quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PREGADORES DA PALAVRA OU INVENTORES DE HISTÓRIAS BÍBLICAS?

Por Gilson Barbosa
No culto daquela noite o pregador leu o texto bíblico de Marcos 2.1-12 (narrativa sobre a cura do paralítico de Cafarnaum trazido por quatro amigos e descido pelo telhado até onde Jesus estava) e enfatizando a expressão do primeiro versículo, “ele [Jesus] estava em casa”, perguntava repetidamente ao auditório: “Me diga, por favor, de quem é essa casa?!”. Noutra vez era mais incisivo na pergunta: “Mas então, me diga, por favor, de quem era a casa pelo amor de Deuuuuus??!!”. A essas alturas eu já estava mais curioso pra saber quem era o proprietário da casa, do que concentrado para ouvir a pregação da Palavra de Deus em sua essência. Olhei para os irmãos e pude perceber também nas suas faces a mesma curiosidade e apreensão. 
Numa associação duvidosa, equivocada e indevida de alguns textos bíblicos o que ficou claro (bom, pelo menos pra mim, pois alguns irmãos até hoje ainda não estão bem certos de quem era a casa!) com sua insistência era: Jesus era o mais famoso carpinteiro de Nazaré, devido à qualidade, as pessoas compravam muitos objetos ou móveis que ele produzia, ganhou um bom dinheiro e depois mudou-se para uma ampla e confortável casa de praia que comprara em Cafarnaum (Leia, por favor, Marcos 6.3; Mateus 4.12,13; João 2.12; Mateus 13.1).
Na mesma hora pensei: “Meu Deus! nem a pessoa mais criativa é tão criativa quanto esse pregador!!”. Mas logo em seguida concluí que isso estava mais para uma invenção do que para uma criatividade. Confesso que fiquei preocupado com o andamento da mensagem, fiz algumas anotações e depois pesquisei nos livros que tenho sobre o assunto. Não posso ser injusto e desqualificar a pregação como um todo, em certos momentos houve sensatez e coerência bíblica, mas, os detalhes, as entrelinhas, foram extremamente e negativamente afetados. Alguns erros foram cometidos na pregação.
O primeiro foi dizer o que a Bíblia não diz. Nada sabemos dos anos em que Jesus não exerceu seu ministério e se comportou normalmente, na sociedade, como qualquer outro judeu. Existe algo na exposição bíblica que eu chamo de a tentação do pregador. Nesse ponto ele é atraído irresistivelmente para uma zona cinzenta e perigosa (das passagens bíblicas) e assim como acontece nas tentações dos demais pecados o pregador não resiste e sucumbe nas entrelinhas. Dizer que Jesus era um carpinteiro famoso e que muitas pessoas em Nazaré compravam os móveis produzidos por ele é ser atraído para uma época na vida de Jesus onde a Bíblia se silencia.
Alguns grupos ligados ao Movimento Nova Era movidos pela curiosidade sobre a adolescência e juventude de Jesus pintaram um quadro em que Jesus não passa de um místico e adepto de práticas ocultistas. O apologista Eguinaldo Hélio comenta que: “Ao invés do carpinteiro de Nazaré, seguidor do judaísmo de sua época, foi pintado o quadro de um asceta hindu, viajante oriental, aluno de gurus e praticante de todo um misticismo que os cristãos jamais imaginaram fazer parte do comportamento de Jesus. Ele teria viajado ao Extremo Oriente, após o incidente no Templo de Jerusalém (Lc 2.46), e se iniciado nas doutrinas e práticas da Índia e do Tibete. Na verdade, os adeptos da Nova Era criaram um Jesus à sua própria imagem e semelhança, para que, assim, pudessem justificar todas as suas práticas ocultistas”.[1] Não estou dizendo que o pregador cometeu uma heresia (não chega a tanto), mas que a insistência nesse tipo de prática (pregar criando histórias arbitrárias e subjetivas) pode gerar confusão, equívocos e possivelmente heresias.
O segundo trata-se de ler as Escrituras e entende-la cronologicamente e não logicamente. Se colocarmos os livros do Novo Testamento em ordem cronológica fica assim: Tiago, Gálatas, 1 e 2 Tessalonicenses, Marcos, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Lucas, Colossenses, Efésios, Filipenses, Filemom, Atos, Mateus, 1 Timóteo, 1 Pedro, Tito, 2 Timóteo, 2 Pedro, Hebreus, Judas, 1,2 e 3 João e Apocalipse. No entanto, a maneira correta como os livros neotestamentários estão distribuídos segue a ordem lógica e crescente, que é a divisão em quatro classes: Biografia (Os Evangelhos), História (Atos dos apóstolos), Doutrinas (as cartas) e Profecia (Apocalipse).
Quando o pregador (assunto dessa postagem) associou as passagens dos Evangelhos para respaldar seu entendimento (Mc 2.1; Mt 4.12,13; Jo 2.12; Mt 13.1) o fez usando os textos bíblicos em ordem equivocada pois o desenvolvimento histórico dos acontecimentos na vida de Jesus não estão organizados nos Evangelhos. As histórias sobre Jesus nos Evangelhos precisam ser harmonizadas na ordem lógica dos fatos e não na ordem cronológica em que se encontra. A idéia do pregador é a que segue: Jesus estava na casa que comprara com a venda dos móveis que produzira (Mc 2.1; 6.3); sua casa era em Cafarnaum, pois fora morar lá (Mt 4.12, 13); era uma casa ampla e espaçosa, pois comportou no mínimo 21 pessoas (Jo 2.12), contando pelo menos duas irmãs de Jesus; e a casa era na beira da praia (Mt 13.1).   
Quando Jesus convidou certos pescadores para tornarem-se seus discípulos, em Mateus 4.18-22, ficamos com a impressão de que foram irresponsáveis por abandonarem o trabalho, suas profissões e seguirem a Jesus – a princípio sem nenhuma remuneração. A Bíblia diz que “eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram”.  No entanto, numa leitura mais cuidadosa descobriremos que o primeiro contato dos discípulos com Jesus está registrado no Evangelho de João (1.35-51). Ou seja, os primeiros discípulos de Jesus, apesar de não deixarem suas profissões e trabalharem com a pesca, eram discípulos de João. Esse convívio com João Batista facilitou a aceitação do convite de Jesus para que eles o seguissem.
O terceiro tem a ver com certos perigos que a contextualização duma pregação apresenta. Segundo o pastor Silas Daniel “o principio da contextualização consiste em aplicar um texto bíblico à nossa realidade, e para isso é preciso pinçar fatos do cotidiano para submetê-los ao escrutínio ao da Palavra de Deus”. Não é antibíblico contextualizar uma pregação, mas, dramatizar uma história bíblica, como a de Marcos 2.1-6 afirmando que o “telhado quebrado” (Mc 2.4) pelos quatro amigos do paralítico gerou algum tipo de prejuízo ao dono da casa é uma contextualização equivocada. Os “telhados” das casas nos dias de Jesus “eram armados com pesadas vigas de madeira, sobre as quais se colocavam varetas, sendo tudo recoberto com uma massa de barro, à qual se misturava palha picada”.[2] O pregador deve entender e aceitar os limites da contextualização hodierna para dentro do texto bíblico, a fim de que não crie algo fantasioso.
“MAS DE QUEM ERA A CASA PELO AMOR DE DEUS?!”
Tudo indica e leva a crer que a casa onde Jesus morava em Nazaré fora adquirida por José, seu pai adotivo, e provavelmente passou toda a sua infância, adolescência e juventude nessa cidade (Mt 2.22; Jo 1.45,46). É verdade que Jesus teve que mudar-se para Cafarnaum (Mt 4.12,13), mas os motivos não eram interesses financeiros, materiais ou um tipo de orgulho, devido a boa situação econômica dessa cidade. Segundo o teólogo e comentarista bíblico Charles Caldwell Ryrie (Bíblia Anotada, Editora Mundo Cristão) Jesus mudou-se de Nazaré para Cafarnaum depois do incidente na sinagoga daquela cidade (Leia Lucas 4.16-30).
Apesar da expressão em Marcos 2.1, “e logo correu que ele [Jesus] estava em casa”, deixar uma pontinha de dúvida nos leitores da Bíblia, há boas explicações para afirmarmos categoricamente que a casa onde Jesus estava naquele momento era deeeeee........ Pedro!! De Pedro? Sim.
Jesus disse certa vez que o filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça. Apesar dessa afirmação não significar necessariamente que ele não era proprietário de uma casa ou que não tinha uma casa para morar, deve ser entendido que devido às necessidades do seu ministério ele se hospedaria onde desse e dormiria se pudesse.
O digníssimo pastor Eliseu Queiroz de Souza, no livro Israel Por Dentro (Editora CPAD, p. 72) escreve que “Cafarnaum é o único lugar da Bíblia onde se lê que Jesus tinha ali sua casa (Mc 2.1; 9.3) e que era também chamado a sua cidade (Mt 9.1). É bom que se diga que por estar escrito que Jesus tinha ali sua casa não significa que Ele fosse o proprietário da casa, e sim o seu morador. Qualquer casa onde uma pessoa venha a morar é chamada de a sua casa. De igual modo, quando se diz que Cafarnaum era a sua cidade, não significa isso que Ele fosse o dono da cidade, mas morador dela. Tudo indica que Jesus morava na casa de Pedro, cuja sogra Ele curou de uma febre (Mt 8.14-17; Mc 1.29-34; Lc 4.37-41)”. A Bíblia de Estudo de Genebra aponta a distância entre Nazaré (cidade onde Jesus ainda morava quando Marcos registra a cura do paralítico) e Cafarnaum e conclui que a casa onde Jesus curou o paralítico era de Pedro: “Jesus era de Nazaré, cerca de 32 km de distância, e a casa de Simão Pedro (Mc 1.29) podia estar servindo como morada em Cafarnaum, uma cidade mais centralmente localizada e com direto acesso ao mar da Galiléia”.
Deixo bem claro, estimado leitor, que minha intenção de publicizar esse tipo de postagem não é uma espécie de contra argumentação, ridicularização, refutação ou implicância contra a pessoa de qualquer pregador que seja. Se você é um fervoroso pregador do autêntico evangelho de Cristo, tem cuidado com o que prega e ficou chateado com a postagem, peço desculpas, mas não tem nada a ver contigo. Se você é um pregador do evangelho e gosta de pregar em temas inéditos e inusitados, peço, por favor, que explique bem sua pregação, pois senão o auditório sairá confuso e pode ser que alguém pergunte em casa, ao chegar do culto, sobre o que você pregou, como alguns perguntaram no caso do pregador referido nessa postagem: “De quem era a casa onde Jesus estava mesmo?”.

