terça-feira, 12 de junho de 2012

RAZÕES [?] PARA NÃO SE CRER NA DOUTRINA DA TRINDADE


Por Gilson Barbosa

Recebi de um adepto do unicismo[1] um link com o título 70 Razões Porque Não Cremos na Trindade. A princípio fiquei até impressionado, porém, analisando atentamente avaliei como um grande exagero, a começar pela quantidade de razões (70), depois pela interpretação das passagens bíblicas. Após avaliar as “70 razões”, percebi que muitas delas se repetem (constantemente) com outras nuanças; portanto, elas poderiam ser absorvidas em pontos mais condensados, o que cairia, talvez, pela metade de razões. Conclusão: as sete dezenas de razões são mais para impressionar; um exagero hiperbólico. É como se os trinitarianos contra-atacassem com suas 70 Razões Porque Cremos na Trindade. Não há necessidade disso.

Como são “muitas as razões” do unicismo me esforçarei para responder a medida do pouco tempo que disponho. Não tenho um método lógico para as respostas, mas podemos começar respondendo as próprias afirmações do movimento unicista:

OS PRIMEIROS CRISTÃOS DESCONHECIAM A DOUTRINA DA TRINDADE

A primeira razão unicista para não se crer na trindade é porque tal doutrina surgiu no ano 325 depois de Cristo. Se essa ideia for válida, com base no mesmo argumento, poderemos negar outras doutrinas também. Por exemplo: o batismo com o Espírito Santo tendo as línguas estranhas como evidência. Segundo o Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo (Editora Vida, página 357):

O movimento cresceu a partir das igrejas Assembleias de Deus (AD), um movimento pentecostal que surgira em 1906, na rua Azusa, Los Angeles. 
  
O movimento a que se refere à citação acima é o unicismo. Significa, então, que o unicismo é fundamentalmente pentecostal, e, todos sabem que a base do pentecostalismo são as línguas estranhas e os dons espirituais. Na mesma linha de pensamento diríamos que as manifestações pentecostais também não podem ser admitidas nem buscadas pelos pentecostais unicistas, pois, tal doutrina surgiu no ano 1906 depois de Cristo.

É bom saber que a doutrina da Trindade não surgiu no ano de 325. Ela teve de ser discutida pelos teólogos da época no Concílio de Nicéia realizado em 325 depois de Cristo para afirmação de uma doutrina que até então era plena e totalmente aceita pelos cristãos da Igreja Primitiva e pelos denominados “pais apostólicos ou eclesiásticos”. A obrigatoriedade da discussão aconteceu por causa da controvérsia ariana, conhecida também como arianismo.

O termo arianismo vem de Ário, bispo de Alexandria, cujas opiniões foram condenadas no Concílio de Niceia em 325 d.C., e que morreu em 336 d.C. Ário pregava que Deus Filho foi em dado momento criado por Deus Pai e que antes desse momento o Filho não existia, nem o Espírito Santo, mas somente o Pai. Assim, embora o Filho seja um ser celeste anterior ao resto da criação e bem maior do que todo o resto da criação, ele não se iguala ao Pai em todos os seus atributos – pode-se até dizer que é “igual ao Pai” ou “semelhante ao Pai” na sua natureza, mas não se pode dizer que é “da mesma natureza” do Pai.[2] 

Este ensino arianista é predecessor ao idêntico ensino das Testemunhas de Jeová. Para Ário Cristo não possuía a mesma natureza do Pai. Posto assim Jesus não era plenamente Deus, não era eterno, e, era uma espécie de segundo Deus inferior ao Pai. Portanto, foi elaborada uma pedagógica instrução a fim de que todos os cristãos pudessem brevemente mentalizar a Divindade de Cristo. O documento ficou conhecido como Credo de Niceia. Diz assim este Credo:

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só senhor, Jesus Cristo, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, sendo da mesma substancia do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, encarnou-se e se fez homem. Sofreu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente virá para julgar os vivos e os mortos.  
Cremos no Espírito Santo. E a todos que dizem: “Ele era quando não era, e antes de nascer, Ele não era, ou que foi feito do não existente”, bem como aqueles que alegam ser o Filho de Deus de outra substancia ou essência, ou feito, ou mutável, ou alterável a todos esses a Igreja católica e apostólica anatematiza.

Historicamente não é verdade, então, que a doutrina da trindade “surgiu” no ano 325 depois de Cristo e que os primeiros cristãos a desconheciam. Nem mesmo é certo dizer que eles não acreditavam nela, como veremos em outra postagem. 

A TRINDADE É DOUTRINA DA IGREJA CATÓLICA ROMANA

Não há nada teologicamente errado com a definição do Credo de Niceia, mas, os insistentes unicistas dizem que não se deve crer na doutrina da trindade porque é doutrina romana, pois surgiu da reunião de 318 bispos, liderada pelo imperador Romano Constantino. Pois bem, alguém disse que a verdade é sempre a verdade não importa sua procedência. O Diabo sim é o “pai da mentira”, mas, as verdades existentes universalmente são verdades de Deus. Foi o que Jesus disse aos que não criam Nele (João 8:44): 

Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.

