quinta-feira, 27 de março de 2014

QUAL O SIGNIFICADO DE SER CHEIO DO ESPIRITO?



por Gilson Barbosa


A ordem do apóstolo Paulo para que os irmãos efésios fossem cheios do Espírito era muito pertinente (Efésios 5:18). A cidade de Éfeso estava comprometida com a idolatria (Atos 19:24). Uma das sete maravilhas do mundo antigo, o templo da deusa Diana, ficava nesta importante província romana da Ásia (Atos 19:27). Seus cidadãos viviam uma vida moralmente desregrada e eram indiferentes a respeito do conhecimento de Deus (Efésios 4:17-5:12). O misticismo era praticado pelos efésios por meio de artes mágicas aprendido pela leitura de livros esotéricos (Atos 19:19).

Os irmãos efésios, tanto judeus quanto gentios, antes de receberem a Cristo como Salvador haviam vivido esse tipo de vida idólatra, mística e autônoma (Efésios 2:1-3). Mas graças ao Senhor foram alcançados pelo evangelho que liberta. Agora os efésios eram povo de Deus, receberam a paz de Cristo e foram selados com o Espírito Santo da promessa (Efésios 2:11-14; 1:13,14). Contudo, Paulo os exorta a crescerem em santidade, isso porque a maneira de vida de um salvo em Cristo é oposto a uma vida dissoluta de um não salvo (4:17-32).    

Já que foram regenerados em Cristo não deveriam se tornar insensatos, mas deviam procurar compreender qual a vontade do Senhor. É neste contexto todo que Paulo ordena: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Efésios 5:18). Os estudiosos entendem a proibição de não se embriagar com vinho não como uma mera proibição da embriaguez, mas trata-se de uma referencia a uma forma orgiástica de adoração, tal como praticada no culto a Dioniso (Baco), o deus do vinho. O ritual a Dioniso seguia vários estágios de embriaguez, tidos como incorporações da divindade nos participantes, inspirando profecia, dança frenética e música (Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1407). 

Os irmãos deveriam ser enchidos pelo Espírito Santo continuamente durante toda a vida cristã. Não se trata de um enchimento momentâneo ou súbito, resultado de manifestações carismáticas, principalmente com os sinais das línguas estranhas, muito comum nos cultos pentecostais. Todos devem ser cheios do Espírito, segundo a ordem de Paulo, e com certeza isso não é prerrogativa apenas de irmãos pentecostais. Não se trata de você buscar o Espírito Santo para ser cheio, mas na medida em que o crente se “despoja do velho homem e se reveste do novo homem” (Efésios 4:22-24)  o próprio Espírito é que o domina completamente. Trata-se da ação do Espírito no homem independentemente da denominação evangélica que pertence.

Infelizmente muitos crentes entendem que a expressão “cheios do Espírito” refere-se apenas a alguém que profetiza, fala em línguas, expulsa demônios, prega com eloquência ou que possui os dons espirituais. Nada poderia estar mais equivocado do que esse tipo de pensamento. São muitas pessoas hoje dia que realizam todas essas coisas, porém biblicamente não são cheias do Espírito, pois praticam pecados como se fossem pessoas carnais, ou seja, agem como pessoas não regeneradas. Você pode até negar isso, mas é que está pensando em pecados como o adultério, roubo, corrupção, assassinatos. Aí você me diz: “Alguém usado por Deus não comete estes pecados!”. Então quero que você abra sua Bíblia e leia os pecados listados em Efésios 4:25-5:12. A conclusão é a seguinte: Posso ser “poderoso” como quiser, as pessoas podem até dizer que sou um homem de Deus, porém se cometo um só que seja dos pecados listados nesses versículos definitivamente não sou cheio do Espírito Santo. Isto tem a ver com santidade cristã.

Há passagens bíblicas onde os irmãos receberam a presença dinâmica do Espírito e falaram línguas desconhecidas (Atos 2:4; 8:14-17; 10:44-48; 19:1-7). Porém, foram casos sui generis e não podemos toma-los como padrão, e sim exceção. Nenhum dos envolvidos nesses acontecimentos foi incentivado a buscar uma experiência subsequente à salvação. Ela aconteceu porque fazia parte da transição entre a experiência com o Espírito Santo na antiga aliança e a experiência com o Espírito Santo na nova aliança (Wayne Grudem, T. Sistemática, p. 643). 

