sábado, 30 de agosto de 2014

QUAL A HORA DO ENCONTRO ENTRE JESUS E A MULHER SAMARITANA?

Gilson Barbosa

Querido leitor, você já deve ter ouvido pregações ou lido artigos e livros evangélicos afirmando que o encontro de Jesus com a mulher samaritana aconteceu por volta do meio-dia, ou seja, a sexta hora judaica. Mas à luz de outras menções de hora, principalmente nos evangelhos, isso não parece ser provável.

As horas eram computadas do nascer até o por do sol e o tempo do dia era indicado em termos mais gerais. No Novo Testamento é muito comum a menção das horas em primeira, terceira e nona hora; o que equivale as seis, nove e doze horas (ou meio-dia).

Qualquer tempo restante para completar o dia era considerado no computo total. Por exemplo, Jesus “entregou seu espírito ao pai” (sua morte física) por volta da hora nona (Marcos 15:34; Lucas 23:44-46) e disse que ressuscitaria no  terceiro dia (Mateus 20:19). Na contagem moderna ele morreu por volta das quinze horas da sexta-feira (15h00) e ressuscitou na segunda-feira. Mas, a Bíblia afirma que ele ressuscitou no primeiro dia da semana, isto é no domingo (Lucas 24:1). Então a explicação é a seguinte: nas três horas restantes da sexta-feira conta-se um dia, sábado conta-se mais um dia, e no começo do domingo, o terceiro dia.  

Os antigos faziam a divisão do dia em três partes, conforme notamos nos Salmos 55: “À tarde, pela manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá a minha voz” [grifo meu]. Para os judeus um novo dia iniciava-se ao por do sol. A vigília noturna era dividida também em três partes e era assim: primeira vigília (18-22h); segunda vigília (22-2h) e terceira vigília (2-6h). O evangelista Marcos divide em quatro vigílias, segundo a contagem dos romanos (Marcos 13:35).

Mas voltemos à mulher samaritana e a hora em que ela se encontrou com Jesus. Se considerarmos a contagem judaica diremos que o encontro foi por volta do meio-dia (sexta hora). Isso cria um problema sério entre os escritores dos evangelhos quanto à crucificação de Jesus. Marcos (15:25) afirma que Jesus foi crucificado na hora terceira (ou às nove da manhã). Mas João (19:14) diz que Jesus foi interrogado por Pilatos cerca da hora sexta (ou meio-dia). Fica a pergunta: “Jesus teria sido interrogado por Pilatos depois que foi crucificado?”. Isso não seria uma contradição lógica, dos fatos e dos evangelistas?

Mesmo que a maioria dos estudiosos não concorde é provável que devemos computar as horas no evangelho de João conforme as horas modernas, ou seja, de meia-noite ao meio-dia. Assim sendo, sexta hora são seis horas, décima hora são dez horas e assim por diante. Isso harmoniza com o fato histórico de que Jesus foi julgado por Pilatos às seis horas da manhã (a primeira hora judaica).

Desta maneira o encontro de Jesus com a mulher samaritana aconteceu às seis horas da tarde e não ao meio-dia. Robert Gundry (Panorama do Novo Testamento) observa que “as mulheres costumavam tirar água do poço ao cair da tarde, e não sob o calor do meio-dia”. A Bíblia de Estudo Vida afirma que “geralmente as mulheres iam ao poço da cidade quando o calor estava menos intenso, seja pela manhã, seja ao entardecer”. Essas considerações fortalecem o entendimento que intenciono defender a respeito deste assunto. Alguém pode dizer que a mulher estava sozinha no poço. Porém, culturalmente isso é improvável. Por outro lado podemos afirmar que o registro joanino é de que Jesus conversou apenas com a mulher samaritana.  

Espero ter sido claro e me fazer entendido.


Em Cristo,

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O BISPO E A TRANSFORMAÇÃO DA ÁGUA EM VINHO


Queridos leitores, há um vídeo na internet onde o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, com ar de arrogância, afirma que o primeiro milagre que Cristo realizou foi insignificante, injusto e inútil (assista aqui). Em outras palavras transformar água em vinho não faz sentido para ele, não há nenhuma relevância nisso. É injusto, pois é como se Jesus estivesse atendendo um grupo social distinto enquanto deveria estar efetuando outros tipos de milagres que contemplasse todas as pessoas carentes. É inútil, não serviu para nada. Não trouxe “nenhum benefício ao reino de Deus”.

