domingo, 16 de março de 2014

A DEMONIZAÇÃO DA CULTURA


Por Gilson Barbosa

Quando os crentes observam a preocupação das pessoas em frequentar academias, realizar cirurgias plásticas, usar cosméticos, engajarem-se na política, falar sobre sexualidade, quase sempre possuem a tendência de demonizar esses procedimentos como se isso em si fosse maligno, tendo como base que as coisas espirituais é que devem ser priorizadas. Lembro-me de certo estudo bíblico onde o pastor implicitamente tentava “convencer” os irmãos a não praticarem exercícios físicos usando como base I Timóteo 4.8: “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir”. Na verdade, o apóstolo Paulo não está desprezando o exercício físico, mas usa-o como ilustração para a busca de uma vida de exercícios e objetivos espirituais.

No relato da criação o Senhor cria o corpo do homem antes da alma. Note que é dito que “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra” antes mesmo de dizer que “soprou em suas narinas o fôlego da vida” (Genesis 2:7). O resultado disso foi que “o homem foi feito alma vivente”. Moisés narra que o homem possui uma natureza una: corpo e alma/espírito. Devemos entender corpo, alma/espírito como aspectos da natureza humana e não como partes separadas e individuais entre si; trata-se de uma unidade plena e total.

Por não entender dessa forma os crentes tem considerado o aspecto físico do ser humano como inferior ao espiritual; a natureza espiritual superior a material. É como se Deus não se importasse de forma alguma com a natureza física da pessoa. Considerar uma parte inferior à outra é adotar uma visão dualista da criação. O irmão Alceu Lourenço Jr. afirma que “o dualismo entrou para o pensamento cristão por meio da influencia da filosofia platônica grega sobre importantes pensadores cristãos da antiguidade”. Dessa forma toda a produção cultural ou artística, tais como a música, artes, pintura, cujo tema não fosse religioso, não era valorizada e deveria até mesmo ser evitada. Os Reformadores trataram de corrigir esse desvirtuamento com a cosmovisão estruturada em três categorias bíblicas: Criação, Queda e Redenção.

As estruturas: Criação, Queda e Redenção

Na criação destaca-se o fato de que o mundo foi feito originalmente por Deus e que tudo é sustentado continuamente pelo seu poder. O mesmo Deus que cria e chama o universo à existência, é o mesmo que preserva e mantém sua criação. Sua criação é perfeita e boa (Genesis 1.31). As denominadas “leis naturais” nada mais é do que o ordenamento de Deus para a manutenção de sua criação. O Senhor criou o Sol e a lua, mas também determinou que eles se movimentassem regularizando dias e estações do ano de maneira que permitem a continuidade da vida sobre a terra. O Senhor criou o mar, mas imagine se Ele não estabelecesse o limite das águas do mar na praia? Enfim, o que pretendo dizer é que a cultura criada pelo Senhor é boa e deve ser desfrutada pela humanidade.

Na queda percebemos como a boa criação de Deus foi deturpada e sofreu degeneração. A maldição pelo pecado alcança imediatamente a fisiologia feminina, os relacionamentos humanos, o reino vegetal e, por fim, a própria vida humana. A queda trouxe como consequência à mulher, o parto trabalhoso para ter filhos e a subordinação ao seu marido. O trabalho de cultivar e cuidar do jardim eram realizados por Adão de maneira não sofrida, tranquila. Após a Queda, o objeto do trabalho do homem, a terra, torna-se maldita e deverá oferecer resistência “as suas enxadadas”. Em fadigas Adão extrairia seu sustento da terra e a partir de então ela produziria espinhos e cardos. Os relacionamentos pessoais foram afetados quando observamos que a harmonia vivida pelo casal é quebrada com acusações mútuas de culpa. Por fim, Adão que sem a queda em pecado deveria ter uma vida mais plena e nunca ficaria doente, é sentenciado pelo Senhor a degeneração física e morte.

Na redenção a humanidade recebe, em Cristo, uma nova oportunidade e é restabelecida como administradora de Deus sobre toda a criação. Cristo morreu na cruz do Calvário não apenas para redimir a alma, mas a totalidade da criação. Em Cristo cada aspecto da criação que foi corrompido pelo pecado é redimido. Os sinais, milagres, curas e exorcismos praticados pelo Senhor Jesus tinham como objetivo uma demonstração poderosa da vinda do Reino de Deus. Obviamente, este reino só terá cumprimento pleno e total na eternidade. A razão da redenção efetuada por Cristo na cruz do Calvário visa resgatar a cultura, as artes, a música, os relacionamentos, a pintura, o teatro, a política, etc, e não somente a alma/espírito.  

A Redenção da Cultura

Quando o crente deprecia as coisas boas criadas pelo Senhor e as vê apenas como produto da Queda, a tendência é um relacionamento conturbado com o mundo em sua volta e consigo mesmo. Seu comportamento com relação ao sexo, música, artes, teatro, política, beleza e entretenimento será sempre o de demonizá-los. É necessário retomarmos o potencial original da criação estruturada de maneira perfeita pelo Senhor. Para alguns crentes tudo é pecado e o Diabo criou a má cultura. Mas, Cristo morreu na cruz para restaurar sua criação original. Apreciar um quadro, uma peça teatral, uma boa música, um bom programa de televisão, um bom filme, não é pecado. Se quiser viver como um ermitão, por favor, converta-se em um monge e vá para o deserto. Caso contrário, glorifique a Deus pelo seu trabalho (e em plena segunda-feira), louve a Deus pelas pessoas que não são crentes ainda, componha uma boa música, escreva uma poesia, invente algo, plante uma árvore, transforme a má cultura numa cultura cujo nome do Senhor seja glorificado.


Espero fazer-me entendido por vocês. No amor de Cristo. 


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