terça-feira, 22 de outubro de 2013

A GRAÇA COMUM DE DEUS NA HUMANIDADE

Por Gilson Barbosa

Muitos de nós por termos recebidos certas influencias evangélicas crescemos ouvindo que o cristão não pode praticar esportes, não deve ir ao cinema, teatro, e os mais radicais até mesmo proibiam cursar uma faculdade (Ou seja, estudar muito levaria o crente a esfriar na fé). Para alguns tudo o que faz parte normal da vida parece conspirar contra a fé. Há anos atrás ouvi de certo líder evangélico que se fosse para os jovens da igreja “desviarem dos caminhos do Senhor” era melhor não fazerem faculdade. Que absurdo! Este tipo de atitude é baseado na distinção entre o que se faz na igreja, ou aquilo que é espiritual, e o que se faz fora da igreja ou o que não é espiritual.

É muito comum pensarmos que a vida é feita de compartimentos isolados. Alguns entendem que cantar, pregar, orar, ir à igreja, ouvir música evangélica, está associado apenas a vida espiritual; enquanto que o trabalho, o estudo, a diversão, ou seja, aquilo que não esteja ligado à igreja e ou as atividades eclesiásticas está associado à vida secular. Essa distinção traz consequências trágicas para a vida. O campo da ação de Deus abrange tanto a vida espiritual quanto a vida secular. Trabalho, saúde, família, lazer, cultura, igreja e ou atividades eclesiásticas é tudo uma coisa só. Todas estas coisas fazem parte da vida e é nosso dever honrar ao Senhor em tudo: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (I Coríntios 10:31).

Quando Adão e Eva pecaram foram privados da presença de Deus e deixaram de ser imortais. Contudo, continuaram a desfrutar da bondade de Deus. Deus nãos os privou do sexo, de ter filhos, de desfrutar da criação, de serem felizes, de produzir cultura e até mesmo da longevidade (Se lembra com quantos anos Adão morreu? leia Genesis 5:5). Mesmo tendo pecado, de alguma maneira Deus não reteve sua bondade sobre o casal. A Bíblia informa que o “salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23), mas nem por isso pecadores não desfrutam de uma parte da bondade de Deus nesta vida.

Às vezes nos perguntamos como pode pessoas “ímpias”, “desobedientes aos mandamentos de Deus”, ateus, céticos, viverem uma boa vida, serem bem sucedidos na carreira, terem sempre o que comer, o que vestir, alguns são até mesmo felizes!!! Sabe o que isso significa? Essas coisas procedem graciosamente de Deus. Na Teologia Reformada isso é chamado de a graça comum de Deus. Leia os textos abaixo e reflita se não é assim:

“Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” (Mateus 5:44, 45 – meu grifo)

“Amai, porém a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, nunca desanimado; e grande será a vossa recompensa, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os integrantes e maus.” (Lucas 6:35 – meu grifo)

“Quando, porém, os apóstolos Barnabé e Paulo ouviram isto, rasgaram as suas vestes e saltaram para o meio da multidão, clamando e dizendo: Senhores, por que fazeis estas coisas? Nós também somos homens, de natureza semelhante a vossa, e vos anunciamos o evangelho para que destas práticas vãs vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar, e tudo quanto há neles; o qual nos tempos passados permitiu que todas as nações andassem nos seus próprios caminhos. Contudo não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos chuvas do céu e estações frutíferas, enchendo-vos de mantimento, e de alegria os vossos corações.” (Atos 14:14-17 – meu grifo).

O teólogo Wayne Grudem define a graça comum de Deus da seguinte maneira: “Graça comum é a graça de Deus pela qual ele dá às pessoas inumeráveis bênçãos que não fazem parte da salvação” (Teologia Sistemática, p. 549). Note que não se trata da “graça salvífica ou salvadora de Deus”. Aliás, existe apenas uma só graça, mas ela se manifesta de duas maneiras: graça especial e graça comum.  

Não devemos deixar de reconhecer que todas as pessoas recebem a operação da graça comum de Deus. Alguns crentes desvalorizam o que é produzido por não crentes. Outros depreciam tanto o fato de alguém não ser um crente que cometem abusos no julgamento. É importante saber que

“... mesmo entre aqueles que não são cristãos, há muitas pessoas que tem bom caráter, são honestas, trabalhadoras, confiáveis, generosas, amáveis e capazes de grandes realizações em todas as áreas da vida (cultura, arte, ciência, etc.).” (Revista Palavra Viva, Editora Cultura Cristã)

Todas as pessoas, e não somente os crentes, foram criados à imagem e semelhança de Deus (Genesis 1:26,27; Tiago 3:9). Os talentos naturais são propriedades de Deus e ele outorga as pessoas indistintamente; por isso um não crente realiza muitas coisas que são lícitas e que um crente pode usufruir.

“Um livro de poesias não precisa ser escrito por um cristão para ser bom. Da mesma forma, um médico pode um profissional brilhante e dar grandes colaborações para a sociedade sem ser cristão. Nos dois casos, o escritor e o médico desenvolvem suas atividades com os talentos que receberam de Deus. Toda boa dádiva é procedente de Deus (Tiago 1:17).” (Revista Palavra Viva, Editora Cultura Cristã)

É necessário o crente ter discernimento quanto ao que é lícito ou não; mas não lhe é facultado o direito de compartimentar a vida. Muitos crentes vivem uma vida dupla por causa dessa dicotomia entre o sagrado e o profano. Na igreja são super santos, porém no trabalho, em casa, na escola, na rua, envergonham o santo nome de Deus se metendo em confusão e vivendo uma vida sem nenhuma ética, sem nenhum temor as palavras do Senhor.

Não esqueça que tudo que existe na vida procede de Deus. Ele é o Criador de todas as coisas. Não há motivo suficiente para privar-se dos talentos naturais que Deus lhe concedeu. Pinte um quadro, faça artesanato, escreva uma poesia, pratique esportes, aprenda a tocar um instrumento musical, visite um museu, vá ao teatro. Fazer essas coisas não significa ser mundano; apenas que podemos usufruir com sabedoria destas coisas:

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. (Filipenses 4:8)

Como mencionei no inicio esta graça comum de Deus não é redentiva; ela não significa que pecadores serão salvos (Romanos 5:10; Colossenses 1:21; Tiago 4:4; Filipenses 3:18, 19; Efésios 2:3). Porém, não precisamos viver como monges católicos da idade média; como um ermitão. Essa atitude em vez de santidade pode esconder uma conduta hipócrita.


Que o Senhor nos dê discernimento para vivermos a vida com sabedoria e graça!

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