Deixando de lado a controvérsia se a Igreja católica nesta época era totalmente romana ou não (leia-se pagã), o que foi resolvido está em conformidade com a ortodoxia teológica.

Um fato não informado publicamente (o que configura desonestidade) pelos que acusam os trinitários de pagãos é a mudança de opinião do imperador Constantino a respeito da doutrina da trindade. Isso significa dizer que a igreja de Cristo não foi favorável à doutrina trinitária imposta pelo imperador Constantino tanto quanto a igreja não deveria acatar sua decisão a favor do arianismo. A solução trinitária imposta pelo imperador teve outro sentido.  

Na realidade, Constantino inverteu sua opinião em 332 d.C., sete anos depois do Concilio de Nicéia, e passou a apoiar Ário. Durante 45 anos dos 49 que se seguiram, os arianos gozavam o favor dos imperadores romanos.[3]

Aos acusadores de que a doutrina da trindade é pagã porque é doutrina romana deveriam atentar para o fato de que o ensino ariano era mais atraente aos imperadores do que o ensino trinitário, no entanto a doutrina trinitária subjugou  os ensinos de Ário:

No auge da controvérsia ariana, entre 325 e 381, o arianismo era geralmente reconhecido pelos imperadores como um sistema religioso mais atraente do que o trinitarismo. O motivo disso era que o arianismo ensinava que Jesus era uma criatura divina, dava a entender que uma criatura podia ser um Deus, podia ficar altamente exaltada e conseguir a obediência incondicional dos homens. Essa idéia era atraente aos imperadores, pois seus antecessores pagãos frequentemente exigiam a adoração dos súditos, e achavam mais fácil governar se o povo os considerassem divinos, nalgum sentido. O trinitarismo, por outro lado, mantinha que a totalidade da divindade pertencia ao Deus trino e uno, e mantinha uma distinção mais nítida entre o Criador e a criatura; assim, deixa subentendido que o imperador era mero homem comum. Que um imperador romano declarasse o cristianismo trinitário como religião oficial do seu império é, portanto, surpreendente, e sugere que a preocupação com a verdade pesou na balança mais do que a conveniência política.[4] 

Os unicistas não creem na doutrina da trindade por ser oriunda da Igreja Católica Romana, dizem. Então não deveriam aceitar ou admitir também o cânon bíblico do Novo Testamento, pois, foram reconhecidos como a inspirada e inerrante Palavra de Deus por volta do século 4 depois de Cristo e por pessoas que eles afirmam estarem dominadas pelo paganismo desta Igreja.

As autoridades da Igreja nesta época não estavam debaixo da soberania de Deus e de alguma forma dirigidos pelo Espírito Santo na coleta e seleção dos livros do Novo Testamento? Os unicistas não crerão mais na inspiração e autoridade do Novo Testamento por causa disso?   
  
NÃO EXISTE A PALAVRA TRINDADE NA BÍBLIA

A terceira razão unicista para não se crer na doutrina da trindade é porque a palavra Trindade não é encontrada na Bíblia. Que argumento tolo! O unicismo ensina que há apenas um Deus e que Ele aparece em três modos (monarquianismo modal). Outro nome para esta unidade de Deus é monoteísmo. Pergunto aos unicistas: a palavra monoteísmo é encontrada na Bíblia? Já que o termo está ausente na Bíblia não deveriam repudiar o conceito singular e único de Deus? Porque isso não é válido na questão da doutrina da trindade? Os unicistas boicotam  o fiel da balança quando a doutrina da trindade é pesada nela?

Penso que os mentores do movimento unicista deveriam ser pelo menos honestos e mostrar os dois lados da moeda e não só o que lhes interessa.

Na verdade, há várias expressões que são técnicas, teológicas, mas que expressam o conceito bíblico, mesmo estando ausente nos textos bíblicos. O teólogo Myer Pearlman disse o seguinte sobre isso:

É verdade que a palavra trindade não aparece no Novo Testamento; é uma expressão teológica, que surgiu no segundo século para descrever a Divindade. Mas, o planeta Júpiter existiu antes de receber este nome; e a doutrina da Trindade encontrava-se a Bíblia antes que fosse tecnicamente chamada a Trindade.[5]

Prezados leitores, os pouparei de estender mais este assunto para que não fique cansativo e enfadonho. Penso que o que foi escrito aqui é suficiente para começarmos a clarear este importante tema e doutrina. Assim que puder voltarei a falar do unicismo, mas, desta vez focando as passagens bíblicas usadas como “prova” de que não se deve crer na trindade. Até breve.

Em Cristo,


[1][1] Basicamente o unicismo é um movimento que tem por fundamento a unicidade ou unidade de Deus, portanto, não admite em hipótese alguma a doutrina da trindade.
[2] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. Ed: Vida, p. 178.
[3] JR, Robert M. Bowman. Por que devo crer na Trindade. Ed: Candeia, p. 40.
[4] IBIDEM.
[5] PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. Ed: Vida, p. 51.

