sexta-feira, 25 de maio de 2012

LAODICEIA, A IGREJA MORNA (Subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa

O problema da igreja de Laodiceia era duplo: ausência de fervor espiritual e falsa espiritualidade. Contudo, tenho observado que há igrejas que possuem muito fervor espiritual, como a dos coríntios, mas, desconhecem o que é ser verdadeiramente e realmente espiritual. Dos dois, a prioridade deve ser que a igreja desenvolva uma real e verdadeira espiritualidade. Isso pode ser confirmado pelo pastor Antonio Gilberto (Lições Bíblicas, 2º trimestre de 2009):

           Os crentes de Corinto tinham dons espirituais (1.7), mas muitos eram imaturos, insubmissos,   ignorantes da doutrina reveladora dos dons, além de carnais. Em uma igreja é possível haver crentes fervorosos, que gostam de movimento e agitação sem, contudo, haver espiritualidade real, advinda do Espírito Santo. Às vezes o que parece fervor espiritual é mais emocionalismo, resultante de motivações e mecanismos externos. Tal fervor é passageiro, ao passo que a verdadeira espiritualidade está intimamente relacionada ao exercício da piedade e da vida cristã consagrada (Ef 4.17-32). 

Os pentecostais (exclusivamente da Assembleia de Deus) sabem que o pastor Antonio Gilberto confessa a teologia do batismo com o Espírito Santo (com a evidencia das línguas estranhas) e dos dons espirituais, mas, na citação acima ele deixa claro haver dois grupos entre os pentecostais: os fervorosos e os que são realmente espirituais, mas ambos estão envolvidos nos dons carismáticos. Isso por si só já cria um problema, pois, quase todos não discernem essa questão. Por mais que “estudem” a doutrina pentecostal, a confusão permanece.

A Igreja de Corinto possuía fervor espiritual, mas, um falso conceito de espiritualidade; a de Laodiceia não tinha fervor espiritual, mas possuía, também, um enganoso conceito de espiritualidade. Situações espirituais e conceituais muito parecidas. Essa questão serve de alerta para as igrejas evangélicas da atualidade a que prefiram uma vida piedosa e santa a tentar exibir um aparente fervor espiritual. A maior diferença entre as duas é que podemos encontrar dentro da igreja de Corinto alguns crentes piedosos e tementes ao Senhor, já os crentes laodicenses pensavam que ainda serviam a Deus, porém, o Senhor Jesus estava do lado de fora da igreja. Foi necessário uma intervenção Divina.

São três as descrições de Cristo ao pastor da igreja laodicense: o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, e, o princípio da criação de Deus. A expressão Amém é mais bem entendida dentro do contexto do Antigo Testamento. Tratava-se de uma confirmação, dos que rendiam culto à Deus, daquilo que se havia ouvido, como em I Crônicas 16:36: “Louvado seja o Senhor Deus de Israel, de século em século. E todo o povo disse: Amém! e louvou ao Senhor”. Servia também como uma conclusão para uma doxologia: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja, irmãos, com o vosso espírito. Amém!” (Gálatas 6.18). A descrição fiel e verdadeiro tem o mesmo sentido da expressão Amém e significa que Jesus é indubitavelmente verdadeiro em suas palavras: “E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis” (Apocalipse 21.5). A descrição princípio da criação de Deus não deve ser entendida no sentido passivo, como se Jesus fosse um ser criado, mas, que Ele é a origem da criação. A palavra “princípio” no idioma original é arque e no caso de Jesus significa que é o Criador do mundo, o arquiteto, a fonte da criação: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades: tudo foi criado por ele e para ele” (Colossenses 1:16). Essas descrições significam que aquilo que Jesus está falando da igreja laodicense é verdadeiro, tem fundamento firme e é digno de confiança.  

Os crentes laodicences se tornaram apáticos, anêmicos, indiferentes, secularizados, espirituais insensatos, e, portanto, a temperatura cristã da igreja era morna: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (v.15). Jesus ironicamente diz conhecer as obras deles, mas o fato é que não viviam uma vida de serviço ao Senhor, não exerciam a santidade, não eram tementes nem piedosos, não se importavam com o serviço cristão, e o pior de tudo: pensavam que estavam espiritualmente bem (pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma). Quantos crentes e igrejas possuem um falso conceito de santidade e espiritualidade. Divorciam-se banalmente de seu cônjuge e casam-se novamente, fazem negócios a espreita com os dízimos e ofertas do Senhor, sabem as exigências da Lei do Senhor (a Escritura Sagrada), mas, transgridem abertamente seus preceitos e doutrina. Deus há de fazer justiça!