Essas ideias doidas expostas por líderes aloprados não me impressionam mais. Contudo, me preocupo com a plateia que lhe ouve. Em vez de serem alimentados por uma boa comida (doutrina sadia) estão diante de um prato “saboroso” de capim seco. Suas palavras são graves. Elas acusam Jesus de inconsequente e de possuir ausência de bom senso. Temo pela vida eterna deste homem, porque suas palavras desonram a Cristo, e o evangelista Mateus escreveu que “... de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mateus 12:36,37). Será mesmo que o milagre da transformação da água em vinho foi insignificante, injusto e inútil? Vamos a eles.

1º Insignificante. Todos os milagres que Cristo realizou servem como sinais que apontam para uma realidade maior e mais abrangente. Frank Thielman (Teologia do Novo Testamento, Ed:Shedd) ao comentar sobre a importância do termo “sinal”, usado bastantes vezes por João no seu evangelho, diz que “quando João usa o termo ‘sinal’, ele quer dizer algo que aponta de forma alusiva a uma realidade que ultrapassa a si mesmo – um símbolo”. O biblista escocês Frederick Fyvie Bruce (F.F.Bruce) afirma que há um sentido espiritual na narrativa da transformação da água em vinho:

A água, que servia para a purificação que a lei e os costumes judaicos exigiam, representa toda a antiga ordem do cerimonial judaico, que Cristo haveria de substituir por algo melhor. O ato de encher os jarros até à borda indica que o tempo determinado para as observâncias cerimoniais da lei judaica tinha chegado ao fim; estas observâncias tinham cumprido seu propósito de modo tão completo que nada mais restava da ordem antiga por ser feito. Portanto, chegara a hora de inaugurar-se a nova ordem. O vinho simboliza a nova ordem, assim como a água nos jarros simboliza a antiga.

Portanto, de maneira sintética podemos resumir que Cristo jamais realizou um milagre que não tivesse importância ou relevância. O milagre teve relevância para o casal, seus familiares e amigos presentes no casamento. Ainda mencionando F.F.Bruce: “o término do vinho antes do fim seria um sério golpe, que afetaria principalmente a reputação do hospedeiro”. O evangelista João finaliza essa narrativa querendo que seus leitores reconheçam neste milagre (assim como nos outros também) a divindade de Jesus: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galileia, manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (João 2:11). Será que isso não quer dizer que havia um significado específico na realização deste milagre? Que o bispo responda.

2º Injusto. Para ser honesto o bispo deveria informar seus ouvintes que este foi apenas o primeiro milagre de Jesus. Mas não. Ele insinua que Jesus deveria esta curando, salvando e libertando pessoas, em vez de estar numa festa insignificante de casamento efetuando um “milagrezinho” sem importância para um grupo seleto.

Jesus operou milagres pelo menos em quatro áreas específicas: sobre a natureza, milagres de libertação, sobre as enfermidades e milagres de ressurreição. E ainda promoveu o maior dos milagres – a regeneração - em centenas ou milhares de pessoas. Mas podemos imaginar o tipo de milagre que o bispo gostaria que Jesus tivesse feito - é claro, dar muitas riquezas, prosperidade, promover a ausência de sofrimentos nas pessoas, etc. Isso é muito parecido com a proposta que Satanás fez a Jesus para que se lançasse do alto do Templo abaixo visto que nada lhe aconteceria, pois Deus enviaria seus anjos para lhe guardar (Mateus 4:6). Para muitas pessoas Deus tem a obrigação de nos promover bem estar. Mas a verdade é que Deus não é injusto quando nos permite sofrer. Não entendemos porque sofremos, mas “sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28). Quer falar de injustiça? Injusto é extorquir os bens de pessoas simples ao prometer algo que cabe ao Senhor fazer ou não.

3º Inútil. O bispo afirma que o milagre não serviu para coisa alguma. Não trouxe nenhum benefício para o reino de Deus. Não há nenhum proveito; nenhuma vantagem.

