segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A IMPORTÂNCIA DA DISCIPLINA NA IGREJA

Por Gilson Barbosa

Generosidade sem sinceridade é hipocrisia. O casal, Ananias e Safira, ao observarem o exemplo de Barnabé (4.36,37) e os demais irmãos, sentiram-se pessoalmente constrangidos a doarem o bem que possuíam. As autoridades religiosas de Jerusalém, contudo, não impunham essa obrigação à comunidade cristã e a doação deveria partir de um coração bem intencionado.
Isso remete à lembrança e realidade de cristãos preocupados em apresentar à igreja onde congrega uma aparência de santidade, a preocupação com a avaliação dos demais irmãos a respeito de suas atitudes, uma ânsia pessoal por status, quando na verdade, sua vida cristã é apenas uma “fachada”, pois atrás disso, suas palavras, seus atos, suas intenções, estão todas eivadas de hipocrisia.
A disciplina divina e suas implicações
A disciplina divina foi deveras dramática ao ponto de Lucas registrar que “Grande temor apoderou-se de todos os que ouviram o que tinha acontecido” (5.5) e que “grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram falar desses acontecimentos” (5.11). Apesar de trágico, isso serviu para que a sociedade tivesse um alto conceito moral da igreja primitiva. Infelizmente, penso eu, que o conceito da igreja evangélica nacional na atualidade, perante a sociedade sem Deus, tem sido de descrédito, mas no início não era assim.
1. A expressão disciplina é usada neste texto (5.1-11) no sentido de “correção”, diferente da disciplina eclesiástica, que significa “o ato de excluir da membresia e da comunhão na ceia do Senhor alguém que confessa ser um cristão e está envolvido em pecado grave e pertinaz – pecado que ele recusa abandonar”. [1]
O óbito do casal aos nossos olhos parece ser uma medida divina desnecessária e aplicada com muita dureza, contudo, demonstra que ninguém mente ao Espírito Santo e consegue ficar imune e impune. A verdade deve ser dita sempre, pois desta maneira a pessoa se sente segura, ou seja, o mentiroso pode ser vítima de sua própria mentira e cair em contradição. “O mentiroso acredita que poderá esconder a verdade indefinidamente. Querendo ser bem visto pela comunidade cristã, Ananias mentiu juntamente com Safira, sua mulher, tentando enganar o apóstolo Pedro. Como medida exemplar para todos, Deus puniu-os severamente. Infelizmente, muitas pessoas são presas da mentira e são dominadas por ela”.[2]
O julgamento divino no Antigo Testamento
Com Deus não se brinca e Dele ninguém zomba (Gl 6.7). Não pense que os comportamentos moralmente indevidos por parte de crentes ficarão sem sua condenação. Muitos, hoje em dia, estão como o casal que intencionava “tentar o Espírito do Senhor” (v.9) excedendo os limites da paciência divina quando permaneceram em sua ação pecaminosa. “A ação do casal culpado é representada como sendo um mútuo acordo para tentar o Espírito, isto é, testar a Deus (assim como fizeram os israelitas no deserto, Ex 17.2; Dt 6.16) para ver quanta coisa conseguem fazer impunemente”. [3]
O julgamento divino, aplicado ao casal, tem similaridade com alguns personagens no Antigo Testamento e bastaria conhecer esses exemplos para não ter o mesmo fim. “A palavra reteve [v.2]é a mesma expressão que aparece na tradução grega do AT (Septuaginta) quando narra o pecado de Acã (Js 7.1-25). A mesma avareza, associada à hipocrisia (desejo de manter uma falsa imagem de santidade), gerou mentira, afastamento de Deus e destruição. Veja os exemplos de Nadabe e Abiú (Lv 10.2) e Uzá (II Sm 6.7). Ananias e Safira foram os primeiros exemplos de ‘falta de sinceridade no serviço cristão’ ocorridos nos primórdios da Igreja de Jesus Cristo. [4]
O discernimento espiritual do apóstolo Pedro
