sexta-feira, 29 de junho de 2012

NO MUNDO TEREIS AFLIÇÕES (Subsídio EBD)


Por Gilson Barbosa

As aflições da qual registra João 16:33 “tem referência a sofrimentos devido à pressão das circunstâncias ou ao antagonismo das pessoas”.[1] Na verdade tem o sentido de “pressão”, “aperto”. No Antigo Testamento o sentido é de qualquer coisa que é estreita, como em I Reis 6.1: “Disseram os discípulos dos profetas a Eliseu: Eis que o lugar em que habitamos contigo é estreito demais para nós”. Nesse caso o lugar onde morava o grupo de profetas sob a liderança de Eliseu tornou-se pequeno demais devido ao aumento dos discípulos. É um agente externo que proporciona o “aperto” e este gera aflição, angústia.  

Outro sentido ainda no AT é o de um povo sendo sitiado por um inimigo: “Ah! Que grande é aquele dia, e não há outro semelhante! É tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será livre dela” (Jeremias 30:7). Mas, também pode indicar uma imensa angústia que uma pessoa possa enfrentar em circunstâncias adversas, como por exemplo, a morte de uma pessoa muito querida: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; tu eras amabilíssimo para comigo! Excepcional era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres” (II Samuel 1:26).

O autor da lição que ora comentamos conduziu a interpretação do versículo bíblico (chave da lição) para o entendimento de aflição no sentido da ordem natural, ordem econômica e ordem física. No entanto, não é essa interpretação que deve ser dado ao texto que estudaremos. Se lermos atentamente o contexto do capítulo 16 notaremos que as aflições, ditas por Jesus e registradas por João neste versículo, são as perseguições que os discípulos sofreriam por servirem fielmente a Cristo e que todos os que servem verdadeiramente ao Senhor Jesus sofrerão. Os falsos crentes não passarão por nenhuma aflição, neste sentido, pois não são fiéis a Cristo nem aos ensinamentos bíblicos.  
   
No Novo Testamento a palavra grega que expressa “tribulação”, “aflição” ou “angústia” é thilipsis. “O termo português se deriva do latim tribulum, o instrumento de desterroar o rastelo, mediante o qual o lavrador romano separava a espiga da sua palha. Embora a tribulação possa esmagar-nos e ferir-nos, separa nossa palha do trigo, para que fiquemos separados para o celeiro do céu”.[2] Ela é uma realidade da qual, por fim, sempre resulta num bem maior, ainda que não queiramos sua presença. Os que dizem que o verdadeiro servo de Deus não pode sofrer angústia, aflição ou tribulação desconsidera a soberania de Deus nos Seus planos, na vida existencial da Sua Igreja e na de cada um de nós em particular.  

É verdade que muitas pessoas que estão aflitas, em aperto, são culpadas de sua própria conduta negativa e insensata, e por isso sua postura deve ser a de humilhar-se diante de Deus, dos homens e da situação. Muitos que hoje sofrem estão simplesmente “pagando” o preço das suas escolhas erradas. O próprio Deus não os eximirá do sofrimento, pois em sua Palavra está registrado: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna” (Gálatas 6:7). O trabalho do líder espiritual é aconselhar e ajudar as pessoas nesta situação, mas, nunca  tentar reconsiderar, reinterpretar ou anular os desígnios de Deus.    

Há três perícopes no texto de João 16. Primeiro são os versículos 1-15; o segundo 16-24; e o terceiro os versículos 25-33. Quando o evangelista João, em 16:33, escreve “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” referia as situações informadas por Jesus desde o primeiro versículo. O Senhor não escondeu dos seus discípulos que seriam expulsos da sinagoga e que até mesmo seriam mortos: “Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus” (v.2). Está aqui uma confissão negativa vindo da boca do próprio Jesus. No entanto, Ele não era desleal com seus amigos por isso os avisou sobre as aflições que passariam após Sua morte: “Tenho-vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis” (v.1); “Ora, estas coisas vos tenho dito para que, quando a hora chegar, vos recordeis de que eu vo-las disse. Não vo-las disse desde o princípio, porque eu estava convosco” (v.4). Vejo a Teologia da Prosperidade como desleal, pois mostra apenas “um lado da moeda”.

