sexta-feira, 17 de junho de 2011

O DIFÍCIL CAMINHO DA APOLOGIA


Por Esequias Soares*


Disse: Jan Karel Van Baalen: “O cultor médio de uma seita deixou uma fé tradicional, em que foi criado, e adotou ‘cousa melhor’... não somente repudiou a religião ortodoxa que nós representamos, mas é mesmo hostil a ela... Inseparável, embora distinto dessa hostilidade, é, portanto, o ressentimento contra nós como intrusos que nos atrevemos a ir ensinar a ele que achou cousa muitíssimo superior... Esse ressentimento contra nós poderá tomar várias formas, de acordo com o temperamento do sectário e a natureza do ismo que ele representa”.[1] Van Baalen era um alto funcionário do Governo americano. Sua obra O Caos das Seitas foi publicado em 1938, nos Estados Unidos, e no Brasil, em 1970, pela Imprensa Batista Regular. O Caos das Seitas é ainda hoje considerada obra clássica na área da apologética cristã.

A palavra “seita” é usada para designar as religiões heterodoxas ou espúrias. Hoje é uma palavra desgastada trazendo em si um tom pejorativo e por isso estamos estudando outra nomenclatura para designar esses grupos religiosos não ortodoxos.  São grupos de surgiram de uma religião principal e seguem as normas de seus líderes ou fundadores. Mas de 60 anos depois da primeira edição desse livro, o ICP tem observado no dia-a-dia que ainda hoje esse é o comportamento da maioria dos sectários. Por essa razão a equipe do ICP lida com essas pessoas com muito cuidado, “pisando em ovos”, pois se ofendem facilmente.


INRI CRISTO


Van Baalen tinha razão quando falava dos ressentimentos dos sectários. Além de repudiarem a religião de onde vieram, seus líderes não resistem aos seus teólogos. No dia 16 de março de 1999 foi entrevistado no Programa do Ratinho um cidadão que se diz ser Jesus Cristo, o Filho de Deus, conhecido como Inri Cristo, respondendo às perguntas do auditório sobre a sua própria identidade. Um assunto que desperta curiosidade, pois Jesus disse que nos últimos dias apareciam muitos falsos profetas e muitos cristos: “Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muito” (Mt 24.5). A Bíblia diz que o Senhor Jesus Cristo não virá mais como homem, para viver entre nós, como aconteceu no seu primeiro advento: “Assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá Segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação” (Hb 9.28). Jesus virá para buscar seu povo, a igreja, e não para viver entre nós.

Mas, Inri Cristo afirma ser esse Jesus Cristo, e já havia aparecido em programas anteriores, para dar entrevista sobre a sua identidade, respondendo às perguntas de qualquer um dos presentes no auditório, sem nenhum problema. Mas, nesse último programa, o apresentador Ratinho (Carlos Massa) disse que tinha um pastor evangélico querendo fazer-lhe algumas perguntas. O entrevistado ficou preocupado, alegando que concordava desde que as perguntas fossem primeiramente dirigidas ao apresentador, para depois ser dirigidas a ele. Interessante que essa exigência não foi feita quanto as perguntas do auditório. Isso porque o povo geralmente não está bem familiarizado com a Bíblia e assim as perguntas não são bem formuladas, e assim esses líderes ou fundadores desses movimentos religiosos costumam se sair bem. 

O pastor perguntou se Inri acreditava ser Deus um Ser onipotente, onisciente e onipresente. Ele respondeu afirmativamente. Depois perguntou se Inri acreditava na Santíssima Trindade. O entrevistado respondeu da mesma forma. Em seguida concluiu o pastor que, se Inri Cristo é realmente Jesus Cristo, visto que Jesus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, logo, Inri é também onipotente, onisciente e onipresente. Quando o pastor fez essa última pergunta, a resposta de Inri foi: “Você é um cão vira lata! Um lobo em pele de ovelha”.

Essa reação é muito comum nos líderes sectários e de fundadores de seitas. O ICP tem vivido também essa experiência. Os teólogos sabem formular as perguntas corretas e previnem o rebanho dos ensinos estranhos. Por isso esses teólogos são um problema para os promotores de ensinos exóticos. É muito comum essa gente procurar desmoralizar os teólogos, para desacreditá-los diante do povo. Entre os sectários a palavra “teólogo” é um termo pejorativo.

JEOVÁ FALSO DEUS?