Aspectos da cidade laodicense são empregados por Jesus para admoestar a igreja. O pastor Hernandez Dias Lopes comenta que Laodiceia

Era um centro das águas térmicas. A região era formada por três cidades: Colossos, Hierápolis e Laodiceia. Em Colossos ficavam as fontes de águas frias, e, em Hierápolis, havia fonte de água quente que, em seu curso sobre o planalto, tornava-se morna e, nessa condição, fluía dos rochedos fronteiriços com a Laodiceia. Tanto as águas quentes de Hierápolis, como as águas frias de Colossos eram terapêuticas, mas as águas mornas de Laodiceia eram intragáveis.

A água morna fala da vida cristã nominal, de um cristianismo sem vigor, débil, totalmente desagradável ao Senhor – ainda que contenha algum tipo de obra. Os estudiosos dizem que as águas de Laodiceia eram medicinais, pois possuía bicarbonato de cálcio, mas, ingerido em temperatura morna causava náuseas. Usando as águas mornas de Laodiceia como exemplo Jesus ensina uma lição espiritual àqueles crentes. Mas, mesmo na situação caótica Jesus demonstra a graça do evangelho quando pacientemente diz que estava a ponto de vomitar-lhes da sua boca, ou seja, o Senhor estava dando tempo para que os crentes se arrependessem dos seus pecados e retornassem a Ele. Os crentes estavam enganados quanto à espiritualidade vivida pessoalmente. Pensavam que o Senhor se agradava deles e aos poucos colocaram o Senhor Jesus pra fora da igreja e ainda por cima fecharam a porta. Quantas igrejas estão vivendo uma falsa espiritualidade e um iludido avivamento. Temos de repensar o que de fato é servir a Cristo verdadeiramente.

Os crentes laodicenses eram socialmente ricos, pois a própria cidade era próspera e rica. Eis aqui uma sugestão aos pregadores da Teologia da Prosperidade: preguem sobre a prosperidade dos crentes laodicenses e os tomem como modelo de pessoas “abençoadas” materialmente pelo Senhor. Duvido que alguém deles ouse pregar tal sermão.

Afirmavam os crentes laodicenses: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma”. Como afirma o pastor Hernandez Dias Lopes

O problema da igreja de Laodiceia não era teológico nem moral. Não havia falsos mestres, nem heresias. Não havia pecado de imoralidade nem engano. Na carta, não há menção de hereges, de malfeitores, nem de perseguidores [...] A vida espiritual da igreja era morna, indefinível, apática, indiferente e nauseante. A igreja era acomodada. O problema da igreja não era heresia, mas apatia.

Porém, ainda que fossem socialmente ricos, a riqueza e fartura que diziam ter deve ser entendido, pelo contexto, como riquezas espirituais. Ou seja, pensavam que a ausência de pobreza material, heresias, pecados imorais, eram sinais da aprovação divina. Simon Kistemaker informa um fato importante a esse respeito:

La evidencia indica que la iglesia había adoptado las normas de Laodicea y las había transferido al ámbito espiritual. Por ejemplo, la ciudad, conocida como centro financiero, construyó edificios, puertas y torres grandes poco después de que el terremoto hubo destruido la ciudad. Se enorgullecía de ser independiente y de su capacidad para ayudar a sus vecinas que habían sufrido el mismo desastre. Los miembros de las iglesias estaban muy de acuerdo em mostrar independencia y en ayudar a los vecinos. En consecuencia, no llegaron a ver la diferencia ente riqueza material y espiritual. Se jactaban de su autosuficiencia y no necesitan a Cristo. Eran espiritualmente ciegos.

Tornaram-se sem nenhuma capacidade de auto avaliação e consideravam-se autossuficientes. Aos olhos de Cristo, porém, a igreja encontrava-se num terrível estado: infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Ouvi um sermão de um pastor presbiteriano analisando que a boa condição social (honorários) que o ministério proporcionava aos seus pastores poderia fazê-los independentes da ajuda do Senhor. Nessa linha o Senhor sugere a igreja laodicense:

Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.

