sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A DIVISÃO ESPIRITUAL NO LAR (subsidio EBD)

Por Gilson Barbosa


É preciso ficar bem claro que apesar desta lição tratar de casamentos mistos, em hipótese alguma serve de chancela para que um crente se case com alguém que não professa a mesma fé. Semelhante ordem está tanto no Antigo Testamento quanto no Novo. Você deve se lembrar da repreensão de Esdras quanto a alguns entre o povo de Deus que haviam contraído matrimonio com pessoas fora da aliança (mulheres pagãs): “ Então o sacerdote Esdras levantou-se e lhes disse: “Vocês têm sido infiéis! Vocês se casaram com mulheres estrangeiras, aumentando a culpa de Israel” (Esdras 10:10).

Esdras ficou tão atemorizado que ordenou a dissolução desses casamentos: “ Agora confessem seu pecado ao SENHOR, o Deus dos seus antepassados, e façam a vontade dele. Separem-se dos povos vizinhos e das suas mulheres estrangeiras” (Esdras 10:11). Neemias, bem como os demais, temiam que a mistura de israelitas com mulheres estrangeiras acabasse levando-os a práticas contrárias às que Deus havia determinado à Israel. Paulo aconselha o casamento contanto que o pretendente “pertença ao Senhor” (I Coríntios 10:39). Assim, a orientação do apóstolo Paulo é direcionada aos cônjuges onde um deles não tinha se decidido a fé cristã, depois de certo tempo casado. Como resolver esse impasse? Este assunto é tratado na sua primeira carta aos Coríntios (7:12-16).

Tornou-se um problema na igreja quando o marido era crente e a esposa incrédula, ou vice-versa. Não que o casamento fosse ilegítimo, pois, o Senhor Jesus havia dito que ninguém separasse o que Deus uniu (Mateus 19:6). O que Deus une não é necessariamente uma determinada pessoa com outra, mas sim, homem e mulher (Mateus 19:4) em matrimônio. A importância está no matrimônio e não diretamente nas pessoas. Nisso está a importância do exercício da oração na escolha do cônjuge certo.

Como Cristo não abordou os casamentos mistos em seu ensino, Paulo fala com autoridade própria:  “Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor” (7:12). E o que ele diz? “Se algum irmão tem uma esposa não crente e ela consente viver com ele, não se divorcie dela”. Mesmo nesse caso o casamento não deve ser dissolvido. Russel Champlin informa que “nos seus primeiros tempos, o cristianismo era extremamente impopular, e um cônjuge incrédulo podia ser um perseguidor em particular de se cônjuge crente. Porém, nem mesmo nesses casos extremos o crente podia tomar a iniciativa na instauração do processo de divórcio”.[1]

Mas, também pode ter o sentido de que apesar de uma das partes se converterem a fé cristã o casal viva a vida harmoniosamente. Temos conhecimento de pessoas crentes que estão nesta situação e que vivem em mútuo e recíproco respeito. Se a parte não convertida sente-se feliz em viver com a que entregou sua vida à Cristo Paulo orienta que não se deve pensar em divórcio e que o casamento deve ser mantido: “ E se qualquer mulher tiver um esposo incrédulo, e ele consentir viver com ela, que ela não se divorcie dele”. O versículo 12 trata a respeito do irmão (o homem), já o versículo 13 a respeito da irmã (mulher). Não há diferença, apesar dos direitos serem iguais.

O consentimento de manter o casamento por causa da fé não anula as dificuldades comuns em todo casamento. Neste caso, porém, o cônjuge crente possui responsabilidade maior, devido às implicações da fé que professa. Todo o cuidado é pouco e a recomendação é prudência, vigilância e sabedoria. Não viver piedosamente a fé pode incutir desconfiança no outro. Porém, atitudes de fanatismo facilmente irritará a pessoa. Há irmãs (ãos) que dedicam todo seu tempo à igreja e ao ministério dado por Deus, mas que se descuidam dos afazeres domésticos, da criação dos filhos, de separar um momento recreativo, e, como afirma o comentarista da lição o esposo (a) incrédulo (a) não compreenderá e julgará que a igreja está atrapalhando o bom andamento do lar. A orientação é agir com sabedoria até mesmo quando o incrédulo começa a colocar obstáculos para que o crente prossiga na sua jornada espiritual e na fé cristã.

