terça-feira, 29 de janeiro de 2013

TOLERÂNCIA ZERO


Por Valmir Nascimento

Estamos cismados. Cismados com uma palavra. Uma simples e pequena palavra. Segundo a classe dos intelectuais, essa palavra é o motivo das guerras entre os povos, a razão dos embates religiosos, a fonte dos preconceitos raciais e sociais, e, por fim, o caos da humanidade.
Que palavra é essa?
Intolerância!
Estamos cismados porque os evangélicos, freqüentemente, são ligados a essa palavra. Tacham-nos de intolerantes, preconceituosos, indiferentes, fundamentalistas, exclusivistas, etc.
André Petry, colunista da revista Veja, é um desses intelectuais que constantemente relacionam a palavra intolerância à fé evangélica. Em uma das edições do periódico,[1] por exemplo, por meio de um artigo intitulado “É só preconceito”, assim argumentou: “O ruim da onda evangélica que cresce no Brasil é que, por trás dela, vem uma tonelada de preconceito religioso”. Mais adiante, ele aduz: “Trata-se da mais abjeta intolerância religiosa — um câncer social que todos, ateus inclusive, devem combater”.
Petry é um dos grandes defensores brasileiros da assim chamada “tolerância religiosa”. Sua coluna na revista Veja, aliás, é palco de constante investida contra a fé evangélica. Quando não é desfazendo-a, por causa do fundamentalismo bíblico contra o aborto e a eutanásia, é atacando-a pelo que ele denomina de “preconceito dos evangélicos contra as demais religiões”.
Petry não é tolo, e devemos admitir. Não possui o sentimentalismo de Lya Luft, nem escreve crônicas “ninguém-tá-entendendo-nada”, no melhor estilo Millor Fernandes. Por outro lado, ainda não atingiu a inteligência de Stephen Kanitz, nem o criticismo desenfreado “ame-me ou odeie-me”, de Diogo Mainardi.
Devemos convir, portanto, que Petry, muitas vezes, acerta, principalmente quando faz comparações na forma como a justiça brasileira diferencia as pessoas pelo seu nível econômico, apresentando casos absurdos de injustiça social. Seu estilo raivoso de escrever, porém, não poucas vezes, acaba atacando ferozmente a fé evangélica. Ele coloca no mesmo saco todos os tipos de evangélicos e, depois, soca-os até não sobrar nenhum gemido.
Mas o articulista da Veja não está sozinho. Recentemente, o jornal Folha de São Paulo deu a seguinte notícia: “Ministério Público Federal da Bahia quer proibir a venda em todo o Brasil de um livro escrito por um pastor evangélico. Os procuradores federais, por meio de uma ação civil pública, alegam que a obra é ‘degradante, injuriosa, preconceituosa e discriminatória em relação a determinadas religiões’”.[2]
Nota-se, portanto, a existência de uma crescente onda de antiintolerância religiosa e o núcleo desses ataques são os evangélicos: os réus do momento, os culpados da última hora, os responsáveis pelas mazelas sociais.

