terça-feira, 19 de março de 2013

POR QUEM CRISTO MORREU? (2ª Parte)

Por Gilson Barbosa

Não devemos fundamentar a salvação das pessoas tendo como base sentimentos e emoções humanas. Querer que todos se salvem não é o mesmo que a salvação de todos. Dizer que a expiação de Cristo tem poder ou é suficiente para salvar a todos, mas salva apenas algumas pessoas, é um ponto que todos concordam. A questão não está no alcance da obra de Cristo ou em seu valor, mas no propósito ou objetivo da vinda de Cristo neste mundo. Afirmar também que a expiação de Cristo é eficiente para salvar somente alguns com base na fé deles não resolve o dilema. Pensar assim é viver um contraditório e interminável ciclo confuso.

Expiação limitada ou ilimitada

Enquanto os arminianos creem que Cristo morreu por todos e cada pessoa indistintamente (universal ou limitada), os calvinistas creem que o propósito de Cristo na expiação tem por objetivo assegurar a salvação apenas dos eleitos de Deus (intencional ou ilimitada). Antes que alguém diga que esse entendimento calvinista é mais filosófico do que teológico, eis as provas bíblicas:
           
               Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (João 10:11);

            Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível. (Efésios 5:25-27)

            Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. (Atos 20:28)

            Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. (Mateus 26:28)

            Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos. (João 11:50-53)

            Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. (Romanos 8:32-34)

            Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste; eram teus, e tu mos deste, e guardaram a tua palavra. Agora já têm conhecido que tudo quanto me deste provém de ti; Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste. Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. (João 17:6-9)

            E por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna. (Hebreus 9.15)

            E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação. (Apocalipse 5.9)

Estes versículos apontam que Cristo morreu intencionalmente para salvar uma determinada classe de pessoas, ou seja, sua igreja, seu povo. Mas, verdadeiramente há alguns versículos que parecem afirmar que Cristo morreu por “todos” ou para “salvar o mundo”. É necessário analisá-los para aplicarmos corretamente.

O significado bíblico de “mundo”

O fato de algumas passagens bíblicas, a respeito da morte de Cristo, trazer as expressões “mundo” e “todos” deduziu-se daí o entendimento de que Cristo expiou os pecados de toda a humanidade. No entanto, um exame cuidadoso destas palavras poderá dar o significado preciso. Nem sempre uma coisa é o que parece ser e às vezes determinadas interpretações bíblicas não passam de literalismo. Geralmente os equívocos a respeito das doutrinas, onde as expressões são enunciadas, desconsideram os contextos imediato ou amplo. 

Por exemplo, a palavra mundo pode significar: 1º) O universo ordenado, que é seu sentido clássico; 2º) a própria terra; 3º) designa os habitantes humanos da terra; 4º) a humanidade sujeita ao juízo do Criador, e alienada dele, no sentido ético; 5º) o povo que estava ao redor de Cristo, tanto gentios como judeus; 6º) pode significar o reino de forças más, tanto de natureza angélica (maligna) como de natureza, relacionado com a terra; 7º) classes de homens de toda a tribo e nação, mas não de todas as tribos e nações, em sua totalidade. (TULIP, Os cinco pontos do calvinismo à luz das escrituras, pg 42, 43). 

Forçar o significado de “mundo” para que tenha apenas o sentido de “todas ou cada pessoa que vive sobre a terra” é violentar a gramática. Isso está muito claro, por exemplo, em Lucas 2:1: “Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando todo o mundo para recensear-se”. Como diz Sproul esse censo não incluía os habitantes da China ou América do Sul, “portanto todo mundo não se refere a todas as pessoas no mundo inteiro”.

Os fariseus desanimados porque muitas pessoas davam atenção à Cristo disseram: “Vede que nada aproveitais! Eis aí vai o mundo após ele”. A expressão “mundo” aí se trata das pessoas que estavam ao redor de Cristo. 

Versículos com a expressão “mundo”

        Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3:16)

Assim, a expressão de que “Deus amou o mundo de tal maneira” refere-se a “homens de todas as tribos e nações”, ou seja, nacionalidades, gerações e classes de pessoas, e não significa “toda a humanidade ou cada pessoa”. Entender que Deus amou o mundo, mas que algumas pessoas não serão salvas ou a realidade daquelas que estão no inferno, faz deste amor um sentimento sem sentido, inexpressivo e frustrante à própria Divindade. Não faz nenhum sentido dizer que ele amou o mundo e depois verificar que o resultado deste amor universal não teve eficácia para salvar a todos. Ele amou a todos, mas nem todos serão objetos deste amor? Como pode ser isso?   

