quarta-feira, 21 de setembro de 2011

OBEDECEI A VOSSOS PASTORES

Por Gilson Barbosa
A preferência das pessoas por assuntos polêmicos é espantosa. Este fato é também verificado nas escolhas. Entre escolher um tema burilado, rebuscado, conservador, teológico, doutrinário, prefere-se um polêmico, atual, que envolva grandes personalidades, que conte algo sobre a vida da pessoa (quase sempre não é algo bom), que investigue. Nos dias atuais os pastores, por fazerem parte da sociedade, estão nas manchetes em toda a parte. Na blogosfera ou nos sites, quase sempre a menção aos pastores está ligada a escândalos, denuncias, acusações, “reflexões”, opiniões, etc. Nessa postagem venho mencionar e refletir sobre os pastores como pessoas legitimamente designadas por Deus para cuidar da Sua igreja e dignos de respeito e amor das ovelhas que estão sob seus cuidados.
Recentemente postei um assunto sobre a realidade pecaminosa de todos os seres humanos e incluí entre estes os pastores. O assunto versava sobre um escândalo pastoral ligado à apropriação indébita de dinheiro. Confesso que fiquei curioso e ao mesmo tempo estupefato com a quantidade de acesso a essa postagem. Esse fato me levou a ponderar sobre um dos aspectos do ser humano ligado ao gosto de assuntos ou temas que gerem polêmicas. Não estou criticando negativamente as pessoas que acessaram a postagem, na verdade eu as agradeço pelo acesso, mas apenas constatando um fato – não me interprete mal, por favor. Da mesma forma gostaria e ficaria muito feliz que esta postagem tivesse a mesma quantidade de acesso. Minha postura e opinião sempre foi a de jamais devemos desconsiderar ou desrespeitar pastor algum, sob pena de infligirmos os mandamentos Divinos acerca deles.
O MINISTÉRIO PASTORAL
O pastorado é uma dádiva de Deus. Na carta de Paulo aos Efésios (4.11) há uma menção aos dons ministeriais doados por Deus à alguns dos seus servos: “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. O pastor José Apolônio extrai a seguinte conclusão sobre esse versículo: “É Deus quem concede os dons ministeriais (Ef 4.11 e Nm 18.7). É o dom ministerial recebido de Deus que determina sua função ou ofício. A função, o exercício do ministério, depende desse dom ministerial recebido de Deus (1 Tm 4.14 e 2 Tm 1.6)”.[1] Em outras palavras, a função ou ofício de apóstolo, profetas, evangelistas, pastores e mestres, é dado antecipadamente ao obreiro por Deus e não é fruto de uma escolha arbitrária (por eleição) da igreja ou do ministério (corpo de pastores e obreiros). Disso reconhecemos a grandeza e a excelência daqueles que são escolhidos por Deus para exercerem tais funções ou ofícios.
As atribuições de um pastor são diversas. No sentido original os pastores (do grego poimenas) eram os que tinham a função de cuidar e guardar as ovelhas. Louis Berkhof (Teologia Sistemática, p. 539) registra que “eles detinham a superintendência do rebanho que lhe fora entregue aos seus cuidados. Eles tinham que abastecê-lo, governá-lo e protege-lo, como sendo da própria família de Deus”. Para mostrar aos religiosos que Deus se importava com os pecadores, Jesus, em Lucas 15.3-6, contou-lhes a parábola da ovelha perdida. Numa leitura superficial concluiríamos que apesar do pastor se preocupar com a (uma) ovelha perdida fez pouco caso das noventa e nove que deixou no redil. Porém, as noventa e nove “não ficaram abandonadas. Temos a tendência de achar que havia somente um pastor, mas o pastor do Oriente Médio raramente saía sozinho com cem ovelhas. Se uma ovelha se perdia, o chefe dos pastores deixava o restante do rebanho seguro e satisfeito com auxiliares contratados, saindo em busca da que se perdera”.[2] O pastor autêntico se preocupa e cuida com afinco de todas as ovelhas ao seu cuidado. Alguém disse que um “pastor deve cheirar ovelha”, e nesse texto bíblico vemos que o contato daquele pastor com suas ovelhas é muito próximo, íntimo e verdadeiro. Há inúmeros pastores de igrejas, em nossos dias, que amam suas ovelhas ao ponto de não abandoná-las, e, sabedor da sua insensatez e simplicidade as protege de todos os perigos. Infelizmente não posso afirmar que todos os pastores agem e sentem profundo afeto pelas ovelhas que estão aos seus cuidados, mas não podemos negar a realidade existencial de muitos pastores que se assemelham ao pastor da parábola de Lucas 15. 
O pastor deve desempenhar suas funções com muita humildade e amor abdicando-se dos seus projetos pessoais e ambições, em prol das pessoas que estão ao/sob seu cuidado. O escritor Ted Christman faz uma importante observação quanto a possibilidade de determinado pastor não amar sua ovelha e que implicação isso acarreta: “Se nós não amamos nosso rebanho, isto deve ser tomado como uma prova definitiva de que o Pai, não nos colocou como pastores do seu rebanho. E nem o Senhor Jesus Cristo nos designou como dádivas para a igreja”. [3]