Saudações em Cristo,


[1] REVISTA DEFESA DA FÉ, nº 56.
[2] COLEMAN, William L. Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos. Ed: Betânia, p. 14.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A PLENITUDE DO REINO DE DEUS (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa
Queira me perdoar nobre leitor, mas o jargão, “decretando” nos eventos de atos proféticos e nas marchas para Jesus, de que “o Brasil é do Senhor Jesus” só pode ser algo sensacionalista ou um dito sem fundamento. Se um dia acontecer do Brasil ser totalmente de Cristo poderíamos dizer que a plenitude do seu Reino tem chegado – o que não é defendido na própria teologia escatológica desses movimentos, pois são pré-milenistas. Ou então o jargão é apenas uma “declaração profética” dos que defendem um triunfalismo escatológico. O triunfalismo se reveste de um sentimento exagerado de triunfo, o que não representa a realidade.
A própria teologia da prosperidade, com sua pregação acentuadamente no momento presente, destitui a pregação escatológica do seu devido lugar na teologia bíblica, ainda que não seja essa a intenção básica dos tais pregadores. Entre outras implicações negativas, nas promessas de conquistas financeiras, aquisições de imóveis, carros, dos sonhos utópicos, está implícita uma preocupação que resultará paulatinamente na dispensa do crente ter o “olhar voltado para o porvir”. A prosperidade financeira, física, o sucesso, a fama, não é requisito “dos autênticos representantes de Deus na terra”. Jesus disse (Lc 17.20, 21) que o reino de Deus não viria com aparência exterior: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós”.
AS DIMENSÕES PRESENTE E FUTURA DO REINO DE DEUS

O reino de Deus possui uma dimensão presente, pois, é o governo de Deus no coração das pessoas. Trata-se da poderosa transformação e regeneração produzida por Deus na vida do pecador: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” 2 Co 5.17. Depois de ser regenerado temos que viver conforme as diretrizes estabelecidas por Cristo: “Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” I Jo 2.6. Seguindo as ordenanças de Cristo seremos melhores cidadãos e produziremos uma sociedade segundo o coração de Deus. Segundo a linha de escatologia pré-milenarista o reino de Deus possui uma dimensão futura. Ele é conhecido como o reino do Messias. Este reinado é denominado no estudo escatológico de Milênio, isto é, “a ideia de que Cristo, na sua volta, irá instaurar um reino literal sobre a terra, durante mil anos”. Leia Apocalipse 20.4-6: “E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. Mas os outros mortos não reviveram, até que os mil anos se acabaram. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos” (Grifo meu). Segundo o pré-milenarismo este é um dos textos que refuta as posições amilenista e pós-milenista, com respeito ao Milênio.
ETIMOLOGIA DA PALAVRA

O período de mil anos, em que Cristo reinará, será uma demonstração da qualidade do governo Divino. Apesar da palavra milênio não ser encontrada na Bíblia, contudo seu ensino está lá. “A palavra Milênio vem do latim mille, que significa “mil”, (a palavra grega para Milênio vem de chilias, que significa “um mil”), e annus, que significa [em latim] “ano”, [etos em grego]. O termo grego é usado seis vezes no texto original do capítulo vinte de Apocalipse para definir a duração do reino de Cristo na terra antes da destruição do velho céu e da velha terra. Então, a palavra Milênio refere-se aos mil anos do futuro reinado de Cristo que precederão a eternidade”.[1]
ALGUNS FATOS IMPRESSIONANTES SOBRE O MILÊNIO

Apesar de Cristo governar por mil anos, e muitos fatos impressionantes acontecerem nesse período, isso ainda não pode ser compreendido como a plenitude do reino de Deus. Segundo o pastor Wagner Gaby “a glória eterna dos justos e a nossa comunhão perfeita com Deus” se dará na eternidade. Tomando como base o livro Calendário da Profecia, do pastor Antonio Gilberto, saberemos de coisas impressionantes que acontecerão no Milênio, sob o governo de Cristo:
Mudança no reino animal – Ou seja, na natureza dos animais. A ferocidade deles será removida. Não mais se atacarão, nem atacarão o homem (Is 11.6-8; 65.25; Ez 35.25).
Haverá prosperidade geral para todos - Todos possuirão casas (Is 65.21,22). Hipotecas, aluguéis e dívidas de casas serão coisas do passado (Mq 4.4 e Zc 3.10). O hebraísmo constante dessas últimas referências denota prosperidade geral.
A vida humana será prolongada como no princípio da história humana, no livro de Gênesis - (Is 65.20,22 e Zc 8.4.) Haverá abundância de saúde para todos. Isso em muito contribuirá para prolongar a vida (Is 33.24). Outros fatores contribuintes são: as bênçãos especiais de Deus, as mudanças climáticas, a redução do efeito do pecado e da ação dos demônios; as condições mais favoráveis da vida, e a melhor nutrição.

