sexta-feira, 21 de outubro de 2011

OS OPOSITORES DA OBRA DE DEUS (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

Entre os capítulos 4.1 – 6.14 (Livro de Neemias), o trabalho empreendido por Neemias e seus liderados, recebeu oposição e ataques externos. Estes capítulos ressaltam os obstáculos que Neemias enfrentou no seu benéfico projeto. A obra de Deus não será feita sem que haja zombarias, conspirações, ameaças, coações, calunias, transigências, traições, etc. É o “preço” que teremos de pagar para ver os planos espirituais idealizados e concretizados. Parece contraditório, mas, quanto mais perseguem o povo de Deus mais ele se expande, cresce, estrutura-se, estabelece-se, amadurece, mais os crentes devem se regozijarem em Deus, conforme Pedro já havia advertido os irmãos: “Porque, que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis, isso é agradável a Deus” (I Pe 2.20).
Sambalate já havia se desagradado com a intenção de Neemias em fazer o bem aos filhos de Israel (2.10). Agora ele está ardendo em ira e indignado (4.1), talvez com medo de perder seu prestígio, status e fama em Jerusalém. A Bíblia da Liderança, de John Maxwel, informa que Sambalate “sabia que a restauração dos muros de Jerusalém também iria levar de novo importância comercial e política para Jerusalém. Sambalate gostava do status quo que detinha. Por isso, tinha um vasto interesse em que Jerusalém permanecesse na situação deplorável em que se encontrava. Por essa razão, iniciou seus esforços para impedir o trabalho dos judeus”. Infelizmente temos até mesmo obreiros que agem como Sambalate. Com os mesmos temores e receios de Sambalate, boicotam de várias formas outros obreiros para que estes não “caiam na graça” do povo. Sentem-se ameaçados – por mais que os outros obreiros nem tenham o mesmo conhecimento teológico, secular ou cultural que eles têm. Na verdade, não querem compartilhar o poder, o sucesso, o prestígio, pois “todos devem estar debaixo da sombra do líder”. Em outras palavras nenhum dos liderados pode “brilhar” mais do que o Líder Supremo.
A princípio Sambalate (4.2), perante seus familiares, funcionários do seu governo e do exército sob sua autoridade, fez de conta que não estava tão preocupado com o trabalho dos judeus e zombou deles, mas logo sua zombaria e chacota deu lugar à cólera. Sua intenção era deter o avanço do projeto, parar com o trabalho, desestabilizar os judeus – a presença intimidadora do “seu” exército comprova esse fato. Para demonstrar que estava bem riu dos judeus, mas seu coração estava “azedo” e raivoso. Da mesma maneira os opositores da obra de Deus zombam e riem dos “seus irmãos em Cristo” dizendo que o trabalho não vai prosperar, que não vai dar nada certo, que somos fracos, mas, no fundo o que predomina mesmo é a raiva, a ira, a cólera, o ódio. O que eles dizem zombando é fruto desse estado de espírito que caracteriza o ser humano ímpio e sem Deus.

