quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ESTEVÃO, MÁRTIR E DEFENSOR DA FÉ (SUBSÍDIO EBD)

Por Gilson Barbosa
As acusações, “julgamento”, e finalmente, o assassinato de Estevão, engendrada pelos judeus gregos, realizado pelo Conselho do Sinédrio e executada pelas “testemunhas” e pela turba enfurecida, foi o grave preço requerido para a expansão do evangelho de Jesus Cristo além das fronteiras de Jerusalém. A máxima de que é sempre necessário alguém ser “sacrificado”, para a concretização de algum objetivo, se comprovou em Estevão. É dessa forma em vários segmentos da sociedade e não é diferente na igreja. Jesus havia dito que seus discípulos seriam testemunhas “tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”, mas, tudo indica que nem mesmo os apóstolos, que haviam estado com Jesus, tinham compreendido a essência universal deste evangelho. Jerusalém deveria ser apenas uma base missionária para atender a demanda da pregação evangelística em outros lugares.
A controvérsia acerca de Estevão
Estevão não era um apóstolo – era diácono – mas nem por isso entendia que Deus realizaria seus atos poderosos somente por aqueles (6.8) e articulava a pregação evangélica com tamanha eloqüência que seus opositores “não podiam resistir à sabedoria, e ao Espírito com que falava” (6.10). Este fato cumpre duas promessas de Jesus: sabedoria para responder aos opositores e a direção das palavras adequadas quando necessário, pelo Espírito Santo (Lc 21.15; 12.12). Impotentes para refutar os argumentos de Estevão, os judeus gregos “que eram da sinagoga chamada dos libertinos, e dos cireneus e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilícia e da Asia”, subornaram algumas pessoas que acusaram Estevão de “falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus”, em outras palavras, contra a Lei de Moisés e contra o Santo Templo (At 6.11 cp v.13, 14). “Mudar os costumes” (v. 14) tem a ver com as tradições orais que contém a interpretação da lei segundo os escribas, e, “destruir este lugar” significava para os judeus, a dessacralização do Templo judaico.
Todo o discurso de Estevão (7.1-53) visa promover uma interpretação essencialmente correta dos fatos pertinentes à história do povo hebreu, defender a nova crença e provar que Jesus era o Messias. Um detalhe interessante é que ele não procura defender-se pessoalmente das acusações, mas mostrar aos judeus que, tanto o Templo quanto a Lei de Moisés, poderiam ser vistos por outros aspectos. De diferente natureza e estranho procedimento são hoje as alegações de inocência de alguns crentes e da liderança evangélica quando são acusados de imoralidades: principalmente no meio político. As desculpas são quase sempre as mesmas: “estão perseguindo a igreja de Cristo”, quando na verdade as acusações que lhes pesam são pessoais e foram provocadas por seus próprios procedimentos - inadequados para um cristão salvo (exemplo).
O discurso de Estevão
“Então, o sumo sacerdote interpelou a Estevão: “Porventura são verdadeiras estas acusações contra ti?”. Atos 7.1 – King James
Estevão teve a oportunidade de defender-se diante do Sinédrio das acusações mentirosas. O comentarista bíblico I.Howard Marshal sugeres dois temas no discurso de Estevão:
(1) Deus, no decurso da história do Seu povo, levantou homens para serem libertadores deste, mas os judeus repetidas vezes os rejeitaram e desobedeceram à lei dada por Deus. Depois de tratar do estabelecimento da nação mediante a chamada divina de Abraão e as suas promessas a ele (7.2-8), o discurso trata de José, que foi rejeitado por seus irmãos, mas preservado por Deus (7.9-16), e depois, mais pormenorizadamente, de Moisés, que veio libertar seu povo, mas foi rejeitado por este (7.25, 39 – 43);
Sobre os fatos históricos ligados a Abraão (7.2-8), o abnegado Estevão aventa a possibilidade da dessacralização da terra palestínica, pois, o Deus da glória apareceu a Abraão “na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã” e como sabemos a Mesopotâmia ficava no caminho da Palestina, ou seja, um local que nada tinha com os judeus. Estevão diz a eles que Deus trouxe a Abraão para a terra onde eles estavam agora (7.4). Após peregrinarem e serem escravizados durantes centenas de anos, Deus prometeu que eles seriam livres e o serviriam “neste lugar”, ou seja, na Palestina. Enfim, Deus tratou com Abraão, fez promessas e relacionou-se com ele espiritualmente antes de habitar na Palestina. Deduz-se então que não foi no local santo [Palestina], reivindicado pelos judeus religiosos, que Deus estabeleceu as bases de sua promessa. É como se Estevão dissesse: “Não sacralizem demais o local e a terra onde vivem, pois Deus não fez pactos com Abraão nela”. 