O deus da atualidade
Mas não era para ser diferente. Afinal, como disse Erwin Lutzer , o novo deus da atualidade se chama “tolerância”.
 Esse novo deus é o nosso único absoluto, a única bandeira considerada merecedora de nossa honra. Esse tipo de tolerância é usada como desculpa para o ceticismo perpétuo, para manter a distância qualquer compromisso com a religião (Deus). Também é uma entrada para ficar vulnerável quanto à aceitação das mais bizarras idéias. A pressão para aceitar essa “tolerância acrítica” está crescendo ano após ano.
O motivo do ataque aos cristãos evangélicos, portanto, é muito claro. Eis que, baseados na Bíblia Sagrada, temos posicionamentos claros acerca das principais questões que envolvem a vida do ser humano: Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? E é exatamente aí que reside o problema. Pois, segundo a tropa de choque “antiintolerância”, somos fundamentalistas demais sobre nossas convicções quanto à origem, à natureza e ao destino do ser humano. Não aceitamos outros posicionamentos. Cremos que somente a nossa idéia está correta. Não toleramos os ensinos contrários.
Eis o ponto no qual gostaríamos de chegar: o significado da palavra tolerância. Será que somente os cristãos são intolerantes? É possível que alguém seja completamente tolerante?
Recorrendo ao dicionário, descobre-se que tolerância significa “suportar com paciência; agüentar; permitir; conformar; consentir; transigir ou deixar que aconteça”. Intolerante, destarte, é “todo aquele que não se conforma; não consente ou não transigi com os posicionamentos contrários”.
Feitas essas considerações, é perfeitamente possível perceber que não existem pessoas completamente tolerantes no sentido estrito da palavra. Afinal, quando aqueles que se dizem tolerantes se manifestam contrários e não permitem ou não consentem com as declarações dos chamados “intolerantes”, estão sendo, na verdade, os intolerantes da história.
Para ser mais claro, voltemos ao caso de André Petry. Quando esse colunista se posiciona contrário aos evangélicos, não suportando com paciência as doutrinas bíblicas apregoadas e não consentindo com sua forma de pensar, está fazendo o papel de intolerante, intransigente e inconformado. Ora, tolerar não é deixar que aconteça? Então, qual é o motivo pelo qual ele não deixa os religiosos com as suas convicções e ele com a dele?
A resposta é simples: nesse mundo não existem completos tolerantes. No final das contas, ou no frigir dos ovos, como queiram, todos somos intolerantes ante o mundo em que vivemos. Seja para defender uma religião, uma cosmovisão, um partido político ou até mesmo um time de futebol. Os debates, as opiniões contrárias e os posicionamentos divergentes fazem parte da nossa vida.
As pessoas que se dizem tolerantes e, ao mesmo tempo, sãos contrárias à forma de pensar de determinada religião, são, também, intolerantes. Intolerantes que se escondem por trás da capa da liberdade de expressão. Intolerantes intelectuais que argumentam que suas posições racionais antiexclusivistas é a coisa mais sensata e inteligente que já existiu. Intolerantes que se dizem neutros, mas que, na realidade, pendem para determinado lado. Ou, ainda, tolerantes que se mostram intolerantes para com os denominados intolerantes.
Em última instância, vivemos em um mundo de intolerância. Em um mundo em que os ateus não toleram os cristãos, que não toleram os muçulmanos, que, por suas vez, não toleram os judeus. Mas isso não é o caos. Caos, de fato, seria se cada um desses grupos fosse coagido e obrigado a aceitar o que os demais professam. O erro está em querer que todos sejamos tolerantes. Coniventes. Acríticos. Tapados.
Algo, porém, deve ficar muito evidente. A tolerância pode ser classificada de duas maneiras legítimas.
Primeiro, vem a tolerância legal, que é o direito que cada pessoa tem de acreditar em qualquer crença (ou em nenhuma) que se queira acreditar. E, como disse Erwin Lutzer, “tal tolerância é muito importante em nossa sociedade, e nós, como cristãos, devemos manter a nossa convicção de que ninguém jamais deve ser coagido a crer no que cremos”.
Segundo, a tolerância social, que é o compromisso de respeitar todas as pessoas, mesmo que discordemos frontalmente de sua religião e idéias. Quando nos envolvemos com outras religiões e questões morais na feira ideológica, isso deve ser feito com cortesia e bondade. Temos de viver em paz com todos os indivíduos, mesmo com os de convicções e crenças divergentes.
Portanto, a tolerância, no sentido de direito de professar qualquer tipo de religião ou não professar nenhuma, ou como significado de respeito às demais, não deve nunca ser combatida. Contudo, no real significado da palavra, como relatado anteriormente, ser intolerante é algo natural. Não podemos ser coniventes com aquilo em que não acreditamos. Não podemos tapar os olhos quando vislumbramos que ideologias absurdas provocam males na sociedade. Não podemos transigir com posicionamos contrários à vida. Não podemos ter paciência com opiniões que contrariam a essência da natureza.
O que dever ser atacado, portanto, não é essa intolerância, mas, sim, o fanatismo. Fanatismo cruel e sanguinário que provoca a morte de milhares de pessoas anualmente. Fanatismo religioso e não-religioso que defende a guerra a qualquer custo. Fanatismo intelectual que tentar censurar os cristãos sob a alegação de liberdade. Fanatismo racionalista que tenta calar a boca dos evangélicos. Fanatismo pós-modernista que tenta nos obrigar a sermos relativistas. Isso sim deve ser combatido. E lembre-se: o simples fato de você não consentir com o que foi escrito nesse artigo faz de você um intolerante.
Portanto, quando encontrar um legítimo tolerante, por favor, avise-nos!

Notas:



[1]Revista Veja, ed. 1929,  de 2 de novembro de 2005.
[2]Jornal  Folha de São Paulo, caderno “Cotidiano”, 8/11/05.

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