quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SINAIS E MARAVILHAS NA IGREJA

Por Gilson Barbosa
O cristianismo é uma religião de milagres. Por esse fato, alguns céticos afirmam que crer no sobrenatural significa se igualar as culturas mais primitivas e bárbaras da humanidade. Essa afirmação é uma característica especialmente do período histórico denominado “Iluminismo”, onde a razão humana passou a ser a única ferramenta indispensável para explicar os fenômenos sobrenaturais (Racionalismo). Entendido dessa maneira, a fé é um fator indesejado que anula o raciocínio. Porém, os cristãos não precisam abrir mão do raciocínio para crer nos acontecimentos inexplicáveis à luz da razão, mesmo não encontrando uma resposta que satisfaça à exigência humana.
Existem vários tipos de milagres, e, alguns deles consideramos mais extraordinários - concepção virginal de Cristo, sua ressurreição, transfiguração, a conversão do pecador – e outros menos – os milagres com efeitos sobre a natureza, sobre o ser humano, sobre a morte física, etc. Devido às muitas testemunhas e relatos desses milagres bíblicos, os incrédulos optam por desconsiderar o caráter das pessoas que os presenciaram ou tratar a Bíblia como um livro qualquer e nenhuma autoridade. Quando consideramos o assunto dos milagres no âmbito bíblico, os grupos cristãos concordam, mas quando analisamos se é possível acontecer esses milagres na igreja contemporânea começam as divergências. De um lado estão os pentecostais, que acreditam na continuidade do poder de Deus, na operação e realização dos milagres. Do outro, estão os protestantes tradicionais, que explicam os milagres terem servido a propósitos definido no início da igreja primitiva, e, como esses propósitos já aconteceram no passado, não há mais a necessidade do seu acontecimento no presente.   
DIVERGENCIAS SOBRE OS MILAGRES
Dr. Alan Pieratt informa, que “as primeiras divergências sobre milagres dentro da igreja são encontradas na época turbulenta da Reforma. Naquele tempo, os católicos apelavam para o poder de operar milagres como prova da veracidade de seu ensino”.[1] Eles desafiaram os protestantes a provarem a veracidade de seu cristianismo tendo como base os milagres que reivindicavam acontecer em seu meio, mas, porque seus milagres foram realizados em associação com sacrários católicos, relíquias católicas e santos católicos, foram refutados por grandes teólogos da época, como João Calvino e Lutero. Para Calvino era impossível verdadeiros milagres terem acontecido na igreja católica, pois isso reconheceria como autêntico a doutrina católica. Lutero, explicou que os milagres aconteciam apenas no sentido espiritual, ou seja, os milagres verdadeiros são os da conversão, santidade, regeneração – denominado como os milagres que ocorrem “na alma”.
Quanto à alegação dos milagres para autenticar suas doutrinas, o protestantismo tradicional reagiu contra a igreja católica romana e posteriormente, contra os pentecostais. Por outro lado, para combater a incredulidade dos céticos e teólogos liberais – que negavam todos os tipos de milagres – reagiram afirmando positivamente os milagres bíblicos.  
Observe que os protestantes tradicionais não negavam os milagres bíblicos, mas, seu acontecimento na igreja da época – da mesma maneira que fazem até hoje. Os argumentos contrários a reivindicação católica dos milagres são basicamente os mesmos usados também contra o pentecostalismo e foram: 1) os protestantes ensinavam exatamente o que a Bíblia ensinava – os católicos não; 2) nem todos os fatos milagrosos têm sua origem em Deus, principalmente quando acontece num ambiente eivado de falsos ensinos; 3) os milagres deveriam ser apenas os que aconteciam na alma – conversão, regeneração, etc; 4) os pais da igreja (século II) não alegaram realizar algum milagre; 5) os milagres encerraram com a morte dos apóstolos, pois serviam para validar o apostolado; 6) os milagres foram gradualmente desaparecendo da igreja bíblica e primitiva; 7) serviam para autenticar a revelação do evangelho – como nos dias atuais o evangelho se encontra revelado, buscar experiências milagrosas seria um ato sem objetividade; 8) comparados com os milagres da Bíblia, os atuais são inferiores em termos de valor ou qualidade; 9) a prioridade eclesial, na atualidade, é a pregação do evangelho, o ensino, o caráter moral do cristão, o conhecimento doutrinário e não a busca de milagres, de sinais, de ambientar o culto com emoções humanas, de favorecer a ocorrência do misticismo na igreja.