Na verdade, Cristo não realizava milagres para oferecer vantagens, proveitos ou benefícios a pessoas ou entidades. Mesmo assim este milagre, no aspecto social, livrou os noivos e seus familiares de uma situação constrangedora e vexatória. Devemos ter em mente que o casamento é um dos momentos mais importantes na cultura dos judeus. Os casamentos judaicos eram celebrados com festas que duravam até sete dias. Se este momento, tão feliz aos noivos, não tivesse nenhuma importância Jesus não estaria presente neste casamento. Já que o bispo se importa tanto com as pessoas deveria aplaudir o fato de Jesus operar essa transformação e evitar situações embaraçosas.

Aliás, neste casamento Jesus é a pessoa mais importante. Nada é dito dos noivos, dos familiares, dos convidados, mas Jesus é colocado no centro do palco.

No aspecto espiritual este milagre foi útil ao revelar a glória de Jesus e fazer com que seus discípulos, que estavam iniciando a jornada ministerial, pusessem a fé nele. Será que isso ainda é pouco para compreendermos a utilidade deste primeiro milagre realizado por Jesus?

Hereges descarados

Nos causa revolta ouvir este senhor, teologicamente um pedante, despejar seu veneno mortal sobre milhares de pessoas incautas. Sabemos o que está por trás dos seus interesses – espoliar os bens de pessoas, subtrair a qualquer preço o dinheiro suado delas. Mas para isso não precisava apelar e desqualificar um ato realizado pelo Cristo Criador e Soberano do universo!!!

Cabe aos que entendem e amam o verdadeiro evangelho cumprir seus deveres como cristãos e não permitir que falsos mestres e hereges realizem seus intentos tão descaradamente: “Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (II Timóteo 3:13).


No amor de Cristo, 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O VERDADEIRO ISRAEL


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Por Thiago Oliveira


Recentemente fui a uma igreja e vi um Pastor que lá pregava, exaltar o povo de Israel e dizer que eles são o legítimo povo de Deus. Este senhor, com mais de três décadas pastoreando, é com certeza um cooperador do Evangelho. Não julgo o seu ministério, apenas discordo de sua frase, que biblicamente está equivocada. Não é só ele que pensa assim. Um dia desses, num fórum sobre o atual conflito israelenses X palestinos, um cristão disse que o bombardeio a Gaza servirá para que todos vejam e glorifiquem o Deus de Abraão.

Este argumento que leva em consideração o Israel-étnico como sendo o povo da aliança que o SENHOR fez com Abraão está em total desacordo com o ensino contido em toda a Escritura. O equívoco do exclusivismo étnico, isto é, do nacionalismo soteriológico é muito comum em diversas igrejas e foi a pedra de tropeço dos judeus que rejeitaram a Cristo, por esperar um Messias político, que iria vencer os dominadores romanos e transformar a sua nação na mais exaltada sobre a face da terra. Por isso, se quisermos ter o reconhecimento de que somos o “povo da Bíblia”, devemos então rechaçar a ideia de que o atual Estado judeu abriga os escolhidos de Yaveh.

O Dispensacionalismo é o grande responsável por tantos equívocos. Esta linha escatológica (parte da Teologia que retrata os últimos acontecimentos) não tem dois séculos de existência, mas foi extremamente difundida entre as Igrejas. Seu ensino impreciso está presente em diversos materiais, incluindo as Bíblias de Estudo, tais como  Bíblia Anotada, a Dake, a Scofield, a Plenitude e a Pentecostal. Para apontar todos os erros dispensacionalistas, seria necessário um estudo específico apenas para fazermos tais apontamentos. Por isso, tratarei apenas sobre a questão do exclusivismo étnico. 

Antes de me aprofundar, gostaria de dizer que não sou antissemita. E também não estou me vangloriando pela lamentável condição daqueles que são israelenses, mas que estão fora da aliança. Tampouco afirmo que nenhum judeu foi, é e pode ser salvo e herdeiro da Pátria Celestial juntamente com Cristo. O que proponho neste breve texto é esclarecer o que é tão somente um ensinamento bíblico. A salvação nunca foi limitada a uma etnia. Deus chamou para si gente de todos os povos e para comprovar isso será necessário consultar a teologia do Antigo Testamento e também mergulhar nos dois principais autores neotestamentários.