O versículo 14 apresenta a razão pela qual a mulher crente não deve se divorciar do esposo incrédulo, e vice-versa: “Pois o marido incrédulo foi santificado por sua esposa [cristã], e a esposa incrédula foi santificada pelo marido [cristão]; de outra forma seus filhos seriam impuros, mas agora são santos”. Em que sentido um cônjuge pode ser santificado?

William Hendriksen esclarece que “Paulo não está dizendo que um marido ou esposa não crente tornou-se moralmente santo por meio de seu cônjuge cristão. Não, o homem não é capaz de santificar ou salvar um semelhante. O que o apóstolo quer dizer é que um cônjuge não-crente que convive intimamente com um parceiro cristão sente a influência da santidade”.[2] Significa que mediante seu testemunho de cristão o cônjuge crente consegue influenciar o não crente levando-o a ser atraído para a mesma fé que professa. O uso dos meios da graça (leitura da Bíblia, oração) e até mesmo o culto doméstico “santifica” o lar por meio da consagração dele por estes elementos. Em outras palavras, não haverá palavras de baixo calão, conflitos físicos, violência psicológica, bebedeiras, imoralidades, etc. Até mesmo os filhos nascidos antes ou depois da conversão são santos: “... de outra forma seus filhos seriam impuros, mas agora são santos”.

Esse entendimento deve ser similar aos filhos dos israelitas que nasciam sob o pacto de Deus com seu povo: “ Esta é a minha aliança com você e com os seus descendentes, aliança que terá que ser guardada: Todos os do sexo masculino entre vocês serão circuncidados na carne” (Gênesis 17:10). Apesar de que neste caso, ambos (pai e mãe) faziam parte do pacto, o apóstolo Paulo considera santo os filhos mesmo se apenas um dos pais forem crentes. Novamente cito Hendriksen que afirma estar implícito para o apóstolo Paulo “que os filhos são consagrados com base na fé daquele que é cristão; eles não são declarados impuros com base na falta de fé do que é incrédulo. Em suma, a fé triunfa sobre a falta de fé na família”.  Este princípio vale também para os filhos onde o casal é crente.

Caso o incrédulo recusasse aceitar a fé que a outra pessoa professasse (ou, a nova vida em Cristo) e resolvesse repudiar a pessoa, então recairia sobre ele a responsabilidade pelo divórcio. Note: Paulo não está aconselhando o divórcio, mas o trata especificamente neste caso. “Mas se o incrédulo sair de casa, que saia. Um irmão [cristão] ou irmã [cristã] não é obrigado em tais assuntos. Deus nos chamou para a paz” (7.15). A partida voluntária é do cônjuge incrédulo. Observe também que Paulo não menciona nada acerca de um novo casamento, por parte da repudiada. Por isso é bom que o cônjuge crente não negligencie a prática das virtudes cristãs para que o Senhor abençoe seu casamento preservando-o da dissolução. A regra é sempre a humildade e reconciliação. O que está evidente no ensino paulino é que numa situação onde há necessidade de escolher entre abjurar a fé no Senhor e fazer a vontade pagã do incrédulo é preferível a primeira opção, sempre. Encontramos esse principio em Mateus 10:37 “ Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” e Atos 4:19 “ Mas Pedro e João responderam: ‘Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus”’.

O fato de Paulo declarar que a esposa crente não pode salvar o esposo incrédulo, ou vice-versa (7:16), não significa que a conversão do outro deva ser um alvo preterido. Pelo contrário, o cônjuge deve ser um instrumento nas mãos de Deus para que o Seu plano e propósito seja efetivado na vida do outro. Isto é o que o apóstolo Pedro aconselha:

Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês. (I Pedro 3:1, 2).   

Caso você tenha cônjuge descrente ou conheça alguém nessa situação, busquemos ao Senhor em oração para que todos possam dizer como Josué (24:15):  “Se, porém, não lhes agrada servir ao SENHOR, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao SENHOR”.

Em Cristo,


[1] Comentário de I Coríntios 7:13
[2] Comentário de I Coríntios 7:14

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