O gênero humano - Haverá muita fertilidade no gê­nero humano. Zacarias 8.5 diz que as praças da cidade se encherão de meninos e meninas, que nelas brincarão (Jr 30.19; 33.22; Os 1.10). Os óbitos serão reduzidos (Is 65.20). Os cemitérios não terão a grande freguesia de atualmente. Morrerão apenas os que cometerem pecado digno de morte. É o que entendemos da referência acima.

A renovação de toda a criação - A criação toda também aguarda esse tempo para sua libertação das consequências do pecado a que ficou sujeita desde a queda do homem (Rm 8.19-23). Aí vemos que o pecado afetou não somente o homem, mas toda a criação. Ele trouxe desarmonia, inimizade, deterioração, deformação e desequilíbrio, não somente no relacionamento entre Deus e o homem, e entre este e seus semelhantes, mas também no universo em que vivemos. Furacões, terremotos, secas, inundações, pragas, frio e calor excessivos, etc, são alguns desses males.
O ESTADO ETERNO DA IGREJA

Logo após o Milênio e a completa derrota de Satanás (Ap 20.10) os salvos em Cristo entrarão no estado eterno. “Este estado de eterna glória, em que Deus já terá enxugado as lágrimas de todos os salvos, jamais findará. Jesus Cristo entregará o Reino ao Pai. Haverá um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça. Não haverá mais tristeza, nem ódio nem dor, nem lembranças amargas do passado. Não haverá mais noite e o tempo cronológico provavelmente deixará de existir. Todos os salvos de todas as épocas se reconhecerão e estarão juntos eternamente. O puro e perfeito amor será desfrutado na sua inteireza. Acredito que não haverá mais a possibilidade de pecar. Os salvos serão unidos ao Senhor de maneira perfeita, física (corpo ressurreto e incorruptível) e espiritualmente, nas suas frontes estará gravado o Seu nome”.[2]

Em Cristo,


[1] John F. Walvoord, Prophecy: 14 Essential Keys to Understanding the Final Drama (Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1993), p. 139.
[2] SILVA, Ézio Pereira da. Seminário de Escatologia.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CORRENTES DA ESCATOLOGIA PROTESTANTE (Subsidio EBD)

Por Elias Medeiros
Nós, evangélicos protestantes, cremos que a Bíblia responde às questões básicas levantadas em todas as épocas e em todos os lugares. Entretanto, a questão que está sempre presente na mente e no coração de todos os seres humanos é a questão relacionada com o futuro. “O passado a gente conta, o presente a gente curte, e o futuro a gente tenta adivinhar”. Esta parece ser a filosofia da maioria das pessoas e de várias religiões.
Historicamente falando, a igreja protestante tem passado por épocas nas quais pode-se detectar a falta de um balanço escatológico. Algumas vezes, a igreja se mostrava tão apegada ao presente, que dava pouca atenção ao futuro. Outras, a igreja se apegava tanto ao passado, que chegava a esquecer de sua relevância para o presente e de seu destino futuro.
A história da escatologia cristã em geral reflete essa batalha entre o passado, o presente e o futuro. Vários teólogos evangélicos protestantes têm escrito sobre o assunto. A história da igreja tem revelado que, durante os primeiros cinco séculos, os cristãos não se preocupavam muito em desenvolver uma doutrina escatológica. É bom ressaltar, entretanto, que a ausência de um dogma sistematicamente formulado nunca significou a ausência de crenças e esperanças escatológicas. Pelo contrário, durante os primeiros cinco séculos os cristãos criam na vida após a morte, na segunda vinda do Senhor Jesus, na ressurreição dos mortos, no julgamento final, em tribulações e na criação de um novo céu e de uma nova terra. Mas a escatologia, como doutrina sistematizada, tal qual nós a temos hoje, não foi desenvolvida durante aquele período. Basta lermos o credo apostólico para percebermos essas crenças, porém sem um desenvolvimento cronológico ou sistemático da doutrina.
Mesmo durante a Idade Média, até o início da Reforma Protestante, os cristãos daquela época também criam nesses ensinos, mas havia “pouca reflexão sobre a maneira pela qual” os fatos se desenvolveriam, especialmente sobre o aspecto cronológico da escatologia bíblica.
Já os reformadores protestantes sem dúvida refletiram mais sobre a questão escatológica. Em parte, foram motivados pela disputa teológica com a Igreja Católica, que ensinava o purgatório, por exemplo. Os teólogos reformados, portanto, fizeram muita ligação entre a escatologia, a soteriologia (a glorificação dos salvos) e a eclesiologia (a igreja triufante etc).
Na atualidade, o racionalismo, o evolucionismo, o existencialismo, juntamente com o liberalismo teológico, provocaram uma reflexão mais profunda por parte dos protestantes ortodoxos, já que todos aqueles ismos atacavam todo tipo de ensino sobre a certeza de alguma realidade futura. Berkhof e outros protestantes reformados reconheciam que o liberalismo teológico ignorava totalmente os ensinos escatológicos do próprio Jesus Cristo, colocando toda a ênfase simplesmente nos preceitos éticos do Senhor. O racionalismo, o evolucionismo e o existencialismo filosófico, por sua vez, desconsideram qualquer ensino escatológico: na melhor das hipóteses, a escatologia bíblica não passa de uma utopia mitológica.
Os protestantes evangélicos, entretanto, baseados no ensino da Palavra de Deus, crêem na vida após a morte, na segunda vinda do Senhor Jesus, na ressurreição dos mortos, no julgamento final, na criação de um novo céu e de uma nova terra. Em outras palavras, os protestantes conservam as mesmas crenças que os demais cristãos que aceitam as Escrituras Sagradas como única e última regra infalível de fé e prática. Mas o fato de crerem nessas doutrinas não significa que todos os protestantes as aceitem do mesmo modo, em relação à forma como elas se cumprirão. Assim, há uma variada divergência hermenêutica no meio protestante, com pelo menos três escolas de interpretação: aminelista, posmilenista e premilenista.
Os amilenistas como L.Berkhof, O.T.Allis, G.C.Berkhouwer e outros crêem que as Escrituras Sagradas não fazem nenhuma distinção cronológica entre a segunda vinda de Cristo, o arrebatamento da igreja, e a participação do crente no novo céu e na nova terra. Para os amilenistas haverá apenas uma ressurreição geral dos crentes e dos incrédulos, a qual ocorrerá durante a segunda vinda de Cristo. O julgamento final será para todos os povos. A tribulação é algo que experimentamos na presente era. O milênio referido nas Escrituras (Apocalipse 20) não significa um milênio literal, pois o reino de Deus, inaugurado visivelmente com a primeira vinda do Senhor Jesus, continua espiritualmente presente, embora invisível (invisibilidade não é sinônimo de inexistência), e será consumado com a segunda vinda visível do Rei da Glória. Entramos neste reino pela fé (João 3). Para os amilenistas as Escrituras não fazem distinção entre a igreja no Velho Testamento (Israel)e a igreja do Novo Testamento ("o novo Israel", composta de circuncisos e incircuncisos).
Os posmilenistas, como Charles Hodge, B.B.Warfield, W.G.T. Shedd, e A.H.Strong, crêem que a segunda vinda de Cristo ocorrerá após o milênio (não literal). A era presente se misturará com o milênio de acordo com o progresso do evangelho no mundo. Em geral, os posmilenistas assumem a mesma postura amilenista com relação ao ensino da ressurreição, do julgamento final, da tribulação e da posição sobre Israel e igreja.
Os premilenistas se dividem em dois grupos principais: os premilenistas históricos (como G.E.Ladd, A.Reese e M.J.Erickson) e os premilenistas dispensacionalistas (como L.S.Chafer, J.D.Pentecost, C.C.Ryrie, J.F.Walvoord e Scofield).
Os premilenistas históricos crêem que a segunda vinda de Cristo para reinar nesta terra e o arrebatamento da igreja acontecerão simultaneamente; haverá a ressurreição dos salvos no início do milênio (a primeira ressurreição) e a ressurreição dos incrédulos no final do milênio. O milênio, entretanto, na posição premilenista histórica, é tanto presente como futuro. No presente, Cristo reina nos céus. No futuro, Cristo reinará na terra, embora os premilenistas históricos em geral não considerem o período da tribulação e façam uma certa distinção entre Israel e igreja (o Israel espiritual).
Os premilenistas dispensacionalistas ensinam que a segunda vinda do Senhor Jesus acontecerá em duas fases: na primeira, o Senhor Jesus se encontrará com a igreja nos ares, levará os salvos para participar das bodas do Cordeiro nas regiões celestiais; e, após sete anos de tribulação na terra sem a presença da igreja, regressará com ela para reinar neste mundo por mil anos. Eles fazem uma distinção entre a ressurreição para a igreja, na ocasião do arrebatamento, a ressurreição para aqueles que virão a crer durante a tribulação de sete anos (ressurreição esta que ocorrerá na segunda vinda do Senhor, no final da tribulação) e a ressurreição dos incrédulos no final do milênio.
Os premilenistas dispensacionalistas fazem, também, uma distinção entre o julgamento dos crentes após o arrebatamento, o julgamento de judeus e gentios convertidos no final da tribulação de sete anos e o julgamento dos incrédulos no final do milênio. Sem dúvida, para os membros desta escola de interpretação, os sete anos de tribulação será literal, mas a igreja neo-testamentária será arrebatada antes dessa tribulação. O milênio será inaugurado e estabelecido com a segunda vinda do Senhor Jesus, após a tribulação e durará, literalmente, 1.000 anos. Sem dúvida, esta posição distingue completamente Israel e igreja.
De todas essas perspectivas protestantes, a meu ver, a que mais se coaduna com a exegese bíblica é a posição amilenista. Pessoalmente creio que esta posição é a mais condizente com o ensino dos profetas, do Senhor Jesus e dos apóstolos, tanto hermenêutica quanto exegeticamente falando (Mateus 24-25).
Se o leitor estudar com mais afinco essas posições escatológicas, poderá perceber suas implicações imediatas no que tange à evangelização mundial e ao envolvimento da igreja nas questões sociais e políticas de nossa era. A posição escatológica mais fraca, em termos hermenêuticos e exegéticos, é a posição premilenista, devido à sua grade cronológica pré-estabelecida. Os premilenistas, em geral, começam com um quadro cronológico pré-estabelecido e passam a fazer uma “cirurgia textual” nas Escrituras, de acordo com o quadro já pré-desenhado por eles.
FONTE: Revista Ultimato.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Solo Piano on SKY.fm