A) A Salvação de Outros Povos no Antigo Testamento


Quando Deus faz a sua aliança com Abraão, a promessa foi que a partir de sua descendência seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12:3). Mesmo fazendo daquele homem uma nação, o SENHOR revela que o seu plano não é de salvar apenas a sua linhagem consanguínea. É tanto que quando Deus ordena a circuncisão como um sinal evidente da aliança, os estrangeiros são incluídos:

Gênesis 17:12 - O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o homem nas vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua descendência.

Êxodo 12:48 - Porém se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a páscoa ao Senhor, seja-lhe circuncidado todo o homem, e então chegará a celebrá-la, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela.

Obviamente, Israel foi uma nação privilegiada, pois dela veio a revelação, e isto inclui a Lei, o culto, a Escritura e o principal: Deus se fez carne e se fez homem-judeu. E foi em solo judaico que o sangue na cruz verteu, para perdoar os pecados de muitos. Vale ressaltar que os primeiros cristãos e líderes da Igreja foram judeus. No entanto, não era o fato de nascer judeu que dava automaticamente ao homem o direito de fazer parte da Congregação dos Santos. Vemos em todo o Antigo Testamento que muitos deles foram infiéis ao concerto e por este motivo, ficaram de fora das promessas. O exemplo mais claro disto está em Números 16, onde relata a morte de cerca de 15 mil pessoas, todos de descendência abraâmica. Morreram no meio do deserto porque foram infiéis. Antes deste episódio, Deus já havia decidido que aquela primeira geração que viveu no Egito não entraria na Terra Prometida, devido a sua incredulidade (Ex 14:23), a exceção foram Josué e Calebe. 

Lembremos do livro de Jonas, onde a salvação foi pregada aos ninivitas, um povo gentio e perverso. Lembremos de como Jonas ficou indignado com a salvação de uma nação composta por não-judeus. Ali, o exclusivismo nacionalista dava os seus sinais. Esta concepção era tão forte que mesmo após estarem com Cristo ressurreto, que durante 40 dias lhes falou acerca do Reino de Deus, os discípulos perguntaram se o reino terreno de Israel seria restaurado ainda naquela presente era (At 1:6).

Poderíamos aqui também citar Melquisedeque, que não era judeu e foi chamado sacerdote do Deus altíssimo (Gn 14:18), e por ter abençoado Abraão, demonstra a sua superioridade em relação ao patriarca hebreu. Outros exemplos de gentios que são apresentados como servos do SENHOR são Jó, homem fiel e temente a Deus, de nacionalidade desconhecida. Rute, que era moabita, mas entrou na genealogia messiânica. De igual modo, Raabe, a prostituta de Jericó que se converteu ao Todo-Poderoso e gerou aquele que se casaria com Rute, Boás, bisavô do Rei Davi (Mt 1:5). Se na linhagem do Messias, havia “sangue gentio”, isto revela então que o exclusivismo étnico é um erro crasso na interpretação da História redentora. 

B) Paulo Explica Quem São os Filhos de Abraão

Gálatas 3:7 e 29 - Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão. (...) E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

O verso acima é o mais claro possível. Paulo, hebreu dentre os hebreus (Fl:3-5) é quem evidencia o que já foi dito anteriormente. O povo de Deus é composto por aqueles que possuem a fé na revelação, e Cristo é o ápice da revelação. Podemos ler acerca disto em outra de suas epístolas:

Romanos 4:16 ao 17 - Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós, (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.

Abraão é pai dos que creem no que ele creu, sejam estes judeus ou gentios. A nacionalidade não importa (Gl 3:28). Nem a circuncisão - o sinal da aliança veterotestamentária - faz mais sentido. Segundo Paulo, o que importa é ser nova criatura (Gl 6:15). E sabemos que apenas os que estão em Cristo são nascidos de novo e feitos nova criação (2Co 5:20). Se durante a antiga aliança a proporção de gentios incrédulos era tamanha, deixando-os de fora do Israel de Deus, agora pelo sangue de Cristo há uma aproximação e ambos, judeus e gentios, formam um mesmo povo (Ef 2:14).

