quarta-feira, 30 de maio de 2012

QUEM É O CULPADO POR ESSA DECADÊNCIA?


NOTA: Apesar desse artigo não focar a questão teológica nas músicas evangélicas, e sim o aspecto estético, achei interessante incluí-la neste blog, pois, o autor considera alguns pontos importantes: 1) a manipulação da mídia cristã; 2) o envolvimento de cantores e bandas com gravadoras não evangélicas; 3) a única preocupação com lucros e vantagens que o sucesso proporciona; 4) a imitação de estilos musicais e melodias de outros cantores ou bandas; 5) a repetição e igualdade de melodia e letras, músicas onde o cantor fica repetindo o refrão por um longo tempo, etc. 

Se quiser ler uma breve reflexão teológica acerca da música evangélica (leia aqui)   

por César Ricky

Estou aqui queimando alguns neurônios tentando me lembrar de algum lançamento realmente impactante da música cristã em 2010 (nacional e internacional). Entenda o que eu disse: lançamento impactante.

Certamente bons CDs foram lançados. Mas estou em busca daquele que marca, que te faz ouvir por diversas vezes e pensar como os caras conseguiram fazer algo tão bom.

Alguns CDs, em anos diferentes, me trouxeram essa sensação. Vou citar os principais albuns cristãos que me causaram esse impacto: Iona – Open Sky, Deep Still – Authentic Celtic, David Crowder Band – Can You Hear Us, Delirious – Glo, Burlap to Cashemere – Anybody Out There?, Kaiser/Mansfield – Slow Burn, Third Day – Come Together, Vineyard UK – Beautiful, Kevin Prosch – Acoustic, The Insyderz – Skaleluia, Michael W. Smith – Freedom, The Verra Cruz – Innocence, Galactic Cowboys – Galactic Cowboys,  Tourniquet – The Collected Works, DC Talk – Freak Show, Som da Chuva – I, Darrell Evans – Freedom.

Claro, toda lista de CDs tem a influência do gosto da pessoa que escolhe. E é lógico que alguns desses CDs causaram mais impacto na época em que foram lançados do que agora, até porque muitos deles foram exaustivamente copiados por outras bandas. Mas se você observar atentamente coloquei CDs de diversos estilos musicais e de anos diferentes, alguns tem até um apelo mais comercial. Outra coisa interessante é que nessa lista tem CDs que foram lançados no mesmo ano, o que para mim demonstra terem feito parte de um período muito criativo da música cristã.

Fica aqui uma observação. Algumas das bandas que citei ainda nem são muito conhecidas, outras, lançaram esses excelentes CDs antes de fecharem contrato com as grandes gravadoras – o que de certa forma, demonstra que não eram manipulados artisticamente. E algumas dessas bandas acabaram (Galactic Cowboys, Burlap to Cashemere, The Insyderz, DC Talk).

O que me assusta muito quando converso sobre música cristã com algumas pessoas, é como tudo está nivelado por baixo. Ouço cada absurdo chamado de “excelente trabalho musical” que chego a ficar assustado. Sites e revistas cristãs costumam ser medonhos, porque são raros os que chamam de bom aquilo que é bom de verdade. A grande maioria da mídia cristã, que é manipuladora, vendida e medíocre (além de altos casos de puxa-saquísmos para quem é a “bola de vez”) é uma das maiores responsáveis dessa nivelação tão baixa no que diz respeito a qualidade musical.

Não estou escrevendo esse texto como músico de uma banda independente que faz um tipo de som praticamente anormal para os padrões mercadológicos. Estou escrevendo como consumidor e admirador da BOA música, vou frisar novamente: BOA música, não esse lixo enlatado que você compra na Conde de Sarzedas (famosa rua de comércio gospel da cidade de São Paulo) ou que você vê nas Expocristãs da vida (com mais que raríssimas exceções).

É engraçado que até mesmo os sites cristãos, que deveriam ajudar no “aculturamento” musical tornaram-se responsáveis por divulgar as coisas mais imprestáveis possíveis. As gravadoras e distribuidoras de CDs (que se dizem cristãs, mas o título cristão se refere apenas ao estilo de música, porque o objetivo mútuo é grana), algumas até com nomes estrambolicamente espirituais, já deixaram de apoiar os que tentam fazer algo interessante musicalmente para ficar com a “mesma mesmice de sempre”. Por quê? Porque o deus-grana precisa abençoar a conta bancária dos donos!