A revista Defesa da Fé publicou na edição no. 8, setembro/outubro de 1998, pp. 6, 7, 8 e 9, primeira parte de uma resenha sobre o livro Jeová Falso Deus? —  JFD. O autor do livro e a editora entraram com uma ação penal na Justiça, requerendo direito de resposta e sentença condenatória, alegando crime de calúnia e difamação.

O livro JFD, além de propagar o politeísmo, afirmando existir vários deuses no céu e na terra, é um vilipêndio, pois chama explicitamente Jeová de falso deus. A Bíblia diz que as falsas divindades não são deuses (Gl 4.8). O livro usa, muitas vezes, “deus”, com letras minúsculas, para se referir ao Deus que nós servimos, colocando-o na categoria de divindades falsas, além de apresentar argumentos, embora inconsistentes, procurando provar que somos adoradores de um deus falso.

Sem o mínimo respeito aos cristãos e seu Deus, chama Jeová de deus mentiroso, usurpador, indigno de confiança, igual ao deus falso Moloque, não cumpre sua palavra, chegando associar o Deus Jeová de Israel com o próprio diabo. O nome JEOVÁ é apresentado na capa do livro vertendo sangue em cada letra, idêntico aos cartazes de filmes macabros de terror, vampiros, monstros etc., para associar o Deus dos cristãos e judeus ao príncipe das trevas, dando a idéia de uma divindade sanguinária.

O ICP poderia requerer em Juízo a retirada desse livro de circulação, pois afronta a toda a cultura religiosa ocidental, e do Oriente Médio: cristãos, judeus e muçulmanos. O Deus Jeová é o Deus dos judeus, cristãos: católicos romanos, católicos ortodoxos e protestantes. É o Deus adorado pelos fiéis dessas religiões.

Há dispositivos legais em nossa legislação para que obras vilipendiosas, que venham a afrontar os objetos de cultos sejam tiradas de circulação. Mas, partimos do princípio de que em democracia, uma idéia se combate com outra idéia e nãos nos tribunais.

Os judeus deixaram de pronunciar o nome de Deus no período entre o Velho e o Novo Testamento. Isso o fizeram e o fazem na atualidade por respeito ao nome sagrado,  levando ao pé da letra o terceiro mandamento do Decálogo: "Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20.7). Temendo usar o nome de Deus (o Tetragrama, as 4 consoantes hebraica yhwh, YHVH, “Yahveh, Jeová, SENHOR”) numa situação inadequada e para não correr o risco de tomar esse nome em vão evitaram pronunciar o Tetragrama. Mas o livro JFD coloca as coisas de maneira abominável, dizendo “o deus cujo nome morreu”, e prossegue nas páginas 22 e 23 dizendo o seguinte:

“O Dicionário da Bíblia, John D. Davis, revela uma estória interessante, pois até o século XV o nome do Deus de Israel jamais era pronunciado, sendo apenas escrito tetragrama.

Assim que o Papa Júlio II faleceu, reuniram-se em conclave os cardeais para a eleição do novo Papa. A disputa era grande, e João de Médicis participava, apesar de gravemente enfermo. Mesmo doente, conduziu a cadeira pontifícia por oito anos (De 1513 a 1521 D.C.) e tomou o nome de Papa Leão X. Este Papa usou energicamente o poder da inquisição para queimar os heréticos e para cobrar taxas e vender indulgências. Não havia crime que não fosse perdoado a preço de ouro. Eram tantos os abusos que Martinho Lutero levantou-se contra a corrupção. O Papa Leão X desencadeou uma guerra de morte contra Lutero, usando o poder religioso, financeiro e político. Tudo foi inútil pois Deus, o Pai de Jesus, abençoava Lutero. O Papa lançou grandes maldições contra Martinho Lutero e para ressuscitar o nome do Deus de Israel, o Deus das maldições, pois como as maldições se cumpriram sobre Israel, haveriam de se cumprir na vida de Martinho Lutero. Transcrevemos um trecho da página 303 do Dicionário da Bíblia de John D. Davis: 'Desde o tempo em que os sinais massoréticos vieram ajuntar-se às consoantes do texto hebraico, as vogais das palavras Adonay e Elohim foram ajuntados ao tetragrama YHVH. A pontuação das vogais deu lugar à pronúncia JEOVÁ, que se tornou corrente desde os dias de Petrus Galaltinus, confessor de Leão X, no ano 1518”.

