sábado, 13 de junho de 2015

A SÍNDROME DE PERSEGUIÇÃO NAS SEITAS


Numa conversa com dois jovens missionários mórmons analisei que para autenticar sua Igreja como detentora do verdadeiro cristianismo, mencionam sempre dois elementos principais: a perseguição e restauração do cristianismo. Disseram que nenhum movimento religioso foi, e é tão perseguido quanto o seu e que todas as denominações se apostataram da fé cristã, portanto, se julgam os que irão promover a restauração do cristianismo verdadeiro. Para eles estes dois elementos validam a fé mórmon.

Mas na verdade os elementos mencionados não servem como instrumento aferidor da verdade cristã no mormonismo. Primeiro, porque na história da igreja cristã sempre houve e haverá perseguição; segundo que outros grupos sectários, tais como Adventistas do Sétimo Dia e Testemunhas de Jeová, também reivindicam os mesmos elementos como validação. Simplesmente esse teste não é obrigatoriamente necessário e quase sempre é usado com intenção espúria. Muitos grupos religiosos contrários ao cristianismo de alguma forma usam o elemento da perseguição também. Na verdade algumas pessoas, por si só, possuem a “mania de perseguição”. Mas geralmente as mesmas possuem dilemas psicossociais. Nestes casos, quase sempre “os perseguidos” são as vítimas e não os causadores de algum transtorno social.

Os adventistas afirmaram no passado que o papado e os Estados Unidos (representantes da Besta - Apocalipse 13) se uniriam para impor às nações a estrita observância do domingo. Declararam o seguinte: “Sendo a primeira besta o Papado e a segunda, os Estados Unidos, este verso quer dizer que os Estados Unidos vão obrigar o povo a adorar o Papado. Unicamente obrigando o povo a guardar o domingo podem os Estados Unidos fazê-lo adorar o Papado, pois o domingo existe como dia santo por autoridade deste” (O Sinal da Besta e as Sete Pragas do Apocalipse. Denilson Fonseca de Carvalho, CPB). Estavam dizendo que no futuro distante os adventistas seriam perseguidos por guardarem o sábado.

Os mórmons se dizem perseguidos desde o início da fundação de sua Igreja. O que não dizem, abertamente, é que um dos motivos da “perseguição” foi a prática da poligamia. Segundo afirmação de um artigo sobre o assunto “Joseph Smith disse que essa seria a doutrina que testaria a fé dos Mórmons acima de qualquer outra doutrina” (Leia aqui).

Sabemos que entre o povo de Deus esta prática de fato existiu no passado, mas apenas retrata a decisão humana arbitrária e é fato que sempre trouxe transtornos às famílias. Contudo, no período da igreja cristã primitiva ela não existia, pois fora abolida centenas de anos antes. Deus não prescreveu tal prática como mandamento e a tolerou como ações de homens pecadores. Como uma igreja pode reclamar ser verdadeira tendo como base uma perseguição motivada por uma “doutrina” repudiada pelas escrituras sagradas?

Mas, a perseguição como instrumento autenticador da fé verdadeira não é uma característica apenas das seitas. Grupos evangélicos também possuem a mesma ideia – mormente seus líderes. Concordo que a verdadeira fé pode atrair perseguição, mas a perseguição não necessariamente serve para validar todo e qualquer tipo de fé.

Quem não se lembra o episódio ocorrido em 9 de janeiro de 2007 onde o “apóstolo” Estevam Hernandez e sua esposa (Sônia Hernandez) foram detidos em um aeroporto de Miami por “estarem carregando U$ 56 mil escondidos em meio a bíblias e terem declarado a alfândega que não carregavam mais de U$10 mil”? (Leia aqui). Foram declarados culpados pela justiça americana e sentenciados a uma pena de 140 dias de reclusão em regime fechado “em fases intercaladas pelo motivo de um dos dois ter que cuidar dos filhos durante a ausência do outro”.

Qual foi a justificativa aos fiéis da denominação? Perseguição religiosa – neste caso da Rede Globo. Outro apóstolo - Valdomiro Santiago - afirmou que estava sendo perseguido pela Receita Federal. Silas Malafaia ‘”de vez em sempre” acusa governos e partidos políticos de perseguição religiosa. Os evangélicos, de maneira geral, espalham teorias conspiratórias excêntricas. O pastor Ricardo Gondim escreveu um artigo muito interessante sobre este assunto (Leia aqui).

Não estou negando que houve ou que não haverá perseguição contra os servos de Cristo. O apóstolo Paulo informou que “De fato, todas as pessoas que almejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidas” (II Timóteo 3:12). Jesus disse aos seus discípulos: “Recordai-vos das palavras que Eu vos disse: ‘nenhum escravo é maior do que o seu senhor’. Se me perseguiram, também vos perseguirão. Se obedeceram à minha Palavra, igualmente obedecerão à vossa orientação” (João 15:20). No Sermão do Monte Jesus ensinou que é bem-aventurado “os que sofrem perseguição por causa da justiça” (Mateus 5:10-12). Disse também que seríamos odiados de todos por causa do seu nome (Mateus 10:22-25). A história cristã primitiva testemunha a perseguição dos judeus, gentios, governantes, religiosos, etc, a igreja nascente. Mas, não devemos comparar com os motivos elencados pelos líderes de seitas e igrejas evangélicas da atualidade. O sentido não é o mesmo.   

Não adianta invocar certos elementos de autenticação quando os fundamentos do cristianismo primitivo estão ou são falsificados. O que valida o cristianismo verdadeiro é a conformidade de sua pregação com os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos, conforme Efésios 2:20: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra angular desse alicerce”.

No amor de Cristo,
  




Um comentário:

  1. Devido ao isolamento e a obsessão por se diferenciarem, as seitas costumam ir desenvolvendo excentricidades ao longo do tempo, até chegarem a exageros e fanatismos. Convido a conhecerem meu canal no Youtube, “O que é uma Seita”, onde estou desenvolvendo vídeos didáticos que procuram explicar este assunto. Abraços! https://www.youtube.com/channel/UCisnj-7zBRYe5E-Ze_Oj96Q

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