quinta-feira, 5 de julho de 2012

A ENFERMIDADE NA VIDA DO CRENTE (Subsidio EBD)


Por Gilson Barbosa

O comentarista desta lição abordou com muita propriedade o tema tentando evitar deixar espaço a entendimentos infundados.  As doenças e os sofrimentos existiram e existirão, no intercurso da vida dos que servem fielmente a Deus. Porém, os pregadores da Teologia da Prosperidade não admitem que os salvos em Cristo sejam acometidos de enfermidades:

A doutrina da prosperidade afirma que o cristão tem direito a uma saúde completa e perpétua e que deve esperar viver uma vida plena, isenta de doenças, e adormecer com a idade de 70 ou 80 anos, sem dor ou sofrimento. Aqueles que ficam aquém dessas expectativas não entenderam seus direitos ou deixaram de reivindicá-los com fé suficiente. (PIERATT, O Evangelho da Prosperidade)

Pode ser que a confusão seja uma interpretação inadequada de textos que associam a cura com a obra da expiação de Cristo, na cruz do Calvário. O texto de Isaías 53:4 diz que “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido”. Os adeptos da prosperidade da saúde física dizem que se Cristo levou nossas enfermidades na cruz então não as teremos mais. As respostas que dão aos crentes que sofrem com doenças é que: 1º) não sabem o direito à saúde física que possuem; 2º) não sabem usar a fé; 3º) precisam declarar, confessar, a cura.

A pergunta é: quando Cristo levou sobre si “nossas enfermidades e dores”? Se foi na cruz, então, de fato não deveríamos adoecer, pois, se Cristo nos garantiu a salvação na cruz, nos garantiria também a cura das doenças. No entanto observamos vários casos de enfermidades acometidas as pessoas que temiam ao Senhor, após a morte vicária de Cristo e sua ressurreição. Como explicar isso?

Bem: Temos de interpretar corretamente o texto de Isaías 53:4 a luz do seu contexto geral. O escritor Mateus fez menção do cumprimento desta profecia em 8:16,17: “Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos e curou todos os que estavam doentes; para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças”. O entendimento é que naquele exato momento, e não muito tempo depois na sua morte de cruz, enquanto Jesus expelia os demônios e curava os doentes a profecia de Isaías estava se cumprindo.

Cumpria-se em Cristo a profecia messiânica, pois, sabemos que o Messias deveria preencher requisitos proféticos que nenhuma outra pessoa teria. Mas, o que fazer com o texto de I Pedro 2:24?

... carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

Se lermos as cinco seções que compõem o versículo 24 (1-8; 9, 10; 11,12; 13-17; 18-25) não encontraremos nada que se assemelhe ao tema de doenças físicas. Portanto, “Cristo sofreu a maldição do pecado, aceitando a punição que os nossos pecados mereceram e provendo perdão e liberdade”[1], e essa deve ser a correta interpretação do versículo 24. O sentido do texto é espiritual e não material. Mas, ainda que alguém insista que esses textos devam ser entendidos no sentido de que a expiação de Cristo se estende a cura física, a expiação teria sido parcial e não total. Somente na eternidade com Cristo é que seremos livres de toda a dor do sofrimento: “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4).

Deve se destacar, na vida do salvo em Cristo, as duas origens das enfermidades: a queda de Adão e as doenças como provação Divina. Deus havia avisado a Adão sobre os efeitos de sua desobediência: “E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:16,17). É claro que Adão não morreu fisicamente no mesmo em que desobedeceu ao Senhor, mas, morreu espiritualmente (no sentido de separação da comunhão com Deus) e iniciou-se em sua vida física um processo de degeneração das suas células, o que culminaria na morte física. Nesse sentido o crente adoece da mesma maneira como adoece um ateu, espiritualista, cético, sectário, etc, pois, ainda regenerado e alcançado pelo sacrifício vicário de Cristo, continuamos carregando em nós o vírus do pecado de Adão: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (I João 1:7-9).

