terça-feira, 6 de agosto de 2013

É BÍBLICO O BATISMO INFANTIL?

Por Gilson Barbosa

Quando Deus chamou Abraão fez promessas que ultrapassariam as barreiras étnicas de Israel: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Genesis 12:3b). Essa promessa refere-se ao plano de Deus para a salvação do mundo. Ainda que Deus tenha escolhido Israel como nação para representa-lo entre as demais, Israel desobedeceu e tornou-se descrente no Senhor: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas; Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência”. (Romanos 9:6-8).

Os filhos da promessa somos nós, a Igreja invisível de Cristo. Esta, é o Israel espiritual de todos os tempos unidos com Ele: “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”. (Gálatas 3:29). O apóstolo Paulo ao avisar os filipenses sobre os falsos mestres que enfatizavam o rito exterior e físico da circuncisão afirmou: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne”. (Filipenses 3:3). Há uma continuidade linear do plano eterno de Deus, que inclui tanto a nação de Israel como os estrangeiros. Em Efésios 2:11-19 Paulo lembra que gentios e judeus são unidos por Deus mediante a cruz de Cristo. Não há dois povos, não há um plano divino para cada um, não há frustração em Deus por Israel não manter o compromisso da Aliança. O que há são apenas administrações diferenciadas. A Igreja cristã é o Israel do Antigo Testamento. No discurso de Estevão isso fica claro quando ele diz que Moisés esteve entre a congregação no deserto (Atos 7:38). A expressão congregação é eklesia; a mesma usada para falar da Igreja de Cristo. Isso não significa necessariamente que Deus tenha desistido de salvar seus eleitos entre a nação de Israel.

Entendido que judeus e gentios foram unidos por Deus como seu único povo, devemos também compreender que as crianças fazem parte da família de Deus (Marcos 10:13-16). Jesus disse que dos tais é o Reino de Deus. Isso não significa garantia de regeneração ou salvação, mas sim um revestimento de especial importância dentro do plano salvífico. O texto bíblico diz que o Senhor Jesus as abençoou. Deus não é apenas o Deus dos adultos, mas das crianças, ou em outras palavras, dos nossos filhos.
No princípio Deus estabeleceu uma aliança com Abraão (Genesis 17:9-11) e instituiu o rito da circuncisão como herança espiritual: “Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua” (Genesis 17:13). Apesar de ser um rito físico a circuncisão era uma espécie de sinal de salvação para Abraão; isto não anula nem precede a fé de Abraão nas promessas do Senhor: “E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada” (Romanos 4:11). A circuncisão tinha sentido de limpeza espiritual interna: “E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6). Ela era um sinal externo para denotar uma realidade essencial e interna. Circuncidar o menino significava introduzi-lo nas bênçãos da aliança. As meninas não possuíam um ritual de circuncisão, pois numa sociedade patriarcal como a de Israel, a mulher era representada pelo homem.
Nos tempos modernos qual é o sinal de que a pessoa faz parte da comunidade visível de Cristo? Qual é o símbolo que denota uma realidade espiritual interna? É o batismo. Os que são favoráveis ao batismo infantil enfatizam seu paralelo com a circuncisão. Embora não sejam idênticos possuem pontos cruciais em comum. Sproul afirma que ambos são sinais da aliança e sinais da fé. O batismo também possui o sentido de separação para uma vida santa, o que corresponde essencialmente ao mesmo sentido da circuncisão. Assim como a circuncisão o batismo não salva nem santifica por si mesmo, mas prepara a pessoa para receber esses resultados.  
Sabemos que na Igreja Cristã o batismo tomou o lugar da circuncisão. Nos casos onde pessoas receberam os dois elementos (circuncisão e depois o batismo) devem ser entendidos como aplicações em momentos e situações diferentes, e nisso não há contradição. No início em Israel o batismo com água era para prosélitos que quisessem professar o conjunto doutrinário dos judeus. Como é um símbolo externo de uma realidade interna também possui o sentido de limpeza; purificação (Atos 22:16; Tito 3:5). O batismo se torna um mandamento quando o Senhor Jesus ordena sua prática para os cristãos principiantes, em Mateus 28:19.
Se o batismo era para a Igreja, sabemos que as crianças também fazem parte da mesma e devem ser batizadas com base no mesmo entendimento da circuncisão: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (Atos 2:39). Alguns indagam que isso excluiria as mulheres no batismo, mas, Cristo trouxe outro sentido a algumas práticas e comportamentos, portanto as meninas e mulheres podem ser batizadas tendo como perspectiva esse argumento: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).
Com base no argumento de que as crianças devem ser introduzidas nas bênçãos espirituais da Nova Aliança encontramos evidencias do batismo infantil na Bíblia Sagrada (Leia com atenção Atos 16:13-15; 16:30-34; 18:7,8; I Coríntios 1:14-16). É verdade que biblicamente não há uma ordem positiva explicitamente, mas não podemos nem devemos ignorar a realidade das evidencias e a coerência e vigência da Teologia da Aliança para a igreja atual.  
Algumas objeções ao batismo infantil não se sustentam, tais como:

