quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O PERIGO DE QUERER BARGANHAR COM DEUS (Lição 8 - Subsídio EBD)

Por Gilson Barbosa


Antes de começar a ler, por gentileza, assista esse breve vídeo do pastor Paul Washer. Ele nos leva a refletir se estamos sendo omissos ou não, na causa da pureza do evangelho.





Barganha e permuta são expressões correlatas. Basicamente trata-se de um acordo ou troca. O Dicionário Aulete informa que juridicamente é um “acordo pelo qual os contratantes trocam entre si coisas que a eles pertencem”. Supõem-se uma espécie de relação ou interação entre duas ou mais pessoas e também, que, uma das partes possui condições privilegiadas, qualitativas, melhores ou maiores que a outra. Uma exigência da barganha é que as partes tenham algo real, existente e verificável para permutar ou fazer acordo. Isso é o que acontece comumente na economia em geral, nos contratos diversos, nas indústrias e comércios.

Tendo em mente o que foi dito acima, é importante sabermos que os pregadores da Teologia da Prosperidade, bem como seus adeptos, agem da mesma forma com Deus. Não se importando com a Soberania de Deus, com o Ser de Deus, imaginam que sabem mais sobre o que é melhor para si ou sua vida, e no afã de conseguirem o que querem chegam às raias do absurdo de, mentalmente, “colocar Deus na parede”. Trata-se da Teologia da Barganha – ensino da Teologia da Prosperidade.

Um exemplo bíblico de barganha, no Antigo Testamento, aconteceu entre os irmãos Jacó e Esaú (leia Gênesis 25.29-34). Aquele, “esperto” que só, aproveitando-se da fraqueza de seu irmão, propôs um acordo. O incidente ocorreu por uma questão sociocultural, em que o filho mais velho tinha direito: a primogenitura. O autor Samuel Suana (Pentateuco – IBAD) informa o que segue, sobre essa questão:

Primogenitura era a condição estabelecida por direito ao filho primogênito, isto é, o primeiro filho de sexo masculino nascido na família. A ele eram dados alguns privilégios e também algumas responsabilidades. Teria ele a maior parte da herança da família, o direito de uma benção especial e à autoridade, transferida pelo pai, dando status e nome. Era também seu dever assistir seus pais em idade avançada, dando-lhes toda a assistência e amor.

No entanto, a Bíblia (Gn 25.34) relata que Esaú desprezou seu direito de primogenitura ao trocá-la por uma porção de comida: “E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, e bebeu, e levantou-se, e saiu. Assim desprezou Esaú a sua primogenitura”. A Bíblia de Estudo de Genebra diz que Esaú ao desprezar a sua primogenitura desprezou as promessas de Deus: “E ninguém seja devasso, ou profano, como Esaú, que por uma refeição vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12.16). No aspecto humano Esaú banalizou algo valioso e se deu mal.

Entrementes alguém pode arrazoar a possibilidade de respaldo bíblico para uma espécie de “barganha positiva” e exemplificar o personagem Abraão quando dialogou com Deus sobre a justiça de certos moradores de Sodoma. O fato se deu quando ele rogou pelos poucos justos que habitavam em Sodoma e Gomorra e que por causa do pecado e do baixo padrão moral dessas cidades Deus havia determinado destruí-las:

“Disse-lhe, pois, o Senhor: ‘As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei”’ (Gn 18.20).

Apesar da oração intercessora de Abraão retratar uma espécie de negociação entre ele e Deus, o acontecimento tem o sentido de ajudar alguém, solicitando o favor Divino. É notório, também, que o acordo foi unilateral, pois, Deus havia ponderado ser positivo e necessário julgar os habitantes das cidades em questão. O que faz Abraão então? Roga a Deus em favor dos justos que estavam em Sodoma e Gomorra. Nessa intercessão ele “negociou” com o Senhor, para o livramento daqueles:

“E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?” (Gn 18.23).

Então, ele sugere ao Senhor: “e se houver em Sodoma cinquenta justos... quarenta e cinco... quarenta... trinta... vinte... dez...?”.  Infere-se que não havia na cidade nem dez justos, pois Deus a destruiu, e no versículo 32 Ele diz a Abraão que se houvessem dez justos não destruiria a cidade. Caso tivesse dez justos na cidade, fica claro que o Senhor não ouviu a oração de Abraão. Esse tipo de “negociação” com Deus não é errado, pois visa abençoar o próximo. Será que os pregadores da Teologia da Prosperidade “negociariam” com o Senhor o livramento, a salvação de alguém, nos moldes da história de Abraão? Creio que não, pois, suas barganhas e negociações são exclusivamente individualistas, materialistas e interesseiras.