PERGUNTAS RETÓRICAS
 (4.2) - “Que fazem estes fracos judeus? Permitir sê-lhes á isso? Sacrificarão? Darão cabo da obra num só dia? Renascerão, acaso, dos montões de pó as pedras que foram queimadas?”.
(4.7) – “Mas, ouvindo Sambalate e Tobias, os arábios, os amonitas e os asdoditas que a reparação dos muros de Jerusalém ia avante e que já se começavam a fechar-lhe as brechas, ficaram sobremodo irados” (meu grifo).
Sambalate escarneceu dos judeus com cinco perguntas retóricas (v.2): As duas primeiras demonstram que os judeus não tinham nenhum tipo de capacidade, ainda mais restaurar sua própria muralha. A terceira pergunta talvez faça alusão à (im) possibilidade deles efetuarem sacrifícios na conclusão do trabalho, como uma comemoração importante (12.43). Na quarta pergunta ele insinua que os judeus não tinham noção da magnitude da construção e na quinta zomba deles. Tentavam fazê-los desistir, mas Neemias possuía a mesma convicção anterior (2.20): “o Deus dos céus é quem nos dará bom êxito; nós seus servos, nos disporemos e reedificaremos”.
ORAÇÕES IMPRECATÓRIAS
Abruptamente uma oração imprecatória interrompe o relato bíblico (vs. 4,5). Uma oração imprecatória é aquela que amaldiçoa um inimigo. Nos Salmos temos várias orações assim (Leia, por exemplo, o Salmo 137). Nos versos 7-9 o salmista deixa transparecer sua alma quando amaldiçoa seus inimigos ou os inimigos do povo de Deus: “Contra os filhos de Edom, lembra-te Senhor, do dia de Jerusalém, pois diziam: Arrasai-a, arrasai-a, até aos fundamentos. Filha da Babilônia, que hás de ser destruída, feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizestes. Feliz aquele que pegar teu filhos e esmaga-los contra a pedra”. Este ultimo versículo tem sido muito lembrado pelos críticos (céticos, ateus) das Escrituras Sagradas que tentam depreciá-la dizendo que a Bíblia incita aqui a violência. Mas, na verdade, este é o sentimento do salmista e não o desejo e aprovação de Deus. A Bíblia apenas registrou a oração. Ademais, esta parece não ser uma oração correta.
A Bíblia não diz quem orou, mas, pelo contexto concluo que foi Neemias. Na oração ele pede que Deus seja equitativo com a zombaria e cólera dos opositores, até mesmo os enviando cativos para uma terra qualquer. Da mesma maneira como aconteceu com os judeus que acontecesse com os opositores também.  Quero dizer que nem sempre Deus ouve essas orações imprecatórias na atualidade, mas às vezes sim. Lembro-me de quando existia “uma boca de fumo” ou ponto de venda de drogas na rua onde eu morava. Aquilo era um incômodo para todos os vizinhos e moradores do bairro. Mas, para mim a gota d’água foi quando um dos traficantes começou a subir e ficar em cima da laje (usando entorpecentes, conversando alto) onde eu estava construindo minha casa. Isso perdurou por vários dias. Quando já havia esgotado todo o tipo de negociação, fiz uma oração imprecatória para que Deus “desse um jeito” naquele traficante (risos). Alguns meses depois houve desavenças entre traficantes locais culminando em tiroteio e na morte desse traficante, entre outros, infelizmente. Digo infelizmente, pois como servo de Deus não queria nem desejava sua morte, mas coincidência ou não Deus deu uma solução para o meu problema, da pior forma possível. Por isso leitor, cuidado com as orações imprecatórias, vai que Deus lhe atenda!
Neemias pede até mesmo que Deus não perdoe suas iniquidades (v.5). O final do versículo nos informa que os opositores pronunciaram suas zombarias aos judeus diante das muralhas que estavam sendo reconstruídas – a pressão era total. Esta oração, apesar de estar respaldada contextualmente (Jr 18.23), não reflete a intenção e a postura neotestamentária que os crentes da Igreja Primitiva deveriam ter com os seus semelhantes, principalmente seus inimigos. Por exemplo, em meio a perseguição Pedro (II Pe 2.13,14) pede aos irmãos que se sujeitem as mesmas autoridades que as perseguiam: “Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para o castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem”. Outro detalhe é que a oração de Neemias contrasta-se com a oração de Jesus pedindo ao Pai que perdoasse os dois malfeitores que foram crucificados com ele (Lc 23.39-43).
Parece que a oração imprecatória de Neemias animou seus liderados e assim eles edificaram totalmente os muros porque tinham ânimo para trabalhar. É claro que se encontravam animados e corajosos devido à postura de Neemias. Há líder que em vez de animar seus liderados faz o contrário: desanima. Há muitos ministérios nas igrejas onde as pessoas encontram-se desestimuladas por conta da omissão ou negligencia do líder – o resultado é a evasão e fugas de crentes para outras denominações.
A TRAGÉDIA DA GUANABARA
Os opositores da obra de Deus são semelhantes as “hienas” que não desistem da sua presa, não se cansam de aguardar o cansaço dela, para depois atacá-la, feri-la e por fim alimentarem-se da sua carne: “Mas, ouvindo Sambalate e Tobias, e os arábios, o amonitas e os asdoditas, que ia avante à reparação dos muros de Jerusalém e que já as brechas se começavam a fechar, iraram-se sobremodo” (4.7). Segundo o comentário bíblico de Moody os árabes eram liderados por Gesém e os amonitas por Tobias (2.19). Os asdoditas, que pertenciam ao povo filisteu, foram provavelmente facilmente incitados por Sambalate a que lutassem contra seus velhos inimigos, os judeus.
A igreja evangélica brasileira também possui muitos opositores/oposição, tanto externamente quanto internamente. Externamente, entre outras, temos as seitas que nos desafiam há anos cotidianamente. A própria Igreja Católica Romana (por meio dos seus agentes) perseguiu os crentes que professavam a fé reformada no Brasil (as Igrejas Tradicionais) e depois os que pregavam as doutrinas pentecostais (que genericamente também são “reformados”). Essa oposição não é pessoal, mas, um ataque a fé evangélica ou mais precisamente à nossa doutrina e teologia.