- a criança não pode exercer fé pessoal e não possui consciência para tal. A isso respondemos que “no caso de Abraão, ele abraçou a fé depois de adulto e fez uma profissão de fé antes de ser circuncidado. Ele tinha fé antes de receber o sinal da fé. Seu filho Isaque, no entanto, recebeu o sinal da fé antes que tivesse a fé que o sinal simbolizava (como foi o caso de todos os outros filhos da aliança)”. Verdades essenciais da fé cristã, p. 17

- O batismo infantil viola a liberdade de escolha pessoal. Em certo sentido muitos prefeririam ter sua liberdade violada a padecer no inferno, você não acha? Ordenar aos nossos filhos sobre o que devem comer, vestir, fazer, etc, é um direito dos pais, assim como aplica-los o batismo, que os introduzem numa esfera de comunhão com o Senhor. Porém, isso não o exime de confessar sua fé livremente quando adulto.   

- Não se pode ter certeza da regeneração da criança. Da mesma forma que não se pode ter certeza da regeneração de um adulto também. Não acredito que se batizem pessoas crendo infalivelmente que são externamente regenerados.

- Não há mandamento expresso. Concordamos com esse fato, mas respondemos que “mais precisamente, o argumento bíblico para o batismo das crianças dos crentes se apoia no paralelo entre a circuncisão, do Antigo Testamento, e o batismo, do Novo Testamento, como sinais e selos da graça (Genesis 17:11; Romanos 4:11; Colossenses 2:11,12), e na alegação de que o princípio da solidariedade familiar na comunidade da aliança (a Igreja, como é agora chamada) não foi afetado pela transição da ‘velha’ para a ‘nova’ forma da aliança com Deus, realizada pela vinda de Cristo. As crianças dos crentes gozam do status de filhos da aliança e, portanto, devem ser batizadas, do mesmo modo que os filhos meninos dos judeus eram anteriormente circuncidados” (Bíblia de Estudo de Genebra, p. 34).
A apresentação de crianças: prática inusitada