Mesmo sendo conhecido como apóstolo dos gentios, Paulo frequentava a sinagoga nos locais que chegava e pregava primeiramente para os judeus. Porém a rejeição a Cristo era maior entre os seus patrícios. Agora, na nova aliança, a probabilidade é invertida, e há mais gentios na congregação dos santos do que judeus. Contudo, existe um remanescente fiel entre os israelitas. Deus não os rejeitou por completo. Entre os eleitos pela graça, também encontramos pessoas do Israel-étnico (Rm 11:5). Creio que o atual estado da grande maioria dos israelenses é de cegueira espiritual, pois a Bíblia assim o descreve, porém eu também creio que os israelenses eleitos soberanamente pelo Aba-Pai, continuam sendo adicionados ao Corpo de Cristo, formando o verdadeiro Israel. 

C) O Israel de Deus nos Escritos de João

João, o apóstolo amado, foi usado por Deus para escrever 5 livros do Novo Testamento. Em seu Evangelho, narra um episódio tenso entre Jesus e os mestres da Lei. O motivo da tensão, ao ponto de intentarem contra a vida de Cristo foi porque ele negou a filiação abraâmica dos seus ouvintes incrédulos. Além disso, falou que o verdadeiro pai daqueles que eram etnicamente israelitas, todavia, não tinham a fé que teve Abraão, era o Diabo (Jo 8: 39-44). Mais adiante (Jo 10:16) Jesus se apresenta como o bom pastor e fala das ovelhas de outro aprisco que por ele serão apascentadas. Estas ovelhas formam um rebanho e não dois paralelos. A Igreja precisa entender que não existe um tratamento diferenciado por parte do nosso Sumo Pastor. Há um só Israel composto por etnias distintas e todos receberão a mesma parcela do Reino Celestial.

Já em seu livro profético, o Apocalipse, João impelido pelo Senhor dirige-se a igreja de Esmirna e quando trata sobre a tribulação, acusa os que se dizem judeus, mas que não são (Ap 2:9), muito pelo contrário, por perseguirem o verdadeiro rebanho de Cristo, são chamados de “sinagoga de Satanás”. A semelhança com o relato de João 8 é perceptível. Os mesmos judeus recebem o mesmo nome pejorativo no capítulo 3, versículo 9, por fustigarem a igreja da Filadélfia.  

Na visão do trono de Deus, em que o livro da vida é apresentado, um cântico celestial é cantando:

Apocalipse 5:9 - E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação.

Conclusão

O povo adquirido por Deus não tem sangue judaico, apenas. Os que reinarão com Cristo na Jerusalém celestial são de diversas nacionalidades e culturas. O verdadeiro Israel é composto por povos vindos de todo o globo. Não existe um povo que esteja à parte de Jesus, o Salvador que possa reivindicar as promessas que o SENHOR fez ao povo da aliança. 

Louvado seja o Cordeiro de Deus, que com sua morte e ressurreição nos comprou para o louvor de sua glória. Aleluia!

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Fonte: Bereianos

JESUS NÃO ERA ALEGRE?

Gilson Barbosa

Charge:  de Jasiel Botelho - Charge Evangélico, Gospel - Portal FielQueridos leitores, a verdadeira felicidade faz parte da vida cristã. Mas a pergunta é: De que maneira o crente obtém essa tal alegria e felicidade? Sei que alguns dirão que basta a pessoa “aceitar” a Jesus e pronto! Porém, a realidade é contra essa ideia. Basta ligar a televisão ou o rádio e você verá uma quantidade de crentes infelizes e tristes em busca da casa própria, do sucesso financeiro e profissional, de cargos e funções na igreja onde congrega, etc. Parece que “aceitar” a Jesus não tem sido suficiente para eles. Na verdade, esses crentes precisam estudar o “Sermão do Monte” ensinado por Jesus tanto a seus discípulos quanto a toda a igreja hoje em dia.   