Outra origem é que Deus nos prova, e muitas vezes o elemento usado é uma enfermidade. Eu sei que não é agradável ouvir e falar sobre isso, mas, é bíblico. O apóstolo Paulo tinha um “espinho na carne” que o incomodava muito: “E, para que me não exaltasse pelas excelências das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de me não exaltar” (II Coríntios 12:7). O “espinho na carne” de Paulo foi permitido por Deus (“foi-me dado”) para que ele não se exaltasse pelas excelências das revelações que Deus lhe havia concedido, registrado nos versículos 1-4.

Alguém diz que Deus atende todas as orações dos salvos concedendo “bênção” e “vitória”, mas não aconteceu assim com Paulo: “Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (II Coríntios 12: 8,9).  Alguns comentaristas pensam que o problema físico de Paulo estavam nos olhos; são sugeridos os versículos abaixo:

Qual é, logo, a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho de que, se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos, e mos daríeis. (Gálatas 4:15)

Vede com que grandes letras vos escrevi por minha mão. (Gálatas 6:11)

Mas o sumo sacerdote, Ananias, mandou aos que estavam junto dele que o ferissem na boca. Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada: tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir? E os que ali estavam disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus? E Paulo disse: Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu povo. (Atos 23:2-5)

Temos de analisar, também, os casos bíblicos onde Deus não efetuou a cura nos seus servos. O profeta Eliseu foi um poderoso instrumento nas mãos de Deus. Por meio dele o Senhor efetuou diversos milagres e sinais miraculosos. Porém, no final da sua vida amargou uma enfermidade e morreu dela. O texto de II Reis 13:14,20 informa sua morte: “E Eliseu estava doente da enfermidade de que morreu...” [...] “Depois morreu Eliseu, e o sepultaram”. Os diligentes obreiros Timóteo e Trófimo também não foram curados: “Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago, e das tuas freqüentes enfermidades” (I Timóteo 5:23); “Erasto ficou em Corinto. Quanto a Trófimo, deixei-o doente em Mileto” (II Timóteo 4:20).

Tem muito crente dizendo que não aceita derrota na sua vida, e, uma destas “derrotas” são as doenças. Porém, acima de tudo deve estar à glória de Deus. Ele será glorificado na vida ou na morte. Mesmo homens piedosos, que dedicaram sua vida pregando sobre cura e “curando” em nome de Jesus milhares de pessoas, morreram de constantes enfermidades – é o caso dos fundadores das Assembleias de Deus no Brasil, Daniel Berg e Gunnar Vingren. Nós temos de ser sábios e entendermos os decretos eternos de Deus, Sua soberania e providência. Ademais em Salmos 41:1 está escrito: “O Senhor o sustentará no leito da enfermidade; tu renovas a sua cama na doença”.  

Há ainda outras origens à causa das doenças. Em primeiro lugar, ela pode ser um descuido pessoal com uma alimentação saudável. Hoje em dia a correria é tanta que passamos a desconsiderar que devemos balancear nossa alimentação adequadamente. Muitos cristãos comem mal, não no sentido de não fazer as refeições, mas, de abusar de uma alimentação não saudável. É necessário nos alimentarmos de maneira correta, pois de outra forma poderá nos trazer males prejudiciais a nossa saúde física. Em segundo lugar existe a ausência de exercícios físicos. Infelizmente muitos crentes pensam que é pecado praticar exercícios físicos. São cheios de maus hábitos, não fazem caminhada, não praticam nenhum tipo de esporte que visa auxiliar no combate às doenças. Depois não adianta reclamar com o Senhor, a culpa pode ser totalmente nossa. Em terceiro lugar algumas enfermidades são genéticas. São casos onde há um histórico familiar de certos tipos de doenças que passam aos descendentes. Cuidado! Esse fato nada tem haver com maldição hereditária.