Uma pessoa cheia do Espírito é uma pessoa controlada pelo Espírito Santo. Suas ações são dependentes da dinâmica do Espírito ajudando-o no serviço cristão. Os resultados de ser cheio do Espírito Santo manifesta o poder do Espírito. Exemplos: Jesus recebeu poder do Espírito para vencer as tentações de Satanás no deserto (Lucas 4:1); Isabel foi cheia do Espírito e proferiu palavras de bênção à Maria (Lucas 1:42-45); os discípulos receberam ousadia para pregarem com poder o evangelho (Atos 4:31); Estêvão foi cheio do Espírito no momento em que estava padecendo como mártir e teve uma visão do céu (Atos 7:55), etc.
Não podemos reivindicar sermos cheios do Espírito e vivermos uma vida carnal ou não produzirmos o fruto do Espírito. Deus não é Deus de confusão. O uso dos meios da graça (oração, jejum, leitura da Bíblia, culto doméstico, adoração, santificação) não deve ser um fim em si mesmo nem visar interesses pessoais. Ser cheio do Espírito é revestir-se da nova natureza em Cristo. No contexto de Efésios 5:19-6:9 a presença dinâmica do Espírito deveria produzir comunhão entre os irmãos (v.19), gratidão e adoração ao Senhor (v.19, 20) e sujeição mútua (v.21), tanto entre marido e mulher (v.22-33) como dos filhos aos pais (6:1-4) quanto entre patrão e empregado (6:5-9).
Que o Senhor nos dê graça para que tenhamos entendimento e equilíbrio. Do lado dos irmãos tradicionais ou reformados deve haver mais liberdade ao Espírito e menos medo da sua presença dinâmica. Do lado dos irmãos pentecostais deve-se se evitar a má compreensão do que é ser cheio do Espírito e mais preocupação em seguir fielmente as prescrições bíblicas no uso dos dons do Espírito. Que o Senhor nos ajude.

No amor de Cristo,

sábado, 22 de março de 2014

CRENTE NÃO PODE FICAR DOENTE?

por Gilson Barbosa

Sick Woman. Flu. Woman Caught Cold. Sneezing into TissueA doença faz parte do sofrimento humano e é um dos efeitos do pecado. A condição para que Adão não enfrentasse a realidade da morte física era manter uma atitude de obediência. Uma vez que desobedeceu a ordem divina de não se alimentar da árvore do conhecimento do bem e do mal (a única proibição) o Senhor o puniu com a morte física (Genesis 3:19). O casal inicia o processo de degeneração física após o ato do pecado. O Senhor havia dito que no dia em que desobedecesse suas ordens Adão certamente morreria (Genesis 2:17). Que tipo de morte afetou Adão e Eva? Resposta: física e espiritual.  

Se as doenças são consequências do pecado original, contudo, não significa necessariamente que cada doença é diretamente causada por um pecado pessoal. Ao ver um homem cego de nascença os discípulos de Jesus perguntaram se fora seus pais ou ele próprio que havia cometido algum pecado para que nascesse cego (João 9:1-7). A crença de muitos judeus era que cada má sorte temporal era punição de Deus por algum pecado específico (Bíblia de Estudo de Genebra, p. 1246).  Jesus responde negativamente a pergunta dos discípulos oferecendo uma terceira opção: foi assim para que se manifestassem nele as obras de Deus.

Há porem sofrimentos, mortes e doenças, que são provações ordenadas por Deus para punição e correção de certos pecados específico. O apóstolo Paulo alertou os irmãos da Igreja de Corinto a não participarem da Ceia do Senhor (ou dos Sacramentos) de maneira indigna sem discernir o corpo do Senhor; não se trata do corpo físico do Senhor Jesus, e sim, seu corpo místico – a Igreja. Quem não discerne o corpo, diz Paulo, come e bebe sob juízo para si. Discernir o corpo, no contexto da igreja de Corinto, refere-se à falha dos irmãos em não manter a unidade da Igreja como corpo de Cristo. O apóstolo Paulo continua dizendo que essa quebra da unidade fraternal causaria (ou já estava causando) nos irmãos a morte, fraquezas e doenças (I Coríntios 11:28-32). A Igreja de Corinto, em virtude de pecados não tratados, tinha pessoas fracas, doentes, e algumas que haviam morrido (Comentário de I Coríntios, Hernandes Lopes).