Outros versículos onde a palavra “mundo” aparece:

              No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. (João 1:29)

            E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. (I João 2:2)

                 Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. (II Coríntios 5:19)

            E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo. (João 4:42)

O dilema judaico no âmbito religioso 

Como entender esses versículos? Não estariam afirmando que Cristo expiou os pecados de toda humanidade? A explicação é a seguinte: Não podemos desconsiderar o endereçamento dos livros bíblicos (os destinatários originais) e a importância dos judeus dentro do plano salvífico do Senhor. Recorde que Jesus disse à mulher samaritana que a salvação provinha dos judeus (João 4:22). No capítulo 3 de Romanos o apóstolo Paulo advertiu os judeus sobre o orgulho religioso deles, após declinar a calamitosa situação dos gentios (Romanos 1). Para os judeus religiosos a salvação era uma realidade apenas nacional. Para serem salvos, todas as demais pessoas tinham de se “converter” ao judaísmo. Foi por isso que aconteceu o primeiro Concílio da igreja primitiva, em Atos 15 – para tratar e corrigir esses tipos de questionamentos.

Entretanto, o propósito de Deus para a salvação sempre foi a reunião de todos os povos, línguas e nações (Apocalipse 5:9). Isso estava além do entendimento  e da aceitação dos judeus. Porém, o evangelho de Cristo teria de ser anunciado não somente em Jerusalém, mas em toda a Judeia, Samaria e até aos confins do mundo (Atos 1:8). Alguns apóstolos dedicaram suas vidas na pregação do evangelhos aos seus patrícios judeus, tais como Pedro e João. Outros, como Paulo, era um apóstolo dos gentios (Atos 9:15; 15:3; Romanos 3:29; 11:11). Agora que o evangelho estava sendo pregado as demais nações e estrangeiros estavam se convertendo a Cristo pela pregação apostólica muitos judeus se ressentiram deste fato. Leia Efésios 2:11-17 e entenda o propósito de Deus em unir judeus e gentios no plano glorioso da salvação:

            Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto.

Judeus e gentios: um só corpo

Desta forma os versículos que trazem a expressão “mundo” objetiva mostrar aos judeus daquela época que a igreja de Cristo era constituída de judeus e gentios, e por mais que a salvação fosse apresentada primeiramente a Israel (Mateus 10:6) o objetivo de Deus era que o evangelho alcançasse o mundo todo (Mateus 28:19). Este fato nada tem haver com cada pessoa particularmente, mas com povos, tribos, línguas e nações. Leia os versículos acima – onde aparece a palavra “mundo” – com esse pano de fundo e você entenderá corretamente o uso da expressão.

Na obra teológica de Alan Myatt & Franklin Ferreira (Editora Vida Nova) há uma importante menção deste fato:

            Uma das razões para o uso dessas expressões era corrigir a noção falsa de que a salvação era apenas para os judeus. Frases como “o mundo”, “todos os homens”, “todas as nações”, “toda a criatura”, eram usadas para corrigir esse erro. Essas expressões eram usadas para mostrar que Cristo morreu para todos os homens sem distinção (isto é, Ele morreu tanto para judeus como para gentios), mas elas não pretendem indicar que Cristo morreu por todos os homens sem exceção (isto é, Ele não morreu com o propósito de salvar todo e qualquer pecador perdido).

A salvação é obra exclusiva de Deus

Não esqueça que o valor da morte de Cristo poderia expiar os pecados de todo o mundo, nisso concordam arminianos e calvinistas, mas, uma vez que nem todos são salvos segue-se que a eficácia da morte de Cristo foi somente para aqueles a quem o Senhor elegeu (conforme os versículos citados nesta postagem). A questão não é de valor, mas de proposito, objetivo. 

Deixar a salvação nas mãos dos homens é pura perda de tempo e muito arriscado. A salvação vem do Senhor. É do Senhor. É obra da graça. Nisso não há nenhum mérito humano – ainda mesmo a fé produzida a esmo pelo pecador (segundo o entendimento arminiano).

            Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8,9)

Somente a Deus seja a glória!

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