sábado, 7 de janeiro de 2012

A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO (Subsidio EBD)


Por Gilson Barbosa

Preciso fazer uma confissão: estou cansado, saturado e enojado de ouvir “sermões” de auto-ajuda com “respaldo bíblico”.  Expressões tais como “onde você pisar a planta do teu pé será teu” ou “Deus te colocou por cabeça e não por cauda”, “faça prova com Deus”, “os sonhos de Deus são pra você”, “toque o coração de Deus com sua adoração”, “Dê e Deus dará pra você”, “todas as promessas de Deus na sua vida se cumprirão”, etc, demonstram ou a falta de preparo teológico ou a insinceridade dos pregadores atuais. Pelo andar da carruagem a segunda opção deve ser a certa.

Tipos de Promessas

Certos ensinadores e pregadores precisam reler o Antigo Testamento com a lente da cosmovisão neotestamentária cristã. Nós não somos judeus, somos cristãos. Desse entendimento e compreensão temos a implicação que nem tudo que é bíblico é prescrição aos crentes da Nova Aliança. Muitas promessas bíblicas, destinadas à Israel, tem sofrido uma reinterpretação ou uma aplicação errada. Nós não somos o Novo Israel, pois Deus ainda não desistiu do Seu legítimo povo e muitas promessas feitas a eles ainda terão seu cumprimento.  Israel tem com o Senhor mais do que algo meramente espiritual; tem uma história.

O pastor Geremias do Couto (As Promessas de Deus para Sua Vida, 2007) informa que há pelo menos quatro tipos de promessas: gerais, individuais, para Israel e para a Igreja. Quanto às promessas a Israel ele diz: “Embora sejamos abençoados pelo fato de a nação judaica ter desempenhado papel proeminente na história da salvação (Jo 4. 19-24), não é biblicamente correto tomar promessas específicas de Deus para Israel, muitas das quais terão cumprimento futuro, e aplica-las à Igreja. Isso ocasiona sérios desvios doutrinários. Ler At 3.25; Gl 3.14-18; Hb 6.12-15; 7.6)”.

O que alguns fazem hoje (com a aplicação das passagens bíblicas), quando leem os livros da Bíblia Hebraica (o Antigo Testamento), comprova a razão da confusão doutrinária que paira sobre centenas (ou milhares?) de igrejas evangélicas. Até mesmo ensinadores hábeis tem sido vítima de uma interpretação e aplicação errada de textos bíblicos do Antigo Testamento. Certa vez, numa lição bíblica, o comentarista orientando que devemos orar pelas madrugadas, cometeu o crasso erro de citar Provérbios 8.17 “Eu amo aos que me amam, e os que de madrugada me buscam me acharão” (Revista e Corrigida); na Nova Versão Internacional está “Amo os que me amam, e quem me procura me encontra”; na Almeida Corrigida Fiel “... e os que cedo me buscarem me acharão”. Uma leitura mais atenta indicará que quem busca a sabedoria ainda na sua tenra juventude adquire uma riqueza superior a todas as riquezas materiais existentes no mundo. Outros há que criam ministérios de dança, como parte da liturgia do culto, com base nas danças de Miriã ou de Davi. Até mesmo cantores ou músicos têm sido denominados de levitas (expressão que particularmente não cabe).

O que é ser próspero, segundo Jesus!

Ser próspero é muito mais que adquirir riquezas financeiras, ter boa saúde, ou uma promoção profissional. Ser bem sucedido, segundo o exemplo e ensino deixado por Cristo, não significa isenção ou anulação de aflições, dores, enfermidades, privações, mas sermos obedientes ao Senhor ainda que com tudo isso. O sermão do Monte não faz parte dos sermões de muitos pregadores, pois espanta as pessoas e esvazias as igrejas. Segundo o Líder do cristianismo, bem-aventurado não é o que não adoece, ou os que sonham os sonhos de Deus, ou os que não “são cauda”, ou os que terão restituição de tudo o que “perderam”. Jesus afirmou (Mt 5.11): “Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês”. Alguém aí está a fim de ser insultado, perseguido ou caluniado por causa do evangelho ou do Senhor Jesus? Alguém aí pode dizer “amém”?

Ele conclui dizendo que a recompensa do cristão não é terrena, mas celestial: “Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.12). Os pregadores e ensinadores parece não ter tanto desejo assim: serem recompensados no porvir. Querem a recompensa de servir a Cristo, aqui e agora!

A expiação de Cristo e a cura física

Aliás, eles ensinam que na expiação (a morte de Cristo) Jesus teria levado todas as nossas dores e que os efeitos dela resultam numa vida próspera em todos os sentidos (menos no sentido de que é possível o cristão sofrer qualquer “inconveniência” em servir a Cristo).