É imprescindível dispor dos dons espirituais que Deus graciosamente nos deu, por intermédio do Espírito Santo, pois como o apóstolo sabia que o casal estava mal intencionado? “Pedro, agindo como representante e porta-voz dos 12 apóstolos, soube imediatamente o que fora feito. Ele não tinha espiões para informá-lo; mas tinha o Espírito Santo. Talvez isto lhe fosse revelado por meio de um dos dons de revelação tal como a apalavra de sabedoria ou a palavra de conhecimento”.[5]
Morte física
O que teria provocado a morte física do casal? “A morte devia ser considerada, sem duvida alguma, um julgamento divino sobre seu pecado, embora nenhuma sentença de morte se contenha nas palavras de Pedro. Do ponto de vista médico, tratava-se provavelmente de síncope cardíaca devida ao choque” [6], isso é, ao ser impactado pela santidade do Espírito, pela palavra de autoridade, e revelação divina ao apóstolo, tanto Ananias quanto Safira, não tiveram condições de suportar a pressão moral do momento.
A causa impessoal da morte
É de extrema relevância reiterar que os crentes primitivos não eram coagidos a doar os seus imóveis ou terras, e que, quando o faziam, estavam agindo de forma voluntária, espontânea. Foi assim que Barnabé, levita, “possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos” (At 4.37). Entretanto, os cônjuges, Ananias e Safira, que tinham liberdade para doar ou permanecer com a propriedade que possuíam, resolveram, comunalmente, apresentar-se aos apóstolos, no caso, Pedro, entregando sua oferta como se fosse o valor total da venda efetuada, quando, na verdade, retiveram parte do preço. Esta foi a causa da morte do casal: a mentira, pois tudo o que disseram não passava de uma “armação”. Mas Deus conhece o coração do homem: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hb 4.13). Ao repreender Ananias, Pedro lhe revelou sua atitude, dizendo-lhe que não era a Ele (ao apóstolo) que estava mentindo:  “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? [...] Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5.3,4). Como lemos, o efeito desta mentira custou a vida de ambos (At 5.5,10).
Ananias e Safira foram salvos?
Existem os que mentem, e existem os que amam e praticam a mentira (Ap 22.15), ambos são reprováveis diante de Deus, e, vamos dizer que Ananias e Safira se enquadram na primeira categoria.  Todavia, isso não é pouco, pois a Bíblia nos informa que o Diabo “é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44) e que também no céu não há espaço para a mentira (Ap 21.27 A.A). Pelo julgamento divino e pelas circunstâncias dos fatos, depreendemos a possibilidade do casal terem se perdido eternamente, porém não podemos negar que eram servos de Deus, viviam em comunhão com os cristãos da igreja primitiva e desfrutavam do poder do Espírito Santo. O maior equívoco deles foi à tentativa de apresentar algo publicamente além do que deviam, e aparentemente não teriam por que agirem dessa maneira.   
Com certeza opinar decisivamente entre uma e outra resposta é extremamente complicado. O comentarista bíblico David J. Williams arrisca dizer o seguinte sobre a polêmica questão: “Teriam esses crentes sido disciplinados sem sofrer a perdição eterna? Paulo descreve em 1 Coríntios 3:12-15 os crentes cujas obras não conseguirão passar incólumes pelo tribunal celeste, embora sejam eles salvos “todavia como pelo fogo”. Talvez essa declaração fosse comprovada de modo bastante apropriado por aqueles dois casos, e pelo de Ananias e Safira em particular”.[7] E você leitor, arrisca um palpite?





[1] DEVER, Mark. O que é uma igreja saudável? Ed: Fiel, 2009, p.91
[2] BÍBLIA DE ESTUDO ESPERANÇA, Ed: Vida Nova, 2000.
[3] MARSHAL, I.Howard. Atos, introdução e comentário. Ed: Vida Nova, 2001, p.111.
[4] KING JAMES.
[5] HORTON, Stanley. O Livro de Atos. Ed: Vida, p. 64.
[6] MARSHAL, I.Howard. Atos, introdução e comentário. Ed: Vida Nova, 2001, p.111.
[7] WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Ed: Vida, pg. 114.

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