Por sua vez o movimento neopentecostal afirma que toda a doença é fruto da ação direta de Satanás. Deus e o Diabo travam uma batalha espiritual intensa. É uma luta cósmica entre o bem e o mal. Para eles a dor, o sofrimento, a doença, a morte, são sempre vistos nessa perspectiva. Há duas justificativas básicas para esse tipo de ensino: 1º) a enfermidade não existe no mundo bom de Deus; seus sintomas são apenas uma sugestão enganosa de Satanás, e precisa ser rejeitada firmemente pela fé; 2º) todas as enfermidades são consequência do pecado e, por isso, não podem atingir aquele que crê no sacrifício expiador de Cristo, que já pagou pelos seus pecados (Revista Palavra Viva, p. 44).

Em primeiro lugar, negar a realidade do sofrimento, doença e morte na vida daqueles que servem ao Senhor é um engano satânico. Mary Baker Eddy, fundadora da seita Ciência Cristã, escreveu o livro Ciência e Saúde onde uma das suas teorias é negar a realidade do sofrimento, pecado, doenças e morte. Para ela a matéria não existe, é má, e Deus não a criou. Se alguém está doente, segundo a Ciência Cristã, pode mudar essa realidade por meio do pensamento positivo. Muitos líderes do Movimento Neopentecostal adota a ideia de que seus adeptos devem negar até mesmo os sintomas físicos das doenças. Quantas vidas poderiam ser poupadas se procurassem a medicina, o tratamento de saúde, e não confiassem em doutrinas heréticas pregadas pelos falsos mestres.

O fato é que mesmo sendo um fiel servo do Senhor não estamos imunes às doenças e sofrimentos. O apóstolo Paulo tinha um companheiro de trabalho missionário muito dedicado à obra do Senhor. O nome dele era Epafrodito. Tinha vindo à Roma, enviado pela igreja filipense, para estar com Paulo na prisão e supri-lo em suas necessidades. Ocorre que ele adoeceu mortalmente, chegou às portes da morte, mas o Senhor teve misericórdia dele e restabeleceu sua saúde (Filipenses 2:25-30). Em algumas ocasiões Deus até mesmo não nos livra do sofrimento. Tendo em vista sua soberania devemos nos submeter a sua vontade, sabendo que deve ter um propósito maior em sua negativa. O Senhor não ouviu a solicitação de Paulo e disse que a graça Dele lhe bastava, pois Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Paulo não declarou, decretou, murmurou, blasfemou contra o Senhor, mas via seus sofrimentos como razão para regozijar-se (II Coríntios 12:7-10). Concluindo: a doença e o sofrimento existem realmente no mundo bom de Deus, ainda que não aceitemos sua realidade.

Em segundo lugar, conforme mencionei acima ainda que a doença seja uma das consequências do pecado nem toda a doença na vida de alguém é resultado de um pecado pessoal. Qual era o pecado específico e pontual na vida de Epafrodito ou de Paulo? Nenhum, todavia eles adoeceram e sofreram na causa do Evangelho. Isso desfaz o segundo erro dos neopentecostais quando dizem que a morte de Cristo na cruz também teve como objetivo alcançar a cura física. Eles citam os textos bíblicos de Isaías 53:4 e I Pedro 2: 24 como respaldo de suas doutrinas.

Porém, o contexto tanto de Isaías 53:4 e I Pedro 2:24 não está tratando da cura física, e sim espiritual. As referencias de Isaías ao Messias tomando sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores não devem ser interpretadas literalmente; feridas, contusões e chagas inflamadas são figuras de linguagem do profeta para se referir ao estado lamentável de Judá, após ser castigado pelo Senhor pela desobediência, sem chegar ao arrependimento (Revista Palavra Viva, p. 44).

Note que a citação de Isaías é o texto original, já Mateus 8:17 e I Pedro 2:24 são meras citações de Isaías. Significa que devem ser entendidos conjuntamente sendo que a citação do profeta deve ter prioridade. O escritor Mateus afirma que no momento em que Jesus curava os que estavam doentes ou expulsava os demônios se cumpria o que fora dito por intermédio do profeta Isaías (isto é, antes de morrer na cruz para expiar nossos pecados). Com isso não estou dizendo ou negando que segundo a sua soberania e providencia o Senhor não cure ou liberte os endemoninhados nos dias de hoje (Tiago 5:14).