Mas, se alguns buscam incansavelmente uma alegria terrena e momentânea em nome da fé, outros paradoxalmente pensam que para ser um crente verdadeiro você não deve ficar rindo à toa ou expressar alegria através de uma boa autoimagem pessoal. Para ser crente mesmo você deve ter sempre uma postura austera. A situação se torna mais grave se for uma pessoa que ocupe cargos na igreja. Você deve manter sempre uma imagem de seriedade. Minha opinião é que esse pensamento todo é bobagem. Se por um lado não devemos ficar fazendo piadinhas e gracejos de tudo, pelo outro penso que uma boa dose de humor faz parte da natureza cristã – ainda que não tenhamos motivo para tal.

As pessoas que defendem que para o crente é melhor “chorar” do que rir apelam para o exemplo de Jesus. Dizem que na Bíblia não há nenhum registro de que Ele tenha rido ou que tenha soltado alguma gargalhada. Para estes sua aparência não atraía ninguém, pois como afirma o profeta Isaías (53:3) Ele era “homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso”. Contudo, penso que o fato de Jesus ser desprezado pelos homens nunca o fez uma pessoa triste, melancólica e mal humorada. Afirmar que Jesus nunca riu, com base no argumento do silencio bíblico, não é recomendável e arriscado.

Como você demonstra sua alegria e felicidade? Uma das formas é rindo. Até mesmo a pessoa mais séria e austera que você conhece, em algum momento deve expressar sua alegria com muitas risadas. Não é a sisudez ou a “cara feia” que faz a pessoa ter autoridade e ser reconhecida pelos outros. Confesso a vocês que já me peguei rindo ao ler a atitude dos personagens bíblicos, dos discípulos e até mesmo com algumas atitudes de Jesus. As pessoas queriam ficar perto de Jesus, ter sua presença em suas casas, serem seus amigos. Não vejo que seria assim se Jesus fosse uma pessoa chata ou melindrosa.

Por conta de sua encarnação Jesus foi um ser humano completo e faz parte disso as emoções humanas. Sorrir ou chorar não é mal em si mesmo. Penso que dizer que Jesus nunca sorriu compactua com a ideia de que Ele foi uma pessoa sem alegria ou constantemente estressada. Certo irmão notou que uma vida sem alegria teria sido uma vida pecaminosa e devemos distinguir as emoções de Jesus das nossas. Suas emoções foram sem pecado e reguladas pela moderação.

Com base na Escritura temos razões para pensarmos que Jesus vivia uma vida feliz. O evangelista Lucas afirma que após os setenta discípulos regressarem com sucesso de suas tarefas missionárias o Senhor Jesus se alegrou: “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou...” (Lucas 10:21). Jesus era internamente alegre, conforme registra João (15:11): “Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo”.  Jesus queria que seus discípulos fossem plenamente alegres: “Mas, agora, vou para junto de ti e isto falo no mundo para que eles tenham o meu gozo completo em si mesmos” (João 17:13). Assim como é contraditório informar sobre uma notícia triste rindo, é também estranho dar uma boa notícia com o rosto carrancudo.

É claro que não devo dar voz onde a Bíblia se cala, porém penso que Jesus não era menos humano que qualquer um de nós. Assim: alegria e sorriso são partes, primeiro da natureza humana, depois da natureza da prática cristã. Por que os evangelistas não relataram o riso de Jesus nos seus registros? Não tenho resposta. Mas penso que uma das imagens e expressões da alegria e felicidade sem dúvida alguma é o riso. Sorria, apesar de ser crente (rsrs).



No amor de Cristo,  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

REPUDIE AS HERESIAS, NÃO PESSOAS OU DENOMINAÇÕES

Gilson Barbosa

Queridos leitores, uma das coisas que mais me aborrece no mundo cristão-evangélico é o orgulho espiritual que possui alguns crentes. Sim, alguns são possuídos por este sentimento. Talvez eu não esteja sozinho, pode ser que vocês também se irritem com esse tipo de comportamento. Esta gente pensa que Deus está exclusivamente ao seu dispor “25” horas por dia pronto para sempre aprovar suas solicitações ou conduta. Confesso que isso me entedia. São os supercrentes, superespirituais, superapóstolos, superpregadores, superprofetas... O apóstolo Paulo teve muito trabalho com esse pessoal.

O presbítero Solano Portela, no livro 5 Pecados que ameaçam os calvinistas, define orgulho espiritual da seguinte maneira:

Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos seus servos. Seria achar que se é conhecedor de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram.