Contudo, as linhas acima sobre a “barganha positiva” entre Abraão e o Senhor Deus é apenas sugestivo, pois, creio que barganhar ou tentar negociar com Deus é geralmente negativo e não positivo, visto que, Deus é Soberano, Onisciente e Poderoso.

O exemplo bíblico negativo está registrado em Mateus 4.1-11, na passagem conhecida como A tentação de Jesus. Satanás tentou, com todo ímpeto, negociar com Jesus fazendo acordo por meio de barganhas.

A primeira tentação propõe que Jesus transforme pedras em pães. Satanás sabe que não é fácil suportar a fome: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães” (v. 3). Se Jesus realizasse esse milagre comprovaria de fato ser o Filho de Deus. Por ocasião do batismo Deus havia dito sobre Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Agora, é como se Satanás dissesse “Você atende meu pedido, comprova sua filiação Divina, e também prova seu poder”. Porém, Jesus se recusa a usar seu poder para aliviar a fome física e responde com autoridade: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4.4). O autor Joel R. Beeke diz o seguinte sobre essa conversa inicial:

Jesus fala com autoridade; sua resposta é firme. Diferente de Eva, Ele não debate com Satanás. Ele não chama um exército de anjos para expulsar o diabo. Ele não usa seu divino poder, pois está vivendo no mundo como Servo sofredor de Deus. A única arma que Ele usa é a espada do Espírito, a Palavra de Deus. 

Nada de negociação, nada de barganha! Jesus não precisava provar ou comprovar nada a Satanás. Da mesma forma, Deus não tem que provar nada para os teólogos da prosperidade. Ele não é obrigado a realizar milagres para isso - nem atender suas solicitações, que quase sempre não passam de caprichos pessoais. Jesus poderia operar um milagre da transformação de pedras em pães, mas, estava resolvido a cumprir a vontade de Deus. Era o mais certo a fazer.  Os adeptos do evangelho da prosperidade desconsideram a vontade soberana de Deus quando exigem que Ele responda obrigatoriamente suas orações e atenda detalhadamente suas solicitações. No fundo, a barganha retrata uma natureza egoísta, interesseira, má intencionada, orgulhosa e individualista. John Macarthur, em sua Bíblia de Estudo, comenta o seguinte:

A condicional “se” tem, nesse contexto, o sentido de “uma vez que”. Satanás não tinha dúvida de quem Jesus era, mas o seu objetivo era levar Jesus a violar o plano de Deus e usar o poder divino do qual ele havia aberto mão em sua humilhação humana (cf. Fp 2.7).

Os pregadores da prosperidade querem que vivamos apenas do pão terreno, que desprezemos a vontade de Deus, sua verdade e a suficiência da sua Palavra, revelada nas Escrituras Sagradas. Isso é inadmissível.

A segunda tentação era fazer que Jesus agisse como uma espécie de superstar; que demonstrasse seus sinais e maravilhas para atrair seguidores; que provocasse o sensacionalismo nas multidões. Novamente, seu poder sobrenatural serviria como forma de atitude exibicionista e narcisista:

“Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito; e: eles te susterão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra” (Mt 4.6).

De modo oposto ao sentido original do texto bíblico (Sl 91.11,12) Satanás diz que os anjos o protegerão, se ele pular do topo do templo abaixo. No entanto, esse texto não endossa a atitude da pessoa que busca testar a Deus, correndo um risco desnecessário, em vez de confiar Nele.  Em termos de interpretação bíblica, os pregadores da prosperidade utilizam o mesmo método do diabo – interpretar um texto fora do seu contexto.

Temos sabido de pessoas que pegam em serpentes, acreditando que a fé em Deus e a crença na sua promessa – baseada num entendimento errado de Marcos 16.18 – os livrarão de serem mortos, caso sejam picados por serpentes. Essa atitude nada mais é que “tentar ao Senhor Deus”. A tentativa do Diabo era que Jesus recebesse exaltação antes do tempo – ele teria que sofrer primeiro - usando meios carnais para atrair seguidores. O comentarista William Hendriksen diz o seguinte: 




A obediência à proposta de Satanás era tentadora, porquanto que homem existe que, ao ser solicitado que comprove um argumento que fizera, não sinta que deve fazê-lo imediatamente sem primeiro perguntar a si mesmo: “Que direito tem o meu incitador de pedir-me que faça tal comprovação?” Jesus, contudo, não cai nessa armadilha. Ele percebe que fazer o que Satanás está pedindo, equivaleria a trocar a fé pela presunção, a submissão à orientação divina pela insolência. Significaria nada menos que arriscar-se à autodestruição. A falsa confiança no Pai, que o diabo exigia de Jesus nesta segunda tentação, não era melhor a desconfiança que lhe propusera na primeira. Equivaleria a fazer experiência com o Pai. (Comentário de Mateus).