11 comentários:

  1. Caro irmão Pb. Gilson,

    Parabéns pelo excelente blog apologético,bem como pelo artigo em tela.
    Estou seguindo, assim como já inclui no Point Rhema, meu singelo blog.

    Grato pela indicação!

    Seu conservo em Cristo,

    Pr. Carlos Roberto
    wwww.pointrhema.blogspot.com

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  2. Prezado pastor Carlos Roberto,

    É uma grande honra tê-lo como leitor do meu blog. Agradeço muito por incluí-lo no seu blog. Grande abraço.

    Seu irmão em Cristo,

    Pb Gilson Barbosa

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  3. Olá irmão Gilson, saudações em Cristo!

    Parabens por sua refutação sensata e absolutamente convincente para os que amam a verdade.
    Lamento muito o fato de haver várias denominações que afirmam crer na trindade, mas apoiam os unicistas. cantam suas músicas nos cultos e oferecem os púlpitos de suas igrejas para eles pregarem.
    A leitura de um link lhe incomodou, e pela graça de Deus, você tratou de refutar as idéias unicistas. Porque será que boa parte dos líderes não se incomodam e deixam suas igrejas à mercê desses hereges?

    Continue firme! Um grande abraço!

    Pr. Rosivaldo Sales

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    1. Caro pastor Rosivaldo,

      Obrigado pela leitura da postagem bem como seu comentário. O senhor lembrou muito bem: há várias denominações que franqueiam seus púlpitos, cultos, para que a "palavra de Deus" seja pregada e suas músicas cantadas.

      Ou é desconhecimento da doutrina da trindade, desleixo ou omissão proposital mesmo.

      Que o Senhor guarde sua Igreja.

      Abraço,

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  4. Prezado irmão Gilson, parabéns pelo texto. A síntese perfeita de uma refutação cada vez mais necessárias aos nossos dias.

    Brilhante.

    É o meu mestre!

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    1. Meu mestre Marinho,

      Obrigado por ler a postagem. Sabedor da sua capacidade teológica fico feliz por seu comentário. Obrigado mesmo.

      Grande abraço.

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  5. Caro Gilson seu blog sempre cuidando da sã doutrina, parabens. Vagner Lopes

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    1. Caro Vagner,

      Obrigado pela leitura da postagem. Me preocupo muito com a sã doutrina da igreja. Chego até mesmo a ser adjetivado por alguns de chato. O que posso fazer. Usando as palavras de alguém digo: minha mente está cativa a Cristo, portanto, não serei infiel a Ele e seus ensinamentos.

      Grande abraço,

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  6. Olá Gilson.Li o seu Perfil.Ótimo.Foi assembleiano por 20 anos.A pouco tempo conclui o ensino médio, tenho 46 anos.Assisto os cultos na igreja tabernáculo da fé(Unicista) Gostaria que vc. me citasse um passagem bíblica que por si só fechasse a doutrina da trindade, quero dizer uma passagem que não dependesse de outra passagem para completar a outra.A maioria dos livro que defende a trindade usam um triangulo equilátero, sem misticismo é claro, para representar a trindade. Só que nas passagens citadas, este triangulo sempre falta uma ponta. Por favor me envie a melhor que vc conhece, mas com as trés pontas.Obrigado.Deus te abençoe.Meu e-mail e lucasfch.lucas@gmail.com

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  7. Breve histórico


    No final do 1º século a Igreja travou forte batalha apologética contra o gnosticismo. Quem mais se destacou foi o Apóstolo João, como pode notar através de suas cartas e do Evangelho que escreveu o qual foi o último dos quatro Evangelhos e cujo propósito foi justamente combater a doutrina dos nicolaítas. A Igreja batalhou pela fé que uma vez foi dada aos santos e saiu vitoriosa. Mas, de resto, ficou os ebionitas de onde surgiram os monarquianistas modais, que criam num Deus de unidade absoluta (yachidh) e que se manifesta de diferentes modos. Também conhecidos como modalistas ou sabelianistas, pois o Bispo Sabélio foi quem mais se destacou na pregação desta heresia. Em 263 A.D., Dionísio de Alexandria enfrentou o próprio Sabélio, derrotando o sabelianismo. Em 1913 John Schepp fundou a seita “Só Jesus” trazendo à tona esta mentira hoje conhecida como unicismo. Daí veio a Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Palavra Original e o grupo “Voz da Verdade” da Igreja Voz da Verdade, entre outros. O unicismo não faz parte do movimento evangélico, pois nega uma doutrina fundamental do cristianismo: A Santíssima Trindade.

    Quando Tertuliano, escritor cristão de língua latina, criou a expressão “Trinitas”, que significa Trindade, ele não estava criando a doutrina da Santíssima Trindade, pois esta doutrina é bíblica e está provada no contexto bíblico desde o Pentateuco que data de cerca de 1400 a. C. e em toda a Bíblia.

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