Também não precisamos ver a medicina como algo ruim e que serve apenas para pessoas que não tem fé para ser curado por meio da oração. A medicina é uma bênção de Deus e podemos alcançar a cura por meio dela. Não é errado lançarmos mão da medicina para sermos curados enquanto oramos pedindo ao Senhor que nos cure (Isaías 20:5-7).

Muitas doenças podem também ser resultados da negligencia com os exercícios físicos, descuido com a alimentação saudável, uso de drogas, bebidas, fumo, etc. Crentes que repudiam a ingestão de bebidas alcoólicas, por exemplo, mas que abusam da carne gordurosa ou frituras, são hipócritas nas suas avaliações. Não é exagero querer ter boa saúde (III João 2). Temos a obrigação de sermos mordomos da nossa saúde (Mateus 25:14-29).

Em Cristo, 


domingo, 16 de março de 2014

A DEMONIZAÇÃO DA CULTURA


Por Gilson Barbosa

Quando os crentes observam a preocupação das pessoas em frequentar academias, realizar cirurgias plásticas, usar cosméticos, engajarem-se na política, falar sobre sexualidade, quase sempre possuem a tendência de demonizar esses procedimentos como se isso em si fosse maligno, tendo como base que as coisas espirituais é que devem ser priorizadas. Lembro-me de certo estudo bíblico onde o pastor implicitamente tentava “convencer” os irmãos a não praticarem exercícios físicos usando como base I Timóteo 4.8: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir”. Na verdade, o apóstolo Paulo não está desprezando o exercício físico, mas usa-o como ilustração para a busca de uma vida de exercícios e objetivos espirituais.

No relato da criação o Senhor cria o corpo do homem antes da alma. Note que é dito que “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” antes mesmo de dizer que “soprou em suas narinas o fôlego da vida” (Genesis 2:7). O resultado disso foi que “o homem foi feito alma vivente”. Moisés narra que o homem possui uma natureza una: corpo e alma/espírito. Devemos entender corpo, alma/espírito como aspectos da natureza humana e não como partes separadas e individuais entre si; trata-se de uma unidade plena e total.

Por não entender dessa forma os crentes tem considerado o aspecto físico do ser humano como inferior ao espiritual; a natureza espiritual superior a material. É como se Deus não se importasse de forma alguma com a natureza física da pessoa. Considerar uma parte inferior à outra é adotar uma visão dualista da criação. O irmão Alceu Lourenço Jr. afirma que “o dualismo entrou para o pensamento cristão por meio da influencia da filosofia platônica grega sobre importantes pensadores cristãos da antiguidade”. Dessa forma toda a produção cultural ou artística, tais como a música, artes, pintura, cujo tema não fosse religioso, não era valorizada e deveria até mesmo ser evitada. Os Reformadores trataram de corrigir esse desvirtuamento com a cosmovisão estruturada em três categorias bíblicas: Criação, Queda e Redenção.

As estruturas: Criação, Queda e Redenção

Na criação destaca-se o fato de que o mundo foi feito originalmente por Deus e que tudo é sustentado continuamente pelo seu poder. O mesmo Deus que cria e chama o universo à existência, é o mesmo que preserva e mantém sua criação. Sua criação é perfeita e boa (Genesis 1.31). As denominadas “leis naturais” nada mais é do que o ordenamento de Deus para a manutenção de sua criação. O Senhor criou o Sol e a lua, mas também determinou que eles se movimentassem regularizando dias e estações do ano de maneira que permitem a continuidade da vida sobre a terra. O Senhor criou o mar, mas imagine se Ele não estabelecesse o limite das águas do mar na praia? Enfim, o que pretendo dizer é que a cultura criada pelo Senhor é boa e deve ser desfrutada pela humanidade.

Na queda percebemos como a boa criação de Deus foi deturpada e sofreu degeneração. A maldição pelo pecado alcança imediatamente a fisiologia feminina, os relacionamentos humanos, o reino vegetal e, por fim, a própria vida humana. A queda trouxe como consequência à mulher, o parto trabalhoso para ter filhos e a subordinação ao seu marido. O trabalho de cultivar e cuidar do jardim eram realizados por Adão de maneira não sofrida, tranquila. Após a Queda, o objeto do trabalho do homem, a terra, torna-se maldita e deverá oferecer resistência “as suas enxadadas”. Em fadigas Adão extrairia seu sustento da terra e a partir de então ela produziria espinhos e cardos. Os relacionamentos pessoais foram afetados quando observamos que a harmonia vivida pelo casal é quebrada com acusações mútuas de culpa. Por fim, Adão que sem a queda em pecado deveria ter uma vida mais plena e nunca ficaria doente, é sentenciado pelo Senhor a degeneração física e morte.