Jesus não disse que não teríamos aflições ou que possivelmente elas não existiriam, pelo contrário, afirmou que seus servos passariam por muitas circunstâncias adversas. Mas, no versículo 33 não tem haver com alimento, trabalho, roupa, dificuldades materiais em geral, mas, com as aflições advindas por conta da fidelidade aos ensinos de Cristo e por sermos seus seguidores.

O versículo principia: “Estas coisas vos tenho dito”. Que coisas são essas? Refere-se a tudo o que Jesus disse na noite em que deu aos seus discípulos as ultimas instruções (estão nos capítulos 14, 15 e 16). Por exemplo: que enviaria o Consolador, portanto, não ficariam como órfãos (14:16); que saber sobre as aflições que viria lhes proporcionaria confiança (16:1,4); que não poderiam nada se não permanecessem em Cristo (15:5); que através da confiança nas palavras de Cristo obteriam paz (16:33a).

Ter paz em momentos de dificuldades é a promessa de Jesus aos seus seguidores, e, é justamente isso o que muitos que se dizem servos de Deus não possuem quando se deparam com as aflições da vida cristã. A paz, nesse versículo, deve ser interpretada como subjetiva, ou seja, a tranquilidade e segurança promovida pela justificação e adoção em Cristo: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados. Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8:16-18). Parece que hoje em dia muitos crentes não sentem o gozo de serem salvos e adotados por Deus em Cristo Jesus. Precisam sempre de mais alguma coisa, e sempre material. Não basta serem “herdeiros de Deus”, das bênçãos espirituais. Não querem sofrer com e por Cristo.

É essa a continuação e a ideia do versículo 33 “No mundo tereis aflições”, ou tribulações. A causa da aflição é o fato de sermos servos fiéis a Cristo e não negarmos seu Nome diante da pressão “do mundo, da carne e do Diabo”. Estes elementos opõem-se contra Deus e Jesus Cristo. Muitos dizem que estão passando por aflições, mas, não é por defenderem a verdade do evangelho, nem a ortodoxia doutrinária, muito menos por serem fiéis seguidores de Jesus Cristo.

A expressão no mundo, neste versículo, deve ser entendida como os que perseguem a Igreja de Cristo, os opositores de Cristo, é mais uma antítese marcada dos ensinos do Senhor Jesus. É o espírito do anticristo. A ética e a moral deste mundo desafiam os autênticos servos de Cristo. Quantos líderes evangélicos têm sido escravos da corrupção financeira, ganância, ambição descontrolada, das malandragens, mentiras, imoralidades, meias-verdades, e por aí afora! Estes não podem dizer que passam por aflições, como a Bíblia diz que os servos do Senhor passariam. Na verdade tenho analisado que são os crentes mais simples, humildes, pobres de espírito, é que tem permanecido fiéis a Deus e aos ensinamentos da Sua Palavra. Tem gente falando pelos cantos da boca. Diz uma e outra coisa no mesmo instante, quase sempre suas palavras são contraditórias. Sugiro que não deixe de ler a postagem do pastor Augustus Nicodemus Afinal, o que está errado com a teologia da prosperidade? (Leia aqui)

No final da sua predição Jesus diz para que os discípulos tivessem ânimo, pois Ele havia vencido o mundo. Isso significa dizer que Cristo venceu o mundo no sentido de que combateu as heresias, o legalismo, a opressão satânica sobre as pessoas, a injustiça na aplicação das leis e não de que não haverá mais dificuldades para seus servos. Ele venceu “armado” com a verdade, justiça, firmeza, honestidade, franqueza, abnegação, moralidade e principalmente no cumprimento do projeto Divino pelo qual veio a este mundo: morrer vicariamente pelos pecadores.