É difícil achar um único culpado na decadência da música cristã.

Os próprios pastores e ministros de louvor de igrejas manipulam o povo com a música que se deve ouvir ou não. Quer apostar? É só ver quais são as músicas cantadas nas igrejas durante o período de louvor. Outra forma de observar isso, é ver quais são os grupos ou artistas que cada igreja concorda em levar – falo isso com conhecimento de causa, já vi e participei dessas reuniões em vários lugares. A verdade é que o povo é manipulado o tempo todo. Muitas vezes os próprios pastores são manipulados pelos membros do grupo de louvor, que na grande maioria tem suas opiniões niveladas com o baixo nível do que se consume de música cristã.

Tem casos de igrejas que convidam determinado músico/artista/ministro de louvor, só para ver se consegue pegar uma “carona” no sucesso momentâneo do sujeito, ou mesmo se tornar “a igreja da vez” por levar o “artista da vez”. Infelizmente, raros são os que convidam grupos porque gostam ou admiram o trabalho.

É duro ter que revelar certas verdades, mas acho que já passou do tempo da igreja ter cérebro. Além de ser um lugar espiritual, precisa ser um lugar de pessoas pensantes e críticas, para não fircar engolindo todo tipo de besteira que engole ano após ano.

Os próprios artistas são culpados por isso. Alguns que se submetem a perda da autênticidade após a realização do sonho de fechar com uma gravadora e ter todo tipo de benefícios possíveis (carros, apartamentos, cirurgias plásticas – nos casos mais extremos de gravadoras grandes). Outros, por serem simplesmente imbecis em busca do sucesso abandonam sua idéia inicial de fazer algo que é seu para copiar outros. Desde que os músicos cristãos descobriram a fórmula “U2 – Coldplay” de se fazer música, nada de novo foi criado (obs: todo meu respeito ao U2 e Coldplay, que não tem culpa de serem plagiados). Sem falar no incontável número de artistas cristãos que tentam deixar seu estiloparecido com o do “artista da vez” ou se aproximar de artistas mais respeitados paenas para impulsionar suas carreiras.

Acho interessante que muitos músicos que tocam para os artistas cristãos promotores de lixo musical, tem uma concepção musical diferente dos seus patrões. Conheço muitos que são aficcionados por jazz, amantes de músicas de boa qualidade. Mas na hora de fazerem a diferença e colocarem a cara para bater mostrando algo novo e bem feito, se acovardam pela presença do deus-grana. Ou seja, criatividade e autenticidade são coisas banais que podem ser deixadas de lado quando descobre-se que o caminho ao lado delas não é tão fácil e e cheio de glamour.

Que vantagem tem para um músico que diz ser autêntico ficar tocando covers de suas bandas favoritas ao invés de compor sua própria música? Uma música ou outra, tudo bem, mas um CD inteiro! Para aqueles que se dizem adoradores, que vantagem tem ficar gritando “Jesus, eu te amo” feito um louco, por 5 ininterruptos minutos sendo que o Senhor nos deu inteligência o suficiente para sermos mais poéticos e sinceros em nossas adoração?

Nós, consumidores cristãos de música precisamos pensar mais, precisamos colocar nossos cérebros para funcionar e sermos mais críticos quanto ao que nos vendem. A igreja tem o prazer de criticar os programas de TV de domingo à tarde, acusando-os de serem os responsáveis por todo lixo de música esdrúxula que se consome no Brasil – o que é fato. Mas é essa mesma igreja, que de uma forma “gospel” consome outros tipos de lixo com o rótulo de cristão.

Os culpados por essa decadência são: Os artistas, as gravadoras e distribuidoras de CDs, a mídia, os pastores, os ministros de louvor, os músicos e o próprio povo que faz questão de deixar o cérebro guardado numa gaveta ao invés de pensar antes de engolir todo esse lixo musical.

Desisti, não vou mais queimar meus preciosos neurônios para tentar encontrar algo que se encontra em extinção: a criatividade musical na música cristã.


FONTE: http://www.artecomcristo.com/


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