Na redenção a humanidade recebe, em Cristo, uma nova oportunidade e é restabelecida como administradora de Deus sobre toda a criação. Cristo morreu na cruz do Calvário não apenas para redimir a alma, mas a totalidade da criação. Em Cristo cada aspecto da criação que foi corrompido pelo pecado é redimido. Os sinais, milagres, curas e exorcismos praticados pelo Senhor Jesus tinham como objetivo uma demonstração poderosa da vinda do Reino de Deus. Obviamente, este reino só terá cumprimento pleno e total na eternidade. A razão da redenção efetuada por Cristo na cruz do Calvário visa resgatar a cultura, as artes, a música, os relacionamentos, a pintura, o teatro, a política, etc, e não somente a alma/espírito.  

A Redenção da Cultura

Quando o crente deprecia as coisas boas criadas pelo Senhor e as vê apenas como produto da Queda, a tendência é um relacionamento conturbado com o mundo em sua volta e consigo mesmo. Seu comportamento com relação ao sexo, música, artes, teatro, política, beleza e entretenimento será sempre o de demonizá-los. É necessário retomarmos o potencial original da criação estruturada de maneira perfeita pelo Senhor. Para alguns crentes tudo é pecado e o Diabo criou a má cultura. Mas, Cristo morreu na cruz para restaurar sua criação original. Apreciar um quadro, uma peça teatral, uma boa música, um bom programa de televisão, um bom filme, não é pecado. Se quiser viver como um ermitão, por favor, converta-se em um monge e vá para o deserto. Caso contrário, glorifique a Deus pelo seu trabalho (e em plena segunda-feira), louve a Deus pelas pessoas que não são crentes ainda, componha uma boa música, escreva uma poesia, invente algo, plante uma árvore, transforme a má cultura numa cultura cujo nome do Senhor seja glorificado.


Espero fazer-me entendido por vocês. No amor de Cristo. 


sexta-feira, 7 de março de 2014

MULHER: BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO? (DIA INTERNACIONAL DA MULHER)


por Gilson Barbosa

Já escrevi uma postagem neste blog sobre a mulher no  cristianismo (leia aqui), mas sempre podemos acrescentar analisando sobre outro prisma e perspectivas. É o que faço nessa postagem em homenagem as mulheres no Dia Internacional da Mulher.

Somente Deus tem o poder, fineza e arte de criar um ser tão precioso e valioso como a mulher. Antes que as mulheres se empolguem demasiadamente, eu disse precioso e valioso, não perfeito, tá? (rsrs). É lógico que os homens também não são perfeitos. Homem e mulher se complementam. Ninguém é superior ao outro, o que há são funções diferenciadas e diferenciação sexual. Homem e mulher dependem um do outro. O apóstolo Paulo lembrou aos irmãos “corintianos” que

... nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem. (I Coríntios 11:11)

Deus notou a solidão de Adão e disse: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele” (Genesis 2: 18). Adão tinha a companhia dos animais criados pelo Senhor, do próprio Criador, dedicava-se ao trabalho, mas essas coisas não eram suficientes. Eva foi criada da mesma substancia essencial de Adão, mas um ser inteiramente novo. Não foi a toa que Adão exultou de contentamento ao vê-la e compôs o poema abaixo:

Esta é agora ossos dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tirada. (Genesis 2: 23)

A mulher não é um ser secundário na criação Divina. Deus criou o ser humano para viver em sociedade. A criação do homem e da mulher possui implicações também para o nosso relacionamento com as pessoas em geral. Ninguém é uma ilha. Portanto, “Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, porquanto do homem foi tomada” (Genesis 2:21, 22). Os dois sexos, masculino e feminino, pertencem ao padrão da criação. Ambos possuem em si mesmos a imagem de Deus (Genesis 1:27). Deus estruturou a criação do homem e da mulher de forma perfeita para que se relacionassem harmoniosamente.

Porém, a queda perverteu este relacionamento e passaram a se desentender. A disputa começou logo quando não assumiram seus respectivos erros, ao cederem à tentação do pecado. As divergências não residem necessariamente na composição da natureza feminina ou masculina, mas, nas consequências do pecado. Uma acusação gravíssima é que os homens da Bíblia eram machistas e oprimiam suas mulheres, ou que a própria Bíblia incentiva ao machismo e opressão feminina. Obviamente a sociedade primitiva era patriarcal e ainda que isso não signifique fazer “violência” à liberdade feminina, é verdade que as funções das mulheres bíblicas, bem como suas condições, são estranhas a nossa mente ocidental.