Se Cristo venceu o mundo, por princípio e lógica, seus servos também vencerão se forem seus imitadores. Estêvão estava sendo apedrejado, mas, numa visão que teve, viu “a glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita”. O apóstolo Paulo podia dizer: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo” (Filipenses 3:7). Ser vencedor, segundo Jesus, não deve ser entendido no sentido físico ou material, mas, que apesar das muitas aflições dos justos o que nos aguarda é incomparável: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:18).

O apóstolo Pedro sintetiza, em suas palavras, o tema desta lição: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome” (I Pedro 4.12-16).

Engraçado! Eu nunca ouvi um pregador triunfalista, em seu sermão, dizer que é um enorme privilégio sofrer por Cristo, pelo evangelho e suas verdades, como Pedro atesta. Até parece que é mentira as notícias das agências missionárias que informam sobre perseguições às igrejas da China, Índia, Oriente Médio, Ásia, etc. Parece mentira que diariamente muitos missionários são perseguidos e mortos por pregarem o evangelho. Parece mentira que o evangelho da prosperidade tem sido defendido por aqueles que outrora pregavam a Palavra de Deus ortodoxamente. Parece mentira que estão pregando nos púlpitos de muitas igrejas evangélicas mensagens psicológicas, de autoajuda. Parece mentira que a mentira predomina nas mensagens de sermões encomendados e enlatados. Que Deus nos ajude!

Em Cristo,      



[1] WINE. W.E. Dicionário Vine. Ed: CPAD, p. 377.
[2] DOUGLAS, J.D. O Novo Dicionário da Bíblia. Ed: Vida Nova, p. 1630. 

2 comentários:

  1. Amado irmão Gilson, às vezes fico um tanto constrangido quanto a comentar cada uma de suas postagens e, por isso, faço um intervalo nos comentários entre uma e outra. Isso não ocorre por temor de que alguns considerem tratar-se de mera lisonja, mas para evitar aquela idéia de que não há propósito nos comentários,ou que simplesmente "está chuvendo no molhado". A questão para o momento é: Como não comentar um texto como este? Como não louvar a Deus por trazer fortalecimento à minha alma através da tua vida e do maravilhoso dom que Ele te deu?
    Neste comentário, gostaria de aconselhar os teus leitores. Pois, como não exortar a todos quantos tiverem acesso a esta mensagem a que não a negligenciem,a que não se endureçam contra ela,mas que tenham sensibilidade e vejam o evangelho em sua pureza sendo transmitido através dela?
    Meu amado (a) irmão (ã),você que conhece o Pb. Gilson Barbosa, conhece sua conduta, seu testemunho pessoal, familiar e ministerial e tem o privilégio de ouví-lo ou acessar o seu blog, leve a sério o fato de que toda semana ele está nos servindo através de uma palavra bíblica, uma palavra que emana de uma interpretação correta do texto e da unção do Espírito Santo. Fazemos um grande favor à nossa alma, quando aplicamos a genuina Palavra de Deus à nossa vida, nos arrependemos, confessamos os nossos pecados ao Senhor e buscamos a graça Dele para serví-lo piedosamente. Como o texto nos diz, isso nos trará "aflições", mas essas aflições são privilégios concedidos apenas aos fiéis(At 4.40,41;Fp 1.28, 29).
    Gilson, que Deus continue te abençoando e que Ele se agrade em despertar cada um de nós, que somos teus leitores, para que recebamos com mansidão a Palavra de Deus (Tg 1.21), transmitida fielmente através do teu ministério. Um grande abraço!

    Pr. Rosivaldo Sales

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  2. Meu nobre pastor Rosivaldo

    Louvo ao Senhor por sua vida. Sabemos que as escrituras não tem tido a devida relevancia nestes ultimos tempo e quando se encontra alguém preocupado na fidelidade da sua mensagem as pessoas se espantam. É uma pena. Que o Senhor te abençõe com todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus.

    Abraço e obrigado pelas palavras.

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