Antes de concluir preciso pontuar dois fatos no texto bíblico da lição. O primeiro está no que disse Ezequias: “E disse: Ah! Senhor lembra-te, peço-te, de que andei diante de ti em verdade, e com coração perfeito, e fiz o que era reto aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo”. Note que o tempo do verbo usado em algumas frases está no passado. Isso não significa dizer que naquele momento o rei Ezequias estava passando por momentos difíceis porque havia deixado de ser fiel ao Senhor ou que havia pecado. Nem era uma espécie de um bom “depósito” que o rei tinha com Deus. Na verdade tratava-se de uma comovente petição que expressava sua lealdade a Deus. Ele reconhecia a grandeza de Deus. Além do mais ele não exigiu, nem decretou ou declarou sua cura, mas, virou o rosto para a parede, e orou humildemente ao Senhor. Quem desejar orar como Ezequias orou deverá ser tão fiel quanto ele foi ao Senhor.

O segundo ponto importante está em pelo menos dois acontecimentos na extensão da vida solicitada ao Senhor: “Vai, e dize a Ezequias: Assim diz o Senhor, o Deus de Davi teu pai: Ouvi a tua oração, e vi as tuas lágrimas; eis que acrescentarei aos teus dias quinze anos” (Isaías 38:5). Em primeiro lugar, Deus acrescentou quinze anos de vida a mais ao rei Ezequias, porém nestes, nasceu Manassés, que foi um dos piores reis em Israel. Ele levantou altares a Baal, plantou bosques místicos, adorou os astros do céu, dedicou altares nos dois átrios do Templo e ainda fez passar seu filho pelo fogo. A nota da Bíblia de Estudo de Genebra diz que “Ezequias, ao que tudo indica, estava sem qualquer herdeiro do sexo masculino. Ele viveu mais quinze anos (v.5). Manassés, seu sucessor ao trono, tinha doze anos de idade quando Ezequias morreu (II Reis 20:21 – 21:1)”.  Em segundo lugar, foi no intercurso destes quinze anos também que cometeu “um de seus maiores erros” – mostrar todos os tesouros que possuía a emissários da Babilônia: “E Ezequias se alegrou com eles, e lhes mostrou a casa do seu tesouro, a prata, e o ouro, e as especiarias, e os melhores ungüentos, e toda a sua casa de armas, e tudo quanto se achava nos seus tesouros: cousa nenhuma houve, nem em sua casa, nem em todo o seu domínio, que Ezequias lhes não mostrasse” (Isaías 39:2). Por esta causa, foi repreendido pelo profeta Isaías: “Então disse Isaías a Ezequias: Ouve a palavra do Senhor dos Exércitos: Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa, com o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado para Babilônia: não ficará cousa alguma, disse o Senhor. E dos teus filhos, que procederem de ti, e tu gerares, tomarão, para que sejam eunucos no palácio do rei de Babilônia” (Isaías 39:5-7).

Houvesse Ezequias morrido quando deveria morrer não teria passado por essas tristes experiências. Deus sabe o que é melhor para nós. Não reclame das circunstancias em que estás vivendo, prezado leitor. Ore e busque a Deus, mas deixe que a Sua vontade seja feita em sua vida: “Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?” (Isaías 45:9). Na cerimônia de casamento os cônjuges se comprometem a estarem juntos em todos os momentos: na doença ou saúde, na fartura ou escassez. O Senhor Jesus também fez esta promessa e ele é fiel e justo para cumprir: “Ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:20).

Da minha parte desejo a você leitor o que o apóstolo João desejou ao irmão Gaio: “Amado, desejo que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde, assim como bem vai à tua alma”. (III João 1:2)

Em Cristo,


[1] BIBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA, nota de 1 Pedro 2.24. 

2 comentários:

  1. A Paz do Senhor Irmão Gilson
    " Com singularidade descreve o verdadeiro sentido do texto em questão ,pois também não acredito na blindagem dos crentes .
    Porque a restauração da comunhão entre Deus e o homem é o propósito de todo plano divino em relação a humanidade, creio sim que Deus em sua soberania tem todo o poder para fazer ,o que, como, e quando quiser. mas temos que aceitar os seus desígnios ,que a vontade do Pai permaneça em vossa vida.
    Att
    Cido

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  2. Irmão Cido,

    Muito obrigado pelo sábio comentário. De fato como bem disse "temos de aceitar os desígnios" de Deus em nossa vida. Não somos soberanos e nem divindades. Só Ele sabe o que é melhor para nós. Grande abraço.

    Em Cristo,

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