DIFICULDADES PASTORAIS
Os pastores convivem no mínimo com duas questões delicadas: as relações interpessoais e as críticas. As relações interpessoais compreendem sua família, a igreja e o corpo de ministros sob sua liderança. Com respeito a sua família a diretriz bíblica é que o pastor “deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Tm 3.4, 5). Referente à igreja local há diversas classes de pessoas cada um com sua natureza, comportamento e personalidade. Como o ser humano é um ser complexo a interação e o relacionamento interpessoal entre pastor e ovelha se torna muito tenso.   O apóstolo Paulo disse aos irmãos tessalonicenses (1 Ts 2.8): “Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós”. Independente das muitas culturas pessoais existentes dentro da igreja, o pastor deve sentir afeição por todos e tratá-los com um amor tão forte a ponto de dar sua própria vida pelas ovelhas. A relação do pastor com seus colegas de ministério deve ser sempre com cortesia e nobreza. Em I Timóteo 5.17 o apóstolo Paulo demonstra a consideração que tinha por seus obreiros: “Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino”.
As críticas talvez seja o ponto mais tenso entre ovelha e pastor. O pastor Wagner Tadeu dos Santos Gaby informa que “a crítica é a arte de apreciar méritos e deméritos de um desempenho. Não tem o propósito de destruir o criticado e sim de ajudá-lo a executar tarefas futuras do modo mais eficiente.” Os pastores devem aceitar as críticas com calma, sem ódio, sem se ofender, com humildade, com honestidade, sem repudiá-la antecipadamente. Em contrapartida os membros não podem oferecer críticas evasivas, sem objetividade, vazias, maldosas.
OBEDECENDO COM INTELIGENCIA
O título dessa postagem é extraído de Hebreus 13.17: “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil”. Os membros da igreja devem compreender a dificuldade e a responsabilidade dos pastores e lhe devotar respeito e consideração. Uma das maneiras de se entender que determinado pastor foi ordenado por Deus e colocado para liderar determinada igreja, tem haver com o devido cuidado, zelo e dedicação à Palavra de Deus. Tudo indica que os pastores, no contexto de Hebreus 13.17, tinham esse cuidado e por isso mereciam a obediência dos crentes.  
Segundo o Rev. Allan Rennê Alexandrino Lima pode ser percebido no texto de Hebreus 13.17 pelo menos três aspectos imprescindíveis ao relacionamento bíblico pastor/ovelha. São eles:[4]
OBEDIENCIA: Obedecei aos vossos pastores. Trata-se de algo positivo por parte dos cristãos, que devem empreender esforços para cumprir tarefas delegadas por seus pastores. No contexto desse versículo é possível que alguns crentes estivessem indispostos a obedeceram a seus líderes. Eles precisavam de ajuda e encorajamento. A obediência, nesse caso seria de grande valia.
Segundo Simom Kistemaker os pastores que outrora haviam pregado a palavra aos irmãos hebreus não estavam mais com eles. Outros pastores haviam sucedido e ocupado os seus lugares. Portanto, os irmãos deveriam atentar para esse fato e colaborar com estes novos pastores com uma atitude de obediência.   
SUBMISSÃO: Sujeitai-vos a eles. Continuando com o ponto de vista do Rev Allan “obediência e submissão são dois lados de uma mesma moeda. A submissão em questão diz respeito a anuência exigida diante de decisões tomadas pelos líderes pelos pastores e líderes de uma congregação”.
ALEGRIA: Para que o façam com alegria e não gemendo. Quando as ovelhas respondem a seus pastores em obediência e submissão, o trabalho destes ficam muito mais agradável e alegre. Nem os membros nem o pastor são donos da igreja. Desta forma um deve cooperar com o outro para que os resultados, as produções, as ações positivas, as soluções, os eventos da igreja tenham eficácia. Essas coisas envolvem um ambiente envolvido de contentamento.
TENSÃO NO RELACIONAMENTO
Estou convicto que o relacionamento tenso entre membros de uma igreja e seus pastores não deixará de existir. Não defendo a subserviência vexatória das ovelhas e nem o despotismo sádico dos pastores. Ambos devem entender, compreender e aceitar todas as prerrogativas bíblicas ao seu respeito. Sem isso o relacionamento interpessoal não acontecerá e corre-se o risco da igreja local ser prejudicada coletivamente nos seus ministérios. Os pastores devem atender a recomendação apostólica: “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” I Pe 5.2 , 3. Em contrapartida as ovelhas devem honrar e obedecer a seus pastores: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” 1 Tm 5.17.
Em Cristo,   


[1] REVISTA OBREIRO, Ano 23, nº 14, p. 61.
[2] BÍBLIA DE ESTUDO VIDA, p. 1619.
[3] CHRISTMAN Tedd, Amado Timóteo: Uma coletânea de cartas ao pastor. Ed: Fiel, p. 61.
[4] Texto em PDF “Pastores/Ovelhas: Um relacionamento em tensão”. Rev. Allan Rennê Alexandrino Lima


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