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OBEDECEI A VOSSOS PASTORES

Por Gilson Barbosa
A preferência das pessoas por assuntos polêmicos é espantosa. Este fato é também verificado nas escolhas. Entre escolher um tema burilado, rebuscado, conservador, teológico, doutrinário, prefere-se um polêmico, atual, que envolva grandes personalidades, que conte algo sobre a vida da pessoa (quase sempre não é algo bom), que investigue. Nos dias atuais os pastores, por fazerem parte da sociedade, estão nas manchetes em toda a parte. Na blogosfera ou nos sites, quase sempre a menção aos pastores está ligada a escândalos, denuncias, acusações, “reflexões”, opiniões, etc. Nessa postagem venho mencionar e refletir sobre os pastores como pessoas legitimamente designadas por Deus para cuidar da Sua igreja e dignos de respeito e amor das ovelhas que estão sob seus cuidados.
Recentemente postei um assunto sobre a realidade pecaminosa de todos os seres humanos e incluí entre estes os pastores. O assunto versava sobre um escândalo pastoral ligado à apropriação indébita de dinheiro. Confesso que fiquei curioso e ao mesmo tempo estupefato com a quantidade de acesso a essa postagem. Esse fato me levou a ponderar sobre um dos aspectos do ser humano ligado ao gosto de assuntos ou temas que gerem polêmicas. Não estou criticando negativamente as pessoas que acessaram a postagem, na verdade eu as agradeço pelo acesso, mas apenas constatando um fato – não me interprete mal, por favor. Da mesma forma gostaria e ficaria muito feliz que esta postagem tivesse a mesma quantidade de acesso. Minha postura e opinião sempre foi a de jamais devemos desconsiderar ou desrespeitar pastor algum, sob pena de infligirmos os mandamentos Divinos acerca deles.
O MINISTÉRIO PASTORAL
O pastorado é uma dádiva de Deus. Na carta de Paulo aos Efésios (4.11) há uma menção aos dons ministeriais doados por Deus à alguns dos seus servos: “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. O pastor José Apolônio extrai a seguinte conclusão sobre esse versículo: “É Deus quem concede os dons ministeriais (Ef 4.11 e Nm 18.7). É o dom ministerial recebido de Deus que determina sua função ou ofício. A função, o exercício do ministério, depende desse dom ministerial recebido de Deus (1 Tm 4.14 e 2 Tm 1.6)”.[1] Em outras palavras, a função ou ofício de apóstolo, profetas, evangelistas, pastores e mestres, é dado antecipadamente ao obreiro por Deus e não é fruto de uma escolha arbitrária (por eleição) da igreja ou do ministério (corpo de pastores e obreiros). Disso reconhecemos a grandeza e a excelência daqueles que são escolhidos por Deus para exercerem tais funções ou ofícios.
As atribuições de um pastor são diversas. No sentido original os pastores (do grego poimenas) eram os que tinham a função de cuidar e guardar as ovelhas. Louis Berkhof (Teologia Sistemática, p. 539) registra que “eles detinham a superintendência do rebanho que lhe fora entregue aos seus cuidados. Eles tinham que abastecê-lo, governá-lo e protege-lo, como sendo da própria família de Deus”. Para mostrar aos religiosos que Deus se importava com os pecadores, Jesus, em Lucas 15.3-6, contou-lhes a parábola da ovelha perdida. Numa leitura superficial concluiríamos que apesar do pastor se preocupar com a (uma) ovelha perdida fez pouco caso das noventa e nove que deixou no redil. Porém, as noventa e nove “não ficaram abandonadas. Temos a tendência de achar que havia somente um pastor, mas o pastor do Oriente Médio raramente saía sozinho com cem ovelhas. Se uma ovelha se perdia, o chefe dos pastores deixava o restante do rebanho seguro e satisfeito com auxiliares contratados, saindo em busca da que se perdera”.[2] O pastor autêntico se preocupa e cuida com afinco de todas as ovelhas ao seu cuidado. Alguém disse que um “pastor deve cheirar ovelha”, e nesse texto bíblico vemos que o contato daquele pastor com suas ovelhas é muito próximo, íntimo e verdadeiro. Há inúmeros pastores de igrejas, em nossos dias, que amam suas ovelhas ao ponto de não abandoná-las, e, sabedor da sua insensatez e simplicidade as protege de todos os perigos. Infelizmente não posso afirmar que todos os pastores agem e sentem profundo afeto pelas ovelhas que estão aos seus cuidados, mas não podemos negar a realidade existencial de muitos pastores que se assemelham ao pastor da parábola de Lucas 15. 
O pastor deve desempenhar suas funções com muita humildade e amor abdicando-se dos seus projetos pessoais e ambições, em prol das pessoas que estão ao/sob seu cuidado. O escritor Ted Christman faz uma importante observação quanto a possibilidade de determinado pastor não amar sua ovelha e que implicação isso acarreta: “Se nós não amamos nosso rebanho, isto deve ser tomado como uma prova definitiva de que o Pai, não nos colocou como pastores do seu rebanho. E nem o Senhor Jesus Cristo nos designou como dádivas para a igreja”. [3]
DIFICULDADES PASTORAIS
Os pastores convivem no mínimo com duas questões delicadas: as relações interpessoais e as críticas. As relações interpessoais compreendem sua família, a igreja e o corpo de ministros sob sua liderança. Com respeito a sua família a diretriz bíblica é que o pastor “deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Tm 3.4, 5). Referente à igreja local há diversas classes de pessoas cada um com sua natureza, comportamento e personalidade. Como o ser humano é um ser complexo a interação e o relacionamento interpessoal entre pastor e ovelha se torna muito tenso.   O apóstolo Paulo disse aos irmãos tessalonicenses (1 Ts 2.8): “Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós”. Independente das muitas culturas pessoais existentes dentro da igreja, o pastor deve sentir afeição por todos e tratá-los com um amor tão forte a ponto de dar sua própria vida pelas ovelhas. A relação do pastor com seus colegas de ministério deve ser sempre com cortesia e nobreza. Em I Timóteo 5.17 o apóstolo Paulo demonstra a consideração que tinha por seus obreiros: “Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino”.