Um documento que ficou conhecido como “Confissão de Fé da Guanabara” (1558)  retrata a perseguição e oposição dos inimigos da fé cristã; esta fé é representada no que CREMOS. Logo no início da fé reformada no Brasil alguns huguenotes (calvinistas franceses) foram executados na então Guanabara (Rio de Janeiro). O historiador presbiteriano Alderi de Souza Matos comenta que “o contexto desse notável documento foi a França Antártica, uma colônia criada na baía de Guanabara, em novembro de 1555, pelo militar Nicolas Durand de Villegaignon. Desejoso de colonos com valores mais sólidos, o comandante escreveu a Genebra pedindo o envio de evangélicos. Em resposta, a Igreja mandou um grupo de catorze pessoas, entre as quais dois pastores. O pequeno contingente desembarcou no Rio de Janeiro no dia 10 de março de 1557, ocasião em que foi realizado o primeiro culto protestante no Brasil e nas Américas.
No início, Villegaignon mostrou-se simpático aos recém-chegados. Todavia, logo começou a divergir dos reformados em relação a várias questões doutrinárias, em especial a singela celebração da Ceia do Senhor. No final de outubro, expulsou-os da pequena ilha para o continente. Impossibilitados de dar continuidade ao seu trabalho, no início de 1558, eles retornaram para a pátria. Todavia, diante das condições precárias da embarcação, cinco dos calvinistas decidiram voltar à terra firme. Acusados pelo comandante de serem traidores e espiões, eles foram presos e receberam um questionário sobre pontos teológicos, tendo poucas horas para respondê-lo. A resposta, escrita com tinta de pau-brasil pelo leigo Jean de Bourdel, ficou conhecida como Confissão de Fé da Guanabara ou Confissão Fluminense. Os outros signatários foram Pierre Bourdon e Matthieu Verneuil”.
Prossegue o historiador presbiteriano dizendo que “sob alegação de heresia, na sexta-feira 9 de fevereiro de 1558, Villegaignon ordenou a execução de Bourdel, Bourdon e Verneuil. André Lafon foi poupado por vacilar nas suas convicções e ser o único alfaiate da colônia. Jacques Le Balleur, que havia conseguido fugir, mais tarde foi encarcerado na Bahia e executado no Rio de Janeiro”.
Especialmente nesse caso, o resultado de uma firme convicção doutrinária e teológica foi trágico: morte dos missionários huguenotes. Mas, não foi isso que Jesus avisou aos seus discípulos? “Expulsar-vos-ão das sinagogas; ainda mais, vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus” (Jo 16.2) e mais: “Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33).  Não foi diferente com a fé pentecostal no Brasil.
OPOSIÇÃO AOS PENTECOSTAIS
No livro Diário de um Pioneiro (CPAD), Gunnar Vingren relata perseguições logo no inicio da pregação pentecostal, mais especificamente num dos batismos de alguns crentes em água. Ele relata que uma grande multidão de inimigos da obra de Deus dirigiu-se para o local de batismo. Estavam armados de facas e laços e queriam impedir a realização do batismo, mas Deus os protegeu. Foi debaixo de muitas ameaças que certos batismos eram realizados e cultos eram realizados (p. 42).    
No Programa de Mestrado de Ciências da Religião, o mestrando Moisés Germano de Andrade escreve uma importante informação a respeito da perseguição (oposição) aos primeiros crentes pentecostais: “Não bastassem as perseguições impostas pela Igreja Católica Romana a todos os protestantes de modo geral, a Igreja AD, ainda sofreu duras perseguições dos próprios protestantes. Os pastores e reverendos, juntamente com os membros não mediam esforços para tentar parar o movimento pentecostal, seja caluniando, com intrigas e delações, e houve até casos de agressões físicas. Quanto mais ataques, mais se percebia que o movimento pentecostal crescia. O ponto mais alto dessas perseguições foi uma matéria publicada no Jornal  que circulava em Belém do Pará por nome de “A Folha do Norte”, cuja matéria tratava de alarmar a população paraense. Dizia-se que tal seita americana pentecostal, por nome AD, praticava exorcismo e outros hábitos perigosos. No entanto essa matéria jornalística, publicada na “Folha do Norte”, serviu para divulgar ainda mais o movimento pentecostal, muitas pessoas por curiosidade procuravam freqüentar os cultos na tentativa de conhecer  novidade,  e foi a razão para um grande crescimento da igreja”.[1]
ENFRENTANDO OS OPOSITORES
A Verdade Prática desta lição (23/10/2011) diz que não devemos nos amedrontar com os que opõem à obra de Deus, porque o Senhor está conosco e por nós batalha. Aprendemos nessa lição que a oração e a vigilância devem ser prioridades na vida cristã, conforme 4.9: “Porém nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda contra eles, de dia e de noite”. Que nenhum opositor, inimigo do evangelho, nos desestimule na caminhada cristã. Por outro lado nosso Senhor disse que não devemos em hipótese alguma olhar para trás na intenção de retroceder: “Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é apto para o reino de Deus”. Nesse caso lembro-me da carta (Hino 394 – Harpa Cristã) que Frida Vingren escreveu à seu esposo (Gunnar Vingren) num momento de sua vida onde se encontrava desanimado por causa das tribulações e dos muitos opositores:
Sê bom soldado de Cristo Jesus,
Sofrendo as aflições,
Não sufocando a mensagem da cruz,
Nas perseguições;
 Vai Seu amor proclamando,
Novas de paz, sim, levando.
Aos que estão aguardando
A salvação.





[1] ANDRADE, Moisés Germano. Uma história social da Assembléia de Deus: a conversão religiosa como forma ressocializar pessoas oriundas do mundo da criminalidade.


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