no site Info escola, dá a seguinte explicação para esta palavra:
A palavra “holismo” vem do grego “holos” que significa “todo”, “inteiro”, “completo”, e é usada para designar um modo de pensar, ou considerar a realidade, segundo a qual nada pode ser explicado pela mera ordenação ou disposição das partes, mas antes pelas relações que elas mantém entre si e com o próprio todo.
Qual a relação dessa filosofia com a saúde? Novamente a pesquisa de Caroline Faria informa:
Com implicações profundas em quase todas as áreas do conhecimento, a filosofia holística vem provocando questionamentos principalmente nos campos da saúde onde as doenças começam a ser encaradas como uma manifestação localizada de um distúrbio no equilíbrio do indivíduo como um todo, não apenas de uma de suas partes (questão focada por algumas práticas medicinais tradicionais como a ayurveda).
Minha sugestão é que não é prudente o cristão se submeter a essas práticas da medicina alternativa, pois no fundo estará sendo envolvido por técnicas paganizadas. Não questiono a eficácia das terapias alternativas no campo da saúde. Questiono a subserviência de cristãos diante de práticas que advogam doutrinas contrárias ao cristianismo bíblico e se colocam sob suas influencias. Mas isso fica para que cada crente faça uso da sua consciência diante de Deus.
Em caso de enfermidades e doenças físicas um médico profissional deve ser consultado. Porém no caso de problemas advindos de desiquilíbrio emocional ou mental é bom que o cristão utilize os meios da graça, tais como a oração, a leitura bíblica, a meditação nas coisas espirituais, e não a Ioga, a Hipnose, a Meditação...

No amor de Cristo,

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O QUE AS IGUARIAS DE NABUCODONOSOR TEM A VER COM CHOCOLATE?

Por Gilson Barbosa

Tenho sido informado sobre um procedimento que está virando rotina entre os crentes: a abstenção de certas coisas tendo em vista a conquista de bênçãos divinas ou como agradecimento de bênçãos recebidas. Essas coisas podem ser, por exemplo, não comer chocolate, não tomar Coca-Cola, não assistir televisão, não usar calça (esta proibição diz respeito ás mulheres; membros de igrejas “radicais” quanto aos usos e costumes, mas que desobedecem a ordem do Ministério), não ir ao cinema, etc. A lista de abstenções pode ser enorme, sempre condicionado ao gosto do interessado nas bênçãos. Com a proposta de buscar o Espírito Santo certa igreja estabeleceu a seguinte campanha:

A Igreja Universal do Reino de Deus lançou no último dia 28 de março uma campanha de jejum pela busca do Espírito Santo, o tema é Jejum de Daniel e os fiéis do mundo todo estão participando se abstendo de pensamentos, diversão e entretenimento.

Diferente dos jejuns de comida a IURD trouxe uma nova proposta: evitar ver TV, jogos, sair para cinemas, restaurantes, festas e praticar outras atividades de lazer com os amigos, como por exemplo, acessar redes sociais e usar a internet para fins pessoais. (Nota no final do texto).

Uns entendem que a ação trata-se de uma espécie de jejum parcial. Invocam o jejum praticado por Daniel e seus amigos, na corte babilônica. Outros falam em votos ou promessas. E ainda outros dizem tratar-se de renuncia. Ou seja, renunciam algo que gostam muito para agradar a Deus e cumprir sua Palavra. 

O jejum parcial de Daniel e seus amigos

Queria estar errado, mas penso que esta prática está longe de ser bíblico-cristã. Daniel pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não se contaminar (Daniel 1:8). Ainda que não encontremos nas escrituras a razão explicita para o procedimento deles e no que consistia essa contaminação, o certo é que agindo assim se recusaram a comprometerem sua fé em um ambiente pagão. Por estarem inseridos dentro de um ambiente de grande risco de morte, foram recompensados com a bênção divina (Daniel 1:11-20). Creio que o caso não se aplica a abstenção de lazer, convívio social ou algum tipo especial de alimento, nos dias de hoje. O que chocolate tem a ver com as iguarias do rei Nabucodonosor? Ou o lazer com a Babilônia? Trata-se de um anacronismo lógico e cronológico.

A Bíblia ordena a santificação diária no Espírito e não santidade forçada, a conta gotas, e temporária:

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor; (Hebreus 12:14)

Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo. (1 Pedro 1:15-16)

Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação. (1 Tessalonicenses 4:7)

Mas devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito, e fé da verdade; (2 Tessalonicenses 2:13)

Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da fornicação; (1 Tessalonicenses 4:3)

Outro perigo desse entendimento é qualificar a criação divina, a cultura, o trabalho, o lazer, o entretenimento, as artes, como elementos que trazem malefícios aos cristãos. Isso é conhecido como o dualismo do sagrado e do profano. Esta distinção dicotômica não é bíblica. Muitos associam o espiritual aos momentos de adoração no ambiente do culto e o profano as demais coisas. Deve ser por isso que muitos vivem uma vida dupla. Na igreja é um santo, fora dela um perverso. 

Votos ou promessas

Há outros que ficam com a consciência culpada, pois prometeram algo a Deus e não conseguem cumprir. Leia a pergunta que foi feita num site católico romano:

Pergunta: Boa tarde! Sr Pe. sou Católica devota de Nossa Senhora e de São Jorge, fiz uma promessa em 04/07 de passar 6 meses sem comer chocolate, mas tá muito difícil pra mim. Gostaria de saber se tem algum problema se eu quebrar essa promessa que fiz a Deus!

Na verdade a pessoa prometeu a si mesmo e não consegue controlar seu desejo. A linguagem honesta, os votos ou juramentos possuem sentido no relacionamento com outras pessoas e especialmente com o Senhor Nosso Deus. É necessário considerar a gravidade e seriedade do que está sendo prometido ou votado. Com certeza isso não passa por questões banais como deixar de assistir televisão, comer algum tipo de carne, acessar as redes sociais, etc. Já pensou o apóstolo Paulo dizendo assim aos irmãos tessalonicenses: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da carne vermelha, da Coca Cola, do chocolate, da televisão...”.

A Confissão de Westminster, XXII. 7 afirma:

Ninguém deve prometer fazer coisa alguma que seja proibida na Palavra de Deus ou que impeça o cumprimento de qualquer dever nela ordenado.

Negando o Eu interior

Outra justificativa para tal falta de bom senso é o mandamento de Jesus sobre a renuncia que cada cristão deve praticar em sua vida: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” (Marcos 8:34). O texto não diz nada sobre a questão de que seguir após Cristo será mais puro, nobre e santo, se abstermos de certos tipos de alimentos, lazer, e assim por diante. 

Tomar a cruz de Cristo significa obedecer e identificar-se com Jesus, mesmo até a morte, e não simplesmente suportar alguma obrigação específica imposta pelo Senhor. Em Marcos 8:34 (e nos textos paralelos) Jesus acrescenta o mandamento da negação de si mesmo. A chamada ao discipulado exige o abandono completo do desejo natural de buscar conforto, fama ou poder. (BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA).

O texto deve ser lido todo: “Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará. Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma? Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma?” (Marcos 8:35-37).

Imagine se a eternidade do crente estivesse condicionada a questão de comer ou não chocolates, beber ou não Coca Cola, ir ou não à praia ou cinema, comer ou não carne vermelha, etc!!! Com certeza quem conseguisse abster-se destas coisas alcançariam a salvação por obras. Outros amargariam eternamente o inferno só por causa do chocolate, da carne, do lazer, da calça feminina, da televisão....

Que sejamos sábios... No amor de Cristo,