As críticas talvez seja o ponto mais tenso entre ovelha e pastor. O pastor Wagner Tadeu dos Santos Gaby informa que “a crítica é a arte de apreciar méritos e deméritos de um desempenho. Não tem o propósito de destruir o criticado e sim de ajudá-lo a executar tarefas futuras do modo mais eficiente.” Os pastores devem aceitar as críticas com calma, sem ódio, sem se ofender, com humildade, com honestidade, sem repudiá-la antecipadamente. Em contrapartida os membros não podem oferecer críticas evasivas, sem objetividade, vazias, maldosas.
OBEDECENDO COM INTELIGENCIA
O título dessa postagem é extraído de Hebreus 13.17: “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”. Os membros da igreja devem compreender a dificuldade e a responsabilidade dos pastores e lhe devotar respeito e consideração. Uma das maneiras de se entender que determinado pastor foi ordenado por Deus e colocado para liderar determinada igreja, tem haver com o devido cuidado, zelo e dedicação à Palavra de Deus. Tudo indica que os pastores, no contexto de Hebreus 13.17, tinham esse cuidado e por isso mereciam a obediência dos crentes.  
Segundo o Rev. Allan Rennê Alexandrino Lima pode ser percebido no texto de Hebreus 13.17 pelo menos três aspectos imprescindíveis ao relacionamento bíblico pastor/ovelha. São eles:[4]
OBEDIENCIA: Obedecei aos vossos pastores. Trata-se de algo positivo por parte dos cristãos, que devem empreender esforços para cumprir tarefas delegadas por seus pastores. No contexto desse versículo é possível que alguns crentes estivessem indispostos a obedeceram a seus líderes. Eles precisavam de ajuda e encorajamento. A obediência, nesse caso seria de grande valia.
Segundo Simom Kistemaker os pastores que outrora haviam pregado a palavra aos irmãos hebreus não estavam mais com eles. Outros pastores haviam sucedido e ocupado os seus lugares. Portanto, os irmãos deveriam atentar para esse fato e colaborar com estes novos pastores com uma atitude de obediência.   
SUBMISSÃO: Sujeitai-vos a eles. Continuando com o ponto de vista do Rev Allan “obediência e submissão são dois lados de uma mesma moeda. A submissão em questão diz respeito a anuência exigida diante de decisões tomadas pelos líderes pelos pastores e líderes de uma congregação”.
ALEGRIA: Para que o façam com alegria e não gemendo. Quando as ovelhas respondem a seus pastores em obediência e submissão, o trabalho destes ficam muito mais agradável e alegre. Nem os membros nem o pastor são donos da igreja. Desta forma um deve cooperar com o outro para que os resultados, as produções, as ações positivas, as soluções, os eventos da igreja tenham eficácia. Essas coisas envolvem um ambiente envolvido de contentamento.
TENSÃO NO RELACIONAMENTO
Estou convicto que o relacionamento tenso entre membros de uma igreja e seus pastores não deixará de existir. Não defendo a subserviência vexatória das ovelhas e nem o despotismo sádico dos pastores. Ambos devem entender, compreender e aceitar todas as prerrogativas bíblicas ao seu respeito. Sem isso o relacionamento interpessoal não acontecerá e corre-se o risco da igreja local ser prejudicada coletivamente nos seus ministérios. Os pastores devem atender a recomendação apostólica: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” I Pe 5.2 , 3. Em contrapartida as ovelhas devem honrar e obedecer a seus pastores: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” 1 Tm 5.17.
Em Cristo,   


[1] REVISTA OBREIRO, Ano 23, nº 14, p. 61.
[2] BÍBLIA DE ESTUDO VIDA, p. 1619.
[3] CHRISTMAN Tedd, Amado Timóteo: Uma coletânea de cartas ao pastor. Ed: Fiel, p. 61.
[4] Texto em PDF “Pastores/Ovelhas: Um relacionamento em tensão”. Rev. Allan Rennê Alexandrino Lima


UMA DEFINIÇÃO SOCIOLÓGICA DE SEITA

Por Bryan Wilson
O que se pode afirmar das seitas que seja válido em geral dentro de contextos culturais e épocas diferentes? E preciso que tal afirmação não deixe que alguns fatores culturais e históricos concretos empanem os elementos sociais uniformes que se dão na estrutura e desenvolvimento das seitas.
As seitas são agrupamentos de caráter voluntário. Os indivíduos têm certa possibilidade de decidir (teoricamente, uma possibilidade absoluta de decidir) com respeito a sua adesão aos dogmas da seita. O crente deve eleger a seita, embora se trate, na realidade, de uma eleição recíproca (a seita admite ou rejeita essa pessoa). Para passar a ser um de seus membros se requer certa prova de mérito: o indivíduo tem de ser digno de pertencer a ela. Há nisso um forte sentido de identidade: aquele que é admitido se converte em “um dos nossos”. E este “dos nossos” se coloca acima de todos os demais “nossos”, crescendo em força no sentido  em que a seita reclama para si um acesso especial e, normalmente, exclusivo as verdades sobrenaturais. A seita  é um  grupo que exige de seus membros um submissão plena e consciente que se não chega a eliminar todos os   demais compromissos deve, ao menos, situar-se acima deles, quer se refiram  ao estado, a tribo, a classe social ou  a família.