Alguns textos que os defensores da cura na expiação de Cristo (sua morte), gostam de citar:

Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Isaías 53.4

... para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas  enfermidades e levou as nossas doenças. Mateus 8.17

levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. I Pedro 2.24

Alguns comentaristas não concordam com o ensino de que Jesus levou nossas dores e enfermidades quando da sua expiação, pois, se assim fosse o crente de fato não poderia adoecer – o que está em desacordo com a realidade. O texto de Mateus 8.17, então, deve ser entendido no sentido de que no momento em que Jesus efetuava as curas se cumpria Isaías 53.4, até porque a expressão usada pelo escritor do Evangelho é “para que cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías”. Já no texto de I Pedro 2.24 não está claro se as feridas saradas são doenças ou enfermidades. Outros comentaristas admitem que a expiação de Cristo possa concordar com os benefícios espirituais e físicos do ser humano. Porém não concordam que a cura do corpo seja plena nesta vida. O Dr Alan Pieratt (O Evangelho da Prosperidade) afirma:

Esta citação de Isaías 53.4, 5 é interpretada da perspectiva da doutrina da prosperidade e considerada como prova de que a redenção inclui a promessa de saúde perpétua para o cristão. Não pode haver dúvida de que Mateus (veja também 1 Pedro 2.24) está se referindo aos benefícios físicos e espirituais da expiação. Mas a questão não é se a redenção envolve o homem como um todo. É claro que sim. Tanto o corpo quanto a alma serão um dia redimidos (Rm 8.23). A questão é se essa redenção aplica-se completamente aqui e agora, nesta vida. Ela será discutida com mais detalhes na próxima divisão. Por ora, basta observar que, nesse versículo, a expressão "para que se cumprisse" não significa que a profecia foi completamente cumprida naquela época ou no tempo vivido hoje pela igreja, sendo que nada mais resta. Tanto em sua execução quanto em seus benefícios, a redenção é um processo, e nem todos esses benefícios já foram alcançados.

Se ser próspero, do ponto de vista dos adeptos do evangelho da prosperidade, é absolutamente não adoecer, parece que a Escritura Sagrada não endossa seus ensinos.  Invoco novamente o Dr Alan Pieratt:

Os pregadores da prosperidade cedem um pouco a essa réplica da Bíblia, admitindo que o cristão pode passar por problemas na vida, mas estes nunca envolverão qualquer doença. Em contrapartida, respondemos que a Bíblia está cheia de exemplos de homens e mulheres fiéis que sofreram doenças de vários tipos. Alguns poucos exemplos serão suficientes para provar o que dizemos.  Por exemplo, em 2 Reis 13.14, 20, vemos a morte de Eliseu provocada por uma doença não identificada, embora ele continuasse sendo porta-voz de Deus até o fim. Em Atos 7.9-11, a tribulação se refere ao desconforto mental sofrido por José, enquanto era escravo no Egito, e aos sofrimentos físicos decorrentes da fome. Em 2 Coríntios 1.3-11, Paulo fala de uma tribulação sofrida na Ásia, usando palavras que lembram uma enfermidade física. Em Gálatas 4.13, Paulo diz que estava doente. Em outras passagens, escreve que seus colaboradores na obra, Epafrodito, Timóteo e Trófimo, adoeceram em uma ou outra oportunidade. Filipenses 2.30 afirma que Epafrodito quase morreu. Timóteo tinha uma doença estomacal crônica (1 Tm 5.23), e parece que Trófimo teve de ser deixado para trás por causa de uma doença séria (2 Tm 4.20).

Promessas de prosperidade a Israel

Entendo que na Aliança que Deus fez com Israel estava, entre outras bênçãos, a prosperidade financeira e a saúde física. Mas isso tinha a ver com todas as etapas históricas por quais Israel teria de passar. Deus de fato disse a Abraão que daria uma terra a Israel, conforme Gênesis 12.1, 7; 13.14-18; 15.17-21; 17.8. Disse que seriam curados se O obedecessem: “E disse: Se ouvires atento a voz do SENHOR, teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito; porque eu sou o SENHOR, que te sara.” [grifo meu]. Contudo, sabemos que até mesmos os homens de Deus que foram bem sucedidos na sua jornada, adoeceram e morreram e os que se tornaram ricos não fizeram das suas riquezas um cavalo de batalha, uma moeda de troca ou uma forma de sucesso com Deus. Abrão, por exemplo, deu oportunidade para Ló escolher “sua nova propriedade” (Gn 13.8-13). Fosse Abraão um teólogo da prosperidade seu legado mais importante seria suas riquezas e a forma como Deus o abençoava. Mas, mesmo o próspero Abrão não ficou sem problemas. Haverá momentos que os bem sucedidos estarão alegres, saudáveis, ricos, já em outros estes mesmos se encontrarão tristes, enfermos e, mesmo sendo ricos. A nota de Gênesis 12.10, na Bíblia Pentecostal atesta isso:

Obediência a Deus não significa que nunca enfrentaremos problemas e duras provações. (1) Mal Abrão chegou ao seu destino, enfrentou coisas desagradáveis. Seus problemas incluíam uma esposa estéril (11.30), a separação da sua parentela (12.1) e uma fome que estava levando-o à privações e forçando-o a sair do país. (2) Conforme nos ensina o exemplo de Abrão, o crente que está procurando servir a Deus e obedecer à sua palavra, não deve estranhar ao se deparar com grandes obstáculos, adversidades e problemas. Costuma essa ser a maneira de Deus treinar aqueles que Ele tem chamado para obedecer-lhe. Nesses casos, devemos prosseguir com obediência, e confiantes de que Deus continuará agindo em nosso favor e pelo bem dos seus propósitos (ver Mt 2.13 nota).