A terceira tentação torna evidente que o diabo é mesmo “uma cara de pau”. Por meio de uma visão (segundo comentaristas renomados), o diabo mostra a Jesus “todos os reinos do mundo” e oferece-o em troca de adoração:

“Novamente o Diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; e disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares” (Mt 4.8,9).

Numa barganha, as partes, obrigatoriamente, devem possuir algo para negociar e o diabo arrogou ser senhor de direito sobre todos os reinos do mundo. Contrariamente, a Bíblia diz que é Deus o dono deste mundo e é Ele quem o sustenta e o governa: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24.1). As três tentações foram feitas a fim de que Jesus fugisse da cruz, pois, caso ele cedesse a uma delas, o plano divino sucumbiria.

O diabo tentou barganhar com Jesus, e não devemos praticar esse princípio negativo. A moda ultimamente é pregar sobre sementes e esse tipo de pregação sempre acaba se desembocando numa barganha com Deus. Até mesmo os dízimos tem sido elemento de barganha ou moeda de troca (leia postagem sobre as sementes aqui). Lindolfo Alexandre de Souza[1] no seu texto sobre a teologia da prosperidade diz que,

A lógica da Teologia da Prosperidade, portanto, fundamenta-se nas promessas de sucesso material e financeiro para quem é fiel a Deus. Como consequência, o nível de sucesso depende do valor da contribuição financeira. Assim, seu discurso apresenta uma proposta de troca, de barganha entre o fiel e Deus. Mas como Deus não vem pessoalmente receber as doações, elas devem ser entregues àqueles que se colocam como representantes do divino.

No vídeo que postei no início deste artigo Paul Washer nos adverte, quando comenta sobre o erro da omissão. Ver um ato violento impetrado contra alguém e não denunciar é crime. Da mesma maneira, ver a igreja de Cristo sendo “violentada” por pregadores de heresias, tais como essa de barganhar com Deus, e não denunciar esse falso evangelho, é pecado.

Sobre a questão de fazer prova com Deus, a fim de receber as bênçãos prometidas em Malaquias 3.10, comentarei em outra oportunidade. Porém, se não interpretarmos corretamente esse versículo incorreremos no mesmo erro dos falsos mestres: barganhar com Deus.

Que Deus nos dê animo para combatermos essas e outras heresias!

Em Cristo,



[1] Lindolfo Alexandre de Souza é jornalista, professor da PUC-Campinas e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

3 comentários:

  1. Bela Mensagem!

    Conhecer seu blog alegrou muito o meu coração.
    Oro para que todos que acessarem seu espaço sejam alcançados pela Graça e pelo Amor de Deus, que é tremendo!
    Glorifico a Deus pela sua vida, família e ministério.

    Deixo o convite para visitar o meu espaço, ficaria honrada se seguisse o meu humilde cantinho, fique a vontade para expressar sua opinião...

    E o mesmo Deus da paz vos santifique em tudo, eo vosso espírito, alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
    I Tessalonicenses 5. 23

    http://frutodoespirito9.blogspot.com/

    Em Cristo sempre,

    ***Lucy***



    P.S. Conheci um blog que está com 12 estudos interessantes e atuais. Vale a pena conferir:

    http://discipulodecristo7.blogspot.com/

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  2. Carissimo amigo Gilson,

    Estou com varias viagens agendadas California, EUA; Brasil e na Europa - Holanda.
    Mas estamos acompanhando passo a passo as suas importantes publicacoes. Me mande sempre como o faz, pelo Facebook informacoes e atualizacoes.

    Abracos

    Pr Eliel A Soares
    www.prelielsoares.blogspot.com

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    Respostas
    1. Prezado Pr Eliel,

      Que seu ministério continue fecundo, em Cristo. Obrigado pelo contato. Estarei orando pelo senhor.

      Grande abraço,

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