O ouro refinado pelo fogo, as vestes brancas e o colírio para ungir os olhos contém lição espiritual no que respeita a salvação dos crentes: redenção, justificação e santificação. A linguagem utilizada é a de um mercador. Isso lembra uma passagem do Antigo Testamento (Isaías 55:1):
  
Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite.  

Costumo dizer que a igreja local é, na verdade, uma comunidade de pecadores – ainda que redimidos. Se os crentes laodicenses pensavam que estavam espiritualmente bem, Cristo os informa que estavam enganados. Não deviam se julgar tão santos assim, pois não eram. Deveriam reconhecer a soberania e o domínio do Senhor Jesus Cristo. Deviam reconhecer que é Cristo quem graciosamente nos salva. Tinham de se humilhar, arrepender e adquirir de Cristo o ouro (redenção), as roupas (justificação) e o colírio para os olhos (santificação). Pra mim está nítido que a igreja de Laodiceia necessitava de regeneração.  Talvez a nova geração nem achasse que precisava disso, pois estava indiferente a realidade de que eram infelizes, miseráveis, pobres, cegos e se achavam nus.
Cristo admoesta dizendo algo que algumas lideranças pastorais da atualidade  desconhecem ou fingem desconhecer: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te”. Isso significa que Cristo usa a repreensão e disciplina para o nosso bem espiritual porque nos ama, e não que as adversidades são todas, e absolutamente, de origem diabólica. O amor de Deus não é fraco, displicente, banal, irresponsável, mas vigoroso, forte, previsível.

Deveriam se arrepender da indiferença, comodismo e mornidão espiritual. Tinham de receber a Cristo em suas vidas, coloca-lo no seu devido lugar na igreja: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”. Aplicamos esse versículo para pecadores não regenerados, mas aqui, Cristo aplica a uma igreja que se considerava espiritual. Precisamos avaliar a primazia dos elementos da fé cristã em nossa vida espiritual. É imprescindível que oremos, leiamos e estudamos a Bíblia Sagrada, sejamos santos, pratiquemos os ensinamentos cristãos, etc. Cristo quer ter plena comunhão espiritual com seus eleitos; ele deseja cear conosco. É necessário confessarmos nossos pecados a ele. Fazendo assim ele nos promete: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono”.

Aquele que triunfar em/com Cristo receberá o privilégio de sentar-se com Cristo no seu trono. A expressão “sentar-se no trono comigo” é apenas uma metáfora simbolizando a honra dos crentes salvos, pois terão o privilégio de julgar as doze tribos de Israel, o mundo e os anjos:

Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. (Mateus 19:28)

Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois, acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!” (I Coríntios 6:1,2).

A universalidade da (s) carta (s) é comprovada pela conclusão: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Nenhuma igreja pode alegar desconhecimento do seu estado espiritual. Todas receberam a mensagem de Cristo, quer seja de louvor ou elogio, de censura ou reprovação, e promessa. Os crentes laodicenses precisavam confiar plenamente em Cristo, obedecerem a sua mensagem e tornarem-se verdadeiros servos de Cristo. Essa mensagem serve de alerta para a igreja evangélica da atualidade que pensa estar bem espiritualmente, mas não passa de um ajuntamento religioso; precisa de vigor espiritual, apesar do poder econômico e financeiro; precisa confessar seus pecados, ouvir o convite de Cristo e cear com ele.  

Que o Senhor nos ajude!


Em Cristo,

2 comentários:

  1. Amado irmão Gilson, Deus lhe abençoe por cada uma das postagem sobre as sete igrejas da Ásia. O grande desejo do meu coração é que os professores e superintendentes da escola bíblica dominical de cada igreja, estejam usando esses subsídios para enriquecer as suas aulas, assim como tenho usado para enriquecer o meu conhecimento. Fico imaginando: Quem sabe um dia você não transforme os textos do seu blog em um grande livro? Seria maravilhoso! Grande abraço!

    Pr. Rosivaldo Sales

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  2. Pr Rosivaldo,

    O senhor é de fato uma pessoal muito gentil. A sugestão da produção de um livro foi fantástico. Tê-lo como amigo e leitor deste humilde blog é uma grande honra pra mim, dado o seu conhecimento bíblico e teológico.

    Grande abraço,

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