ETIMOLOGIA
O Novo Testamento emprega quatro palavras para descrever as obras milagrosas de Jesus e dos apóstolos: teras, semeion, ergon e dynamis. A primeira, teras, significa “maravilhas”, faz alusão ao caráter extraordinário do milagre (Jo 4.48; At 14.3), tem haver com a grandeza do milagre e com a produção de expectativas nas pessoas. A segunda, semeion, significa “sinal” e indica a conexão imediata com o mundo espiritual. Trata-se de algo que convence as pessoas de que o milagre ocorrido autentica a verdade religiosa. A terceira, ergon, “trabalho”, refere-se aos feitos miraculosos realizados (Mt 11.2; Jo 7.3). A quarta, dynamis, significa “poder”, “prodígio”, e descreve o exercício do poder divino e demonstra que forças espirituais se introduziram e estão em operação neste mundo (Mt 11.20; Mc 6.5).[2]
DEFINIÇÃO
O apologista Paulo Sérgio Batista define os milagres como uma “intervenção sobrenatural no mundo físico que produz resultados inexplicáveis à luz da ciência moderna. O milagre não nega as leis naturais pré-estabelecidas pelo Senhor Deus, apenas interfere no curso natural dos eventos”. [3]
CRISTIANISMO NÃO É JUDAÍSMO
Percebemos na narrativa bíblica de Atos 3.1-11, alguns pontos que evidenciam uma indiferença entre os adeptos do novo movimento cristão e a antiga religião judaica. Os primeiros cristãos eram judeus e se portavam cultural e religiosamente como tal. Não abandonaram a ida ao Templo, a prescrição alimentar, os horários judaicos de oração, a obediência incondicional apegada á Lei, e, até serem percebidos como um novo grupo religioso – ou como uma seita, como foi denominada posteriormente – tinha livre acesso às dependências sociais e religiosas dos judeus. Contudo, alguns acontecimentos sobrenaturais, como o milagre da cura do coxo, atraíram a atenção das autoridades religiosas e estes imaginaram um método para barrar o avanço da nova fé. Neste relato bíblico temos o primeiro milagre após a ascensão de Cristo, e o ocorrido chancelava as palavras prometidas por Cristo, seu caráter, sua pessoa, seu poder Divino, bem como autenticava o novo movimento religioso (o cristianismo) e a autoridade apostólica. Lucas registra (At 4.16) a respeito da postura e da possibilidade do Sinédrio aceitar esse milagre - pois não tinham como negar que aconteceu – sem admiti-lo.
DESAFIO AO MOVIMENTO PENTECOSTAL
Os milagres foram acontecendo naturalmente na igreja primitiva, mas, não devemos imaginar que os primeiros cristãos mantinham sua fé no elemento miraculoso, pelo contrário, consideravam a pregação apostólica uma prioridade. Talvez seja esse um dos grandes equívocos da eclesiologia pentecostal da atualidade: pensar que a verdadeira conversão dos pecadores acontece por causa dos milagres, pelo culto “carregado” de emoção humana, pela ocorrência dos dons espirituais, pela exorcização de demônios, desprezando o valor do conteúdo bíblico e tempo de pregação adequado nos cultos. Há outros, em atitude oposta, que supostamente defendendo os postulados pentecostais, não dão liberdade as manifestações dos dons espirituais, não oram por enfermos, não oram para que os crentes recebam o batismo com Espírito Santo - com a evidência do falar em línguas estranhas - ficam aparentemente desajeitados quando os crentes manifestam fisicamente o fervor pentecostal e tornam a liturgia do culto tão técnica que nos sentimos em uma igreja tradicional.    
         
              



[1] Pieratt, Allan. Sinais e Maravilhas. 1994, p.26
[2] Lição Bíblica. 1º trimestre de 2008, p.71 (lição de Mestre)
[3] Batista, Paulo Sérgio. Manual de Respostas Bíblicas. 2006, p.257

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