A maioria das igrejas evangélicas se contrapõem a prática do batismo infantil e fazem nos cultos a apresentação de crianças. Constatamos, porém, que essa prática não é nem bíblica, nem teológica e nem doutrinária. Trata-se, obviamente, de uma ordenança arbitrária, impositiva e tendo como base a tradição. Felizmente temos pessoas sensatas dentro destes grupos evangélicos que não só sabem disso, mas alertam para o “perigo” dessa prática. Leia abaixo um trecho interessante do pastor assembleiano Vitor Gadelha sobre esse assunto:
Não raro os pastores que ministram a apresentação do bebê dizem que realizam o ato seguindo o modelo do Senhor Jesus, que também foi apresentado no templo (sendo muito comum a leitura da passagem correlata de Lucas 2.22).
É justamente esta transposição que é inadequada - a apresentação do Senhor Jesus no templo é um ato totalmente distinto da apresentação de bebês praticada pela igreja brasileira contemporânea.
Jesus foi apresentado no templo, ao oitavo dia, em cumprimento à exigência da lei mosaica de consagração (ou resgate) dos primogênitos (Êxodo 13.1, 11-14; Levítico 12.1-8). Sendo assim, a apresentação do Senhor Jesus:
1.       Era uma disposição cerimonial da lei judaica (veja Gálatas 4.4);
2.       Era um ato estendido a todos os primogênitos judeus (ou seja, Lucas 2.22-24 não cria um novo paradigma);
3.       Era um ato que envolvia a circuncisão (Levítico 12.3);
4.       Era um ato que exigia a purificação cerimonial da mãe (Levítico 12.1,4);
5.       Exigia a apresentação de dois animais como sacrifício (um como holocausto pelo pecado e outro como oferta para o pecado), que poderiam ser um cordeiro e uma pomba ou rolinha ou, no caso das famílias pobres, duas pombas ou rolinhas (como foi o caso da família de Jesus – veja Levítico 12.6-8 e Lucas 2.24).
Se continuarmos insistindo que a apresentação contemporânea de crianças segue os mesmos moldes da apresentação de Jesus no templo, então:
1.       Estaríamos afirmando a vigência da Lei cerimonial mosaica, com seus ditames sobre pureza cerimonial e sobre a circuncisão (Gálatas 3.23-25);
2.       Meninas não poderiam ser apresentadas no templo, e nem os filhos não-primogênitos;
3.       Algum tipo de oferta/sacrifício teria de ser exigido dos pais – algo inadmissível diante da Nova Aliança e do sacrifício perfeito de Cristo (Hebreus 9.11-15).
Ainda que pudesse ser “provado” que o batismo infantil não é bíblico, a apresentação de crianças é menos ainda; podemos dizer até mesmo que ela é antibíblica.
A responsabilidade dos pais no lar
O batismo infantil não salva as crianças nem lhes garante a salvação. Essa mesma verdade se aplica aos adultos. Outra verdade é a questão da confissão pública. Se uma criança não tem consciência para confessar sua fé e ser batizada, um adulto também enfrenta os mesmos obstáculos e o mesmo pode ser dito dele. Muitos adultos que fazem profissão de fé não têm convicção nem consciência do que está professando. Quem aplica eficazmente o batismo nos crentes é somente Deus.
Assim como a responsabilidade de Abraão não terminou com a circuncisão (Genesis 18:17-19) a dos pais de crianças batizadas também não se encerra após a cerimonia de batismo. Da mesma forma que a circuncisão, o batismo é um sinal da aliança em que os pais se comprometem a criar os filhos no amor e temor ao Senhor.
Que o Senhor nos dê graça para aceitarmos as diferenças!

8 comentários:

  1. Se entendeste bem Efésios cap 2 não podes afirmar que a igreja cristã é o Israel do velho testamento é sim composta de Judeus e Gentios mais o Israel de antiga aliança continua sendo o povo chamado Israel ao qual Deus os reuniu na sua pátria novamente e que ta endurecido até que os gentios entre na aliança que é deles também.
    A criança pode sim ser batizada a partir do entendimento real do batismo que simboliza a passagem dos gentios pelo mar vermelho como Israel passou. Na morte simboliza que como os egipicios que eram gentios nós também morremos para o mundo e nascemos para Deus a nova criatura.
    Já a circuncisão feita por yeshua (Jesus) é no coração (espiritual) e por isso também somos circuncidados como eles.
    A apresentação de crianças é legitima pois como dito na linha a cima a circuncisão já foi feita assim como o sacrifício também ambos por yeshua na cruz. Quanto a Lei cristo não veio destruir mais sim cumprir e ela como o judaísmo com suas festa está em vigor ou Paulo diz em I corintios cap 5 v 8 não celebremos (façamos) a festa.

    ResponderExcluir
  2. Olá caro Eraldo Santos!
    Obrigado por acessar este blog.
    Que a igreja de Cristo é composta de gentios e judeus não há nem sombra de dúvida. Mas, como afirmou Paulo, de AMBOS os povos Deus FEZ UM. Não há no texto de Efésios 2 evidencias de dois povos distintos, ou dois planos para dois povos separados.
    O apóstolo Paulo afirmou em Gálatas 6:16 que a igreja cristã é o Israel de Deus. Contudo, com essa afirmação não excluo aqueles judeus que serão salvos pela graça de Deus.
    Minha linha de entendimento teológico é de que quando Cristo ascendeu aos céus não há mais a obrigação de guardar dias, festas, etc. Ou seja, temos obrigação com a lei moral de Deus, sim. Mas, as leis civis, cerimoniais e religiosa, tornou-se para nós apenas simbolismos. Tomo como exemplo a Ceia do Senhor ou a Páscoa.
    O batismo e não a apresentação é a ingressão no Pacto da Nova Aliança. Se o irmão leu com atenção a postagem entenderá que ambos contem valores muito diferentes. Não devem ser comparados.