Distinção entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento

Para finalizar concluo dizendo que temos de entender que há distinção entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento, e nisso está incluso a maneira como Deus prosperava Seu povo e como a Igreja dos nossos dias deve entender a questão da prosperidade. Um leitor da Revista Ultimato fez a seguinte pergunta:

Pastor, meu nome é Leonel e gostaria de saber se estou errado em interpretar passagens como Salmos 1.3 e Isaías 55.8-9, e testemunhos bíblicos como os de José no Egito e Jó, que teve tudo em dobro, como promessas de prosperidade para a minha vida. Os pastores estão errados em pregar esse tipo de promessas em suas igrejas?

A incumbência de responder a pergunta “caiu” sobre os ombros de Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. Sua resposta muito me agradou, compartilho do mesmo pensamento e por isso reproduzo abaixo:

Caro Leonel, a utilização dos textos para dar fundamento à chamada teologia da prosperidade, também conhecida por confissão positiva, se explica pelo equívoco hermenêutico de não se fazer distinção entre a nação de Israel do Antigo Testamento e a Igreja de Jesus do Novo Testamento. Os propósitos e promessas de Deus para Israel não se aplicam à Igreja de Jesus. A nação de Israel se resumia a um povo (etnia) numa terra, Canaã, que seria protegido e abençoado por Deus sempre que permanecesse fiel à Lei de Moisés. O texto de Deuteronômio 28 é o mais emblemático de todos. Já a Igreja de Jesus é a comunhão de pessoas de toda tribo, raça, língua e nação, espalhadas por todos os lugares até alcançar os confins da Terra, vivendo sob a perseguição e o ódio do mundo. Basta perceber que, no Antigo Testamento, quanto mais fiel a Deus era o povo, maior era a sua prosperidade. No Novo Testamento, quanto mais fiel a Jesus é o povo, maiores as suas dificuldades: “Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes odiou a mim. Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia. Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão à de vocês. Tratarão assim vocês por causa do meu nome, pois não conhecem aquele que me enviou” (Jo 15.18-21). Os apóstolos assim ensinaram todos quantos desejaram seguir a Jesus: “É necessário que passemos por muitas tribulações para entrarmos no reino de Deus” (At 14.22), pois “todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). As recompensas de Deus para Israel estavam relacionadas à prosperidade material na história, enquanto as recompensas de Deus para a Igreja são espirituais e se consumam na eternidade: “Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.11-12). Ariovaldo Ramos resume essa distinção entre Israel e a Igreja dizendo que Israel tinha a missão de trazer o Messias para a história, e a Igreja tem a missão de levar testemunho a respeito do Messias até os confins da Terra. Propósitos distintos, promessas distintas, recompensas distintas.

Que o Senhor continue prosperando vidas, da forma correta e adequada, e dando sabedoria para pregadores e ensinadores discernirem quais são os princípios veterotestamentários que podemos aplicar para nossa vida ou para a prática da Igreja cristã. Lembre-se: nem tudo que é bíblico é cristão; nem tudo no cristianismo é do jeito que estão pregando e ensinando por aí.

Um retorno ao estudo teológico pode ajudar e muito!

Em Cristo,

6 comentários:

  1. Nossa tremendo esse ponto de vista, quando voce estuda a historia de Israel, e entende que muita coisa não deve ser enredada na historia do povo de Cristo, as teorias da prosperidade cai diante da palavra pura e genuína de Deus. Nossa riqueza é o reino dos céus

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  2. Caro anônimo,

    Obrigado pelo comentário. É muito importante identificarmos o que é que do Antigo Testamento está em vigência em nossos dias para a Igreja.

    Em Cristo,

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  3. Gostei muito desses comentários pois sou professora da Escola biblica e isso me ajudou a entender os propósitos de prosperidade no antigo e no novo testamento.Deus os abençõe muito.Obrigada

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  4. Graça e Paz irmã,

    Obrigado por acessar esse blog. Fico feliz pelo comentário da lição ter-lhe ajudado.

    Já que gostou dos comentários divulgue aos seus contatos, tá bom?

    Grande abraço.

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  5. Meu irmão, Shalom.
    Precisamos pregar a verdade como vc escreveu neste texto, dizendo não à teologia da substituição, ou seja, a Igreja não substituição a Israel! Os dois se completam, somos uma única árvore, judeus e gentios, ambos crentes em Yeshua haMashiah! Nossa seiva é o Eterno! Sou judeu Messiânico e compartilho dos mesmos preceitos, no amor eterno de Yeshua.
    Ricardo

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    1. Graça e paz irmão Ricardo,

      De fato, Paulo informa que de ambos os povos (judeus e gentios) Deus fez um só. Que plano maravilhoso de Deus. Obrigado pela visita e que o Senhor Todo Poderoso continue lhe concedendo graça sobre graça.

      Um abraço,

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