Na Bíblia temos um exemplo que se ajusta bem a esta definição: a parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18:9-14). É interessante notar que aquilo que o fariseu dizia de si mesmo era verdadeiro, porém confiava nos seus próprios méritos. Já o publicano (uma classe de gente odiada pelos judeus) confiou na graça de Deus. A oração do fariseu foi proferida com um espírito de orgulho, o publicano em oração confessou ao Senhor que era o pecador. O orgulhoso fariseu começou sua oração dizendo a Deus que se privava de alguns vícios pecaminosos, enquanto apreciava práticas piedosas (vs 11,12). O publicano sabia que não podia pleitear nada diante do Senhor soberano. Com senso de indignidade batia no peito em sinal de tristeza (v. 13). Jesus concluiu seu ensinamento dizendo que “quem se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado”. Não temos porque nos orgulhar diante de Deus. Lamentavelmente muitos crentes não aprenderam essa lição.

Há um tipo de orgulho que reflete a identidade do orgulho espiritual: o orgulho denominacional. Penso que em doses homeopáticas a atitude seja saudável. A psicologia chama esse procedimento de orgulho como admiração. Uma pessoa que respeita a igreja a qual pertence e busca pontuar suas qualidades merece respeito. Porém, quando esse sentimento pela denominação extrapola os limites, a pessoa se torna non grata. Torna-se semelhante aqueles pais que vêem defeitos nos filhos dos outros, mas os seus são irrepreensíveis. Isso não significa dizer que há igrejas perfeitas e que, portanto não devemos avaliar sua conduta neste mundo. As diferenças teológicas não são suficientes, temos que avaliar suas doutrinas à luz da Bíblia. Os crentes de Bereia usavam esse critério na avaliação da pregação do apóstolo Paulo.  Lucas diz que eles examinavam as Escrituras todos os dias para ver se o que o apostolo afirmava era ortodoxamente bíblico (leia Atos 17:11). Tenho pena de alguns crentes que aceitam tudo como verdade, só porque foi ensinado pelo “apóstolo fulano de tal”.  

O crente fanático por sua denominação precisa saber que não há igreja imaculada nem impecável. Obviamente não estamos falando da Igreja invisível de Cristo – a que é composta por todos os salvos de todos os tempos e lugares (Efésios 5:23). O teólogo Wayne Grudem classifica a Igreja em duas categorias: as falsas igrejas e as igrejas verdadeiras (estas podem ser mais puras ou menos puras). Segundo seu entendimento a “pureza da igreja é o seu grau de isenção de doutrina e de conduta errôneas e o seu grau de conformidade com a vontade de Deus revelada à igreja” (Teologia Sistemática, p. 733). Observamos isso nas igrejas da província romana da Ásia. Quatro, das sete igrejas receberam críticas severas do Senhor, mas nem por isso o Senhor as condenou ao inferno, mas instruiu sobre o que deveria ser feito (Apocalipse 1:20-3:22). O Senhor tem seus eleitos em muitas igrejas das quais repudiamos sua conduta.

Há pessoas que chegam ao ponto de odiar denominações ou líderes por causa de suas inúmeras heresias. Não devemos agir assim. A verdade deve ser seguida em amor (Efésios 4:15). O pastor Hernandes Lopes diz que “a verdade sem amor é brutalidade, mas amor sem verdade é hipocrisia”. Precisamos encontrar o ponto de equilíbrio. Pentecostais criticam tradicionais e vice-versa; calvinistas atacam arminianos e vice-versa. Enquanto isso Satanás se diverte observando que o reino do Senhor é dividido por fortes emoções negativas. O apóstolo Paulo ao descrever nosso arqui-inimigo alerta que “não é contra pessoas de carne e sangue que temos de lutar, mas sim contra principados e poderios, contra os príncipes deste mundo de trevas, contra os exércitos espirituais da maldade nas regiões celestiais” (Efésios 6:12). É claro que há diferenças teológicas, litúrgicas e doutrinárias entre as denominações. Contudo, se o Senhor orientou a amarmos nossos inimigos (Mateus 5:44), porque hostilizarmos os irmãos que não estão do mesmo lado que nós? Que o Senhor tenha misericórdia do seu povo e dê sua paz.


No amor de Cristo,