Relacionado a estas características, se encontra o fato  que a seita se considera a si mesma como uma elite. Enquanto possuidora da única e verdadeira doutrina, dos ritos adequados e dos modelos corretos de retidão no comportamento social, se considera a si mesma com um grupo aparte, arrogando para si normalmente a salvação exclusiva. As seitas mostram normalmente uma inclinação para o exclusivismo. O estar afiliado a elas se situa acima de todos os demais compromissos de tipo secular, e normalmente exclui os demais compromissos religiosos. Ao separar-se dos outros grupos, as seitas impugnam a santidade e autoridade dos mesmos; o fato de pertencer a uma seita determinada supõe, assim, um distanciamento, e talvez uma hostilidade, frente a outras seitas e grupos religiosos.
Do rigor destes atributos se segue que a maioria das seitas, sendo voluntárias, têm um vida muito intensa e impõe a seus membros responsabilidades, assim como contam também com certos procedimentos para expulsar os desviados. A seita não é uma entidade inconsciente, como poderia ocorrer com uma casta ou um clã em determinadas circunstâncias sociais. Em outras palavras: não é um grupo social que se considere como uma unidade “natural”. Em oposição ao modo tradicional que tinham os judeus de conceber sua fé, ou os povos latinos de conceber o catolicismo, a seita tem consciência de si mesma, e sua formação e recrutamento são processos conscientes e deliberados. Por isso, é também um grupo que possui um sentido de sua própria integridade e que pensa que essa integridade pode ser ameaçada pelos membros despreocupados ou insuficientemente comprometidos. Por isso, as seitas expulsam aqueles que se mostrem indignos delas.
Isto impõe, por sua vez, uma série de normas a cada um dos seus membros. Eles hão de seguir a vida do perfeito sectário e, por conseguinte, a voluntariedade de sua submissão e a prova de que merece ser membro do grupo somente serão possíveis se tenham um sentido de compromisso pessoal. Como as seitas não admitem discriminações quanto ao grau de compromisso, a integridade da seita e claramente a integridade que reina entre seus membros. O autocontrole, a consciência e a retidão são, pois, importantes características do sectarismo.
Embora as seitas professem uma série de ensinamentos, de mandamentos e de práticas distintos dos que mantêm os ortodoxos, esta  alternativa não supõe jamais uma total e absoluta negação de todos os elementos existentes na tradição ortodoxa, pois de outro modo não poderíamos qualificar a seita de ser uma  seita. Ela ainda se mantêm, ou procura manter-se, e mesmo defender sua posição de ser a forma mais pura e legitima da fé original.  Se trata fundamentalmente de acentuar uma série de matizes diferentes, acrescentando-se alguns elementos novos e suprimindo outros. Para propor esta alternativa a seita deve recorrer a algum principio de autoridade distinto daquele que é inerente a tradição ortodoxa, defendendo, ao mesmo tempo, sua supremacia. A autoridade invocada por uma seita pode ser a suprema revelação de um líder carismático, pode consistir em uma reinterpretação dos escritos sagrados, ou bem pode ser a idéia de que os verdadeiros fiéis obterão uma revelação por si mesmos. Em qualquer caso, a seita renega a autoridade oficial da fé ortodoxa.
CARACTERISTICAS GERAIS
As descrições que acabamos de fazer são de caráter geral e apontam a um “tipo ideal”. Consequentemente, é uma caracterização das seitas bastante abstrata e produto, em parte, da mente. Tratando já das seitas concretas, devemos esperar que cada um destes atributos de tipo geral se afaste um pouco da formulação proposta. As seitas estão sujeitas a mudanças, tanto devido as variações que se dão a sua volta como também a um processo de mutação interna. Por conseguinte, alguns atributos podem ir perdendo peso, e outros, em troca, ir ganhando importância em determinados momentos da história de uma seita.
VOLUNTARIEDADE.  Embora as seitas sejam organismos de caráter voluntário, existe certa tendência a que os filhos de seus membros abracem a mesma fé de seus pais. No cristianismo ocidental uma determinada seita pode continuar exigindo de seus jovens adeptos a profissão explicita de seus dogmas, o mesmo que fez com seus pais, já que em tais sociedades existe a possibilidade de escolha entre numerosas religiões.
EXCLUSIVISMO. Umas das características essenciais de uma seita e exigir de seus fiéis uma submissão absoluta. A raiz desta atitude e, entre as seitas cristãs, o principio de afiliação exclusiva que rege no cristianismo e que surge do fato do Deus de Israel ser um Deus zeloso. Normalmente, o adepto assume seu compromisso com a seita de forma distinta dos demais homens: com efeito, a seita se converte no ponto mais importante com respeito a sua pessoa. Quando se faz alusão a ele, o que interessa saber antes de qualquer outro dado, e que se trata de um membro de tal ou qual seita.
MÉRITOS. As seitas exigem um ato de aceitação. Mas quando as seitas perduram durante muito tempo, semelhante prova de méritos pode converter-se em algo puramente nominal.
AUTOIDENTIFICAÇÃO. Qualquer de nós, arrastados pelo desejo de impor ao mundo uma ordem conceitual, sente a tentação de buscar limites precisos e categorias inequívocas. As seitas parecem uma afirmação quase natural desse mesmo principio. E não poderia ser de outro modo, dado que as seitas são entidades sociais construídas pelos homens e com consciência de si mesmas. Sem renunciar a esse enunciado geral, temos de admitir que na realidade pode resultar tão árduo o trabalho de definir com certeza as características de uma seita como nos trabalhos antropológicos o é definir entidades as vezes tão vagas que são as tribos. As seitas, semelhantemente as tribos, mantêm uma forte concepção de “nós” em contraposição com todos os demais. Mas este “nós” pode variar quanto a sua aplicação, como ocorre com as tribos, e apresentar limites pouco definidos. Quem se acha completamente comprometido normalmente não tem problemas, mas há casos em que estão vinculados as seitas os chamados “simpatizantes” que jamais procuraram a admissão nelas, ou que jamais a conseguiram. Possuem também em seu bojo jovens que não poderão fazer parte dela até alcançarem certa idade. E, o que é mais significativo,  as seitas podem considerar a alguns movimentos, de certo modo, mais próximos da verdade que outros. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando dentro de uma seita ocorre um cisma. No principio, os grupos cindidos entre si possivelmente lançarão anátemas múltiplos, fortalecendo consideravelmente seu sentido de autoidentificação pelo fato de terem um inimigo palpável. Mas, uma vez que a ruptura inicial sumir no esquecimento, ambos os grupos podem chegar a admitir que têm mais em comum que motivos de separação, levando os velhos  antagonismos de caráter recíproco a se apaziguarem.
STATUS DE ELITE. Até que ponto uma seita considera a si mesma como uma elite social é algo que depende de toda uma série de fatores concretos, os mais importantes dos quais são a tradição escatologica recebida e o caráter das relações que os membros da seita mantêm com os de fora. Dentro do cristianismo é fundamental a idéia de uma certa eleição: o velho conceito de tipo étnico de um povo escolhido foi herdado do judaísmo e transmitido a fé cristã por aqueles que voluntariamente a abraçavam. Apesar de inclusas dentro da tradição cristã, as seitas que têm buscado sua legitimação através das Escrituras nem sempre conseguem facilmente afirmar que elas e somente elas são os eleitos de Deus.
EXPULSÃO. Cabe pensar que, em geral, a prova de méritos prévia à admissão em uma seita implica já nos critérios para continuar pertencendo a ela. Mas na prática vemos que se bem que alguma seita mantém seu nível de rigor, existem algumas em que o nível daquele que estão afiliados começa a relaxar. Isto pode acontecer quando uma seita adota medidas extremas para separar-se do resto da sociedade e começou a nutrir suas fileiras, em geral, a base dos nascidos em seu próprio meio, levando a surgir o questionamento de seus valores.
CONSCIÊNCIA. Igualmente pode variar o grau de autoconsciência e de compromisso consciente que têm lugar dentro de uma seita. Isto ocorre, sobretudo, quando se impõe o princípio de nutrir as fileiras da seita a base dos nascidos em seu próprio seio, se bem que algumas seitas fazem um trabalho se socialização de suas crianças que ao abandonarem a primeira infância já tem consciência de suas diferenças com o resto do mundo.
Ocorre também outro caso em que a consciência, se não já a autoconsciência, parecem sofrer uma transformação insólita dentro de alguns movimentos sectários.  Se trata do caso em que se  aceita com tal entusiasmo a idéia de um status de elite, que os fieis crêem ser um povo escolhido, independentemente de sua conduta moral. Ao ser os escolhidos, podem chegar a considerar-se perfeitos:  e deste modo, a conduta que em outros podia ser pecaminosa, não pode, por definição, ser pecaminosa para eles. Esta tendência — o antinomianismo — há tido lugar em uma série de seitas cristãs, especialmente nos séculos XVI e XVII. Tal posição sempre tem se chocado com uma profunda desaprovação, já que se trata de uma doutrina que dá rede a solta aos membros de tais seitas para se comportarem como melhor lhes apraz. Este fato contrasta fortemente com a tendência mais freqüente ente as seitas de impor a seus membros normas de decoro e de conduta mais severas que as de outros homens, a fim de que assim se manifeste sua adesão a uma verdade superior.
LEGITIMAÇÃO. Nenhuma seita faz sua aparição sem contar com uma justificação de tipo ideológico. As seitas se atribuem uma autoridade sagrada, com o fim de persuadir aos homens que abandonem o sistema religioso ortodoxo. É necessário haver uma pessoa — ou várias pessoas — com uma autoridade que lhes permita dar a conhecer esta legitimação. Quando a seita se forma em torno de um líder carismático (o qual pode ser, por sua vez, a fonte sagrada e seu interprete), a legitimação está constituída pelo carisma. Em outros casos se reconhece um colégio de líderes, e são criados métodos para nomear ou eleger aos líderes. Mas também há seitas cujos membros negam veementemente que exista intermediário entre Deus ou sua palavra e eles.  Estes rechaçam qualquer forma de organização humana, crendo-se chamados eles mesmos a fazer o que Deus ordena. Estas seitas se opõem a autoridade e tornam-se profundamente anticlericais, sua oposição lança-se tanto contra a organização da Igreja como contra seus ensinamentos.
FONTE:
Wilson, Bryan: Sociologia de las sectas religiosas, Madrid, Ediciones Guadarrama, 1970. Tradução e adaptação do texto para língua portuguesa feita por Josué Giamarco

ALGUNS ATRIBUTOS DE DEUS SÃO INERENTES AO SER HUMANO?

Por Gilson Barbosa

Podemos delinear a natureza de Deus dentro de dois pontos: natural e moral; metafísico e físico; imanente e emanente; comunicáveis e incomunicáveis.

Logicamente partimos do principio de que o ser humano não tem capacidade intelectual para compreender a natureza completa de Deus, visto queDeus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). O ser humano pode e consegue conhecer somente aquilo que sua mente alcança; atinge. Pois como afirma o salmistaQuando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?”

Porém, Deus implantou no ser humano algo de si, conforme especifica Gênesis 1.26 “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;”. E o que seria isso?

Dentro do estudo teontológico, há em Deus a natureza que pode e é compartilhada com o ser humano. Vamos chamá-la de atributos comunicáveis. São qualidades tais como: amor, santidade, justiça, mansidão, bondade, etc. É importante, contudo, compreender que estas foram dadas ao ser humano de forma finita, limitada, o que equivale dizer que ninguém, em vida, será plenamente santo, justo, manso, etc.

Na contra mão, alguns querem defender, por exemplo, a violência humana (antônimo da mansidão) com base em dados genéticos corroborando com a atitude agressiva e isentando o ser humano, neste quesito, de estar infectado pelo vírus do pecado. Contudo, Deus não criou o ser humano para ser violento e nem para obter como resultado o acaso de suas ações. Muito pelo contrário, condenou a violência por meio do planodiluvial” (Gn 6.5,11) responsabilizando o homem pelas suas atitudes.

Do lado humano-cristão fica a responsabilidade de buscar cada vez mais as qualidades comunicáveis de Deus, pois, o próprio Jesus inquiriu “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.48).

sábado, 17 de setembro de 2011

A INTEGRIDADE DA DOUTRINA CRISTÃ

Por Gilson Barbosa
Num universo evangélico eivado de heresias e estranhos ensinos é necessário que tenhamos discernimento espiritual para “não sermos levados ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4.14). Segundo o Comentário Bíblico de John McArthur, ser levado por todo o vento de doutrina é um aviso paulino de que “os cristãos espiritualmente imaturos, os quais não estão fundamentados no conhecimento de Cristo por meio da Palavra de Deus, são inclinados a aceitar, de modo não crítico, toda a sorte de erros doutrinários enganosos e interpretações ardilosas da Escritura anunciadas pelos falsos e enganosos mestres na igreja. Eles devem aprender a ter discernimento (1 Ts 5.21,22)”.
Infelizmente é incontável o número de crentes que “precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus” (Hb 5.12 – NVI) quando na verdade pelo tempo que professam a fé cristã deveriam ser mestres no assunto. Se perguntarmos a certos tipos de crente o que sabem, basicamente, das doutrinas cristãs, com certeza vamos nos decepcionar. Associando teologia com frieza espiritual e doutrina bíblica com usos e costumes, se tornam presas fáceis dos falsos mestres, das seitas, do fanatismo religioso, dos erros doutrinários, de um equivocado entendimento hermenêutico das Escrituras e de uma falsa e ilusória sensação de ser mais espiritual do que os demais. Temos de aceitar e praticar toda a doutrina que emana da Palavra de Deus, mas antes, é obrigatório sabermos o que é doutrina.  
DEFINIÇÃO DE DOUTRINA
Segundo o pastor Esequias Soares “à luz da Bíblia, doutrina é o ensino bíblico normativo, terminante, final, derivado das Sagradas Escrituras, como regra de fé e prática de vida, para a igreja, para seus membros. Ela é vista na Bíblia como expressão prática na vida do crente. As doutrinas da Palavra de Deus são santas, divinas, universais e imutáveis”.[1]
As doutrinas bíblicas são extremamente importantes para a vida cristã. O estudo da autêntica doutrina bíblica auxilia o crente a ter uma vida espiritual abundante. Fico espantando com a ignorância e a falta de bom senso de alguns crentes que repudiam o estudo teológico (o estudo sistematizado das doutrinas bíblicas) e zombam da sua importância e necessidade. Não consigo acreditar que estudar sistematicamente a Palavra de Deus possa influir negativamente na vida do crente – esta é a tese de muitos que negligenciam o estudo teológico. Estes, na verdade, acabam por se revelar intencionalmente e interiormente mais espirituais do que aqueles que se esforçam em frequentar um curso de teologia, que implica em ler livros, fazer resenhas, trabalhos extraclasse, avaliações, provas, redação, etc. Resumindo: o Espírito Santo é o único responsável por produzir neles os resultados que espera e no momento que se espera. A meu ver isso soa mais preguiça do que poder ou santidade.
Quando se diz que a doutrina é o ensino bíblico normativo entendemos, entre outras coisas, que todas as experiências pessoais, na vida do crente, devem ser submetidas ao escrutínio bíblico para saber se a Bíblia comprova ou autoriza tal experiência. Qual é a doutrina bíblica, por exemplo, de pessoas que tiveram arrebatamento de sentidos? E o que diz sobre as pessoas que “caem no poder”? E quando ao grande número de profecias que temos no mesmo culto, por um único “profeta”? Qual é o ensino bíblico sobre esses assuntos?
Por outro prisma a nossa prática cristã deve se conformar as normas bíblicas. Os ensinos de Cristo sobre o amor, perdão, paciência, humildade, desprendimento material, tem feito a máscara cair do rosto de muitos, pois são doutrinas bíblicas pregadas, mas não vividas dentro do âmbito local da igreja. Os que agem assim estão na mesma condição e situação dos escribas e fariseus, quando Jesus os censurou publicamente (Mt 23.2,3): “Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus, fazei e guarda, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem”.
ETIMOLOGIA DA PALAVRA
No Novo Testamento as duas palavras gregas usadas para “doutrina” são didaquê e didaskalia. Ambas possuem a mesma ideia e significam aquilo que é ensinado (a substancia do ensino) como também se referem ao ato do ensino, instrução. O Dicionário Vine (CPAD) corrobora esse entendimento e fala sobre os dois termos gregos que “Ambos são usados nos sentidos ativo e passivo (ou seja, o ato de ensinar e o que é ensinado); a voz passiva é predominante em didaquê, e a voz ativa, em didaskalia; o primeiro põe em relevo a autoridade, o ultimo, o ato”.
O primeiro termo aparece na pregação de Jesus em Marcos 1.22, 27: “Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas”; “Todos se admiravam, a ponto de perguntarem entre si: Que vem a ser isto? Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!”. O segundo termo encontramos em Romanos 16.17: “Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles”.
TEOLOGIA E DOUTRINA
Muitos não conseguem entender a relação entre teologia e doutrina. Alguns chegam ao cúmulo de dizer que a doutrina se contrapõe à teologia, e vice-versa. Outros, literalmente pedantes, dizem que o que deve ser ensinado (à igreja) são doutrinas e não teologia. Pobres coitados! Precisam saber que os termos teologia e doutrina são similares. O Reverendo Joao Alves dos Santos explica que:
“A palavra ‘teologia’ não ocorre na Bíblia e o termo que lhe é equivalente, no N.T., é ‘doutrina’ (“didache” ou “didaskalia”, no grego), que vem de uma raiz que significa ‘ensinar’ e pode se referir tanto ao ato de ensinar, propriamente, como ao conteúdo do que é ensinado (Rm 6:17;1Tm 6:3-4; 2Tim 4:3-4; Tito 1:2,9, etc.). Podemos dizer, de modo mais completo agora, que Teologia é o conjunto de verdades extraídas dos ensinos bíblicos a respeito de Deus e de Sua obra, e que são apresentadas de modo sistemático, na forma de um corpo de doutrinas. A essa forma ordenada de doutrinas, dá-se inclusive, o nome de ‘Teologia Sistemática’. O adjetivo aqui, não altera o conceito de ‘teologia’. Assim entendidas, fica evidente que não há diferença entre Teologia e Doutrina”’. [2]
A CORRUPÇÃO DA DOUTRINA BÍBLICA
Segundo o apóstolo Paulo, a conduta do cristão deve estar de acordo com sua crença: “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1). É importante crer nas doutrinas bíblicas para que o procedimento pessoal justifique positivamente o cristianismo vivido. O resultado dessa negligencia (crer em doutrinas sadias) tem sido alastrador e catastrófico. A perda da ética e da santidade cristã tem sido um dos resultados colhidos. Estamos vivendo dias de imoralidade no meio cristão devido a omissão e até mesmo o ceticismo em relação às doutrinas bíblicas. Podemos dizer que no cristianismo você é aquilo que você crê.
O padrão doutrinário bíblico também tem sido vítima de gravíssimas distorções nestes últimos tempos. Hoje, temos de combater os desafios procedentes e impostos tanto pelas seitas quanto por grupos evangélicos que perverteram (e estão pervertendo) a fé cristã. Inventam moda teológica (modismos teológicos) e confundem o povo de Deus, rachando a unidade e a integridade doutrinária da igreja. Os neopentecostais e alguns grupos pentecostais tem corrompido a doutrina bíblica. Para não enfadar o leitor e até mesmo estimulá-lo às pesquisas, apresento abaixo apenas uma das corrupções da doutrina bíblica: o cair no Espírito. Mas, sugiro que pesquise sobre outros temas, tais como a Maldição Hereditária, Arrebatamento em grupo, a utilização de frases como “amarrar Satanás”, Confissão Positiva, Cura Interior, a prosperidade financeira conforme pregada por alguns adeptos do deus Mamom, Guerra Espiritual, letras de “hinos” que contradizem a doutrina bíblica, entre outros. É tanta distorção da doutrina bíblica que, sinceramente, não disponho de tempo suficiente para comentar uma por uma. Desculpe-me por isso.
CAIR NO ESPÍRITO
O cair no Espírito, muito em voga nestes dias, é sinônimo do poder do Espírito Santo fazendo com que a pessoa não suporte o poder e desfaleça fisicamente, dizem os que aderem a queda. Nesses movimentos evangélicos ser tocado ou soprado por alguém “cheio do Espírito” é a ação que resulta em derrubar a pessoa. O que não entendo é que não há nenhum resultado de mudança, transformação, vida poderosa, santidade, depois que a pessoa se levanta da queda – ela continua exatamente igual. Pergunto: Qual a finalidade de ser derrubado pelo toque de alguém? Qual a finalidade de cair no Espírito? Alguns tentam justificar biblicamente mencionando o poder que Elias tinha na sua capa, o poder que Eliseu tinha até mesmo nos seus ossos, o poder da sombra de Pedro, o poder nas vestes de Paulo, o sopro de Jesus nos discípulos. No entanto não temos nenhuma prescrição dos próprios servos de Deus, nem de Jesus, nem bíblicos, de que devemos proceder da mesma forma hoje. Deve ser lembrado que esses acontecimentos tiveram um propósito específico dentro do tempo e da soberania de Deus. Nesses movimentos, o cair no Espírito, pelo toque ou sopro, é subjetivo, repetitivo, coletivo, em grupos, em alguns casos são manipulações, em outros a pessoa é induzida, e ainda há quedas forjadas. Cair prostrado diante da glória de Deus, como aconteceu com Daniel, Ezequiel e o apóstolo João, é muito diferente de ser derrubado por alguém.
Recentemente presenciamos a polemica desse fenômeno sendo exaustivamente mostrada em um programa televisivo pelos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Num vídeo gravado na Igreja Batista da Lagoinha, eles sadicamente ironizam a queda no Espírito da cantora Ana Paula Valadão. Não é meu objetivo aqui comentar sobre o assunto, mas apenas constatar o fato como um fenômeno corrente. O que é irônico é o ataque partir justamente da IURD que não possui nenhuma moral doutrinária, espiritual e bíblica para tratar de um assunto desta envergadura. Como sempre o que eles querem é o show, o sensacionalismo, a provocação. Por outro lado, goste o leitor ou não, a Igreja Batista da Lagoinha não pode ser considerada modelo de uma igreja bíblica por conta dos seus muitos desvios doutrinários.
INTEGRIDADE NA DOUTRINA
A palavra integridade tem sentido de imparcialidade. Na reflexão dessa postagem significa que a igreja deve acatar como norma e regra de fé toda a doutrina bíblica e não apenas algumas. Todas as doutrinas bíblicas são essenciais conforme disse Joseph Irons: “Abracemos toda a verdade ou renunciemos totalmente ao cristianismo”. Faço minha as palavras do pastor Claudionor Correa de Andrade (Lições Bíblicas, 4º trimestre de 2006): “Não podemos acreditar em algumas doutrinas, e desacreditar de outras. Haveremos de receber toda a verdade conforme no-la confiou o Senhor em sua Palavra: integralmente. Sem doutrina, a vida espiritual é impossível”.
Em Cristo,


[1] Revista Obreiro, Ano 24, nº 17, p. 23.
[2] Artigo publicado no site Monergismo com o tema “A igreja precisa de teologia”?