No entanto, percebemos como os homens que temiam ao Senhor amavam e honravam suas esposas, até ao ponto de se submeterem as suas ordens – o que é impensável numa sociedade machista. Note a atitude subserviente de Abrão a exigência de sua esposa Sara (leia Genesis 16:5, 6; 21:9-12). Jacó amava tanto a Raquel que trabalhou (o costume da época) quatorze anos por ela (Genesis 29: 16-27). Poderia dar outros exemplos. Os homens que desonravam suas mulheres certamente desagradavam os mandamentos do Senhor. A Bíblia apenas registra esses fatos, não significa que ela aprova a opressão feminina.

Movimento Feminista

Nesse contexto de ideias entre a relação homem-mulher surgem as reivindicações modernas do movimento feminista. Duas mulheres, no ocidente, foram fundamentais para o feminismo em varias partes do mundo: Simone de Beauvoir e Juliet Mitchell. Produziram tratados e livros importantes suplicando pela libertação feminina imposta pelos homens por meio do sistema capitalista, segundo a teoria marxista. Logo após, mulheres francesas, italianas, brasileiras, americanas, cooptadas pelas feministas socialistas e/ ou marxistas, lutaram arduamente por seus direitos em todas as áreas.

As mulheres cristãs também embarcaram na filosofia das feministas influenciadas pela política de Karl Marx. A luta por direitos, em si, não desabona o movimento feminista. Quero lembrar as mulheres, entretanto, que no marxismo o ser humano não é importante como indivíduo, mas apenas como membro da sociedade. Temos um movimento feminino embrionário na igreja de Corinto quando as mulheres no culto reivindicavam direitos iguais com os homens e um dos seus gestos foi o repúdio ao uso do véu no culto (I Coríntios 11: 1-16), como sinal de submissão. Hoje, a consagração de mulheres ao pastorado possui relação com esse movimento feminino primitivo, em total dissonância bíblica.

Procriação e carreira profissional

Gerar filhos e cuidar do lar são elementos que desestimulam algumas mulheres modernas. As mulheres na sociedade patriarcal, porém, eram incentivadas pelo mandamento divino, e posteriormente pressionadas pela própria cultura, a gerarem muitos filhos. Isso tem feito com que alguns grupos evangélicos defendam que a mulher deve ter tantos filhos quanto o Senhor lhe der e condenam a mulher seguir carreira profissional. É certo que o Senhor deu ordem a Adão e Eva para que tivessem muitos filhos (Gênesis 1:27) e que o ideal divino é a permanência da mulher no contexto do lar cuidando da família. A meu ver o mandamento Divino possui os seguintes significados: 1) não especifica a quantidade de filhos que um casal deva ter; 2) refere-se ao princípio de que o casal deseje ter filhos; 3) a multiplicação da humanidade, das quais a procriação é parte, está ligada ao povoamento da terra. 

Penso que a Bíblia não advoga sobre carreira profissional feminina pelo fato daquela sociedade manter padrões estruturados profissionalmente de forma a não oferecer nem propiciar as devidas oportunidades. Há de se notar também o desenvolvimento do trabalho passando pela sociedade agrária, urbana e industrial. Com o advento da Revolução Industrial o mercado se abre externamente ao trabalho feminino. Na Bíblia temos o exemplo de Lídia que era vendedora de purpura (Atos 16: 14) e não podemos negar que, de alguma forma, as mulheres trabalhavam – ainda que isso não signifique que deixavam seus lares para trabalhar. Não devemos ser dogmáticos nessas questões. Posso estar equivocado, mas penso que certos mandamentos bíblicos devem ser aplicados à luz do entendimento entre costume ou cultura local e princípios universais.   

Bênção ou Maldição?

Não entenda a expressão Bênção ou Maldição no título desta postagem como algo místico, mas em termos de boas ou más realizações. No demais, cumprimento todas às mulheres por ocasião desse dia convencionado como Dia Internacional da Mulher. Que o Senhor as abençoe cada vez mais, e que possam ser conduzidas sabiamente pela mão do Senhor, para a manutenção da família e para a glória de Deus.

Em Cristo,