Nesse mesmo capítulo, o livro JFD cita mais dois dicionários, o Dicionário Bíblico, de John Mackenzie, da Editora Paulus, S. Paulo; e o Vocabulário de Teologia Bíblica, Editora Vozes, Petrópolis, Rio. O de John D. Davis é obra protestante, as duas últimas são católicas.  A citação da p. 303 da obra de John D. Davis, bem como as duas outras falam do processo de vocalização do Tetratagra, meramente, que o livro JFD sequer consegue explicar. Além disso, as três obras citadas são contra o pensamento do livro JFD.

O problema mais sério é que a “estória interessante” do Papa Leão X e da sua maldição sobre Martinho Lutero em nome do Deus de Israel não consta no Dicionário de John D. Davis, e nem em nenhum dos outros dicionários. O articulista lecionou História da Igreja Cristã e nunca ouviu falar dessa “estória interessante”. O que se sabe do papa Leão X é que era mecenas e por isso se dedicou mais às artes do que à religião. Patrocinou Miguelângelo, Rafael Sânzio, e outros renascentistas. A própria Igreja Católica reconhece que Leão X se dedicou mais às artes do que à religião. A Enciclopédia Universal Delta afirma que Leão X nunca levou a sério o movimento de Lutero.

Césare Cantu, o mais prolixo dos historiadores, escreveu com detalhes a vida do papa Leão X e sua atitude com relação a Reforma Protestante e Martinho Lutero, mas nada falou sobre essa maldição citada no livro JFD.

O autor do livro não indicou a fonte dessa “estória interessante”, se é que realmente aconteceu. Independentemente de ser fato verídico ou não, o certo é que, quem escreveu o livro JFD não foi feliz, dizendo a seus leitores que essas obras apóiam as idéias expostas no livro. A expressão: “O mecanismo usado é extremamente desonesto”, não é um atentado à honra, mas se trata não apenas desse fato, mas de outros, que podem ser apontados no referido livro. Mostrar e dizer que uma obra com esse tipo de argumento não merece crédito, ou que são argumentos infantis e inconsistentes não se constitui crime.

Os movimentos religiosos heterodoxos sempre disparam o primeiro tiro contra as religiões estabelecidas e depois procuram se apresentar com vítimas. Seus ataques sãos extensivos aos líderes dessas religiões. Isso pode ser visto no livro JFD, quando diz: “Se Jesus foi crucificado porque revelou que Jeová não é o Pai, é possível que os fariseus do século XX, os príncipes, os doutores da lei, soberbos representantes de Jeová fizeram com Jesus. Se não o fazem, ao menos ficam cheios de furor, porque estão cegos” (p. 212). Somos chamados, portanto, de “fariseus do século XX”, de “soberbos representantes de Jeová”,  porque adoramos o Deus Jeová. Depois procuram os tribunais alegando ser violados nos seus direitos.

Outro problema das seitas é querer calar a boca dos pastores. Querem impedir que os pastores falem ao rebanho sobre o perigo das doutrinas estranhas defendidas por inúmeros grupos heterodoxos. Será que não temos mais o direito de ensinar o nosso povo as nossas crenças? O ICP recebe com freqüência pressões, intimidações e ameaças de representantes e adeptos desses grupos heterodoxos.

A revista Defesa da Fé é evangélica e dirigida ao público evangélico, portanto temos o direito de ensinar ao nosso povo a nossa doutrina e alertá-lo sobre às doutrinas estranhas. O simples fato de apresentar o que certo grupo religioso ensina, isso com base nos escritos do tal grupo, mostrando à luz da Bíblia a refutação de tais doutrinas não se constitui crime.  Uma idéia se combate com outra idéia e não nos tribunais.

Há nesse mundo religião para todos os gostos que alguém pode imaginar.  Cada ser humano tem o direito de seguir a religião que quiser, desde que respeite o direito dos outros, todavia, todo o mundo tem o direito de saber a verdade dos fatos. O nosso dever é defender o rebanho das malhas das seitas. Vamos continuar alertando as igrejas sobre o perigo dos movimentos heterodoxos. Deus nos chamou para essa missão e não podemos fugir dela, ainda que pressões ou ameaças venham nos perturbar, como disse o apóstolo Paulo: “Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial” (At 26.19).

* Esse artigo foi escrito quando o pastor Esequias Soares compunha administrativamente  o quadro institucional do Instituto Cristão de Pesquisas. Publiquei por achar extremamente importante esse assunto.





[1] BAALEN, Jan Van. O Caos das Seitas, Imprensa Batista Regular, S. Paulo, 1986, pp. 282, 283.

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