Na interpretação de Estevão, Moisés (7.20 – 43) é o Libertador do povo Hebreu, mas não foi devidamente reconhecido como tal pelos seus compatriotas. Nas minúcias dos acontecimentos providenciais na vida de Moisés, os atos poderosos de Deus, seus milagres, sinais e maravilhas são símbolos de algo mais grandioso que Ele haveria de realizar: libertar os hebreus da escravidão egípcia (7.34). Após um infeliz incidente (7.24) e a descoberta desse fato (7.27), Moisés teve de fugir e ausentar-se durante anos do convívio do seu povo. Contudo, Deus apareceu a Moisés no Monte Sinai e o comissiona para enfrentar a maior autoridade do Egito (Faraó) e ser o agente libertador do povo hebreu. Resumindo: Moisés que havia sido desafiado e rejeitado por seu povo “foi enviado pelo próprio Deus para ser líder e libertador deles, por meio do anjo que lhe tinha aparecido na sarça”. Da mesma forma, Jesus que foi rejeitado pelos judeus e autoridades, é o Salvador e Libertador de seu povo.      
A intenção é demonstrar aos adeptos radicais da religião judaica que é possível uma leitura do Antigo Testamento pelas lentes cristãs, ou seja, a história de Israel, os vaticínios proféticos, as grandes maravilhas, era apenas uma parte do grande projeto de Deus para a humanidade – a redenção dos seus pecados e a demonstração da Providência Divina.
2) os judeus tinham o tabernáculo no deserto e, mais tarde, o templo edificado por Salomão, mas desviaram-se para a idolatria (7.39-43), e começaram o erro de pensar que Deus realmente habitava no templo (7.44-50). 
As palavras de Estevão com relação ao Templo são ainda mais agravantes: acusa os judeus religiosos de tratarem o Templo, como se fosse um talismã. “Estevão foi acusado de blasfemar contra o ‘Lugar Santo’ (6.11-14) e, por isso, encerra seu depoimento com uma explanação sobre o tabernáculo (santuário) e o Templo. Foi o tabernáculo o ‘lugar’ de adoração estabelecido por Deus (Hb 8.1-5). “O Templo foi a resposta a um pedido de Davi, todavia construído por seu filho Salomão e tolerado por Deus. Isaías afirmou que nem o universo pode conter a Deus; como o poderia uma simples criação humana? É possível que deuses falsos tenham suas casas entre os homens, mas o Altíssimo é onipresente. Ele está em toda a parte, nada pode contê-lo, e habita o coração do crente por amor à humanidade (Mc 14.58; At 17.24)”.[1]  Após acusar duramente os judeus religiosos (7.51-60) de desobediência a própria Lei, a ira dominou o coração dos seus ouvintes que “arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo”.  Os judeus religiosos entenderam o recado de Estevão, mas não estavam dispostos a aderir a mensagem. 
A perseguição da igreja (8.1-4)  
Desse momento em diante “desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e de Samaria”. Os apóstolos não foram perseguidos inicialmente, pois, esta foi provocada e desencadeada inicialmente pelos judeus gregos - o que denota a dificuldade do evangelho permanecer circunscrito ao sistema judaico com suas regras e cerimoniais. David J. Williams informa que “o fato de os apóstolos serem intimamente ligados ao templo deve tê-los poupado das acusações atiradas contra Estevão. Portanto, deveriam estar relativamente seguros, embora a segurança jamais tenha sido a maior preocupação deles (veja a disc. sobre 4:19ss; 5:40). Os apóstolos teriam permanecido em Jerusalém mais por causa de seu senso de dever”.[2] Também entendemos que Estevão, assim como os judeus gregos e os gentios, tinham a mente mais “arejada”, do que os judeus hebreus, para compreenderem a essência da nova fé com suas crenças e isso os tornavam mais militantes.
Saulo, que indiretamente consentiu com a morte de Estevão, “por sua vez, devastava a igreja. Indo de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os lançava na prisão”. A palavra empregada para definir as atividades de Paulo (ele assolava a igreja) é usada para descrever a devastação produzida por um exército, ou por uma besta selvagem que dilacera sua vítima.  A igreja de Cristo, nos dias de hoje, continua sendo vítima de perseguição por pregar o evangelho e defender sua fé. A Missão Portas Abertas divulga todos os anos a classificação de países por perseguição e percebemos que muitos servos de Deus, como Estevão são martirizados, por amor ao evangelho.

No Brasil, temos ampla liberdade de pregar o evangelho, porém isso não significa ausência de certos tipos de perseguição ou de tentativas de conter a pregação do Evangelho. Como exemplo, temos a ameaça constante da aprovação da Lei PLC 122/2006 que criminaliza os que não compactuam com a agenda gay rotulando-os de homofóbico (leia aqui). Se Deus permitir que essa Lei seja aprovada e executada de fato, a igreja de Cristo sofrerá um processo de perseguição com extensões drásticas. Oremos para que ela não seja aprovada? Sim. Mas, semelhante aos dias da Igreja Primitiva, quem sabe Deus não permita que isso aconteça para que a igreja desperte e cumpra fielmente seu papel?      

        




         
    


[1] BÍBLIA KING JAMES, Atos 7.45-49
[2] WIILIAM, David J. Atos. Ed: Vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário