quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CONFISSÃO POSITIVA ou ABRACADABRA EVANGÉLICO?

Por Gilson Barbosa
 
Os adeptos da Confissão Positiva dizem que há poder em nossas palavras. Por esta razão não podemos pronunciar palavras negativas, pois elas podem trazer à realidade o que foi dito. Sendo assim é inadmissível dizer palavras tais como: “estou morrendo de fome” ou “parece que estou ficando calvo” ou “estou com uma leve dor de cabeça”. Significaria que você realmente morreria de fome, ou ficaria careca, ou ainda passaria de uma leve para uma forte dor de cabeça.
Mas, o que significa “confissão positiva”? Segundo o Dictionary Of Pentecostal And Charismatic Movementes (apud ROMEIRO, 1993, p.6):
 
A expressão “confissão positiva” pode ser legitimamente interpretada de várias maneiras. O mais significativo de tudo é que a expressão “confissão positiva” se refere literalmente a trazer à existência o que declaramos com nossa boca, uma vez que a fé é uma confissão.

Para que coisas ruins não se materializem em sua vida você precisa corrigir seus pensamentos e evitar pronunciar algo que soe ruim. Para os adeptos da Confissão Positiva ou da Teologia da Fé existem leis impessoais que regem o mundo espiritual e para que elas funcionem você deve usar o que chamam de “As Fórmulas da Fé”. Estas fórmulas ativam as leis espirituais e uma vez ativado possui poder para beneficiar o crente. Como escreveu o pastor Antonio Pereira da Costa Junior a fórmula consistem em:
 
- “Diga a coisa”, positiva ou negativa, tudo depende do indivíduo;
- “Faça a coisa”, o que nós fazemos irá determinar a nossa vitória;
- “Receba a coisa”, a fé irá dinamizar a ação e Deus tem que responder, pois está preso a “leis espirituais”;
 
- “Conte a coisa”, para que outras pessoas possam crer. Deve-se usar palavras como: decretar, exigir, reivindicar, declarar, determinar, e não se pode pedir “se for da tua vontade”, pois isso destrói a fé.

Leis espirituais
Os defensores da Confissão Positiva afirmam que Deus criou leis espirituais que reagem à fé daquele que crê. As leis são impessoais e funcionam independente de Deus. Sobre isso o Dr Alan B. Pieratt vê um paralelo com o deísmo dos séculos 17 e 18. No seu livro O Evangelho da Prosperidade ele escreveu:

Não é a primeira vez que essa ideia aparece na história da igreja. Nos séculos XVII e XVIII, alguns teólogos ingleses receberam o nome de “deístas”, por proporem ideias parecidas com essa. A figura que eles usavam para explicar o modo como Deus conduz o mundo era de natureza mecânica: o universo é como um relógio ao qual ele deu corda no inicio dos tempos. Desde então, ele não precisa mais de nenhuma atenção, mas funciona automaticamente, livrando Deus da necessidade de intervir no curso natural da história humana.
 
“Poder nas palavras”

A palavra falada é extremamente importante para os adeptos da Confissão Positiva. Ela vem em primeiro lugar na “formula da fé”. Há poder nas palavras, defendem os adeptos. Na tentativa de justificar biblicamente que nossas palavras podem criar coisas boas ou ruins citam os versículos abaixo:
 
E te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras a tua boca. (Provérbios 6:2)
Kenneth Hagin (um dos “teólogos” da Confissão Positiva) ensina que se alguém falar positivamente obterá resultados positivos; mas se falar negativamente obterá resultados negativos. Porém conforme afirma Hank Hanegraaff este versículo nada tem a ver com algum tipo de “fórmula da fé”.
Nesta passagem Salomão estava simplesmente pontuando que sempre que alguém entra num acordo com uma pessoa, ela se obriga por esse acordo. Ser fiador de uma pessoa o converte em responsável pelas dívidas desta pessoa. (Cristianismo em crisis, p. 77, Editorial Unilit)
Se você afiançou alguém, muito cuidado! É exatamente essa ideia que temos ao ler o contexto que compreende os versículos 1-5: “Filho meu, se ficaste por fiador do teu companheiro, se deste a tua mão ao estranho, e te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca; faze pois isto agora, filho meu, e livra-te, já que caíste nas mãos do teu companheiro: vai, humilha-te, e importuna o teu companheiro. Não dês sono aos teus olhos, nem deixes adormecer as tuas pálpebras. Livra-te, como a gazela da mão do caçador, e como a ave da mão do passarinheiro”.
A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto. (Provérbios 18:21)
Antonio Pereira da Costa Junior explica esse texto como segue:
Este versículo explica que devemos ter o cuidado de que nossas palavras não venham a nos trazer situações embaraçosas. Temos que saber como dizer as coisas, pois certamente colheremos situações que são causadas por nós mesmos. No entanto, este verso não dá margem para dizer que são as palavras em si que nos dá o controle das circunstâncias da nossa vida. São situações específicas e não o destino do ser humano que é traçado pela verbalização dos nossos desejos interiores. (Artigo: Há realmente poder em nossas palavras?)
Confissão negativa pega em crente?
O apologista Paulo Romeiro (Super Crentes, p.26, Ed:Mundo Cristão) informa que os defensores da confissão positiva “creem que, se algo negativo for declarado, isto se concretizará, resultando numa espécie de automaldição, uma expressão também cunhada pelos seus pregadores”. Por conta disso muitos evangélicos tornaram-se obcecados com as palavras que são proferidas. Se numa conversa informal com outros irmãos contiver palavras negativas os mesmos serão até mesmo exortado. Mas será que é assim mesmo?
Temos exemplos bíblicos de pessoas tementes a Deus que professaram o mal, porém isso não o tornou em realidade. Em Genesis 42:36 Jacó disse que José já não existia mais, porém suas palavras não causaram efeito negativo trazendo a morte à José: “Então Jacó, seu pai, disse-lhes: Tendes-me desfilhado; José já não existe e Simeão não está aqui; agora levareis a Benjamim. Todas estas coisas vieram sobre mim”.
Três jovens, fiéis e tementes a Deus, admitiram a possibilidade do Senhor não os livrar da fornalha ardente do rei Nabucodonosor e nem por isso pereceram no fogo: ”Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste”. (Daniel 3:17,18). [a ênfase em itálico e negrito é minha]
Certamente Jesus desconhecia esse ensino herético “do poder nas palavras” de seres humanos falíveis; e com certeza não foi suas palavras que o levou a morte de cruz: “Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”. (Mateus 26:36-38)
 
Mesmo regenerado e convertido Paulo reconhecia que era um grande pecador. Porém essa confissão não trouxe a maldição do pecado sobre si o tornando num cometedor de pecados: “Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (I Timóteo 1:15)
 
A igreja filipense ouviu que Epafrodito, companheiro de Paulo, estava doente. Fica implícito no texto e na narrativa que não se preocuparam em omitir a palavra “doente” para Epafrodito ao mencioná-lo em seu momento difícil. Não foi as palavras que o deixaram doente, mas o fato de mencionar a doença não complicou mais sua saúde, pelo contrário, o Senhor teve misericórdia e dele e restabeleceu sua saúde: “Julguei, contudo, necessário mandar-vos Epafrodito, meu irmão e cooperador, e companheiro nos combates, e vosso enviado para prover às minhas necessidades. Porquanto tinha muitas saudades de vós todos, e estava muito angustiado de que tivésseis ouvido que ele estivera doente. E de fato esteve doente, e quase à morte; mas Deus se apiedou dele, e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza.” (Filipenses 2:25-27).

Quando Tiago disse que da nossa boca procede benção ou maldição (Tiago 3:10) não se referia a palavras mágicas imantada com poder de transferir na vida da pessoa o que fora proferido. O pastor Augustus Nicodemus Lopes dá a seguinte interpretação do texto:
 
Havia, de fato, nas igrejas de seus leitores pessoas que causavam problemas com suas palavras – e eram provavelmente os mestres aos quais Tiago se dirigiu no inicio desse capítulo e na parte final (3:13-18) [...] o apóstolo Paulo exorta os crentes a ser coerentes no uso da língua: devem parar de falar palavras torpes e, dizer apenas o que edifica (Ef 4:29; cf Rm 12:14; I Pe 3:9).
O abracadabra evangélico
Resumindo: a questão das palavras é de ordem moral e espiritual e não mágica ou mística. Em nossas palavras não há nenhum poder divino ou sobrenatural. Todo esse entendimento e defesa não passam de uma espécie de “abracadabra evangélico” com a finalidade de abrir as portas da prosperidade financeira, cura, sucesso, fama, etc. Que o Senhor nos dê graça para confiarmos somente em Sua palavra.
No amor de Cristo,

2 comentários:

  1. Ola....

    certo mas e aqueles versiculos que dizem " E disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.
    Lucas 17:6"

    e

    Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus

    Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus

    gostaria de uma resposta pois a igreja q eu congrego meu Pr segue Yong cho e esses outros homens que dizem que há poder nas palavras....tb lá se faz atos proféticos..

    espero uma resposta pois ando muito confusa.... agradeço Natalia

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    1. Boa Noite,
      Existem regras para se interpretar a Bíblia. Uma delas é explicar um versículo junto com seu contexto. No caso do texto de Lucas cap. 17, o assunto do versículo 6 inicia-se em Lucas 17:1-10. O tema do assunto é perdão, e os discípulos ao ouvir de Jesus que deveriam perdoar sempre que fossem ofendidos exclamaram que precisavam de uma fé viva para conseguirem perdoar (v.5).
      Para motivá-los ao perdão, o Senhor Jesus usa uma figura de linguagem chamada de hipérbole ou exagero. Obviamente seria impossivel desarraigar uma amoreira e replantá-la no leito do oceano. Se para os discípulos o perdão era impossível, contudo se tivessem fé viva no Senhor conseguiriam perdoar o ofensor. Não sei se fui claro.
      Quanto aos atos proféticos sugiro a leitura deste link: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2012/02/atos-simbolicos-no-espirito.html

      Um abraço e obrigado por acessar o blog.

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