    No amor de Cristo,

    ResponderExcluir
  3. Caro Gilson Barbosa
    GÁLATAS 6
    15 Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura.
    16 E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus.
    Não vejo nesses texto alguma semelhança de que a igreja gentia seja o Israel de Deus, mais sim de que todos que andarem conforme a regra de cristo subentendido gentios (todos os povos da terra) e o Israel de Deus seu povo antes que a oportunidade fosse dada aos gentios.
    Quanto ao não observar as festas I CORÍNTIOS 5
    7 Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós.
    8 Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.
    Se entendes de judaísmo esses são os ingrediente das festas de Páscoa, pães ázimos e primícias,que são celebradas nos mesmos dias.
    Volto a perguntar ele diz façamos a festa ou não façamos?
    Quanto ao batismo não ha o que dizer contrário equivoco meu no comentário anterior.
    Graça e paz da parte de yeshua.

    ResponderExcluir
  4. Caro Eraldo,
    Apresento alguns nomes de estudiosos que interpretam o "Israel de Deus" (em Gálatas 6:16) como sendo a composição de judeus e gentios: John Sttot, Donald Guthrie, Warren Wiersbe, Augustus Lopes, Hernandes Lopes, etc.

    Com referencia a observação de Festas em I Coríntios 5:8 seu entendimento não está certo. O apóstolo usa a imagem da Páscoa judaica no sentido de que a igreja deve remover o pecado em seu meio. Cristo é o cordeiro Pascal. Devemos viver nossa vida cristã fazendo uma limpeza diária em nossa vida, ou seja, sem fermento ou levedura. Trata-se de ilustração apenas.

    Com respeito, Gilson Barbosa.

    ResponderExcluir
  5. II PEDRO 3
    15 E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada;
    16 Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição.
    Paulo em momento nenhum deixou de ser Judeu e disse que a igreja cristã substituiu Israel como povo de Deus, sim que o endurecimento deles da parte de Deus nos da oportunidade como gentio de participar das alianças feitas com eles. Defendeu que não deveríamos nos circuncidar para termos acesso a aliança renovada com eles. Pois, somos circuncidados em cristo. A identidade dada em Efésios aos gentios é para mostrar que não somos mais estrangeiros nem peregrinos em Israel somos aproximados e podemos sim participar das festa de pascoa, restrição encontrada em Exodo cap. 12 - 43 Disse mais o SENHOR a Moisés e a Arão: Esta é a ordenança da páscoa: nenhum filho do estrangeiro comerá dela.
    44 Porém todo o servo comprado por dinheiro, depois que o houveres circuncidado, então comerá dela.
    Se quiseres aprender mais aprenda com quem vive o evangelho desde o que vocês chamam de velho testamento.
    https://www.youtube.com/watch?v=-gzTXHR4P1o
    Com todo respeito, Eraldo.

    ResponderExcluir
  6. Irmão Eraldo, Shalom!

    Vamos deixar esse debate pra lá, ok? Nós não vamos chegar em lugar algum. Você tem sua cosmovisão do evangelho eu tenho outra. Respeito o seu ponto de vista. Que o Deus Eterno continue dirigindo seu caminho.

    No amor de Cristo, o Filho de Deus.

    ResponderExcluir
  7. Amém
    Importa é que quer vivamos ou moramos que seja para o Messias Yeshua.
    Só desejo que o evangelho volte a sua raiz.
    E desde já agradecer o irmão pela democracia demostrada no blog colocando todo o conteúdo sem edição das postagens.
    Shalom e que o Eterno te abençoe.

    ResponderExcluir
  8. Irmão Eraldo, Graça e Paz!

    Agradeço pela compreensão e respeito. Concordo com o irmão: devemos viver nossa vida para Cristo. Agradeço também pela menção honrosa quanto ao conteúdo das postagens ou dos comentários. Saiba que acima de tudo podemos ser irmãos e amarmos um ao outro. Amém?

    No amor de Cristo,

    ResponderExcluir